D
I O N I L A
Sônia
van Dijck
“Estou
preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.”
(CDA)
As
badaladas na
sala despertaram-no do torpor... Uma... duas... quatro... – conseguiu
contar. Quase vinte e quatro horas depois... - escorreram sem que tivesse
notado o peso do tempo. Sobre a mesa da copa, a garrafa de whisky quase
vazia... Começara com umas cervejas, para dar uma relaxada... mas,
o avanço da noite trouxe o frio... A mulher e os filhos esperaram
que chegasse para a ceia de Ano Novo na capital, na casa do sogro. Festa
em família... com bons augúrios e tudo o mais...
Nos últimos meses, quantas vezes estivera com os posseiros...
- O doutor aceita um cafezinho? Acabei de passar...
- Aceito, sim. É bom pro cigarro que vem depois...
Café de cheiro bom, lembrando conforto, na velha caneca de ágata,
marcada pelas andanças até a parada naquele casebre.
A terra sempre avara ou, talvez, preguiçosa... Mas, quem sabe o
cronista se esqueceu de contar ao rei sobre a labuta para amainar a terra
e torná-la dócil?... ou aqueles eram outros tempos, quando
a terra não conhecia a monocultura da cana-de-açúcar...
que lhe amargou a natureza?... Ameaça da seca... estação
das chuvas... Muita luta para chegar à mandioca, ao milho, ao feijão
nosso de cada dia. Agora, o sonho ameaçado...
Regados com seu suor, a mandioca, o milho de Dionila podiam, magicamente,
ser comunhão:
- E o doutor aceita um pedacinho de bolo? Acabei de tirar do forno.
O dia fora de luta... precisava da liminar...
Sonâmbulo, levantava, de tempos em tempos, até a geladeira
para pegar gelo – preguiça de botar no balde... mas, já
teria derretido... melhor assim. Levantou-se mais uma vez. Difícil
chegar à geladeira... nunca havia pensado que a distância
entre a copa e a cozinha fosse tão grande... Pegou gelo... virou
a garrafa no copo...
- Que merda!... que dia!...
Por volta das seis horas da manhã, a ordem da Juíza chegou,
com seu aparato policial e suas máquinas de destruição.
Os alvos até que nem careciam de tanto requinte: arquitetura só
para abrigar a intimidade e o sonho; não resistiria mesmo a qualquer
demonstração de força...
No desvio da BR que dava entrada para as antigas terras da Usina N. S.
das Maravilhas, encontrara a barreira. Conversa para tentar passar:
- Sou o advogado dos posseiros. Estou esperando liminar que impedirá
tudo isso.
- A esta hora, doutor!...
Mais conversa. Tinha que chegar a Dionila... não sabia por que...
mas precisava chegar...
- Estamos só cumprindo ordem, doutor. - disse o policial, sorrindo.
E apareceu o comandante da operação; que desordem estava
acontecendo?... Discussão. Explicação no decorrer:
- Não sei de nada, doutor; só estou cumprindo ordem.
Mais discussão. Entendimento:
- Vamos fazer o seguinte – disse o policial no comando: - Quando
o oficial de justiça chegar, o senhor fala com ele; até
lá... vai ficar por aqui e esperar.
Resolveu acender mais um cigarro...
Eram 120 famílias... expulsas por quatro vezes... Não importava
de onde... agora, mais outra vez... Como continuar acreditando que o Estado
assumiria a propriedade por força de execução fiscal?
A sentença concedia reintegração de posse, apesar
dos impostos não pagos... A Juíza tinha compromissos com
a tradição, a família, a propriedade... O que dizer
àquela gente?... na maioria, velhos, mulheres e crianças...
Os maridos estavam em São Paulo ou em qualquer outra cidade grande...
operários em construção... alguns nunca mandavam
notícias... outros juntavam um dinheirinho... e mandavam cartas,
que Dionila estudava para decifrar a letra e falar os sucessos, as dificuldades
e a esperança renovada... E elas e os velhos, com a enxada, cuidavam
da terra que dava o sustento e recebia os filhos que viravam anjos, chamados
pelo Senhor para uma vida sem medos...
O pesadelo organizado e bem tramado para a hora certa. Gritos. Salvar
uns trecos: panelas, roupas, ferramentas de trabalho, miudezas e lembranças...
Gritos. Crianças chorando. Um cachorro moído pela máquina.
Outro escapou por um triz... O mundo desmoronando na boca das máquinas
famintas de lágrimas e de desespero... Mais um cigarro... As máquinas...
Dionila no meio do caos... as duas filhas, viúvas de maridos vivos...
ela também (talvez viúva de verdade...); um neto no colo...
os mais crescidos agarrados às saias das mães...
Dionila: sessenta e tantos anos acreditando... Tempo de casamento: o quanto
durou a esperança, que resultou em cinco filhos; dois comidos pela
terra. O mais velho partiu uns anos depois do pai, aos quatorze anos;
as duas meninas ficaram pra casar com amores que lhes fizeram filhos antes
do fim da esperança... e da partida... História antiga e
conhecida... No grupo, sobressaíam os olhos arregalados dos pequenos
e o desalinho da trouxa de roupas e dos bagulhos salvos da demolição.
Podia aproximar-se. Falar da impotência? Ou do sonho? Um dia, enquanto
segurava a caneca de café, e tentava lutar contra o processo de
reintegração de posse, ouvira sua voz, como oráculo
da desesperança:
- Doutor, se a gente não ficar aqui, vou pra capital com as meninas
e os pequenos. Lá, pode ser que a gente encontre trabalho... A
gente sabe lavar e cozinhar; o resto a gente aprende.
Chegava a turma da pastoral. Seriam improvisados abrigos; organizado um
acampamento. Em Dionila, germinara a fé na cidade grande.
Ligou o motor e teve vontade de cuspir no comandante da operação
que lhe acenou na saída da barreira... Pensou na Juíza da
comarca... será casada? terá filhos?
O relógio acordou para novas badaladas... ainda virou a garrafa,
mas achou que não precisava do gelo... a geladeira estava muito
longe...
A favela já estava esperando por Dionila, e os cruzamentos, marcados
nos sinais vermelhos, pelos netos... Os puteiros da capital abrigariam
as moças... Os maridos nunca mais teriam respostas às cartas
pagas à escrevinhadora em alguma estação de esperança.
Nova ação na Justiça? Recomeçar. O dia fora
longo... Dionila ficara naquele último olhar, antes de ligar o
motor – saudade da caneca de café, do pedaço de bolo,
da fala amansada pela desesperança... Acreditar? Pensou na mulher
e nos filhos... como fora a ceia de fim de ano... Virou a garrafa: feliz
ano novo! O relógio soou novamente... A cabeça sobre a mesa...
o copo esquecido... Pela janela, entrava o dia de um novo ano...
(Escrito a
partir do poema de Vanderley Caixe)
Publicado
em
Correio das artes, João Pessoa, ano 52, n. 23, 8 e 9 dez.
2001, p. 5.
Suplemento literário de A união
O conto brasileiro
hoje. Vários autores. São Paulo: RG Editores, 2005,
p. 115-119.
© Copyright
bySônia van Dijck, 2001
Fundo: foto
Geraldo Profeta Lima
Midi:
A Internacional (Pierre Degeyter)
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