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VAMOS PARAR À CHOÇA!

Maria Estela Guedes

 

TriploV Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade

da Universidade de Lisboa (CICTSUL)

 

Foto: Francisco Pratas (1987)

Recebi uma prancha (carta) de um Bom Primo, esmerada, suponho, na terminologia própria, que me levou a pensar que usamos muitos termos e expressões da gíria maçónica, alguns da Maçonaria Florestal Carbonária, sem termos a noção da sua origem. Isso também acontece noutros domínios da cultura oral, e não apenas no linguístico. Precisamos de aprender a ler esses sinais.

A história do Capuchinho Vermelho, a de Peter Pan, a de Robin Hood, e até a série dos Astérix, são exemplos de uma literatura estreitamente unida à floresta, com as suas árvores frondosas, os seus lenhadores e lobos maus.

O cancioneiro popular também mostra traços da Maçonaria da Madeira ou Maçonaria Florestal: “Ah, ah, ah, minha machadinha/, Quem te pôs a mão, sabendo que és minha?” A machadinha e o canivete são dois dos instrumentos de construção que aparecem nos distintivos carbonários, ao pé do esquadro, da régua e do compasso, próprios da Maçonaria da Pedra.

Outra canção para crianças, o “Jardim da Celeste”, transporta a jardinagem para o espaço simbólico que realmente tem no discurso carbonário. A prancha que recebi do Bom Primo Carbonário Walmir Battu convida-me a "participar em nossa Floresta de uma Jard.'. relativa ao naturalismo". Claro que sim, terei muito prazer em jardinar na floresta dos Carvoeiros do Brasil, aliás um dos lemas dos Bons Primos é esse: É preciso transformar a floresta num jardim, e também limpá-la dos lobos maus, os déspotas e outros inimigos da República. Em suma, é preciso cultivar, aperfeiçoar, apurar, limar a casca grossa até ela ficar fina. "Casca grossa" e "casca fina", mais duas expressões dos Carvoeiros no discurso corrente. E jardinar também permanece, para censurar os que nada de útil parece escreverem, como eu, que ando para aqui a jardinar e não adianto o trabalho.

“Ou vai ou racha!” – eis uma imprecação que parece ter saído do desespero de um dos carbonários que perseguiam João Franco, mas o ministro, à cautela, dormia cada noite em sua casa, e na hora H já não havia outra saída: “Ou vai ou racha!”. O rei morreu e a expressão ficou, a manifestar a ideia de que às vezes a única solução é a força.

Outra expressão carbonária, que na linguagem vulgar equivale a "resolver pela força", é “meter uma cunha”. O termo, na argótica florestal, significa "objectivo, finalidade": “Tem esta pranc.'. a cunha de fender um convite a V. Exª...” Tem o ofício o fim de convidar, e fica em suspenso o vocábulo “fender”, sinónimo de "rachar", que não conheço em funcionamento de calão comum. Rachar a cabeça a alguém é voto possível, fendê-la, muito improvável.

Não sei se a expressão, muito familiar em português, “Mas que grande barraca!”, faz algum sentido para os brasileiros. Não conheço nada que fixe na linguagem normal a expressão “Alta Venda”, porém “choça” e “barraca” são frequentes. Uma grande barraca é um grande desatino, uma vergonha por o trabalho ter saído mal. Direi de um texto mal escrito que ficou uma barraca, é uma barraca ter de comparecer a uma reunião importante às 8 horas e só aparecer uma hora depois. Nada de muito trágico, pelo contrário, há uma ponta de graça nas desgraças da barraca. Mais grave é a desgraça que nos leva direitinhos para a choça, porque essa é a pildra, o xadrez, enfim, a prisa... Em relação à Venda, o que temos em Portugal são topónimos que aludem a ela, como a Venda das Raparigas. Mas pode o topónimo não ter nenhuma relação com a Carbonária, ser uma referência a loja, o que naturalmente lembra a maçónica, mas “loja” designa, além dos objectos mais conhecidos, a parte térrea da casa de camponeses, em que se guardam alfaias agrícolas e as tulhas de cereais.

E andamos tantas vezes à trolha, no sentido real e figurado, não é verdade? A trolha é um instrumentos simbólico importante, com a machadinha, usada nos rituais carbonários para bater os toques, o compasso, o esquadro, o punhal e o canivete. Há várias pessoas do meio com esse nome ou pseudónimo, e jornais maçónicos denominados "A Trolha".

Olhando para a fotografia da Geochelone carbonaria, jabuti, como se camam no Brasil estas tartarugas criadas para exportação, e que agora aparecem nos catálogos de répteis e anfíbios africanos, o que nos dizem as cores do animal? A tartaruga é de facto carbonária na cor, mas não de acordo com o carbonarius do dicionário de latim, sim de acordo com a simbólica da Maçonaria Florestal: ela é uma brasa! Depois de o fogo a ter consumido até à cinza, então, sim, poderia ser nigra ou obscura. Mas ela é vermelha e negra, e este é o jogo das chamas no carvão a arder, e o sentido de "formoso" que atribuímos a algum borracho a quem atiramos o piropo: “Você é uma brasa!”.

E depois a imaginação solta-se, porque há um “Vou recolher a vale de lençóis” que se ouve no mesmo registo do “Vale” situado em algum lugar do Nasc.'. do Templo de Jerusalém, onde é dada e traçada a prancha, aos 29 Sóis da sétima Lua, do ano da graça do N.'. D.'. B.'. Pr.'. Jesus Cristo, de 2004 – E.'. C.'.

Partamos do princípio: porque o Nosso Deus Bom Primo é Jesus Cristo, aquele “E.'. C.'.” tanto pode ser Era Cristã como Era Carbonária, o calendário deve ser o mesmo. Se não for, logo que possível se corrigirá.

 

© Copyright by Maria Estela Guedes, 2005

LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998

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Midi: Pavana (I. M.)

 
No curso de um breve movimento cultural em defesa do sítio histórico rua Gabriel Malagrida - conhecido como Beco da Faculdade - (João Pessoa - PB - Brasil), dois participantes e amigos mandaram-me textos sobre o Padre Gabriel Malagrida, cuja atuação, no Brasil, foi de grande importância - Elizabeth Hazin - Evandro da Nóbrega
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