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UMA MESA PERTO
ARREBENTAÇÃO
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SÔNIA
van DIJCK |
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Atravessou
o jardim, indestinada. Abriu a porta. O clique do interruptor trouxe-lhe
a sala confortável, que lhe pareceu estranha e fria. Notou que
nem havia escutado o barulho do carro, e imaginou que ainda não
tivesse partido. Sentiu-se idiota; por que não teria ido embora?
Puxou a cortina e olhou pelo vidro da janela. |
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Foram
ao cinema. Tomaram chop no fim da tarde. Conheceu outros amigos de Vander,
além dos colegas de escritório. Estiveram na cama, e ele
já havia deixado claro que não aceitava pedidos... Era sempre
apressado... No escritório, continuavam tocando o projeto da filial
de Maceió, mas, agora, viajavam para supervisionar em datas diferentes.
Em algumas sextas-feiras, oficialmente, as reuniões eram previstas
e até já havia contado à esposa que a empresa passava
por uma auditoria. Poucos meses. |
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Lavar
o choro, tirar a maquiagem. Os meses desfilavam no espelho, enquanto a água escorria na pia. Almoço com Beto. Andava muito ocupada, e, por isso, não poderia aceitar convite para jantar. Para o aniversário de Beto, dias depois, entusiasmado demais com a amizade tão nova, preferiu mandar um whisky, desculpando-se com um compromisso inadiável. Beto deve ter entendido a ausência na festa que seria a dois; provavelmente cancelou a mesa por telefone. Depois, foi Luciano, outro amigo a quem fora apresentada num barzinho, que falava muito de seu passado revolucionário. Depois, teve Barbosa que queria comemorar mais longamente o lançamento do livro, e Vander não pudera comparecer porque a esposa não estava se sentindo bem e ele tinha que ficar em casa para o caso de qualquer emergência; ela se despediu com a desculpa de que teria uma reunião logo cedo, mas prometendo ler o livro com atenção e desejando sucesso diante da crítica. |
Fazia
tanto tempo tudo isso... A turma de amigos de Vander. Levados na poeira
do tempo. E viveu aqueles meses... Estava sempre ocupada. Esperava que Vander dissesse: - Vamos jantar amanhã. Que dissesse: - Vamos ao cinema na próxima sexta. Ou então: - Vou passar aí; a gente pode conversar. Voltava para casa, e alguma amiga ligava para reclamar de sua ausência na festinha da véspera. Andava distante, dizia-se ocupada ou cansada demais para sair. Depois, o telefone não tocava mais, pelo resto da noite. |
A
conversa entre dois colegas foi se tornando agradável. Não
eram muito chegados, e até que se cumprimentavam com certa formalidade.
Mas, estavam encarregados do projeto da filial de Maceió, depois
do sucesso do projeto da filial de Aracaju, quando passaram a ter contato
freqüente. Um filme, uma música. Além de casado, era
um tantinho mais velho. Descobriu, ou pareciam ter descoberto, uma amizade gostosa. Ele tinha muita experiência na empresa. Como diretora de recursos humanos, tentava introduzir o que aprendera na pós-graduação em Havard. Ele era prático. Cortava gastos e provava com segurança que estava com a razão. Afinal, a outra filial estava dando certo. Mas, ela resolveu argumentar acerca da importância da qualificação do pessoal e levou a discussão ao Conselho Diretor. Melhor atendimento, mais eficiência no serviço, clientes conquistados e fiéis. O Conselho achou melhor acatar o treinamento proposto, pois, afinal, em Maceió, não havia nada parecido e a maior parte da mão-de-obra seria recrutada ali mesmo, para contenção de gastos, como era preocupação do gerente financeiro. Mas, no meio do caminho, havia um prato que ela sabia preparar, e um filme a que tinham assistido em ocasiões diferentes; e havia aquele outro que ele não tinha visto, e que ela contava com detalhes. Pois, iriam a Maceió, para inspecionar a implementação do projeto. No caso da filial de Aracaju, fizeram viagens em datas diferentes; cada um tinha ido cuidar de aspectos de sua própria área. - Por que não vamos juntos? será até mais prático discutirmos com o pessoal de lá as mudanças possíveis, cuidando logo das questões de custos. Que você acha? Na proposta, ela quis ver que havia mais do que uma viagem de trabalho. Chegaram no início da noite e resolveram jantar mesmo no hotel. Logo a conversa foi se tornando mais íntima, e ele dizendo o quanto a admirava e o quanto gostava de sua companhia, e mais o quanto apreciava sua competência profissional; disse viver mergulhado no trabalho, pois pouco saía, uma vez que a esposa não gostava de cinema, teatro, por isso, quase sempre ia sozinho, e, quando saíam para jantar, a esposa sempre comentava ter-se esquecido do regime e que iria ganhar alguns quilos e que, por isso, tão cedo não queria jantar fora, além do que não simpatizava com a idéia de deixar Glorinha sozinha com o namorado, e não adiantava ele lembrar que Edy estava em casa, pois ela sublinhava que Edy vivia trancado no quarto, plugado na internet ou envolvido em algum game e que era incapaz de prestar atenção ao que acontecia com a irmã e o namorado, e começava a lembrar que era hora pedir a conta, pois deveria acordar cedo no dia seguinte, e ele também, que, aliás, tinha o hábito de dormir tarde, com a mania de ler até a madrugada, e não se lembrava que era importante ter horas regulares de sono, coisa da qual ela não abria mão, porque sabia ser importante cuidar da saúde. Enquanto ele apresentava sua vida de casado, ela passou a limpo a figura daquela esposa, de fato, um tantinho gorducha mesmo, preocupada com os hormônios da filha, e com uma voz estridente. Comentou: - Isso de voltar cedo para casa, por causa do namoro da garota, é bobagem. As meninas de hoje sabem o que estão fazendo e nem precisam que os pais saiam para jantar, para uma transa com o namorado. - Também penso assim. As garotas estão tendo muitas oportunidades. Por isso mesmo, minha esposa é que vai levar e buscar no colégio; e ela só sai com amiguinhas de famílias conhecidas. E eu faço questão de levar às festinhas e vou pegar, não importa a hora que ela telefone para dizer que já acabou a festa; se eu estiver viajando, a mãe é quem faz isso. Mas, chega de falar dessas coisas, que nem devem ser de seu interesse. Conte-me o que tem feito nos últimos dias, pois não tivemos muito tempo para conversar, com todos esses preparativos da inspeção. Ele fez questão de assinar a nota do restaurante, sublinhando que era a primeira vez que jantavam e estava encantado com a noite, ainda que a viagem fosse profissional. Mas, quem sabe?, poderiam ter outros jantares e até outras viagens que não fossem para trabalhar, ele insinuou. No elevador, disse estar sem sono e perguntou se aceitaria que ficassem mais tempo conversando, no apartamento dela. - Sim. Podemos continuar conversando em meu apartamento. E foi só mais uma cerveja e o tempo de ela ter certeza de que achava aquele homem fascinante e não sabia bem por que, pois lhe parecia ao mesmo tempo distante e objetivo nas atitudes e na maneira de pensar, aliás, bem diferente da dela... mas... talvez fosse por isso mesmo que se sentia tão atraída. E ficou procurando entender o que lhe acontecia, quando ele deixou o copo sobre o frigo bar e da porta disse um rápido “boa noite” , depois de ter explicado: - Vamos acordar cedo, e o dia vai ser pesado. Lembre-se de que pegaremos o vôo do fim da tarde. E o quarto ficou em silêncio. No primeiro jantar na casa dela, ele levou flores. Daí para cama, foi uma questão de mais insinuação; de ele falar que estava encantado e que ela era a melhor companhia. Ela considerou melhor não dar tempo para ele voltar a contar o quê a esposa falava ou detalhar todas as preocupações de pais cuidadosos com a filha e o namorado. Ele tinha pressa e se mostrou sem compromissos de carinhos, e ela interpretou tudo como acanhamento e falta de intimidade, apostando que o tempo criaria laços, e que ele ficaria mais ousado, e que suas mãos deixariam de ser avaras. - Preciso ir. Fica difícil explicar que uma reunião dure mais do que isso, não é? Você compreende... – disse, enrolado na toalha, apanhando a roupa espalhada pelo chão. - Me dá um beijo. - É tarde. Preciso mesmo ir. |
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Olhou-se ao espelho
e voltou-se em direção ao quarto. O vestido sobre a cama,
os sapatos no tapete, a bolsa na cadeira. Espalhou os cabelos com os dedos,
como uma carícia. Um arrepio lembrou o desejo negado no fim do
jantar. A espuma levaria os anos, os sonhos, pensou. Lavaria a grosseria. Encolheu-se no box, enquanto a água quente consolava-lhe a pele. |
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Aquela
tarde no hotel da praia.: |
Deu-se
conta de que estava sentada sobre o ralo, e a água começava
a se acumular perigosamente. Deixou cair a toalha diante do espelho. Por que nunca merecera um beijo? Nas poucas vezes em que transaram, não tinha havido um beijo. Não entendia, mesmo depois de tantos anos. Ou talvez entendesse e não quisesse aceitar. |
O filme daquele
tango... Depois, a noite foi sem esperança de carinho. Ele estava
cansado com as providências da mudança. Comeram uma pizza.
A família estava em um hotel e o carro era de uma locadora. Deveriam
estar no aeroporto logo cedo. Nem entrou, para a despedida. |
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(-
Passo em sua casa às oito e meia, tudo bem? Esteja pronta. Domingo único. A
mesa mais perto da arrebentação. A tarde escorria rápido,
no compasso das ondas. Ficou sabendo dos sucessos dos últimos tempos,
desde aquela noite que começara com o filme daquele tango. |
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Diante do espelho, sentiu
frio. Puxou a outra toalha e enrolou-se. |
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Cartas, falando
de coisas bobas do cotidiano. Respostas falando de coisas bobas do cotidiano.
Cartões de fim de ano e presentes de aniversário trocados
pelo correio. Depois... Ainda mandou uns dois cartões sem ter resposta, e deixou que o aniversário passasse em branco, pois ele não se lembrava mais do seu e nem de que havia fim de ano. |
(Sabia que ele estava
na cidade. Ele havia almoçado com os antigos colegas, que lhe contaram
a novidade. Sempre fora querido na empresa, e o pessoal do escritório
se alegrava com o reencontro. Tinha sido testemunha do casamento de Pedro,
que assumira a Gerência Financeira desde que ele pediu demissão.
Fez-se alegre com a notícia, para disfarçar o alvoroço.
Nem sabia em que hotel ele estava e nem iria perguntar. Acreditava que
ele telefonaria para casa. Para o pessoal do escritório, sempre
fizeram reserva e ninguém sabia de nada. Uma semana depois de ter chegado, resolveu telefonar. Se não tivesse ficado feliz, teria economizado o domingo à tarde e o jantar na quarta-feira, depois de mais uma ligação da esposa, quando estavam subindo a avenida, no carro da locadora. Teria economizado esperanças. Se ele não tivesse tido tempo livre, o telefone não lhe traria - Oi! Aninha, sou eu. O domingo teria sido igual aos outros. E foi por causa daquele "Oi! Aninha"... que a tarde do domingo tinha começado. O "Aninha" foi inventado na primeira vez em que foram para cama, depois do jantar que ela preparou. Ela estava nervosa. Ele parecia determinado a ter uma noite de gozo. Apressado. Lembrou que eram adultos e que sabiam o que faziam e que isso de carinhos era pura bobagem, pois na cama só gozar era o que contava. Para a esposa, estava numa reunião, para resolver problemas graves, e chegaria mesmo bem tarde. E o "Aninha" tinha ficado para quando estavam longe da turma do escritório. Aninha. A melhor lembrança da noite. Desde o domingo, com o convite para jantar, e até a quarta, o tempo foi todo para dar uma arrumada na sala, no quarto, hora marcada no salão, uma ida ao shopping, para o vestido e uns complementos. Distraída, acumulou serviço no escritório. - Dona Mariana, vai ter festa? Rita já arrumou esta sala duas vezes hoje. Mudou tudo como a senhora pediu. A voz da empregada apanhou-a com o jarro na mão, escolhendo novo ângulo da arca. - Tá bom, Edileusa. Fica aí mesmo. Rita trocou as toalhas? - Trocou. Mas disse que não estava entendendo pra que botar duas de banho e duas de rosto. O que faço para o jantar? - Faça só para você. Vou jantar fora. Depois que jantar, pode fechar lá no fundo e pode sair. Edileusa nunca ouviu falar em Vander. Tinha apenas dois anos que trabalhava para ela. Rita viera depois. A casa era grande, mas o trabalho era pouco. Não entendiam por que dona Mariana vivia sozinha, ainda jovem, com bom emprego e cercada de amizades.) |
Novamente, a toalha
caiu. |
(Quando saíram
do restaurante, um vento frio soprava do mar para a terra. Ele teve quase
que um gesto automático, puxando-a, num abraço, a caminho
do estacionamento. Um calor percorreu o corpo dela. - Me dê um beijo. A coisa era tão simples, tão objetiva, que agora, diante do espelho, não queria entender. - Não sou vagabunda. Homens não beijam vagabundas – tinha gritado ao entrar no carro. - Você sempre soube que isso é indiscutível. Não vou beijar você. Queria jantar com você e, talvez, passar umas horas agradáveis. Mas, você estragou tudo, como sempre, com suas cobranças. Tem coisas que não aceito, você sabe. Nunca aprendeu a aceitar o que lhe dou, com essa mania de pedir mais. Mulher tem que abrir as pernas e gozar. Você não é diferente. Nunca foi. - Eu me apaixonei por você! E você está sendo grosseiro! - Eu também. E daí? E por isso tenho que lhe beijar? Não sou grosseiro; só estou sendo realista; para mim é assim que as coisas funcionam. Você sempre gozou comigo não gozou? É isso o que conta; isso de beijo é pura bobagem. - Você nunca me beijou! Não sou uma vagabunda! - Eu não disse isso. Nunca disse isso. É uma amiga, fomos pra cama e pronto. Não vamos complicar nada. Diante do portão do jardim, ele abriu a porta do carro para ela... Não quis entrar. - Vou telefonar, pra gente se encontrar ainda. Só viajarei no sábado. E, novamente, era distante e objetivo nas atitudes.) |
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O jantar ficou numa noite
que se perdeu quando ela apagou a lâmpada de cabeceira. ******** |
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Gervásio, um dos sócios
da empresa, tomou-se de amizade. Ela havia feito umas visitas, quando
a esposa estava no hospital; enquanto aguardava o elevador, disse alguma
frase de conforto, e Gervásio sorriu, agradecido pelo apoio. Estava
somando as visitas às funções de diretora executiva.
Depois da missa de sétimo dia, não esperava que voltasse
a agradecer o apoio. |
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(Nada você vai entender,
se um dia souber de minha história. Mas, quem lhe contaria?! |
Não ligou o ar; deixou a porta do quarto
aberta, para ventilar. Apagou a luz. Mariana. |
Publicado em Qvinto Império. Revista de cultura e literaturas de Língua Portuguesa, Salvador; Gabinete Português de Leitura, n. 18, jul. 2003, p. 145-156.
Fotos: Geraldo Profeta Lima
© Copyright by Sônia van Dijck, 2003
Midi: Chopin
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998