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MEU CARO LINS

CARTAS DE OLÍVIO MONTENEGRO

Projeto ATELIÊ DE JOSÉ LINS DO REGO

Série: Correspondência passiva - Subsérie: Cartas de Olívio Montenegro - Código do projeto: AJLR - Código dos documentos: CP-OM

Epígrafe e Agradecimentos - Cartas de Olívio Montenegro (catálogo) - Outros catálogos

CONTRIBUIÇÃO À MEMÓRIA CULTURAL

Sônia Maria van Dijck Lima


Oferecemos aos estudiosos e pesquisadores um catálogo de documentos pertencentes ao arquivo de José Lins do Rego: 132 cartas remetidas por Olívio Montenegro ao amigo, compadre e companheiro de ofício. Esta é nossa contribuição à memória do autor de Folhas ao vento, em seu nonagésimo oitavo aniversário, vésperas do centenário.
Mas, comecemos por justificar nossa iniciativa de festejar esse aniversário, divulgando a existência de documentos guardados por José Lins do Rego. Tomemos como lição palavras de Heloísa Liberalli Bellotto:

é preciso preservar como patrimônio estes conjuntos orgânicos de informações e respectivos suportes, por razões de transmissão cultural e visando a constituição/reconstituição incessante das formas de identidade de um grupo social como tal; de outro lado, é imprescindível assegurar aos historiadores os testemunhos de cada geração, do modo de pensar e atuar de seus elementos, quando na sua contemporaneidade. (l)

Por sua vez, Amos Segala observa que

este fim de século XX destaca-se pela atenção especial dirigida à preservação, ao inventário e à análise dos testemunhos que definem a identidade dos povos, como se a rapidez frenética das inovações tecnológicas levasse, em um movimento de auto-defesa (sic) e retorno às origens, a proteger os componentes de um patrimônio e de uma memória a um tempo essenciais e perecíveis. (2)

Longe de fundar-se em uma atitude nostálgica face à fragmentação de nossa modernidade, invadida por uma espécie de cultura do provisório, ou de motivar-se no cultivo da neofobia, como reação às mudanças geradas pela tecnologia e pelas conquistas científicas, esse retorno ao passado na comemoração do nascimento de Olívio Montenegro, através do encontro com documentos de arquivo, integrantes das raízes de uma identidade cultural, tem inspiração de posição política.
Tome-se, aqui, POLÍTICA no sentido de arte de regular as relações entre os cidadãos e entre os estados. Como estamos tratando de relações culturais e não de governo, compreendemos o sentido político desse comportamento intelectual na demanda dos fundamentos de uma nacionalidade e do reconhecimento da herança cultural de outros povos, como forma de garantir o respeito mútuo às singularidades, no trato dos múltiplos interesses que aproximam as nações (ou que deveriam aproximá-las...) nessa aldeia global que se forma no fim do século. É esse sentido político que ecoa nas palavras de Léopold Sedar Senghor:

preservar os testemunhos da criação e do pensamento e tornar acessíveis à pesquisa internacional os manuscritos dos criadores e intelectuais é um gesto de profundo civismo mediante o qual afirmamos nossa identidade e asseguramos a continuidade, a sobrevivência de nossa herança cultural. (3)

Poderíamos ampliar nossos argumentos, mas cremos ter demonstrado suficientemente nossa compreensão do trabalho com documentos de arquivo e nossa motivação quando formulamos o projeto "Ateliê de José Lins do Rego", no quadro do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas e do Curso de Pós-Graduação.em Letras, da Universidade Federal da Paraíba.
Descobrimos os autógrafos de Ollvio Montenegro, testemunhos de uma memória cultural e agora os apresentamos organizados em catálogo.

O ARQUIVO DE JOSÉ LINS DO REGO

A Fundação Espaço Cultural da Paraíba (FUNESC) criou e instalou, em 1983, o Museu José Lins do Rego. O Museu conta com peças de engenho, fotografias do patrono, de alguns de seus familiares e amigos, exemplares de sua obra (algumas primeiras edições e parte das traduções), seu gabinete de trabalho reconstituído. Em conseqüência da criação do Museu, o acervo documental de Lins do Rego foi colocado sob a custódia da FUNESC. Por não se incorporar ao conjunto de peças em exposição no Museu, a documentação foi destacada dos demais materiais e guardada.
Constituem esse arquivo: originais de Pureza e de Meus verdes anos, fotos, correspondência passiva, álbuns de recortes de periódicos com referências a suas obras, textos de Gregos e troianos na forma de sua publicação em jornal, manuscrito de apresentação dessas crônicas organizadas em livro e outros documentos de valor.
Trata-se, portanto, de um arquivo pessoal, que conforme definição de Heloísa Liberalli Bellotto, é um

conjunto de papéis e material audio-visual ou iconográfico resultante da vida e da obra/ atividade de estadistas, políticos, (...) cientistas, escritores, artistas, etc. Enfim, pessoas cuja maneira de pensar, agir, atuar e viver possa ter algum interesse para as pesquisas nas respectivas áreas onde desenvolveram suas atividades; ou ainda, que as informações inéditas contidas nos seus documentos, se divulgadas na comunidade científica e na sociedade civil, tragam fatos novos às ciências, à arte e à sociedade. (4)

A importância de Lins do Rego no conjunto da produção brasileira e a relevância de sua obra regionalista são por demais conhecidas e têm sido ressaltadas pela crítica especializada. Contudo, os materiais de seu arquivo podem acrescentar dados que estimulem o aprofundamento da discussão crítica em torno de sua produção. Seu fazer poético ainda não está suficientemente conhecido, embora seja extensa sua fortuna crítica; nesse caso, o estudo de seus manuscritos trará esclarecimentos quanto a fases de escritura, quanto a seus modos de proceder, penetrando na gênese de seu discurso (5).

O PROJETO "ATELIÊ DE JOSÉ LINS DO REGO"

Iniciado em 1988, o projeto "Ateliê de José Lins do Rego" é a primeira proposição de trabalho sobre o arquivo do autor de Usina a ser implantada (6). A proposta tem múltiplas faces. Pretendendo organizar e estudar os documentos, estabelecia, inicialmente, a contribuição para a conservação do acervo como uma tarefa natural. Logo descobrimos que o compromisso "natural" com a preservação devia ser encarado como fundamental: nas condições em que encontramos a documentação, ou tomávamos imediatamente um mínimo de cuidados para a manutenção da vida dos materiais ou, em breve tempo, não haveria muito o que se organizar e tampouco o que ser estudado no decorrer do trabalho. O projeto providenciou, dentro de seus limites, uma verdadeira operação de socorro aos documentos. Os papéis foram retirados dos úmidos envelopes de papel "madeira" em que viviam em estantes abertas e encostadas nas paredes e transportados para armários de aço fechados. Certos documentos foram limpos com pincel e outros receberam banhos. O consultor técnico do projeto, Edson Almeida de Macedo, restaurou alguns documentos e orientou o trabalho de uma das bolsistas encarregada dos procedimentos de conservação. Foram recuperadas verdadeiras preciosidades, como os originais de uma das fases de escritura de Pureza, o manuscrito do texto de apresentação de Gregos e troianos, o diploma de Direito de Lins do Rego, atualmente exposto no Museu. Todavia, inúmeros outros papéis esperam restauro; lamentavelmente, o projeto viu-se privado do trabalho especializado do consultor técnico, em conseqüência de decisões da administração da FUNESC, que não nos cabe aqui discutir.
No que se refere à organização do acervo, após o levantamento sumário, os documentos foram catalogados em séries e em subséries, que receberam códigos de identificação. Assim temos, por exemplo, a série CORRESPONDÊNCIA PASSIVA (CP), com suas subséries, entre as quais incluem-se as cartas de Olivio Montenegro (OM); esse conjunto de documentos tem a seguinte codificação: CP-OM.

O CATÁLOGO CP-OM

Das cartas assinadas por Olívio Montenegro surge a figura de um amigo fiel. Atento à obra do outro, acompanha não só os lançamentos dos romances, mas também lê os textos que Lins do Rego assina nos muitos periódicos em que colaborou. Olívio Montenegro critica, elogia e oferece sugestões e até mesmo dá notícia das críticas sobre a obra do amigo que estão sendo publicadas.
Mas é o próprio Olivio Montenegro que se impõe como personalidade digna de atenção nessas cartas. Ali está o cidadão que se submete a concurso para professor. No intelectual insaciável que se revela, encontramos o homem informado sobre seu tempo, leitor ávido de Proust, Joyce, José Américo de Almeida, Manuel Bandeira e Isadora Duncan; isso para não falarmos de suas leituras da poesia de Jorge de Lima. Critico literário em tempo integral, contrapõe Vieira a Mário de Andrade, que lhe parece exagerado no "brasileirismo" .
Mas não se esgota nesses aspectos o interesse dos autógrafos de Olívio Montenegro. Não podemos esquecer que em suas cartas há um verdadeiro esboço da crônica de uma época, quer nas menções aos fatos políticos de seu tempo, quer nas referências à pobreza das livrarias e das bibliotecas da província, quer nas noticias sobre a marcha da composição de Casa-grande e senzala.
Procurou-se na organização dessas cartas estabelecer uma ordem cronológica, tarefa dificultada pelo próprio Olivio Montenegro, que quase nunca localizava ou datava suas missivas. A equipe responsável pelo trabalho procurou uma cronologia possível, estabelecida a partir dos temas tratados. Como em várias ocasiões os conteúdos prendem-se a fatos históricos ou a conversa epistolar sugere continuidade ou retomada de assunto, isso serviu para auxiliar a interpretação da ordem das cartas. Às vezes, os pesquisadores
recorreram a outros documentos, como cartas de Gilberto Freyre a José Lins dio Rego, para o reconhecimento cronológico. Não se desprezou a consulta a uma bibliografia, constituída por compêndios de história literária, estudos biográficos, cronologias de vida e obra, entre outros, na armação do quebra-cabeça da cronologia das cartas de Olívio Montenegro. Acredita-se que o resultado receberá futuros reparos. Ficam fatos intrigantes como o da carta 129, que se refere às conferências proferidas por José Lins do Rego na Argentina e no Uruguai, em 1944, publicadas em 1946; o documento, todavia, tem registrado o ano de 1940 como data; que há um equívoco não resta dúvida; mas, o que provocou tal engano?
Estabelecida a cronologia, as cartas receberam um número de ordem e aqui são apresentadas com sínteses de seus conteúdos. Como José Lins do Rego é o titular do arquivo que esses documentos integram, a leitura foi feita considerando-se o interesse em relação à vida e/ou à obra do autor de Doidinho; essas indicações acompanham as fichas das cartas que trazem informações sobre tais aspectos; com esse recurso, esperamos que o catálogo amplie suas funções de instrumento de trabalho, servindo aos que se interessam por Olívio Montenegro e aos que estudam José Lins do Rego. O leitor ainda encontrará informações sobre o suporte: indicações de timbre e de filigrana; a intenção é fornecer elementos aos que se dedicam à codicologia; desses pesquisadores poderão surgir esclarecimentos que resolvam a cronologia dos documentos, dentre as inúmeras contribuições que poderão prestar.
Só nos resta agradecer aos pesquisadores responsáveis por este catálogo e àqueles que colaboraram para a sua realização, ressaltando a seriedade e a competência de todos.

Aos pesquisadores de arquivo oferecemos um instrumento de trabalho. Pedimos que nos contemplem com suas críticas e indicações de correções necessárias.
Registramos nosso reconhecimento a José Lins do Rego, por ter conservado em seu arquivo os autógrafos de Olívio Montenegro, retalhos de nossa memória cultural.

NOTAS
1. Arquivos permanentes: tratamento documental.São Paulo: T. A. Queiroz, 1991, p. 177.
2. Memória textual e identidade cultural.Trad.Elisa Angotti-Kossovitch. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, Universidade de São Paulo, Instituto de Estudos Brasileiros, n. 31, 1990, p. 5.
3. A palavra escrita... uma frágil herança. Trad. Clóvis Alberto Mendes de Moraes. O Correio da UNESCO [Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas] ano 17, n. 7, jul. 1989, p. 4.
4. Bellotto, op. cit., p. 179.
5. Tivemos ocasião de orientar a primeira dissertação de mestrado que investiga os procedimentos escriturais de Lins do Rego: AGRA, Maria Lúcia de Souza. A construção da estratégia narrativa no prototexto de MEUS VERDES ANOS. João Pessoa, Universidade Federal da Paraíba, Curso de Pós-Graduação em Letras, 1992. Inédito em livro.
6. Atualmente a equipe de pesquisa tem a seguinte composição: Eduardo Henrique Cirilo Valones, Geane de Luna Souto, Josadete de Carvalho Lopes, Josete Oliveira Targino Moreno, Lauro Meller, Maria do Socorro Barbosa Araújo, Maria do Socorro Rosas, Maria Elizabeth P. Souto Maior, Maria Socorro dos Santos, Marilene Carlos do Vale Melo, Nestor Pinto de Figueiredo Júnior, Regivaldo Batista Monteiro, Rosana de Oliveira Sá, Wylka Carlos Lima Vidal.

Observação: Este texto foi publicado em 1994. O Projeto “Ateliê de José Lins do Rego” foi encerrado em maio de 2001.

 

© Copyright by Sônia Maria van Dijck Lima, 1994

OLÍVIO MONTENEGRO
Notícia biográfica

Eduardo Henrique Cirilo Valones

Olívio Bezerra Montenegro, nascido no dia 25 de agosto de 1896, no interior da Paraíba, fez seus primeiros estudos na capital da província natal. Começou a estudar Direito em São Paulo, onde terminara o curso secundário, vindo a bacharelar-se, em 1917, na Faculdade de Direito do Recife. No ano seguinte, foi nomeado Promotor Público de Nazaré da Mata (Pernambuco) e, em 1923, Juiz Municipal do Recife.
Seu exercício na magistratura não foi longo, dedicando-se depois ao magistério e ao jornalismo. No magistério, sua presença foi marcante. Prestou dois concursos; um para a cadeira de História Universal, no Ginásio Pernambucano, com a tese "A Igreja na Idade Média"; outro para a cadeira de Sociologia Educacional, na Escola Normal do Estado de Pernambuco, tendo sido aprovado com a tese "O dever do Estado relativamente à assistência aos mais capazes". Foi diretor do Ginásio Pernambucano.
No jornalismo, foi colaborador efetivo do Diário de Pernambuco, de 1940 a 1962, e ainda escreveu para jornais e revistas do Rio de Janeiro, como o Correio da Manhã. Seus artigos, geralmente, tratavam de literatura, exercendo sempre uma postura crítica. Porém não se restringiu a escrever em periódicos. Publicou suas teses de concurso (1927 e 1932) e escreveu um romance Os irmãos Marçal (1922). Publicou também Memórias do Ginásio Pernambucano (1943) e Um revolucionário da Praieira - Borges da Fonseca (1949), a propósito do primeiro centenário da Revolução Praieira. Suas demais obras são no campo da crítica: O romance brasileiro (1938), obra que o tornou conhecido nessa área Ensaios (1954) e Folhas ao vento (1969 - edição póstuma).
Olívio Montenegro sempre manteve convívio com grandes personalidades do meio cultural, como Gilberto Freyre, Aníbal Fernandes, Sílvio Rabelo, Vicente do Rego Monteiro, Luís Jardim, Waldemar Cavalcanti, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, entre outros. Mas, talvez sua maior amizade tenha sido com o outro paraibano, José Lins do Rego, com o qual alimentou vasta correspondência
Olívio Montenegro mostrou ter o "vício da literatura", conforme expressão de Mauro Mota, tendo uma das maiores bibliotecas particulares do Recife. Abandonou, por exemplo, cadeiras no magistério para se dedicar a publicações de livros e para povoar ainda mais suas estantes. Foi um dos primeiros a falar, para seus contemporâneos, da importância de autores como Marcel Proust e James Joyce. Esse e outros traços da personalidade de Montenegro são evidenciados nas cartas enviadas ao amigo Lins, que tratam de assuntos diversos, como comentários acerca de literatura, política e religião.
Olívio Montenegro faleceu no Recife, em 16 de fevereiro de 1962 durante um almoço com amigos. Segundo Mauro Mota, ele morreu pedindo Democracia para o país.


Bibliografia

MONTENEGRO, Olívio. Memórias do Ginásio Pernambucano. Recife: Assembléia Legislativa de Pernambuco, 1979.
______________ Ensaios. [Rio de Janeiro] Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1954 (Os Cadernos de Cultura).
______________ Folhas ao vento. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 1969. ______________ O romance brasileiro, 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.
MOTA, Mauro. O Ginásio e seu memorialista. In: MONTENEGRO, Olívio. Memórias do Ginásio Pernambucano. Recife: Assembleia Legislativa de Pernambuco, 1979.
PERÉA, Romeu. Três nordestinos ilustres no campo da educação e no terreno da cultura. Recife: Arquivo Público Estadual, 1962.

© Copyright by Eduardo Cirilo Valones, 1994

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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