1. Condução
intuitiva
O convite para participar neste
forum, cuja idéia central liga a tecnologia à arte e à
consciência, deve-se porventura à circunstância de
há três anos manter aberta uma webpage que tem vindo a desenvolver-se
gradualmente, o TriploV. O sítio é propriedade minha, é
o meu projecto normal de trabalho enquanto membro do Centro Interdisciplinar
de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL).
É assim desta experiência que vou falar. Já que nesta
casa de engenheiros houve interesse em ouvir-me, aproveito para lhes agradecer
o facto de a minha estação ciberespacial ainda não
ter sofrido nenhum acidente fatal. A eles, e também ao nosso operador
de sistema e cyberdesigner, o engenheiro Magno Urbano. E porquê
o agradecimento? Porque os engenheiros informáticos concebem máquinas
e software que podem ser usados intuitivamente. Esta singularidade é
digna de menção, por várias razões: a primeira
é a de pôr em cena uma faculdade mental subvalorizada, ou
cuja realidade nem sequer é aceite por todos. Antes de aparecerem
os computadores, era quase só no espaço da arte e do sagrado
que se falava de intuição. Tal como o instinto e a inspiração,
ela nomeia uma faculdade indefinível. A intuição
permite uma partilha de conhecimentos entre os engenheiros e quem precisa
de usar as máquinas e domesticar os programas. Essa partilha é
real, o utente procura descobrir para que servem menus e ícones,
e chega lá mais depressa dessa maneira do que estudando os manuais.
A aprendizagem sem livros e sem mestres visíveis evoca, de um lado,
o jogo infantil: as tecnologias que nos permitem pilotar sem frequência
de aulas apelam para a criança que há em nós. Por
outra parte, a invisibilidade dos mestres recorda precisamente os mestres
invisíveis, os alquimistas, os iniciados, e também as primeiras
universidades, em que estudantes de qualquer nação se podiam
inscrever, sem obrigatoriedade de frequentarem as aulas. No ciberespaço,
tão novo que ainda só uma pequena parcela do planeta tira
partido dele, com aparelhagem tão sofisticada, recuperam-se, diria
que intuitivamente, modos de estar que pertencem à Tradição
e trazem à cena faculdades mentais que subvertem as concepções
científicas ortodoxas. Estamos no reino da exploração,
da descoberta, da aventura e da criação, o que estabelece
uma aliança entre oficiais de ofícios muito distintos: os
cientistas e técnicos de um lado, os magos e os artistas do outro.
Segundo motivo para agradecer aos engenheiros informáticos a invenção
de máquinas que conduzimos intuitivamente é o de dispensar
a carta de condução. Enfim, por enquanto...
2. Dar espaço ao corpo
No TriploV encontramos muita matéria, assinada por umas centenas
de colaboradores, relacionada de forma íntima com a temática
do forum. Em relação à consciência, entendendo-a
como sentimento de responsabilidade perante acontecimentos no mundo que
exigem resposta do cidadão, é muito claro que ela transparece
da parte dos mais variados sectores e indivíduos. Saliento apenas
a Amnistia Internacional, por ser ela em muitos casos a instituição
mobilizadora dos movimentos de ajuda e solidariedade através da
Internet. Num nível primeiro de avaliação do TriploV,
quando intelectuais, técnicos, religiosos e artistas, de tendências,
nacionalidades e línguas diversas, colaboram numa obra colectiva,
não se conhecendo uns aos outros, e sem consciência da estratégia
subjacente ao projecto, aquilo a que vão dando corpo é uma
construção heteróclita, sem nenhum programa definido.
No caso, a construção é suportada pela tecnologia
informática, mas podia passar e passa muitas vezes parcialmente
para o papel. Ou seja, os conteúdos do TriploV só em percentagem
ínfima são específicos da ciberarte, se por ela entendermos
a arte inteiramente gerada por computador. Porém o que se passa
nele só é possível no meio da cibercultura, não
só por motivos económicos como pela facilidade em congregar
parceiros em qualquer continente. Mas para já, é evidente
que os construtores o são de uma fortaleza transnacional, por muito
que a palavra “Portugal” se imprima na fachada. Neste ponto
é curioso anotar que, quando enviam convites e notícias
para convocar audiência em actos públicos, os autores esquecem-se
de acrescentar o país à hora e local, e mesmo a cidade em
que vai ter lugar a cerimónia. Também não é
invulgar o aspirante a colaborador desconhecer a pátria do TriploV,
ficando muito espantado quando na resposta ao seu email recebe abraços
lisboetas. Estes dados mostram que as pessoas ainda se comportam na cibercultura
como se estivessem no espaço do papel impresso, de audiência
circunscrita a um país, a uma cidade, a um bairro, ou até
a um grupo de colegas. Ainda não existe consciência generalizada
de que o ciberespaço não tem fronteiras, e de que os textos
divulgados na Internet têm público potencialmente planetário.
Não sei até que ponto agrada ou interessa a todos os ciberautores
esta possibilidade de a sua voz chegar aos pontos mais longínquos
do seu habitat. Creio que a tendência para alguns estreitarem a
audiência ao funil do colegial ou familiar, se deve à sua
circunscrição afectiva a esse espaço privado. Estas
pessoas sabem e têm consciência de que, quando usam a Internet
para marcar um almoço de confraternização na Parreirinha
do Rato, qualquer pessoa que fale português pode ter acesso à
informação, desde Pequim a Buenos Aires. Para os leitores
de Pequim e Buenos Aires, a notícia é irrisória.
Se não se irritarem por as fazermos perder tempo com ela, será
por acharem graça a uma intimidade que as faz sentir cúmplices
de um jogo secreto. Talvez todos saibam que a informação
do ciberespaço chega também aos dispositivos de segurança
de certos países, se não forem todos os países, como
Israel ou os Estados Unidos, e estou a referir-me concretamente ao Echelon,
máquina-espia que lê os nossos emails. Um dia, falando com
um dominicano que vive em Israel e tem vários ensaios publicados
na webpage, comentei que ele frequentava bastante o TriploV, pois vários
PCs de Israel estavam registados no programa de estatística. Ao
que ele reagiu logo, afirmando que eram os serviços de espionagem
que metiam o nariz em tudo. As pessoas têm consciência de
que a sua palavra é incontrolável no que diz respeito à
amplitude da audiência, mas o seu modo de estar, mesmo num meio
de comunicação à distância, é um modo
de estar entre amigos, confrades e conhecidos, porque encaram a cultura
como um habitat privado. E outros há que restringem o habitáculo
ao seu próprio corpo, o que aliás é próprio
de muitos poetas. Então temos cambiantes entre dois extremos: o
ciberespaço tanto permite a presença do texto de largo espectro
de comunicabilidade como aquele que o autor considera reservado ou mesmo
secreto. Ora no TriploV, entre os seus muitos directórios e conjuntos
de temas, alguns existem que participam de um conhecimento tradicionalmente
considerado secreto. E outros, pelo contrário, não só
pertencem à esfera do conhecimento revelado, como têm vocação
ecuménica. No primeiro conjunto refiro-me a textos esotéricos,
assinados por iniciados. No segundo, aos provenientes da Igreja católica,
especialmente dos Dominicanos de Lisboa, cuja webpage está alojada
no TriploV. Poderíamos então pensar que a tendência
para um texto limitar o seu campo de audiência a um grupo de confrades
é própria dos que escrevem sobre alquimia, por exemplo,
e que a vocação ecuménica é própria
dos frades. Ora não existe nenhuma relação entre
os termos: um frade pode limitar a audiência ao seu próprio
ouvido, e um iniciado pode alargá-la a quaisquer orelhas da Terra.
Aliás é notório, em toda a Internet, que as sociedades
secretas, embora reservando às vezes o acesso aos seus portais,
os mantêm em público e em público recrutam membros.
Este fenómeno, facilitado pela liberdade de acção
no ciberespaço, decorre no entanto da liberdade que a democracia
tem criado em muitos países. O ciberespaço é realmente
um espaço, um depósito de informação. O principal
desenvolvimento do TriploV tem sido esse: de trinta megabytes fomos alargando
para o actual gigabyte, porque eu preciso de muito espaço para
trabalhar à vontade. Temos uns milhares de ficheiros disponíveis,
com muitos assuntos e mesmo imagens que aparecem nos primeiros lugares
do Google. Esse é o aspecto mais importante do ciberespaço,
a sua capacidade de armazenagem, e em consequência o grande número
de pessoas que beneficiam da consulta. Diferentemente de uma biblioteca,
em que um número restrito de pessoas vai tornando livros acessíveis
ao público, no ciberespaço há uma monstruosa tarefa
colectiva, visando dar aos outros um património cultural. Como
em qualquer outra biblioteca, dá-se o bem e o mal. Nem outra coisa
seria de esperar de nós, humanos e não deuses.
3. Interactividade
Numa época em que se valoriza tanto a interactividade, é
curioso verificar que no TriploV ela só se exerce através
do email e da colaboração. Foram instalados, retirados,
reinstalados e esquecidos forum, chat, blog, galeria de fotos, etc., tudo
dispositivos que permitem aos cibernautas entrar em contacto uns com os
outros e depositar directamente a sua colaboração. Recebemos
mais de dois mil e quinhentos PCs por dia, esse número aumenta
todos os meses, parecendo então medida útil a instalação
de dispositivos interactivos. Realmente ninguém os utiliza, e não
vale a pena perder tempo a indagar os motivos, eles decorrem da natureza
do sítio. O TriploV é um depósito de material artístico
e ensaístico de nível elevado, para jovens e adultos, não
para classes etárias inferiores. Os ensaios prestam serviço
de formação literária e científica. A arte
cumpre a sua função de criar conhecimento, dar prazer e
alargar o campo da consciência. Nada disto precisa de mecanismos
interactivos provocados artificialmente, a interactividade exerce-se de
forma espontânea no plano afectivo, estético e intelectual.
Pensando melhor, acabei por abandonar
essas experiências, por as considerar inadequadas e me sentir desacompanhada.
Os artistas plásticos usam a Internet como galeria, não
criando para esse meio com as ferramentas do ciberespaço. Ainda
não conhecem o potencial das novas tecnologias. É o caso
de Pedro Proença, apesar de este pintor-escritor-músico
até criar obras destinadas especialmente ao TriploV. Quem quer
colaborar pode fazê-lo da maneira que escolhe, e a opção
é o envio de trabalhos para publicação.
4. Espaço
desierarquizado
O que alia no site pessoas tão diferentes na formação
e nas crenças? Diria que é o agrado por se sentirem numa
assembleia de pares, independentemente de uns pares serem escritores,
outros pintores, outros frades, outros esoteristas, outros cientistas,
e outros filósofos e historiadores das ciências. Neste ponto
observo que as referências dos ensaístas são as mesmas,
e que é o mesmo o paradigma em que se movem os cientistas. Existe
uma globalização intelectual de topo que faz com que a formação
de um universitário chileno seja a mesma de um seu par português
ou brasileiro. A cultura universitária é comum a todos,
escusado esperar por alguma originalidade própria de cada nação.
Do lado da ciência normal, escusado esperar por alguma atitude pessoal
que se afaste do consenso do grupo. E no entanto há muita matéria
subversiva no TriploV, que eclode no seio do próprio grupo. Embora
a única diferença notável entre nós seja a
linguística, é evidente que o TriploV é um espaço
de grande originalidade, que provém da singularidade de cada um.
Provém ainda do contraste entre os grupos em presença. O
que domina a cultura e a ciência, hoje, é a especialização.
A especialização isola os grupos e cria hierarquias muito
duras. O facto de o TriploV ser multidisciplinar anula a possibilidade
de uns grupos se tornarem liderantes em relação a outros.
O TriploV não é uma revista, a actualização
é quase diária e eu não retiro textos do ar, vou-os
armazenando, como numa biblioteca. O núcleo de colaboradores conhecidos
pessoalmente dos três coordenadores, Maria Alzira Brum Lemos, no
Brasil, José Augusto Mourão e eu em Portugal, é muito
inferior ao total. Na maior parte, os construtores do TriploV tomam espontaneamente
a iniciativa de se agregar a nós. Em geral são escritores
e professores universitários. A sua produção está
a ser utilizada em abundância, o que se nota no número de
páginas consultadas e na presença que se começa a
sentir de referências a páginas do TriploV em trabalhos curriculares.
Porém nada disto constitui nódulo ideológico, nada
disto se apresenta como dispositivo controlador ao serviço de dado
paradigma. O mais importante factor que impede o controlo intelectual
é o facto de o espaço do TriploV não estar hierarquizado.
Não existe nenhuma liderança, eu sou proprietária
do site, colaboradora e webmaster, mas não lidero e nem faço
grande triagem dos trabalhos, não é preciso. Desinvesti
o termo “editorial” do peso directivo que habitualmente tem,
quer como género jornalístico, quer como manifesto de um
único chefe. Qualquer texto novo que apareça pode ser apresentado
como editorial. Esta estratégia desinveste-me a mim de protagonismos
e acentua a paridade geral. Porém a paridade é díspar,
pois nada impede que um conto, uma homilia ou uma exposição
de artes plásticas apareçam debaixo do rótulo “editorial”.
A consequência, para além de os pintores e escritores se
sentirem respeitados, é a de evitar que o peso da arte possa ser
maior que o da ciência, e menor que o desta o da religião.
A todas as modalidades de expressão e saber é conferido
o mesmo valor. A desierarquização é promovida pela
presença do diferente, aquele que em situação normal
não é um par: o poeta não é considerado um
dos seus pares pelo cientista, o alquimista não considera o cientista
um dos seus pares, e o católico pode considerar o maçon
um dos seus semelhantes, mas não o considera um dos seus confrades.
O inverso também é verdadeiro. Estas pessoas coabitam em
paz, denunciam às vezes os seus diferendos, mas não se hostilizam.
Agrada-lhes o convívio, quanto mais não seja por implicar
uma assembleia sem fronteiras nacionalistas nem de paradigma. A ciência
pode fazer arte mas não o reconhece, isto é, a ciência
não reconhece a existência de uma dimensão literária
no texto científico. O que reconhece, podendo nem existir para
os escritores, é a dimensão estética dos seus contos
e romances. Já a arte busca a ciência em plena consciência,
e em plena consciência usufrui dos benefícios que lhe proporciona
a tecnologia. Aliás, a arte é consciência. No TriploV
há muita matéria científica e sobre a ciência
que põe a nu problemas passíveis de interpelar a consciência,
a nossa noção de responsabilidade. Estão neste caso
os trabalhos de História Natural e sobre o naturalismo. Eles constituem
o núcleo principal do site. Faz parte dele o Zoo_Ilógico,
com ilustrações coligidas na maior parte na literatura científica
do século XIX. Temos também um directório de Herpetologia,
com fichas de espécies de Portugal e antigos territórios
portugueses da África ocidental. Estes trabalhos são um
dos elementos mais fortes da desierarquização. Julgo que
o repúdio da hierarquia controladora, por estimular o livre pensamento,
favorecer a vontade de crítica, é o principal atractivo
do TriploV. Os autores sabem que podem falar livremente, benefício
de que nem todos gozarão nos meios normais de comunicação
nos seus países. E mesmo fora deste regime de voz controlada, é
decerto aliciante falar num registo livre dos constrangimentos do bem
parecer social, do bem merecer pelo currículo literário,
do bem estar com quem nos assegura o ordenado. A este nível de
liberdade de expressão, já o autor não reside decerto
no habitáculo do familiar, do bairro, da universidade onde é
docente, nem do próprio corpo como destinador e receptor da mensagem,
sim no ciberespaço propriamente dito, aquele em que reina o anonimato
apesar da eventual celebridade nacional, o do virtual que não é
um parecer, sim um ser passível de gerar uma consciência
alargada ao nosso semelhante, independente da piedade pelo nosso vizinho,
por incidir em abstracto no que não se conhece, mas se sabe que
é planta, animal, pessoa ou célula de um mesmo organismo,
o Planeta.
* Texto apresentado no forum “Tecnologia,
Arte e Consciência”, integrado nas Comemorações
dos 150 Anos do Instituto Superior de Engenharia do Porto (Portugal).
ISEP, 21 de maio de 2004.
©
Copyright by Maria Estela Guedes, 2004
LEI
Nº 9.610,
DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998
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Midi: Pavana (I. M.) |