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Por que o manuscrito de José
Lins do Rego e não um dos livros dele?
Porque para estudar a construção da linguagem você
não estuda no livro onde ela está parada. Você só
tem os movimentos dessa construção se estudar os originais,
os rascunhos, os projetos de obra, etc.
Como surgiu
a idéia de fazer um trabalho como este?
Sou pesquisadora de arquivo (história da literatura e crítica
genética). E já havia estudado Hermilo Borba Filho, do ponto
de vista da crítica genética. Como hoje estou trabalhando
com Guimarães Rosa, "Sagarana", também como crítica
genética. Um dos estudos possíveis sobre José Lins
do Rego era o estudo dentro dessa abordagem que ninguém tinha feito.
No caso de "Meus Verdes Anos" é o último livro
da série de José Lins do Rego e é o documento disponível
aqui na Paraíba, que foi depositado no Espaço Cultural.
Havia o interesse de fazer um estudo que ainda não tivesse sido
feito. Aliado à felicidade do documento original estar depositado
na Paraíba, e à felicidade do fato de esse documento corresponder
à última obra publicada em vida pelo autor. A primeira edição
de "Meus Verdes Anos" é de 1956, e ele morreu em 1957.
A segunda edição, quando saiu, ele havia falecido. Então,
aconteceu uma série de coincidências felizes, digamos assim.
Um autor que não havia sido estudado, do ponto de vista metodológico,
e o documento para esse estudo estar depositado na Paraíba. Além
de encontrar uma equipe de pesquisadores com interesse de aprender a trabalhar
com essa metodologia.
O trabalho de
pesquisa esteve todo ligado ao projeto "Atelier José Lins
do Rego". Que projeto é esse?
O "Atelier"** foi um projeto de
minha autoria e sob minha coordenação. Pertencia à
minha linha de pesquisa na pós-graduação da UFPB.
Seus objetivos estavam voltados para a arquivologia e para a crítica
genética. Foi dentro desse projeto que o trabalho foi passado para
CD Rom. Nós publicamos quatro catálogos. Fizemos uma exposição
de documentos. Saíram livros publicados. Dissertações
de mestrado. Trabalhos em Anais, capítulos de livros e, finalmente,
a análise do documento de "Meus verdes anos", que, agora,
publicamos no CD Rom.
Uma das
personagens que você cita no manuscrito é a Safira, que teve
uma função na formação do menino Dedé,
mas que na publicação final ela recebeu outro nome. Como
foi essa descoberta?
Safira é o nome encontrado no manuscrito, mas no texto final do
livro, a mesma personagem passou a se chamar Pérola. A personagem
aparece, no manuscrito, no fólio 209, e tem o nome de Safira. Permanece
na aventura até o fólio 238, quando desaparece da vida de
Dedé. Mas, no fólio 214, existe uma letra "P"
rasurada, seguida, na linha, do nome Safira. A hipótese é
que esse fólio marca a modificação do nome da personagem,
que ficará conhecida com Pérola. As análises dessas
modificações e seus significados estão no CD Rom.
Como se configura
a linguagem de José Lins do Rego?
Em "Movimentos do Discurso de José Lins do Rego" mostramos
que o autor, por exemplo, constrói, em várias ocasiões,
uma linguagem popular regional como segundo movimento de escritura. Ou
seja, o popular regional é uma construção proposital,
de acordo com um projeto poético.
Que critérios
metodológicos você utilizou nesta pesquisa?
O principal propósito foi verificar como se movimentou a linguagem
em construção. Que movimentos o autor realizou na linguagem
para construir um determinado discurso. A partir do texto referente, que
foi a primeira edição de "Meus Verdes Anos", procuramos
investigar no manuscrito as marcas dos movimentos escriturais do autor.
Assim, analisamos rasuras, correções, modificações,
considerando que o autor estava procurando a otimização
do discurso. Procuramos reencontrar José Lins elaborando o texto
que desejava entregar ao leitor.
Você diz
que no manuscrito não se busca um produto não é isso?
Isso. Investiga-se um movimento, uma construção. Este é
principal critério. Encarar o texto como movimento, como construção
e não como texto dado, parado.
O movimento textual
pode ser observado e estudado em qualquer tipo de linguagem?
Sim. Seja um texto literário, seja um texto musical, um texto científico,
etc., sempre se pode estudar sua construção. A categoria
a ser estudada vai depender do objetivo da pesquisa e da natureza do texto.
No caso de nosso trabalho, o interesse esteve voltado para a linguagem
popular regional, para a construção do narrador, narratário
e das personagens femininas.
O que vem a ser
um prototexto?
É um texto anterior ao texto. É uma construção
operacional do pesquisador, que reúne, organiza e transcreve os
documentos que constituem os antecedentes de uma determinada obra. O prototexto
não é do autor é a construção do pesquisador,
a partir dos rascunhos, planos, anotações, original da obra.
E o protonarrador?
É como o prototexto, o texto anterior ao texto. É o narrador
anterior ao narrador; ou seja: são os movimentos de construção
do narrador que constituem o protonarrador. Literatura é uma cons-trução
de linguagem. O narrador se constrói com uma linguagem que vai
buscando a melhor ou mais eficaz forma de contar a história.
Com se faz para
trabalhar com a construção do texto?
É preciso sair do texto publicado e voltar aos originais. Eles
são sempre documentos de arquivo. Nos cursos de Letras, os professores
trabalham com a obra publicada, e eu também, quando dou aula de
Literatura. Dessa forma se estuda crítica literária, o narrador
e o narratário, por exemplo. Neste outro tipo de pesquisa, trabalhando
com documentos originais, estuda-se a construção do narrador,
narratário, personagens, tempo e espaço.
Então se
um dia alguém pegar e guardar os rascunhos desta entrevista vai
construir o meu prototexto?
(Risos). Vai construir seu prototexto. Isso mesmo. Exatamente. Da mesma
forma se alguém abrir os meus arquivos no computador vai construir
meu prototexto. Mas, aviso que os deleto.
Que relação
mantém esse tipo de pesquisa com outras áreas do conhecimento?
Em qualquer área de conhecimento, tendo-se documentos originais
de uma obra, pode-se fazer crítica genética. Trabalhamos
com os originais de "Meus Verdes Anos". Mas, como Karl Marx
escreveu "O Capital"? - seria interessante conhecer e estudar
os originais dessa obra, para verificar os movimentos de escritura na
contrução da argumentação, por exemplo. Ele
deve ter consultado uma bibliografia, feito anotações; como
inseriu essas informações em seu discurso? Orientadores
de pós-graduação acompanham a gênese das teses
de seus alunos: a busca da melhor expressão, o aproveitamento das
citações, a demanda da linguagem objetiva, a organização
das conclusões. Depois do projeto, são rascunhos e rascunhos
e rascunhos, até que a tese esteja na qualidade que orientador
e orientando desejam mostrar à Banca. Todos esses documentos antecedentes
à tese defendida podem ser estudados pela crítica genética:
como se construiu determinado discurso de tese.
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