Conheci
Arriete Vilela nos tempos de Recados, que, aliás,
estranhamente, não tem sido mencionado no conjunto de sua obra.
Mas isso foi nos idos dos anos 70 do século passado. Naquele
livro, já se anunciava a artesã da palavra que viria
a ser reconhecida pela crítica e estudada em trabalhos de pós-graduação.
Arriete é de produção espaçada. Entre
um livro e outro, ela precisa de tempo para amadurecer o texto. Por
isso, os intervalos em suas publicações. Quando um livro
seu é entregue ao público, lá estão as
palavras exatas, prenhes de polissemia. E quando as palavras conhecidas
na vida comum não lhe bastam, ela inventa uma “claricíclica”,
porque quer falar da alma da criatura amada; ou, quando os elementos
conhecidos não lhe bastam, ela instaura uma “estrela-clarice”,
para melhor definir “um poema eterno de luz”.
E esta é a Arriete Vilela que reencontro nesse Fantasia
e avesso, densa prosa poética, de fatura feminina, assumida
com a falta de cerimônia das meninas que não conhecem
censura.
Apesar de dividido em dez partes, o texto, da primeira à última
página, guarda a unidade de extenso monólogo, graças
a certas marcas de início da parte seguinte, indicativas de
retomada ou de continuidade; ou de fim de uma parte que continua na
seguinte (até assinalada por reticências no fim e no
início, respectivamente), como se a divisão em partes
fosse apenas o recurso para tomar fôlego, antes de prosseguir
a “confissão”.
É isso mesmo. A convenção estabelecida é
a de um “eu” que se desdobra em reflexões, investigações,
especulações de sua própria alma, às vezes
parecendo investigar ou analisar a alma de um “outro”
a que se dirige. Esse aparente diálogo não consegue
disfarçar o tom confessional e o caráter de monólogo
do texto. A quem se dirige o “eu”? O “tu”
é “amor”, portanto, apenas uma palavra.
Vejamos melhor. Não há exatamente uma personagem que
contracene com o sujeito da enunciação. Como sujeito
de seu próprio enunciado, o “eu” que fala dirige-se
a uma criação de seu próprio discurso: “amor”.
Essa palavra também serve para designar o sentimento que aproxima
as pessoas, mas sua grande função é a de vocativo.
Assim, o “eu” dirige-se o tempo todo a uma forma instaurada
pelo seu discurso, de modo que se volta sobre si mesmo, num exercício
catártico, que se justifica na investigação dos
desvãos, dos labirintos da Palavra.
E é a Palavra a figura mais emblemática desse texto
de Arriete. Parecendo falar do amor e com “amor”, na verdade,
o que ela faz é dissertar poeticamente sobre as possibilidades
da palavra. A palavra que fere e conforta; que afasta e reúne;
que desespera e acalenta; mas que, sobretudo vela e revela.
Para isso, era necessário revisitar a infância; fazer-se
menina, para poder, sem reservas, mexer nos guardados míticos
da palavra. E lá está a mãe cigana, e o “eu”
até se diz cigana, pois está explorando a magia da Palavra.
Donde a volta das canções infantis, a lembrança
das histórias para crianças, trazendo, inclusive, a
inversão do príncipe que se transforma em sapo, pois,
tocado pela palavra reveladora, o fingimento desaparece. E vem a lembrança
do pai, que, por breve tempo, impede que esse feminino diga à
criatura amada (“amor”): “Eu te amo muito”.
É muito breve mesmo essa dificuldade, pois passada a limpo
a lembrança desse masculino frio e distante, encarnado pelo
pai, o “eu” assegura que amanhã pronunciará
sua declaração amorosa. O texto é habitado por
pássaros, ventos, folhas, borboletas, que asseguram a leveza
e livram o “eu” do mórbido, do depressivo, mesmo
quando, nos porões da Palavra, encontra o negativo, a ferida
ou aquela lembrança do masculino não cúmplice,
trazida na figura do pai.
Fazendo-se confessional, o texto quer ser visto como metalingüístico,
na medida que seu objeto é mesmo a Palavra. E Arriete fala
em “fio da meada”, em desenrolar novelo; na verdade, em
viver a fantasia que toma forma de palavras. Mas, como a “ciranda,
cirandinha”, tão oportunamente lembrada, o discurso é
cíclico ou, talvez, simplesmente, voltado sobre si mesmo; por
isso, o novelo começa a ser enrolado novamente antes que o
leitor chegue à última página. Acontece que o
“eu” bem sabe que ainda não percorreu todos os
paradigmas do positivo e do negativo guardados na Palavra.
Se alguém quiser encontrar um caráter dialógico
nesse livro de Arriete, vai percorrer o espaço transtextual,
anunciado desde as epígrafes. A primeira, colhida em Quintana:
“Amar é mudar a alma da casa”, que bem poderia
dizer: escrever é mudar a alma das palavras. A última,
vinda de Santo Agostinho: “Ama e faze o que quiseres”,
prefiro ler como: escreve e faze o mundo que quiseres com as palavras.
Não vou falar da presença de Clarice Lispector, pois
isso está declarado na “estrela-clarice”, que orienta
o percurso no labirinto do verbo. Faço questão de dizer
que Fantasia e avesso é, para mim, a confissão
de um projeto poético: Arriete pretende mergulhar na virtualidade
e explorar as possibilidades da Palavra, pois este é o único
elemento que faz literatura. Desde Recados até Fantasia
e avesso, Arriete se mostra lúcida no ofício
de lidar com a Palavra.
Publicado em
Fabulação.
Um novo tempo, João Pessoa, ano 1, n. 5, set. 2003, p. 12-14.
O jornal, Maceió, 12 out. 2003
© Copyright
by Sônia van Dijck, 2003
Imagem: Geraldo
Profeta Lima
Midi: Schubert
Lãs
ao vento (romance de Arriete Vilela)
Ávidas
paixões, áridos amores
(poemas de Arriete Vilela) |