| Université Paris Ouest Nanterre La Défense - 2008 |
|
|
| Cunha de Leiradella, autor hipertextual Sônia Maria van Dijck Lima (1) |
|
| Duas bandeiras Cunha de Leiradella nasceu em
Portugal, na freguesia de São Paio de Brunhais, concelho da Póvoa
de Lanhoso, no norte de Portugal, em 1934. |
|
Rio de Janeiro: Record, 1993 |
Salvo no conto “Os homens e os outros” e no romance Cinco dias de sagração, é no Brasil que Leiradella ambienta sua obra. Suas personagens vivem no Rio
de Janeiro, em Salvador, em Belo Horizonte, no interior de Minas Gerais,
em uma geografia acidentada pela investigação das angústias
humanas, em tempos marcados por fatos políticos (ditadura militar,
eleição de Tancredo Neves, impeachment do presidente Collor
de Mello, por exemplo) ou simplesmente pela demanda de liberdade e de
felicidade. Criador de personagens urbanos brasileiros, de um Eduardo português que vive no Brasil e volta à terra natal para reencontrar o amor da juventude e descobrir que o tempo não retorna, e de alguns portugueses das quebradas da Serra do Gerês, Leiradella integra a literatura de duas bandeiras.
Conhecedor de duas realidades
políticas e culturais, é contundente sempre que se expressa
criticamente: |
|
Para quem não sabe, a mixórdia portuguesa só difere da mixórdia brasileira no sotaque.* * Entrevista a Belvedere
Bruno. http://www.belvederebruno.prosaeverso.net/visualizar.php?idt=133274
-- Visita em ago. 2008. |
|
Esse jornalista, dramaturgo, romancista, contista, roteirista (televisão, cinema), recebeu vários prêmios, tais como: Plural, 1987 (México), com o conto “O homem que já sabia”; Prêmio Instituto Nacional do Livro, 1988 (Brasil), com o romance O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior; Cruz e Souza, 1995 (Brasil), com o livro de contos Fractal em duas línguas; Terras de Lanhoso, 1997, com o conto "Os homens e os outros"; Caminho de Literatura Policial, 1999 (Portugal), com o romance Apenas questão de método. Leiradella, sobre si mesmo, esclarece, adotando a perspectiva de sua literatura:
|
| Como Leiradella fala em Eduardo da Cunha Júnior, é oportuno informar que esse cidadão literário nasceu na peça teatral Inúteis como os mortos, que estreou no Rio de Janeiro, em 1965, consolidando-se no romance O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987). Desde então, habita a obra leiradelliana até o mais recente romance Apenas questão de gosto (Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2005). |
|
Eduardo da Cunha Júnior em Os espelhos de Lacan |
|
Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2004 |
Entre os oito romances publicados e mais alguns livros de contos, escolhi Os espelhos de Lacan (Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2004), cuja edição lusitana acaba de aparecer: Braga: Calígrafo, 2008. *
*Aqui, as indicações de páginas são de acordo com a edição brasileira mencionada.
|
|
Mas, logo, a atenção do leitor se prende ao “enigma”: Eduardo da Cunha Júnior morreu no Colégio do Caraça? Mas, por que essa galeria de homens e mulheres, em demanda não se sabe bem de quê ou, talvez, de tanta coisa, que só a liberdade e a felicidade traduzem? Pode ser que o interesse do livro esteja em
nos revelar a incomunicabilidade que prende cada um desses homens e
mulheres, que, apesar disso, falam do passado, discordam uns dos outros,
armam intrigas e falam de Eduardo da Cunha Júnior, que, surrealisticamente,
é também autor da história:
|
Braga: Calígrafo, 2008 |
|
Pelo trecho citado
acima, nota-se que para além da blague, há um acento de
problematização do que será lido. Graças à
metalinguagem - história e “quem a conte” (=discurso),
caráter da ficção (“verdade seja mentira”,
“narrador inventado”) -, o autor estabelece o verossímil,
deixando ao leitor o distanciamento e a escolha de ler o que quiser. Considerando que a personagem Dagoberto Palomar, na abertura da obra, informa que Os espelhos de Lacan é uma narrativa linear, e sempre conduzida pela vontade do autor, (p. 15), o melhor é começar a ler esse livro a partir do título, visto pelo mesmo Palomar como
|
|
Espelho, espelhos, Lacan Espelho A palavra “espelho” (speculum = especulação) nomeia um dos artefatos mais antigos, cheio de significados simbólicos. Desde culturas milenares, tanto remete à observação dos corpos estelares, como lembra a verdade, a sinceridade, a pureza, o conteúdo do coração e da consciência. Instrumento de iluminação, simboliza sabedoria e conhecimento. Pode ser símbolo solar e lunar, pois a Lua reflete a luz do Sol. Uno e múltiplo, para os Vedas, fala da sucessão de formas, da duração limitada e mutável dos seres. Na literatura islâmica, lê passado, presente e futuro. Mas, todos sabemos que o espelho oferece a imagem invertida da realidade, isto é: identidade e diferença, sendo que o mundo nele refletido é um aspecto do vácuo. Seu simbolismo liga-se ao da água: nascimento, renascimento, envolvimento dos corpos que dele/dela se aproximam e, evidentemente, Narciso. No taoísmo, o homem se utiliza do homem como espelho. * Espelhos Não podemos ter certeza
de que entendemos esse livro, a partir dessas rápidas considerações
sobre os significados de “espelho”. Lacan Em sua teorização, Lacan usa o espelho para descrever a formação desta ilusão que pode ser chamada de self, isto é, como a criança dá forma a um ego, um self consciente, unificado e identificado pela palavra “Eu”. Muitos dos significados acima mencionados informam essa construção. Como estamos tentando penetrar em uma narrativa, seu autor bem que poderia ter-se apropriado de uma lição lacaniana:
* Acerca de “espelho”, vejam-se os dicionários: CIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário de símbolos. Trad. Rubens Eduardo Ferreira Frias. São Paulo: Moraes, 1984. CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos, ed. rev. e aum. Trad. Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988. **
As formações do inconsciente. Seminário 1957–1958,
sessão de 11 dez. 1957. Trad. Paulo Roberto Medeiros - www.psicoanalisis.org
- visita set. 2004. |
|
Sem aprofundar a opinião de André Seffrin, que considera Eduardo da Cunha Júnior como alter-ego de seu criador *, retomo a tentativa de leitura linear mencionada por Dagoberto Palomar. Abro, então, o romance. * Um policial barroco. Uma aventura de linguagem. In: www.tanto.com.br/cunhadeleiradella-andreseffrin.htm - visita ago. 2008. |
|
Epígrafes: Eduardo diante de espelhos Como epígrafes, há citações de duas figuras históricas: Protágoras e Samuel Joseph Agnon. Duas outras epígrafes são de Eduardo da Cunha Júnior, colhidas mesmo em Os espelhos de Lacan. No conjunto, esses paratextos anunciam o homem como centro da aventura, a impossibilidade de comunicação, a relatividade da liberdade, da verdade e o inatingível do Absoluto, como se Eduardo estivesse diante de espelhos, que refletem sua imagem e oferecem o vácuo ou um mundo aos avessos e no qual ele não consegue penetrar, embora o veja. |
|
Cibergrafia e Dagoberto Palomar Continuando a leitura, encontro um artigo de Dagoberto Palomar, convencionalmente publicado no semanário NOVO HORIZONTE, datado de 14 a 20 de maio de 1994. Esse texto compõe a primeira parte de Os espelhos de Lacan, que tem como título “Cibergrafia: a 4ª dimensão da narrativa”, constituída pelo artigo mencionado e pelo texto “Considerações sobre graus dissociados”. Palomar instaura-se como primeiro
crítico de Os espelhos de Lacan. A data de seu artigo
pode parecer informar o tempo dos depoimentos que serão conhecidos
nas páginas seguintes. Porém, em uma de suas aparições
na história, Eduardo está em um bar, durante a votação
no Congresso Nacional do impeachment do presidente Collor de Mello: 1992.
Está, portanto, quebrada a linearidade. A página seguinte ao final do texto de Palomar, autor do livro A Era do Botão na Travessia do Milênio, conforme cuidadosamente está informado (p. 110), oferece o “botão” “Fim”, e a seguinte é encimada por @, que remete à comunicação internética. Estão estabelecidas as regras do jogo com o leitor: linearidade ou hipertexto, cada um pode escolher. Com certeza, escolher a linearidade é tarefa difícil. Logo após a primeira parte do artigo de Palomar, está o segundo texto de “Cibergrafia”: “Considerações sobre graus dissociados”. Trata-se de transformação do discurso científico, que, em regime satírico **, começa falando do telescópio Hubble, das distâncias no espaço sideral,
para, em seguida, como parte de sua argumentação, o discurso passar a aludir ao campeonato de Fórmula 1, à guerra do Golfo e à queda da União Soviética, a regras de trânsito, combinando a lembrança da história da nudez do rei vista pelo menino com a imitação de ditos populares, como “não há Chanel que sempre cheire, nem merda que nunca deixe de feder” *** (p. 19). E tudo para falar da pesquisa do Hubble. Com tamanha variedade de assuntos trazidos à tona, e como não adota as investigações do Hubble como verdades científicas, o texto só pode terminar com duas perguntas – eis a última delas:
* Na
edição brasileira, há um desencontro na indicação
página da continuação do artigo de Palomar; isso
está superado na publicação da Editora Calígrafo.
|
| Hipertexto e caleidoscópio Fico com a idéia de hipertexto,
levantada por Palomar, cujo artigo tem natureza hipertextual (e não
só em linguagem cibernética, como deseja Palomar), na medida
em que se aproxima daqueles característicos de coluna de jornal.*
Eduardo está refletido em cada depoente, e cada depoente invertido no outro, pois cada um viu e conviveu com um Eduardo, do qual reconhece uma identidade e no qual encontra uma diferença, resultante de se mirar no espelho que é o outro. Eduardo vê a si mesmo, vê-se com e nos outros, em um jogo de reflexos, que permite a identidade e favorece a diversidade. Afinal,
como assegura Eduardo em uma de suas reflexões, destacada como epígrafe. Nesse jogo de espelhos pode ser encontrado um fio condutor ontológico de todas as personagens, pois todas têm como lema, e fazem questão de o salientar:
Mas o que é o certo? Em
qual espelho está a resposta? As personagens são donas das vozes narrativas, pois o livro está organizado como fragmentos de discursos de cada uma delas. Falando de seus passados, todas se encontram no presente da narrativa graças à figura de Eduardo, elo da aventura: todas conviveram com ele, perdem-se ou começam nova demanda da liberdade e da felicidade a partir dele. Eduardo, ainda que não negue os tantos depoimentos, contempla-se narcisicamente nessa pluralidade de vozes. Como em um caleidoscópio, pode-se ir a qualquer direção; são encontrados sempre fragmentos de vidas, tendo Eduardo como centro. Apesar disso, revendo os discursos que tratam de Eduardo, temos outro ângulo de leitura; como diz Leiradella,
Ou seja: vêem Eduardo e vêem-se a si mesmos, em um jogo de reflexos. São criaturas banais da
vida urbana e, tanto quanto Eduardo, não têm tinturas de
heroísmo ou de virtude que os destaquem da multidão. O próprio
Eduardo nem sequer tem seus traços físicos apresentados;
um sujeito que continuaria anônimo na cidade grande, se o olhar
do autor não o tivesse destacado, na travessia de Inúteis
como os mortos ou em O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior,
conduzindo-o de uma narrativa a outra, até chegar a Os espelhos
de Lacan, onde o estamos vendo, seguindo caminho, logo depois, para
Apenas questão de gosto (2005). Segundo lição de Northrop Frye ***,
|
|
É fato que Eduardo é um homem comum, parecido com milhões de homens comuns, mergulhados todos na banalidade cotidiana, com suas demandas, angústias e desejos. Na história de Eduardo, não há traços de nostalgia, de
Organizado como um caleidoscópio, Os espelhos de Lacan faz de conta que responde à pergunta que desencadeia a narrativa ou as narrativas: Eduardo da Cunha Júnior morreu, num domingo de dezembro, no Caraça? Para encontrar resposta, reúnem-se exemplares da humanidade: médica, doutora em Letras, jornalista, prostitutas e mais alguns representantes da raça humana, que amam, odeiam, intrigam, querem a liberdade e a felicidade e são fortemente orientados pelo erotismo; e mais Eduardo da Cunha Júnior, jornalista e escritor, que ama, trabalha, faz sexo e busca a liberdade e a felicidade e detém o segredo do barracão do quintal. Leiradella, além de fazer da aventura de Eduardo da Cunha Júnior um caleidoscópio, faz Os espelhos de Lacan como uma máquina devoradora de textos: colhe as epígrafes de autoria de Eduardo nas reflexões da personagem (que já estão em O longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior), reafirmando o jogo, e retoma a dúvida já formulada na obra de consolidação de sua personagem. Trechos de discursos das personagens e do próprio Eduardo repetem-se, acentuando certa circularidade do conjunto. O enigmático episódio da morte no Caraça está retomado em Os espelhos. Ou seja: as trilhas da hipertextualidade
não se esgotam na “era do botão”, na “Cibergrafia”,
tal como sugere Dagoberto Palomar. O que se tem é um verdadeiro
cruzamento labiríntico de textos. Nesse exercício, o autor
combina o coloquial com o palavrão e o calão, citações
em latim, com a mais notória obviedade do lugar-comum, e faz Palomar
ser o primeiro crítico deste livro, para que o leitor reencontre
essa personagem que freqüenta, como leitor dedicado e especializado,
a obra leiradelliana desde livros anteriores. |
|
O jeito Leiradella de ser romancista Em tom blaguer, Leiradella confirma suas temáticas: a liberdade, a busca da felicidade, a impossibilidade de comunicação, na construção do self em Os espelhos de Lacan. Enquanto speculum, esse livro nos permite contemplar a raça humana, em suas contingências esteja ou não vivo Eduardo da Cunha Júnior. Na verdade, se ele morreu ou não no Caraça é o que menos importa. Importa saber que ele buscou e que esteve com tantos outros que estavam em demanda. Pintando uma atmosfera surreal, Leiradella oferece situações exemplares do homem em busca da felicidade, e, como ainda não a encontrou, Eduardo da Cunha Júnior não pode ter morrido. Reafirmando uma atitude inovadora, vinda das obras anteriores, o autor oferece um livro que pode e deve ser lido como hipertexto, e, ao mesmo tempo, instaura o debate acerca da relação escritura - leitura e o fazer literário. O livro se fecha com uma citação atribuída ao “Tractatus Logico-Philosophicus”, do austríaco Ludwig Wittgenstein:
Novo enigma? Não se pode falar que Eduardo morreu no Caraça? Ou não se pode falar que ele não morreu? |
|
Nanterre, 3-11-2008 |
| |
| Página de uso didático - Reprodução proibida - LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 |
| 1 - Inscrita na Biblioteca J. Lacan - http://www.psicoanalisis.org © Copyright by Sônia van Dijck , 2008 Midi: Maio (Zeca Afonso) |