Uma
ótima notícia para os mineiros nos chega do Nordeste. A
Editora da Universidade Federal da Paraíba lançou um livro
que pode ser considerado uma verdadeira preciosidade. Seu título:
Ascendino Leite entrevista Guimarães Rosa. Trata-se realmente
de uma preciosidade porque o livro contém uma das poucas entrevistas
que Guimarães Rosa deu ao longo de sua vida. O privilegiado interlocutor,
Ascendino Leite - conhecido jornalista e intelectual paraibano - transformou
as horas passadas com o escritor em interessante reportagem para o jornal
A Noite *, do Rio de Janeiro, de
26 de maio de 1946. A recente publicação de Sagarana,
mais o sucesso e a repercussão que o livro alcançava em
todo o país, levou o jornalista (com o incentivo de Carlos Lacerda)
a procurar Guimarães Rosa no Itamarati para uma entrevista. Ao
longo da conversa, Ascendino Leite vai confessar sua admiração
irrestrita pelo autor e tentar compreender o processo de criação
de Sagarana.
A responsável pela localização e publicação
de tão importante material é Sônia van Dijck, professora
da UFPB, doutora em Literatura Brasileira pela USP e ex-presidente da
ANPOLL. As investigações que Sônia realizou em arquivos
e bibliotecas do país acerca dos manuscritos e da correspondência
de Hermilo Borba Filho, José Lins do Rego e Olívio Montenegro
tornaram-na conhecida nacionalmente e respeitada como uma especialista
da gênese textual e na Crítica Genética.
E não são poucos os motivos que me fazem considerar Ascendino
Leite entrevista Guimarães Rosa uma preciosidade
editorial. O acabamento gráfico, a edição, em papel
pólen, fartamente ilustrada com as capas das cinco primeiras edições
de Sagarana, as fotos do escritor e do entrevistador, são apenas
alguns deles. O livro é valioso principalmente por trazer a público
- após cinqüenta e dois anos - a inédita entrevista
de Rosa que permanecia depositada no Instituto de Estudos Brasileiros,
da USP. Felizmente, para nós, Sônia van Dijck a encontrou
e percebeu de imediato o quanto era oportuno reeditá-la, até
como forma de permitir aos estudiosos de Rosa terem acesso a um depoimento
do próprio autor sobre um de seus mais conhecidos textos.
Mas o livro ainda tem mais, o que me permite achar seu título redutor
por fazer o leitor pensar que apenas encontrará nele o texto da
entrevista. Na verdade, ele está organizado em quatro partes. A
primeira, intitulada "As chaves de um autor", contém
a pesquisa de Sônia van Dijck em torno de aspectos relativos à
gênese de Sagarana. Suas informações elucidam
sobremaneira os diferentes momentos por que o texto passou - de 1937,
quando é concebido sob nome de Sezão, a 1946, quando
finalmente é entregue ao público, já como Sagarana.
Van Dijck percorre cada uma das versões e anota as alterações
que vão sendo feitas nos títulos (do livro e dos contos);
a inclusão e exclusão de narrativas de uma edição
para outra; e nos revela depoimentos inéditos do próprio
autor a respeito dessas modificações, encontrados em pesquisas
nos arquivos de José Mindlin e Aderaldo Castelo. Guimarães
Rosa declara, por exemplo, ao ser indagado sobre a insistência em
continuar corrigindo o livro: o que me preocupa
e tortura, ao rever as páginas escritas, é a angústia
de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita.
A segunda parte traz a entrevista propriamente dita de Rosa, que habilmente
Ascendino Leite transforma em reportagem. O título - Arte
e céu, países de primeira necessidade - antecipa
a narrativa agradável e sofisticada que se segue. O entrevistador
estabelece um clima de intimidade e conduz a conversa com a habilidade
de quem conhece bem sua arte. O objetivo que o move é claro desde
o início: quer a chave de Sagarana. Interessa-se pelos
primeiros anos de vida do escritor, a cidade onde nasceu, e vai anotando
com perspicácia as revelações sobre sonhos infantis,
experiências de vida e projetos futuros, até penetrar no
universo ficcional. Guimarães Rosa revela então as linhas
básicas de sua poética, que se apoiariam principalmente
no amor à terra, nas lembranças da infância, na valorização
da natureza, na pesquisa da linguagem poética e na preferência
assumida pela investigação do problema do destino, da sorte
e do azar, da vida e da morte. Segundo Sônia van Dijck, "Ascendino
provoca, Guimarães fala, o repórter anota".
Em alguns momentos o jornalista apresenta um resumo do que ouve; em outros,
deixa o próprio escritor se expressar e transcreve suas palavras.
Como nesse momento, quando indaga o escritor sobre sua infância:
Não gosto de falar da infância. É
um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a
gente, intervindo, comentando, perguntando, mandando, comandando, estragando
os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá
um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de
soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. (...) Gostava
de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas, tempo bom, de verdade,
só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança
de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão
e imaginar histórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido
como personagens, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas, numa
combinação mais limpa e mais plausível, porque -como
muita gente já compreendeu e já falou — a vida não
passa de histórias mal arranjadas, de espetáculo fora de
foco. A arte e o céu serão, pois, assunto mais sério,
e também são países de primeira necessidade. (p.
39)
Após a entrevista/reportagem, temos a terceira e a quarta partes
do livro, onde Sônia van Dijck nos oferece primeiro uma cronologia
de vida e obra de Guimarães Rosa com alguns achados curiosos, como
o título original com que ele inscreveu o livro Sagarana
no concurso literário, e o pseudônimo - Viator - utilizado
na ocasião. Depois, temos um perfil biográfico de Ascendino
Leite, um paraibano amigo de Rachel de Queiroz e José Américo
de Almeida, que manteve ao longo da década de 30 uma coluna sobre
os principais eventos culturais e literários do país. Além
de jornalista, foi romancista, memorialista e tradutor de Rilke, Stendhal
e Maupassant.
Por tudo isso, é oportuna esta publicação de Ascendino
Leite entrevista Guimarães Rosa. No ano em que lembramos os
30 anos de morte do autor, e que nos empenhamos na reedição
de sua obra e na organização de congressos e seminários
visando um amplo debate em torno do escritor mineiro, uma publicação
como esta da UFPB vem se somar às comemorações e
torná-las ainda mais amplas e significativas.
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