Ascenso Ferreira (FJN) |
Revisitando o catimbozeiro Ascenso Ferreira*
Sônia Maria van Dijck Lima |
Capa da 1ª edição |
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Nascido Aníbal Torres,
em 1895, em Palmares (Pernambuco - Brasil), mudou o nome de registro para
Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (Sabino: 1985) e ficou conhecido,
na Literatura Brasileira, como Ascenso Ferreira.
O poeta cresceu em uma cidade de vida cultural relativamente intensa, para a época, e que era ambiente para despertar e estimular jovens vocações literárias. Foi no jornal de Palmares, A Notícia, que Ascenso Ferreira publicou seus primeiros versos, aos 13 anos de idade. Cultivava-se a estética parnasiana, que já afastada de suas motivações originais passou a neoparnasianismo. Foi essa a perspectiva da primeira fase poética de Ascenso, nas páginas de A Notícia. Toda essa produção foi recolhida e publicada por Jessiva Sabino (1985), em Eu voltarei ao sol da primavera. Graças à pesquisadora (Sabino: 1985; 76), sabemos que, no poema “Íntimo”, Ascenso anunciou, em 1916, a publicação de um livro, integrado, inclusive, pelo poema mencionado, abaixo de cujo título consta: “(Do livro inédito CRISTAIS)”. Não se tem notícia de Cristais. O mais certo é que o projeto tenha sido abandonado, quando de sua mudança para o Recife, em 1919, passando a participar do debate intelectual, ligando-se a Joaquim Cardozo, Luís Jardim, Osório Borba, Lula Cardoso Ayres e, principalmente, Gilberto Freyre. Da fase neoparnasiana, ficaram temáticas anunciadas em títulos como “O trabalho”, “Estrelas”, “Lua”, “A vida”. Lá estão metáforas tão caras ao Príncipe dos Poetas: “O escultor” e “Via-Láctea”. Com “alvoradas”, “auroras” e “quimeras”, habitam os decassílabos e os alexandrinos de Ascenso: Vênus, Afrodite, Frinéia, cisnes, rouxinóis e mulheres inatingíveis, pois são inacessíveis, porque partiram ou morreram ou por permanecerem intocadas enquanto exemplares: Mãe! –
Símbolo supremo da bondade, A eloqüência parnasiana de Ascenso, que não evita a “purpurina taça”, volta-se para o elemento nacional, aproxima-se do romantismo e faz do índio uma figura clássica, de porte grego ou romano, em alexandrinos: Há tempos
que na fronte augusta do pajé Inserido no contexto provinciano, Ascenso encontra asas na retórica romântica e espalha seus versos, bradando heroicamente É tempo
de acordar, ó povo soberano! Chegado ao Recife, Ascenso fez-se conhecer fora das fronteiras de Pernambuco conforme pesquisa de Laélia Maria Rodrigues da Silva (1980: v. 2, p. 229). Fez contato com intelectuais paraibanos e republicou, em Era Nova (1), o soneto “O declínio da raça” (24 fev. 1924), escrito em 1917. Segundo a estudiosa, “O declínio da raça” tem linguagem retórica. Temática nacionalista. Na mais correta métrica herdada do colonizador, Ascenso,nos tercetos, faz sua criatura nativa ver como nefasta a chegada dos europeus: No entretanto
uma força oculta o conduzia Por isso mesmo, não pôde faltar a sua fase neoparnasiana, de laivos românticos, a lembrança do poeta baiano, libertário: Em que reino,
em que céus, em que região estranha, Esse gosto pela retórica romântica deve ter sido responsável pelo tom simbolista do soneto “O culto de Alá” E assim, desde
o sol-posto ao despontar da aurora, Contudo, vale salientar que, desde
1919, o poeta estava integrado à cena intelectual e artística
recifense, e, por isso, em contato com a polêmica em torno da renovação
literária. Nesse ínterim, Guilherme de Almeida passou por aqui. Uma conferência no Teatro Santa Isabel e o recitativo de seu poema “Raça” abriram-me os olhos relativamente à possibilidade de novas estéticas. Ao lançar, em 1927, Catimbó,
Ascenso deixou para trás a experiência neoparnasiana, os
acentos românticos passadistas, tendo despertado o interesse de
Mário de Andrade (1927), que saudou a publicação,
afirmando: "Catimbó é um dos livros mais originais
do modernismo brasileiro." Pelas três-marias...
Pelos três reis magos... Pelo sete-estrelo Tanto no título do livro como no poema de abertura, Ascenso registra sua opção pela cultura popular, notadamente pelas manifestações de raízes negras. Através dos versos de Catimbó, entram na Literatura Brasileira o samba, o maracatu, o reisado, o bumba-meu-boi, a cavalhada, as cantigas, as brincadeiras da infância, na paisagem marcada pelo sol (infernalmente luminoso/um sol assassino – “Dor”), e o carnaval do Recife, com Colombina, Pierrô e Arlequim, destituídos de qualquer glamour colonizador/colonizado,instaurando-se a inversão tropical e carnavalizante: Meteram uma peixeira
no bucho de Colombina Catimbó faz de Mestre Carlos (catimbozeiro), Lampião (cangaceiro) e dos bêbados de fim de feira, criaturas poéticas. A figura feminina, ainda que, às vezes, seja vista à distância, ganha contornos de sensualidade, na ruptura com o “bom mocismo” cultivado pelos parnasianos/neoparnasianos e na irreverência em relação aos ícones da tradição brasileira: Eu vi o Gênio
da Raça!!! Inserido em um contexto católico e de sincretismo religioso, o lirismo de Catimbó está impregnado de sensualidade, revelando o ponto de vista masculino do “Mês de maio”: Um perfume de
rosas no ar trescala: Catimbó quer ser um canto do povo e se fecha saudando os heróis (ainda que controversos aos olhos da contemporaneidade) de nossa gente em “Minha terra”: Os guerreiros
de minha terra já nascem feitos: Catimbó, com sua
musicalidade, crendices, folguedos, memórias da infância,
gosto de frutas e de doces das avós, linguagem popular regional,
fugindo do pedantismo acadêmico, pode ser visto como rapsódia
e é o divisor de águas da trajetória de Ascenso Ferreira. O programa antropófago é, na sua orientação profundamente nativista, o meu programa já esboçado em “Catimbó”. Ludismo, blague, carnavalização,
verso livre e branco, fontes populares informam a poesia de Ascenso Ferreira
modernista. NOTA: 1
Revista quinzenal, ilustrada, que circulou na Paraíba de 1921 a
1924. Tinha perfil moderno, porém longe de se confundir com as
propostas vanguardistas de renovação estética. © Copyright by Sônia van Dijck, 2006 Publicado in: X CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC, 2006, Rio de Janeiro. Lugares dos discursos. Anais... Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Literatura Comparada, 2006. CD rom. * Apresentado no Simpósio Afro-descendências: literatura, arte e produção teórica (ABRALIC, 2006) REFERÊNCIAS SABINO, Jessiva, org.(1985). Ascenso Ferreira.
Eu voltarei ao sol da primavera. Palmares: Fundação
Casa da Cultura Hermilo Borba Filho; Recife: Secretaria da Educação
do Estado de Pernambuco/ Departamento de Cultura. Midi: Ô abre-alas
(Chiquinha Gonzaga) |