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Sônia Maria van Dijck Lima - Université Paris Ouest Nanterre La Défense - 2008 B R A S I L Resumo |
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BRASIL – da colônia à modernidade Coordenadas históricas: 1500 – chegada dos portugueses |
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Com marcantes diferenças regionais e graves questões sociais, o Brasil entrou no século XX, sem resolver seus problemas históricos vindos da colonização portuguesa e do período da escravidão, buscando afirmação na civilização do século: iluminação elétrica da capital federal, inauguração da radiotelegrafia, construção de ferrovias, instalação de indústrias, desenvolvimento urbano (principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo – pólos político e econômico). |
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São Paulo – colocação dos trilhos da Estação da Luz – 1902 |
Rio de Janeiro - 1920 |
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São Paulo - 1920 |
| No campo político, a República adotou um programa centralizador, em defesa dos interesses dos grandes proprietários, cujas representações se revezavam no poder. |
| O Brasil via a Europa entrar no apogeu da época industrial e técnica, com a consolidação do capitalismo e o desenvolvimento da política armamentista. Recebia as notícias de novas propostas estéticas (futurismo, 1909 – cujas notícias chegaram ao Brasil, com a publicação do manifesto no jornal A REPÚBLICA – Natal, RN, em 5 de junho, e, em 30 de dezembro, no JORNAL DE NOTÍCIAS – Salvador, BA do mesmo ano (TELES, 1983, p. 14); e, em 1912, através de Oswald de Andrade); como também as da vitória da revolução bolchevique, em 1917; da formulação da plataforma política preparadora do fascismo, em 1919 (Mussolini); da fundação do Partido Nacional Socialista dos Operários Alemães, em 1919 (um dos fundadores: Adolf Hitler), fatos que repercutiam em algumas camadas da sociedade brasileira, na qual a presença dos imigrantes era marcante. |
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BRASIL –
ambiente cultural conservador
Saliente-se que, no Brasil do início do século XX, havia um ambiente cultural conservador (por ser econômica e politicamente conservador na defesa da grande propriedade privada – o latifúndio – e dos princípios morais e sociais decorrentes dessa estrutura sócio-econômica). As elites sociais brasileiras cultivavam, nos primeiros anos do século XX, uma arte de gosto academicista, ainda ecoando um passado cultural europeu (colonizador), que, na literatura, reside na estética parnasiana, cujo contraponto é encontrado no simbolismo de atmosfera decadentista, longe das ousadas composições de Rimbaud, por exemplo:
como se pode verificar nos poemas em seguida: |
| A um poeta Olavo Bilac Longe do estéril turbilhão
da rua, Mas que na forma se disfarce
o emprego Não se mostre na fábrica
o suplicio Porque a Beleza, gêmea
da Verdade |
Lésbia Cruz e Souza Cróton selvagem, tinhorão
lascivo, Nesse lábio mordente e
convulsivo, Lésbia nervosa, fascinante
e doente, Dos teus seios acídulos,
amargos, |
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No Brasil do início do século XX, ainda se cultivava uma poética da erudição, com imagens do passado do Velho Mundo (“Prometeus”), numa concepção do fazer poético como distância do mundo cotidiano e do poeta como um ser afastado do mundo real (“Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve!” – “aconchego do claustro”). Parnasianos e simbolistas cultivavam formas de linguagem da norma erudita (“frígidos espaços” - ” – “dor virente” - “o imoto céu clemente” – “lésbia”), instaurando uma atmosfera penumbrista (“Cantem a primavera: eu canto o inverno.” - “Cantem outros a vida: eu canto a morte...”). |
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Olavo Bilac |
Cruz e Souza |
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Buscava-se, muitas vezes, eloqüência
na inversão da ordem sintática (“Cruel e demoníaca
serpente”). |
Alphonsus de Guimarães |
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O advento das
vanguardas estéticas |
| Do fim do século XIX
até o fim da I Guerra Mundial, a Europa atravessou uma crise
de valores (econômicos, políticos, sociais, morais e estéticos),
marcada pelo avanço científico e tecnológico, alimentador
da política armamentista. |
Salvador Dali. A persistência da memória, 1931 |
| Apesar de as
experiências de Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine,
Poe, Withman, serem ainda cultuadas, a inquietação intelectual
e artística se traduziu em novas estéticas: fauvismo, futurismo,
espiritonovismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo
e outros movimentos que marcaram a primeira metade do século XX.
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Giacomo Balla. Luz da rua, 1909 |
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| Na
demanda de uma linguagem capaz de aproximar as diversas expressões
artísticas (literatura, artes plásticas, música,
dança, arquitetura, artes decorativas), não estava ausente
a proposta de Baudelaire em |
| Correspondances Charles Baudelaire La Nature est un temple où
de vivants piliers Comme de longs échos
qui de loin se confondent II est des parfums frais comme
des chairs d'enfants, Ayant l'expansion des choses
infinies, Première édition de Les Fleurs du mal. Paris: Poulet-Malassis et de Broise, 1857. |
Baudelaire. Foto: Nadar, 1855 |
| Baudelaire, em
“Correspondances”, anuncia novos rumos estéticos, interpretando
a existência de uma rede de relações transcendentais
entre as várias linguagens artísticas, uma linguagem mágica,
através da qual a experiência de um dos sentidos é
transmitida e experimentada pelos outros, em um processo de vivência
sensorial (sinestésica – imagens acústicas, visuais,
táteis, olfativas), na qual as analogias conduzem a revelações
e a uma visão de mundo como floresta de símbolos, traduzidos
na e pela linguagem estética. |
| O mundo mudou e se descobriu diferente ao terminar a I Guerra Mundial (Apollinaire, que já havia entendido a necessidade de um Esprit nouveau, morreu em 1918, mas suas idéias chegaram a Mário de Andrade).
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Walt Whitman |
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One's-Self I sing Walt Whitman One's-Self I sing, a simple
separate person, Leaves of grass, 1. ed. 1855
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O próprio ser eu canto Walt Withman O próprio ser eu canto; Trad. Geir Campos |
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BRASIL –
as notícias das vanguardas da modernidade
O desenvolvimento da vida urbana, a chegada das notícias sobre a efervescência vanguardista européia (futurismo, expressionismo, cubismo, por exemplo), proporcionada pelo intercâmbio - visita de europeus (Paul Claudel, em missão diplomática – de 1917 a 1918; Lasar Segall [expressionismo] – 1913 e 1925, quando se naturalizou brasileiro, fixando residência em São Paulo, por exemplo), - ida de brasileiros para temporadas de estudos no exterior (Anita Mafaltti [expressionismo] – 1910, na Alemanha, e em 1915, nos Estados Unidos [cubismo]; Victor Brecheret [marcado pela estética de Rodin] – 1910, recebendo lições do construtivismo, do cubismo e do expressionismo – com bolsas de estudo concedidas pelo governo, - fortuna das famílias endinheiradas (Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade - 1912), que permitiam longas temporadas em Paris, - participação na representação diplomática brasileira na Europa (Graça Aranha – de 1900 a 1920), - acesso a livros e revistas européias (Mário de Andrade), provocaram o surgimento de uma nova atitude estética – e, na literatura, de novas propostas poéticas. Vale salientar que os intelectuais brasileiros não podiam ficar indiferentes às grandes mudanças geradas pela I Guerra Mundial (nem culturalmente, nem científica e tecnologicamente). As notícias das mudanças na Europa repercutiram fortemente no Brasil, gerando novas propostas estéticas, contestadoras do academicismo, do parnasianismo e do simbolismo conservador. |
| BRASIL –
a vanguarda modernista
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Lasar Segall. Ancião com muleta, 1910 |
Anita Malfatti. A boba, 1917 |
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Cartaz da SAM. Por Di Cavalcanti, 1922 |
O divisor de águas – o fato que marcou a mudança de atitude estética - foi a Semana de Arte Moderna, em São Paulo, em 1922, que reuniu intelectuais e artistas em contato com as idéias das vanguardas européias e insatisfeitos com o clima cultural conservador e passadista reinante no Brasil. A Semana teve participação e patrocínio de nomes do capitalismo paulista, como Paulo Prado, que conseguiu até mesmo o apoio do prefeito de São Paulo, Firmiano de Morais Pinto, e do presidente do Estado, Washington Luís. A partir da Semana, duas tendências do Modernismo desenvolveram-se e complementaram-se: uma atitude internacionalista, voltada para as novas proposições estéticas das vanguardas européias; e, ao mesmo tempo, uma tendência nacionalista, que pretendia melhor conhecer a realidade da diversidade brasileira e investigar seu passado histórico. |
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Tarsila do Amaral. Carnaval em Madureira, 1924 |
Tarsila do Amaral. A gare, 1924 |
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Lasar Segall. Mário de Andrade, 1927 |
Inspiração Mário de Andrade “Onde até na força
do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimos
invernos.” São Paulo! comoção
de minha vida... São Paulo! comoção
de minha vida... |
| Assim, a cidade, o homem comum e anônimo, as criaturas da vida urbana, sem tinturas de nobreza ou de heroicidade, entraram na temática da literatura brasileira:
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| LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE
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Em Seis propostas para o próximo milênio*, Italo Calvino, na abertura, diz:
LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE CONSISTENCY * Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. |
| Passemos, então, a verificar em alguns poemas do Modernismo brasileiro, a realização desses valores ou qualidades ou especificidades, conforme Calvino, sem perder de vista outros elementos que tenham sido experimentados pela vanguarda brasileira. |
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Tarsila do Amaral. Oswald de Andrade, 1922 |
| LEVEZA RAPIDEZ EXATIDÃO VISIBILIDADE MULTIPLICIDADE VERSOS LIVRES E BRANCOS, LINGUAGEM COLOQUIAL, INVENÇÃO DE PALAVRAS, IMAGENS SONORAS E VISUAIS, PAISAGEM BRASILEIRA, VISÃO CRÍTICA DO PASSADO |
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L e v e z a
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R a p i d e z
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E x a t i d ã o
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| V i s i b i l i d a d e
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| Leveza Rapidez Exatidão Visibilidade Multiplicidade Versos livres e brancos. Acento
lúdico. |
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Pão de Açúcar (Rio de Janeiro) |
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| HIPERTEXTO – construído com outros textos; estabelece relações com outros textos - densidade |
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Brasilidade: Pão de Açúcar >> “cartão postal” do Rio de Janeiro >> Brasil |
| Para uma sétima proposta |
| Italo Calvino não chegou a escrever a sexta conferência da série que deveria ter proferido na Universidade de Harvard. Conforme testemunho de Esther Calvino, essa conferência trataria da Consistency. É impossível saber o que Calvino diria.
Concisão: capacidade de o texto falar sobre vários assuntos e remeter a outros textos ou a diversos elementos culturais, em um exercício realizado no espaço hipertextual, cultivando ou não a rapidez da expressão, com o objetivo de nova significação. (LIMA, 2008) |
Italo Calvino |
| A concisão decorre da reunião de textos diversos ou de uma variedade de elementos culturais, que não são reescritos e nem discutidos, em obediência à economia da literatura. O significado do texto (hipertexto) é novo, e ao mesmo tempo guarda todos os significados de que se alimenta, o que lhe confere densidade. Seus constituintes só podem ser identificados analiticamente, pois se ocultam na opacidade hipertextual, pretendendo oferecer ao leitor um significado a ser apreendido – recebido - metaforicamente. Portanto, a comparação não resulta em concisão. A concisão identifica-se com a metáfora. “Escapulário”, de Oswald de Andrade, é bom exemplo de concisão. |
| Calvino, concentrado em leveza, rapidez, exactidão, visibilidade, multiplicidade, consistency, considerou a concisão como um aspecto da rapidez e desejou um texto de uma linha:
interpretando a concisão como um constituinte da rapidez. A concisão é um dos valores da literatura, que se afirma como desafio para os criadores, nas trilhas da hipertextualidade, e que deve ser preservado. |
| Concisão: sétima proposta para a literatura deste milênio. |
| LEIA MAIS EM |
| REFERÊNCIAS ANDRADE, Oswald de (1982). Cadernos de poesia do aluno Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro. BERMAN, Marshall (2005). Tudo que é sólido desmancha no ar. Trad. Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioratti. São Paulo: Companhia das Letras. BOSI, Alfredo (1995). História concisa da literatura brasileira, 3e ed. São Paulo: Cultrix. BRITO, Mário da Silva (1971). Antecedentes da Semana de Arte Moderna, 3e ed. , rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. CALVINO, Italo (1990). Seis propostas para o próximo milênio. Lições americanas. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras. FERREIRA, Ascenso (1988). Catimbó, 7e ed. Recife: FUNDARPE. GENETTE, Gérard (1982). Palimpsestes: la littérature au second degré. Paris: Seuil (Coll. Poétique). LIMA, Sônia Maria van Dijck (2008). Concisão: sétima proposta para este milênio. São Paulo: Navegar. |
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Imagens: 1) Capturadas na internet. 2) Foto: Sônia van Dijck Página para uso didático. Reprodução proibida. Criação da página: Sônia van Dijck |