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“as palavras têm canto e plumagem”
(João Guimarães Rosa)
"mas, às vezes, além disso, são Lãs
ao vento" (Arriete Vilela).
Dona
de uma obra que tematiza a Palavra e, em conseqüência, a escritura
(suas possibilidades, conseqüências e responsabilidades), Arriete
Vilela abre seu novo livro com João Cabral de Melo Neto: “Escrever
é estar no extremo de si mesmo”, anunciando o que se vai
experimentar até alcançar o ponto final indicado na epígrafe:
a luta com, na e pela Palavra, para dar corpo a realidades, que, em última
instância, são mesmo lãs ao vento:
“Palavra: um modo metonímico de me
fazer legar uma escritura de esfacelamentos, de recortes da realidade,
de bordejos e de desesperanças.”, diz o texto, e dispensa
explicações sobre esse “metonímico”
que não pôde ser evitado.
O texto está convencionado como uma longa carta ou uma demorada
conversa com a Senhora Editora, a quem a narradora começa informando:
“nunca a palavra me causou tanta estranheza
como agora.”
Podia ter dito “tanto encantamento” ou “encantamento
e estranheza”. Seja em decorrência da estranheza ou do encantamento,
Arriete desenvolve seu texto em demanda das possibilidades da Palavra.
A Senhora Editora bem pode ser vista como uma lembrança rosiana,
e não foi em vão que comecei a falar do livro de Arriete
lembrando o criador de Riobaldo. Porém, a personagem de Arriete
que se dirige à Senhora Editora sabe que tem um pacto: com a Palavra,
tanto quanto sabe que não ficará livre desse compromisso,
pois é dele que se alimenta seu exercício de construção.
Começa retornando à infância, na lembrança
do homem que pode ter-se afogado ou não (a narradora nunca ficou
sabendo o que aconteceu), como metáfora de sua própria experiência
na escritura que está começando, naturalmente, na perspectiva
de não perecer no mar de palavras.
Tive o privilégio de ler os originais de uma fase do final de composição
de Lãs ao vento: cópia impressa em computador,
com algumas poucas emendas. É que a autora, antes de me entregar,
ainda fez uma rápida leitura e, aqui e ali, sentiu-se desafiada
pela Palavra. Conversamos sobre o processo de criação desse
texto e sobre sua experiência poética já revelada
em tantas publicações. Rigor, disciplina, trabalho, memória
(principalmente da infância), observação do cotidiano,
ouvidos atentos a depoimentos, casos e histórias de vida fazem
a matéria de Lãs ao vento. Meses depois, voltou-me
aquela mesma cópia impressa, enriquecida por emendas, substituições,
acréscimos. A autora-crítica do texto. A escritura como
discussão do escrito, como procura do melhor texto, que continua
sempre sendo um dos possíveis. E isso a própria Arriete
explica, quando se apropria do dito popular, dizendo que “quem
conta um conto aumenta um sonho”, para confirmar, páginas
adiante, a sabedoria tão antiga: “quem
conta um conto aumenta um ponto”.
Evidentemente, isso não explica o texto de Arriete. Apenas oferece
uma pista para o entendimento de sua escritura e de seu projeto poético.
Em um universo feminino, no qual a narradora se dirige à Senhora
Editora, de tempos em tempos, usando a função fática
da linguagem, para que sua personagem leitora/ouvinte continue acompanhando
seu processo de elaboração do texto e, em contrapartida,
para que o leitor/a se mantenha preso/a a sua palavra, além de
assegurar o caráter verossímil de seu discurso, Arriete
constrói um espaço que existe apenas como verbo, pois a
voz narrativa e sua leitora/ouvinte não estão em qualquer
lugar, apenas estão na enunciação e no enunciado.
O tempo, portanto, é aquele do desenvolvimento dessa falação
dirigida aos olhos ou aos ouvidos da Senhora Editora. Ou seja: a narradora
instaura-se como autora do longo texto destinado a sua silenciosa companheira,
numa aparente discussão entre quem cria o texto/a obra e quem cria
o livro. O silêncio da Senhora Editora pode traduzir seu limite
enquanto produtora do livro, invertendo a batalha travada com as palavras
daquela que cria o texto e dele fala, senhora de seu ofício.
A narradora traz, para esse universo, figuras emblemáticas, cujos
nomes traem um certo gosto aristocrático: D. Anna Joaquina, a aquarelista,
e Theonila Cândida, a avó.
D. Anna Joaquina tem olhos de ver, coragem de participar e inteligência
para não aceitar o avesso do sonho. Theonila Cândida é
capaz de guardar clandestinamente seu sonho, defendendo sua capacidade
de criação, a despeito da proibição do marido.
D. Anna Joaquina pertence ao tempo de adulta da narradora e é responsável
por lhe abrir os olhos para a realidade da vida. Theonila Cândida,
resgatada da infância, é exemplo de submissão e de
rebeldia camuflada como instrumento de defesa de sua integridade; é
a matriz da vocação narrativa da personagem autora; de suas
histórias, a narradora pôde tirar lições de
sonho e de resistência, de encantamento e de solidão. Se
não herdou o talento para o desenho, sabe traçar perfis
e corpos inteiros, montar paisagens, refazer emoções e sentimentos
com as palavras.
Figuras femininas em um mundo de água, plantas, bichos, crianças,
cantos, muitas histórias e os meninos e meninas de rua. O interior
e a cidade grande, em qualquer lugar do Brasil. Tudo isso interiorizado
pela personagem autora, que tenta explicar à Senhora Editora sua
escritura como busca da Palavra, que traduza ou apenas ilumine tantas
vivências. E seu discurso, que concede espaço a outras vozes
narrativas trazidas do baú de lembranças, é adoçada
por refrescos e pela lembrança de frutas como ingá e guabiraba.
Cheiros, cores e gostos guardados por essa personagem que se reencontra
menina nas histórias fantásticas, nas menções
à caipora, nas cantigas de roda e outros cantos populares, que
ficaram lá longe e que só a Palavra pode trazer de volta,
tanto quanto seus sentimentos em relação a Joana Leonor
e a João Hercílio, o avô.
Cabe, justamente, a João Hercílio o papel de contraponto
às figuras femininas. Ele inverte as narrativas de Theonila Cândida,
fazendo da figura da avó uma espécie de madrasta a ser punida
de algum modo. Sua palavra é dura, rude, vingativa, grosseira e
estéril. Contribui, metaforicamente, para revelar o outro lado
da Palavra, que nem sempre é doce e criativa, nem sempre é
rebelde e amante da liberdade. João Hercílio usa a palavra
para ferir, como instrumento de mando e poder. Nos recursos usados pelos
netos para matar as avós de suas histórias, pode-se interpretar
a presença do falo, vingador, vencedor, ainda que amargue a solidão
e o abandono.
Texto que se constrói de textos, Lãs ao vento acumula
significados e desafios aos/às leitores/as. Não se explica
apenas enquanto hipertextualidade. Discute a escritura, mas não
se limita a ser metalinguagem. Alimenta-se da cultura popular, mas discute
a realidade da cidade grande, cujos meninos e meninas de rua nunca ouviram
falar da Fulozinha, perderão seus sonhos, e suas memórias
não guardarão cantigas de roda. Mergulha no universo feminino,
marcado pela fertilidade, pela criatividade e pela rebeldia, mas que tem
a submissão e a impotência como normas. Tratado poético,
que questiona o fazer poético. Confissão da personagem autora-narradora,
que descobre, no final: “Exorcizei de mim
o avô João Hercílio”,
sentindo-se metaforicamente livre da negatividade que a Palavra pode conter.
Some-se tudo isso e muito mais, e eis Lãs ao vento.
No próximo livro, Arriete Vilela encontrará outras faces
da Palavra para colocar em debate e não nos deixar esquecer de
seu canto e plumagem.
©
Copyright by Sônia van Dijck, 2005
Publicado in: VILELA,
Arriete. Lãs ao vento. Rio
de Janeiro: Gryphus, 2005, p. 7-10.
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