Leia
também outra entrevista de Sônia van Dijck
O NORTE
João Pessoa, terça-feira, 26 de agosto de 2003
De poesia e de ROSA
Sônia van Dijck defende o uso de multimídia
na área da pesquisa acadêmica e na experimentação
da criação poética
WILLIAM COSTA
Repórter do Show
williampcosta@bol.com.br
A história de Sagarana,
obra de estréia de Guimarães Rosa, já é bem
conhecida. Feito, em 1937, com a finalidade de disputar o Prêmio
Humberto de Campos (Nota),
instituído pela Livraria José Olympio, do Rio de Janeiro,
o livro, como está dito pelo autor no prefácio, “foi
escrito quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas
– em sete meses de exaltação, de deslumbramento”.
Mas, a gênese de Sagarana,
lançado em 1946 e tantas vezes reescrito, quantos segredos ainda
encerra? Alguns deles estão impressos em Escritura de Sagarana
(Navegar Editora, São Paulo), publicação em multimídia
(livro e cd rom) recentemente lançada pela professora aposentada
da Universidade Federal da Paraíba, Sônia van Dijck. Além
do ensaio, Sônia lançou o álbum duplo (em cd rom)
Confidências: Clave de Sônia. Nada exemplares, contendo
20 textos poéticos de sua autoria.
Além dos textos, Sônia
assina o projeto, o roteiro, a computação gráfica
e a produção dos cedês Confidências: Clave
de Sônia e Nada exemplares. O primeiro traz “Hóspede”,
“Noite de Sábado”, “Avant de Nous Dire Adieu”,
“Dúvida”, “Atividade”, “Analítica”
e “Certeza”; o segundo contém “Explicação”,
“Composição”, “Parábola”,
“Cantiga”, “Comédia”, “Fado”,
“Nova Pasárgada”, “Convite”, “Comunhão”,
“Matemática”, “Credo”, “História”
e “Bilhete”.
Geraldo Profeta Lima e Sônia
van Dijck assinam as fotos. Na trilha sonora de Clave de Sônia,
“Canção”, de Hélio de Oliveira Sena,
executada pelo Quinteto Itacoatiara; na de Nada Exemplares,
“Caminhada”, de José Maria de Oliveira, também
executada pelo Itacoatiara (o cd rom Escritura de Sagarana tem
na trilha sonora “Ladaíndia”, de Paulo Ró e
Fernando Pintassilgo).
A edição de Confidências:
Clave de Sônia. Nada exemplares tem o selo da Editora Universitária
da Universidade Federal da Paraíba. “Devo a David Fernandes
e José Luiz e aos funcionários da Editora da UFPB o carinho,
a atenção, o cuidado em relação à publicação
dos meus trabalhos”, explicou Sônia, numa tarde agradável
de terça-feira, 19 de agosto, quando, sentados no Café Literário,
no campus da UFPB, entre um café e um cigarro, conversamos sobre
livro e cd.
A ENTREVISTA
Você lançou uma publicação
em multimídia (livro e cd rom) sobre a escritura de Sagarana,
de Guimarães Rosa, e um álbum duplo de cd rom - Confidências:
Clave de Sônia. Nada exemplares - com poemas seus.
Por que você fez uso de multimídia na composição
dessas obras?
Sônia - Por que o uso de multimídia? Porque esse é
um recurso de meu tempo (nosso tempo). Temos vários códigos
e podemos usar esses códigos para mostrar resultados de pesquisa
e para experimentar a criação (no caso dos poemas). Penso
que é possível, na academia, explorar as possibilidades
do espaço intersemiótico para falar de pesquisa. Na literatura,
cruzar o intersemiótico pode ter algum interesse - prefiro aguardar
as opiniões. As publicações desta sexta-feira tentam
explorar esse espaço intersemiótico.
A utilização da
informática na formatação de obras de arte, além
de talento, pressupõe o domínio de uma técnica sofisticada.
Você teve dificuldades para dominar o computador?
Sônia - Tive dificuldade como todas as pessoas adultas que resolveram
usar o computador (as crianças do fim do século XX e desse
início de século têm, quase sempre, muito mais intimidade
com essa máquina do que eu e alguns outros que entraram na era
da informática já adultos). Não domino essa máquina
- mas, não gosto da idéia de que ela me domine - ainda que
muita coisa de minha vida esteja dentro dela (escondida em seus labirintos...).
Procuro fazer do computador um instrumento de trabalho. Procuro
fazer com que o computador me permita explorar novas linguagens.
Do ponto de vista da construção
da linguagem, qual a importância da reescritura na obra de Guimarães
Rosa?
Sônia - Uma obra literária é sempre uma construção
de linguagem (ou de linguagens, se voltarmos a falar da questão
intersemiótica). A reescritura do texto é o exercício
dessa construção. De 1937 (originais conhecidos) até
1958 (5ª edição), quando não mais modificou
Sagarana, Guimarães Rosa alterou o texto, sempre em busca
de uma otimização, que só ele podia saber se havia
alcançado ou não. Será que alcançou? Ele não
retomou o texto para preparar a 6ª edição e nem as
seguintes. Por que estava satisfeito? Por que estava envolvido com outros
textos? De qualquer modo, sempre havia a possibilidade de que ele retomasse
o texto em algum momento depois de 1958, pois havia feito isso até
a 5ª edição. Temos um Sagarana, que o autor
parou de escrever em 1957/1958. Infelizmente, algumas edições
recentes alteraram, por conta própria, o texto de 1958.
MATÉRIA DE CAPA
Obra de Guimarães é sempre revista
Professora diz que os acadêmicos
estudam sempre a literatura rosiana e a cada vez descobrem novidades
O autor de Sagarana já
foi exaustivamente estudado na academia. Ainda existe algum tipo de segredo
a ser revelado na obra de Guimarães Rosa?
Sônia - “Foi estudado”???!!! - Na verdade, Rosa é
continuamente estudado na academia. Cada leitura é uma nova leitura.
Cada abordagem revela novos aspectos. Há muitos e muitos aspectos
da obra rosiana para serem estudados criticamente. Meu estudo da escritura
rosiana está voltado apenas para Sagarana, desde 1997.
E apenas tenho algumas conclusões sobre “O burrinho pedrês”
e “Sarapalha”. Originalmente, eram 12 narrativas. Em
1946, Sagarana é apresentado com 9 narrativas. Estou apenas
começando o estudo; ainda tenho muito “sertão”
pela frente... Os rosianos estão pelo mundo. Periodicamente, nos
encontramos na PUCMinas, no Seminário Internacional Guimarães
Rosa - é um evento enorme; no último Seminário, havia
mais de 700 trabalhos inscritos. Os rosianos sabem que há muito
o que estudar.
Qual a importância da crítica
genética na “decifração” do processo
criativo de um autor como Guimarães Rosa?
Sônia - Prefiro falar em “reconstituição”
do trabalho do autor. Do ponto de vista dos pesquisadores de crítica
genética, é importante conhecer os procedimentos autorais,
como por exemplo, reconstituir o processo de criação de
um narrador ou de uma personagem (sua personalidade, suas ações).
Reencontrar o autor em seu trabalho de instauração de linguagens
e saber como procedeu para escolher o popular regional ou por que preferiu
a norma culta ou a linguagem científica. Como o texto publicado
se impõe como uma unidade em seus elementos agenciadores, a crítica
genética investiga como se constrói essa unidade que tem
significado para o leitor, que comove positiva ou negativamente, mas que,
no entanto, é apenas um universo criado pela palavra. Faço
questão de lembrar que a crítica genética não
se restringe ao estudo do texto literário. Há pesquisadores
que se dedicam ao texto da música, da coreografia, do discurso
científico, das artes plásticas, cada um em sua especialidade
ou área de interesse. Os resultados têm sido interessantes
e revelam os mecanismos de construção dessas linguagens.
O que motivou em você essa
desmesurada paixão pelo autor de Grande Sertão: Veredas?
Sônia - Se experimento paixão, é pelo ato de estudar,
pesquisar. Para se escolher um objeto de estudo não é preciso
paixão; basta que se reconheça a importância do objeto
e/ou a necessidade de sua investigação. Afinal, os patologistas
não vivem mergulhados em lâminas de amostras por paixão
pelos elementos vistos nos microscópios... - eles experimentam
a paixão pela descoberta, pelo estudo. Guimarães Rosa é
um dos grandes autores da Literatura Brasileira, e entrou para o cânone
com a publicação de Sagarana. Mas, esse livro ainda
não tinha merecido uma longa dedicação por parte
de colegas de crítica genética. Por ser o primeiro livro
rosiano, resolvi escolher os documentos de sua gênese para começar
a dizer alguma coisa acerca dos modos de proceder do autor. Sagarana
é meu referente, pois meu objeto de pesquisa são os testemunhos
de sua criação.
Como você falou em paixão, confesso outra: o silêncio
dos arquivos, que surpreende em suas revelações... ou confirma
nossas suspeitas... ou ilumina nossas dúvidas... mas, antes de
tudo, que nos faz reencontrar o tempo em nova dimensão...
Um alentado conhecimento teórico
sobre um determinado autor, como é o seu caso em relação
a Guimarães Rosa, de certa forma esteriliza o leitor?
Sônia - Em minha opinião, quanto mais se conhece um objeto
ou uma pessoa que desperta interesse, mais aumenta a apreciação
por esse objeto ou por essa pessoa, pois se sabe que sempre haverá
novas descobertas. Se a obra literária tem qualidade (e só
é literária se tiver qualidade, pois o resto é papel/[cd]
gasto...), o aprofundamento de seu conhecimento amplia os horizontes de
sua apreciação, consolida o prazer do texto. Mas, suspeito
de que sua pergunta tenha, lá no fundo, aquela idéia de
“sacralização”, de “magia” do texto
literário, resultante de inspiração soprada pelas
Musas... Mas, Literatura é trabalho de criação. É
projeto, rascunho, revisão, correção, muito trabalho
sempre, para que se alcance a magia da criação de um universo
instaurado pelo verbo (ou intersemioticamente...). Criada pelo trabalho,
a obra de Arte (e não apenas a Literatura) instaura-se sagrada
em sua unicidade, em suas possibilidades de comover, em sua ludicidade.
Conhecer como se cria essa coisa mágica, que é apenas verossímil
(e, por isso, absolutamente verdadeira) é conhecer melhor as possibilidades
humanas nas veredas das linguagens.
Os textos contidos em Confidências:
Clave de Sônia. Nada exemplares são as suas primeiras
experiências com a poesia?
Sônia - Não são minhas primeiras experiências
nesse campo tão arriscado... Nos cds, estão textos mais
antigos, que foram reescritos, considerando o projeto de multimídia;
e tem textos mais recentes. Alguns amigos me cobravam publicação
de uns textos. Costa Filho, que foi editor do Correio das Artes,
generosamente, aceitou publicar uns textos: “Conceitos” (outubro
de 2002). Idelette Muzart Fonseca dos Santos, uma de minhas cúmplices,
divulgou alguns no Réseau Pôle Brésil (internet).
É possível comparar
os textos já publicados com os de Confidências: Clave
de Sônia. Nada exemplares?
Sônia - Comparar esses textos divulgados com os que estão
nos cds? Tou fora! Esse não é meu papel - como autora desses
textos, não sou professora de literatura e nem crítica literária.
Qual a gênese, as chaves
(para copiar um achado de Ascendino Leite) de Confidências:
Clave de Sônia. Nada exemplares?
Sônia - Não sou pesquisadora de meus próprios textos.
Para fazer um pouco de suspense, poderia lhe dizer: aguarde minhas memórias...
Nota: Afirmativa
da responsabilidade do jornalista.
Leia também
reportagem de CYNARA MENEZES sobre a pesquisa
de Sônia van Dijck
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