| Com
a palavra os criadores.
Rosa, Hermilo, Lins do Rego e outros Sônia Maria van Dijck Lima
“A criatividade
é uma expressão de sanidade” |
Quando procuram explicar a criação literária, sua ou dos outros, os escritores falam que é sobretudo um trabalho com a linguagem. |
Sérgio de Castro Pinto
Ferreira Gullar |
Linguagem como matéria-prima
Não é de modo
nenhum redundante lembrar que, quando se referem à criação
literária, sua ou de outros, os escritores sempre encaram a literatura
como trabalho com a linguagem. Como diz uma personagem de Marçal
Aquino (1999, página 83): Existem muitas
maneiras de se dizer uma mesma coisa, mas só uma delas é
fiel à verdade. É por isso que alguns escritores passam
horas, dias, semanas e até anos à cata de uma palavra. Não
sei de outra ocupação em que pessoas gastem tanto tempo
em busca de uma simples palavra. Guimarães Rosa, apropriando-se
da expressão de uma personagem (l), marcando a intimidade entre
a criatura verbal e seu criador, tem uma boa explicação:
... as palavras têm canto e plumagem"
(Borba, 1946). |
Hermilo Borba Filho
Manuel Bandeira e José Lins do Rego |
Acesso de lirismo
Provisoriamente, podia tomar como conclusão
que a criação literária se faz como projeto de otimização
do discurso. O autor escritor-leitor-crítico planeja, anota, rasura,
emenda, corrige, completa seu texto, usando um repertório lingüístico
assim como um universo cultural "visitado" por ocasião
da escritura. Os documentos de redação de uma obra (notas,
planos, esboços, rascunhos, versões) informam complexas
operações metalingüísticas, pois no eixo sintagmático,
as formas escolhidas falam daquelas que foram visitadas no eixo das similaridades,
alimentando-se, ao mesmo tempo, de seus significados. |
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Guimarães Rosa |
Criação
como movimento
Não me parece suficiente contemplar
os fenômenos citados classificando-os como variantes textuais,
como poderia fazer a crítica textual. Não se trata, simplesmente,
de acréscimo ou de troca de uma expressão pela outra.
Sem estabelecer hierarquia alguma de valor entre os sintagmas organizados
nos manuscritos ou nos originais de obras, podemos entender a criação
literária como movimento: "Os vários registros contribuem
para a multiplicidade de sentidos do texto e enriquecem o significado
da atualização oferecida ao leitor, o livro". (Lima,
1996b, 150). No caso de escrituras que se movimentam no espaço
da transtextualidade, o paradigma da "biblioteca universal"
(para lembrar Borges) está disponível para as seleções. |
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NOTAS
1- Diz o protagonista de "São Marcos" (em Sagarana): "E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem." 2- São as seguintes as referências dos documentos a serem citados a partir deste momento: BORBA FILHO, Hermilo, originais de Agá e de Sete dias a cavalo. Arq. HBF. Recife. Col. particular. REGO, José Lins do, originais de Meus verdes anos. Arq. JLR. João Pessoa: Museu José Lins do Rego/FUNESC. ROSA, João Guimarães, originais de Sagarana. Arq. JGR. São Paulo: IEB/USP; edições de Sagarana: São Paulo: biblioteca Guita e José Mindlin. 3- Convenção: < > = rasura; < > = ocorrência nas entrelinhas; { } = modificação na linha; ms. = manuscrito; 1SE = Sezão, título de Sagarana, conforme original conhecido, encadernado em couro vermelho; SA = originais de “Sarapalha”, folhas soltas; 4OR = originais da 4. ed. de Sagarana; 4ED = 4. ed. de Sagarana; 5OR = originais da 5° ed. de Sagarana; MVA = Meus verdes anos. 4- O registro original "que vae morrer." (ISE) passa por atualização ortográfica: "que va[e]<i> morrer." (SA). 5- O conceito de grotesco aqui utilizado deve-se a W. Kayser. 6- Acerca do caráter dialetal de "estropiços", remetemos a Maria do Socorro Silva de Aragão (1990, p. 108). 7 Transcrição de Carlos Eduardo Galvão Braga (1994), para estabelecimento do prototexto de Sete dias a cavalo. * Texto originalmente apresentado na mesa-redonda “Conceitos de Criação”, no VI Encontro Internacional de Pesquisadores do Manuscrito: Fronteiras da Criação, São Paulo, USP-APML, 31 agosto/3 setembro 1999. Foi modificado para esta publicação. _____________________________ |
Trecho de ensaio publicado in: D. O. leitura, São Paulo, IMESP, ano 19, n. 2, fev. 2001, p. 27-33. © Copyright by Sônia van Dijck, 2001 Midi: Eu te amo e amarei - modinha (domínio público) |