“Patriotas” – esclarece Joaquim Felício
dos Santos, em
“Memórias do Distrito Diamantino” -, eram chamados
os maçons adeptos da república. M. Gomes
Sala dos passos perdidos
O discurso maçónico infiltrado
no científico, ou num poema, tem por consequência excluir
os profanos do acesso à informação. Porém
nenhum texto é simples, elaborado num código único:
ao código que é dada língua natural juntam-se mais,
vindos de outras línguas, ciências ou calões. A
simbólica oriunda das sociedades iniciáticas não
é o único elemento que interfere na transparência
ideal do discurso do naturalista, mas deve ser o mais perturbador, porque
a tarefa de a descodificar não soluciona os problemas que levantou,
e por isso não restabelece a normalidade das relações
entre leitor e autor.
No texto científico não lidamos com enunciador nem com
personagens, sim com um autor, uma pessoa de quem esperamos lealdade
e franqueza. Estamos preparados para compreender cientistas que erram,
não estamos preparados para os que mentem, dissimulam a verdadeira
informação ou se limitam a fazer humor. Tudo isso exclui
o leitor do acesso à informação, e ninguém
admite que tenha sido excluído.
Quando o autor não é claro, directo e franco em matérias
sobre as quais não há hipótese de controvérsia
- a situação geográfica de Coimbra não pode
variar no mapa segundo o desejo de cada um (Augusto Nobre localiza essa
cidade no Douro, entre mais metáforas ou transportes de sentido)
-, gera-se o caos. E nessa altura passamos a mover ao autor um processo
de intenções. Não conseguiremos interpretar a informação,
sem resposta a estas perguntas: com que intenção inclui
Júlio Henriques o psicómetro entre os instrumentos de
meteorologia? Com que intenção criaram os malacologistas
a personagem de José da Silva e Castro, neste momento sem identidade
que permita considerá-la uma pessoa? Com que intenção
alteram os naturalistas as coordenadas geográficas de ilhas e
outras localidades? Com que intenção mudam continuamente
os caracteres ortográficos dos nomes e os nomes de certas espécies?
A semiótica e outras disciplinas de exegese do texto remeteram
o autor para um plano secundário, donde não têm
instrumentos para estudar intenções. Eis um problema interessante,
porque, passemos agora para o romance ou para um poema, sem instrumentos
para analisar o autor, ficamos privados de saber quando faz ironia,
e a ironia, como se sabe, é um procedimento contrário
à expressão da verdade. Realmente não é
possível ter a compreensão global de um texto literário
sem saber com que intenção, com que disposição
de espírito foi escrito. O problema torna-se mais sério
com o texto científico, impregnado por uma retórica que
nos recusamos a ver, por termos dele a imagem de um comunicado puro,
em absoluto isento de interferências devidas ao desejo. Os textos
científicos habitualmente analisados no TriploV, ao contrário
do que esperaríamos, são textos desejantes. O principal
desejo que os impregna é o de serem cristalinos para uns leitores,
e secretos e dissuasores para outros.
Para abrir os textos à compreensão dos interessados, numa
época em que já se alcançou a democratização
do ensino, é necessário instruí-los nos modos de
ler. Eis a missão que venho cumprindo à escassa luz da
minha candeia, e outra melhor não parece que exista, pelo menos
nas universidades.
Dada a presença de simbologia carbonária nos naturalistas
luso-brasileiros do século XVIII, formularei hoje a inevitável
pergunta: onde foram iniciados os filósofos naturais, e por quem?
Na Universidade de Coimbra, pelo Venerável Mestre Domingos Vandelli,
eis a antecipada resposta.
i. Repressão e códigos secretos
No texto dos naturalistas há marcas maçónicas.
Primeira ilação a tirar, com as reservas devidas à
citação laica: se assim procedem, é por serem maçons
que desejam vir a ser reconhecidos pelos seus confrades, não
só coevos, como futuros. Conclui-se então que no trabalho
científico existe informação reservada. Se fosse
divulgável a todos, não havia necessidade de segredos.
Existindo, quer dizer que a ciência é usada para dupla
finalidade. E se tal acontece é porque o texto se inscreve num
contexto de censura e repressão. Assim sendo, o código,
com as suas assinaturas de números 3, 33 ou 666, entre mais,
obriga-nos a encarar os textos como actos de subversão contra
esse Poder que não autorizaria a missão de que resultam,
se a conhecesse inteiramente.
Em Portugal, nos últimos trinta anos do século XVIII,
anos em que aparecem textos de História Natural com assinaturas
carbonárias, os principais aparelhos repressivos eram a Inquisição,
que visava os inimigos de Roma, e a polícia política,
a defender-se das ideias da Revolução Francesa, fomentadas
pelos filósofos libertinos: Rousseau, Diderot, Voltaire, Montesquieu,
etc.. Além de judeus e outros elementos sociais perigosos, os
aparelhos repressivos têm na mira os maçons. Os pedreiros-livres
atacavam a Igreja com o anti-clericalismo e com a filosofia do naturalismo,
a negar a existência do sobrenatural; e atacavam as monarquias
com o tríplice programa de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Em 1946, data do segundo exemplo de texto naturalista com marcas carbonárias
que vou apresentar, a Maçonaria era de tal modo combatida por
Salazar, que só nos últimos vinte ou trinta anos tem recuperado
a face visível de um antigo esplendor em que era público
o facto de haver governos quase integralmente constituídos por
maçons. Em 1929, a Polícia assaltou o Grémio Lusitano,
houve prisões e os arquivos do Grande Oriente Lusitano Unido
foram destruídos. Determinou-se a triangulação
imediata de todas as lojas. De acordo com Oliveira Marques, "Queria
isto dizer que o número de obreiros de cada loja seria dividido
por cinco, desmembrando-se essa loja em tantos triângulos quantos
os resultantes do quociente da divisão. Em vez de reuniões
magnas, de dezenas de pessoas, facilmente detectáveis pelas autoridades
ou pelos seus espiões, passaria apenas a haver pequenos conciliábulos
de cinco indivíduos no máximo, possíveis de realizar
em residências particulares e até em locais públicos
como cafés e restaurantes."
Em suma, a maçonaria passa à clandestinidade e entra em
declínio. Em 1935, Fernando Pessoa escrevia um artigo no Diário
de Lisboa que gerou imensa polémica, no qual criticava um
projecto de lei, que, diz ele, estabelece várias e fortes
sanções (excepto pena de morte) para quantos pertençam
ao que o seu autor chama “associações secretas,
sejam quais forem os seus fins e organização”.
Ainda é do meu tempo a piada a um regime que proibia reuniões
de mais de duas pessoas. O simples facto de a maçonaria ser associativa
já é motivo para atemorizar o Poder. Se a este associativismo
acrescentarmos a sua capacidade de mobilização, patente
nas obras sociais – associações de socorro mútuo,
clubes, academias, hospitais, sociedades de beneficência, etc.
– fica mais sério o seu contra-poder. É claro que,
sob censura, os intelectuais recorrem a toda a espécie de artifícios
para baterem o pé, gralhando raivosamente toda a nomenclatura
científica, quando o texto não permite mais do que isso
- e isso quer dizer: "Não ao Systema Naturae, isto
é, Não ao sistema!".
Se permite, um modo simples de falarem, parecendo mergulhados no mais
profundo siêncio, é o recurso à linguagem literária,
na qual, entre mil formas de legibilidade e ilegibilidade, cabe a argótica
das ordens maçónicas. Em tempos autoritários, em
que não há liberdade de expressão, a generalidade
dos textos que circulam está impregnada por códigos passíveis
de dividir o público em dois sectores: os que entendem o que
se diz nas entrelinhas por pertencerem à mesma paróquia,
e os que pertencem à paróquia dos polícias e espiões.
A estes, deseja-se que não tenham a chave do código, ou
quem envia a mensagem arrisca-se ao exílio. Foi o que aconteceu
a uma dezena ou mais de professores expulsos da Universidade, no tempo
de Fernando Frade.
As novas ideias que pairavam nos céus da Europa, na segunda metade
do século XVIII, eram o movimento maçónico, como
o classifica Georges Gusdorf, no volume IV de “Les sciences humaines
et la pensée occidentale”. Esse movimento hasteia a bandeira
do liberalismo, destruidor das monarquias e da Igreja, e ainda hoje
é sob o estandarte da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que
assina as suas pranchas. Em Portugal, este período é cosmopolita,
penetrado por ideias vindas do exterior através dos estrangeirados:
havia um grande vaivém motivado por fugas, expulsões,
exílios, e também bolsas de estudo concedidas por um período
de dez anos a brasileiros cheios de ímpeto independentista, para
que fossem apurar-se nos centros iluministas europeus, o que é
extraordinário, se pensarmos que no Brasil os livros só
entravam depois de revista na alfândega, não havia jornais
nem ensino superior. Nesse cosmopolitismo, contemos ainda os estrangeiros,
como Vandelli, chamado pelo Marquês de Pombal a leccionar História
Natural e Química na Universidade de Coimbra, reformada sob o
seu governo. Aparecem pela primeira vez no nosso país os laboratórios
de Química e Física. E como é pela primeira vez
que há ensino experimental, e aulas de Química dadas por
Vandelli (ver nota com lista de alunos), também é decerto
pela primeira vez que no Laboratório de Química têm
lugar escandalosos ágapes, que teriam mais a ver com desafios
carbonários do que com o programa da cadeira, como se adivinha
do que passo a citar:
Entre os estudantes com quem [Manuel Joaquim Henriques de Paiva,
sobrinho de Ribeiro Sanches] convivia em Coimbra figuravam aqueles
- entre eles o poeta brasileiro António Pereira de Sousa Caldas
e o futuro higienista e também poeta Francisco de Melo Franco,
igualmente brasileiro que, acusados de Hereges, Naturalistas, Deístas,
Blasfemos, Apóstatas, Tolerantes, Dogmáticos, de não
seguirem o preceito de abstinência da Quaresma, reunindo-se, alta
noite, em casa uns dos outros, e às vezes no Laboratório
de Química, de que Manuel Joaquim habitava uma dependência,
para comerem presuntos roubados, de lerem pelo Autor Rousseau e outros
Hereges, etc., foram, de sambenito, ao Auto de Fé que na Sala
do Santo Ofício em Coimbra, se celebrou a 26 de Agosto de 1781
(M. L. Almeida, “Documentos da Reforma Pombalina”, Coimbra,
1937).
Somando todas as acusações
– naturalistas, deístas, tolerantes, etc. -, o resultado
dá maçonaria. É de serem maçons que estes
estudantes estão a ser realmente acusados. Não lhes aconteceu
nada de muito grave, pois em 1781 já o Tribunal da Inquisição,
em Portugal, agonizava, e agonizava em parte devido ao facto de as novas
ideias terem penetrado nele: muitos clérigos e políticos
eram maçons. Em todo o caso, os estudantes sofreram o vexame
do sambenito, avental dos condenados, e tiveram de ouvir repreensões
de um tribunal religioso.
Duas acusações merecem ser retidas: naturalistas, pois
todos eles deviam frequentar o curso de Filosofia Natural, donde seriam
naturalistas de formação universitária, o que é
paradoxal; e tolerantes. A tolerância é central na maçonaria
e costuma vir à baila quando se discute a existência ou
inexistência nela de doutrina. A maçonaria é ou
não uma religião? Não é, porque não
tem doutrina, eis uma resposta possível. Na polémica decorrente
do projecto de lei a castigar as sociedades secretas, cujos textos Petrus
reuniu sob o título “Hyram”, um dos pontos discutidos
gira precisamente em torno da tolerância, o grande princípio
doutrinário dos maçons (Fernando Pessoa, “Hyram”,
Porto, 1935).
Uma parte significativa da população estudantil, em Coimbra,
a partir de 1777, era constituída por portugueses nativos do
Brasil. Os que vieram a notabilizar-se, quase todos foram alunos de
Vandelli, porque mesmo os estudantes de Leis frequentavam as aulas de
História Natural e Química. É o que acontece com
o maior dos políticos da independência do Brasil, José
Bonifácio Andrada e Silva, naturalista a quem se deve a descrição
de novas espécies de minerais para a ciência. Em Coimbra,
regeu a cadeira de Metalurgia, criada expressamente para ele. A bem
dizer, todos os políticos da época foram naturalistas,
porque todos tiveram a mesma formação, como deixa claro
Alex Varela na sua tese de mestrado, ao falar de José Bonifácio:
Em 1780, viajou para Portugal, matriculando-se na Universidade de
Coimbra nos cursos de Direito Canônico e Filosofia Natural. Naquele
espaço, ele e os seus dois irmãos, todos membros da elite
colonial, juntaram-se às elites cultas da metrópole que
ali estudavam, onde juntos leriam as mesmas obras e receberiam a mesma
formação (Varela, 2003).
Exceptuando então os que se formaram no estrangeiro, a élite
criadora da independência do Brasil passou toda sob a lupa do
professor paduano. E é bom insistir em que a separação
não era apenas vontade dos nascidos no Brasil, também
estava no espírito de portugueses como o Visconde de Barbacena,
governandor de Minas Gerais, cujo papel na Inconfidência Mineira
é bastante singular, uma vez que hospedava em casa o ideólogo
do Tiradentes, José Álvares Maciel. Pelos autos da devassa
vemos que Barbacena, ex-aluno de Vandelli também, sabia que se
preparava o levante, e por diversas vezes tinha apanhado Maciel em flagrante
delito de leitura de textos proibidos, a constituição
dos Estados Unidos da América (Guedes, 1999).
Voltando atrás: a bolsa na Europa de que beneficiou por exemplo
José Bonifácio Andrada e Silva não é só
extraordinária pela duração de dez anos, mas também
porque aos nativos do Brasil não eram atribuídos cargos
de relevo. Vejamos com algum pormenor: enquanto equipas de filósofos
naturais tinham partido em 1783 para as colónias, como aconteceu
a João da Silva Feijó, em 1790, um grupo de bacharéis
partiu em viagem de dez anos pela Europa, com bolsa do governo, justificada
pela necessidade de aperfeiçoamento. Em princípio, são
três os viajantes-naturalistas: José Bonifácio de
Andrada e Silva, Manuel Ferreira da Câmara, e Joaquim Pedro Fragoso.
Isabel Cruz acrescenta Silvestre Pinheiro Ferreira, jurista da independência
do Brasil, a que chama “viajante sombra”, por ser secreta
a sua participação. Dez anos de bolsa para aperfeiçoamento
é uma cobertura para a verdadeira tarefa destes homens: a de
estabelecerem uma rede de informação e contactos diplomáticos
na Europa, como se lê em Alex Varela, quando se refere às
instruções do governo dadas aos naturalistas-viajantes:
Na Instrução vinham determinados os locais por onde
os filósofos deveriam passar. O percurso, longe de ser delineado
arbitrariamente, era estipulado pelo poder administrativo. E, em segundo
lugar, contariam com uma ampla rede de diplomatas por todos os locais
que visitassem, facilitando a entrada e permanência nos países
estipulados pelo poder régio (Varela, 2003).
Essa rede foi decerto pensada de maneira a levar os naturalistas às
grandes lojas, onde se teriam aperfeiçoado, e ganho apoio para
a futura independência do Brasil. Aliás, é conhecido
o caso de José Joaquim da Maia, que estudava num dos mais célebres
centros maçónicos da época, a Universidade de Montpellier.
Este jovem, já em 1776 tomara a iniciativa de escrever a Thomas
Jefferson, então ministro dos Estados Unidos em França,
a pedir ajuda para a independência do Brasil. Thomas Jefferson
encarou seriamente o assunto, combinando com ele um encontro.
A movimentação é grande, nesta época de
estrangeiros e estrangeirados, e de várias maneiras impulsionada
por Vandelli, que não se limitava a ser professor de História
Natural e Química. Além da rede de informações
há outra a considerar, a familiar, e não me refiro à
família maçónica, sim à das ligações
de parentesco originadas no meio académico, necessariamente mais
limitado que o de hoje, e por isso gerador de uma élite muito
mais cerrada: José Bonifácio e os irmãos constituem
uma rede. Essa rede alarga quando absorve os Vandelli pelo casamento,
pois o naturalista Alexandre Vandelli, filho de Domingos Vandelli, casou
com uma filha de José Bonifácio de Andrada e Silva, e
no Brasil terminou os seus dias; o Visconde de Barbacena, que sabia
da Inconfidência Mineira, por ter em casa o naturalista José
Álvares Maciel, ideólogo do Tiradentes, era padrinho de
uma filha de Domingos Vandelli. E há muito mais casos de rede
familiar que em geral não são levados em conta pelos historiadores,
por questões de metodologia e paradigma. As diversas Histórias
estão separadas, a História da Maçonaria pouco
ou nada sabe de naturalistas, a História dos naturalistas leva
pouco em conta a política e nada sabe de maçonaria, e
finalmente as tendências da semiótica e outras disciplinas
de exegese dos textos excluem a biografia dos autores, quando é
nítido que as redes familiares constituem núcleos de poder
e acção.
Face às facilidades concedidas aos naturalistas luso-brasileiros
para se movimentarem pela Europa, conclui-se que havia um sector na
liderança portuguesa a preparar altos quadros entre os nativos,
contra a orientação geral da Coroa. A Coroa impedia que
florissem movimentos de independência, não promovendo o
ensino nas colónias nem permitindo que os nativos ocupassem postos
importantes. No entanto, as Luzes funcionavam. A instrução
dada em escolas invisíveis é evidente na Inconfidência
Baiana: ao contrário da Mineira, em que só apareceram
à tona intelectuais, na Revolta dos Alfaiates a cúpula
da revolução ficou oculta, e só foram presas pessoas
humildes. Humildes embora, e a despeito de o ensino público ser
fraco ou nulo, quase todos os revoltosos sabiam ler e escrever (Mattos,1998).
Perguntemos que movimento lutava pela instrução pública
e laicização do ensino, pelo acesso das mulheres à
escola e ao voto, e ficaremos a saber em que invisíveis escolas
foram os baianos ensinados. A loja é uma escola, em que o aprendiz
avança até ao mestrado. Pessoas capacitadas para ensinar
eram os naturalistas, e no caso dos que viajaram para as colónias,
o ensino de novas técnicas às populações
locais fazia até parte dos seus encargos. Ambas as revoltas foram
movidas pela maçonaria republicana, como declara Manoel Gomes:
a Inconfidência Baiana seguiu a linha da Revolução
Francesa, ao passo que na Mineira os olhos estavam postos nas leis americanas.
Seguindo o seu rasto, vemos os estudantes que passaram pelo Laboratório
de Química implicados na Inconfidência Mineira, como José
Álvares Maciel, que iniciou o Tiradentes na maçonaria;
na Inconfidência Baiana, como José da Silva Lisboa, que
andou pelos vales do recôncavo baiano à procura de miríficas
minas de cobre (Guedes, 2002); o naturalista José Bonifácio
de Andrada e Silva não é só o patriarca da independência,
ele é também o patriarca da Maçonaria do Brasil.
O nome dos naturalistas ora surge nos autos de devassa de processos
políticos, ora nos registos maçónicos. Em 1822,
José Bonifácio fundou o Apostolado da Nobre Ordem dos
Cavaleiros da Santa Cruz, loja de inspiração carbonária
na qual iniciou o imperador, D. Pedro I. Segundo Castellani, o Apostolado
Era uma organização nos moldes da Carbonária
européia, cuja atuação Bonifácio bem conhecera,
durante os anos em que permaneceu na Europa. O corpo principal da entidade
era a Palestra e seus membros também adotavam nomes simbólicos,
ou heróicos, como os maçons. Os integrantes do Apostolado,
que se tratavam como camaradas, dividiam-se em quatro categorias, que
eram, em sentido ascendente: a dos Recrutas, a dos Escudeiros, a dos
Cavaleiros e a dos Apóstolos. Os profanos eram chamados de paisanos.
José da Silva Lisboa, Visconde de Cayrú, foi suspeito
de participar em escandalosos banquetes numa Loja de São Salvador,
segundo Pedro Calmon, na sua “Historia da Bahia”. O escândalo
deve ter sido da mesma ordem daquele que os estudantes de Filosofia
Natural exercitavam no Laboratório de Química, onde se
dedicavam à comezaina mais do que ao aperfeiçoamento espiritual,
já que o laboratorium é local de labor e oração.
Por mais que se queira, não é possível trabalhar
em compartimentos estanques com este indivisível triângulo:
naturalismo, maçonaria e liberalismo.
A trajectória política de Portugal e Brasil, como seria
de esperar, foi traçada na Universidade de Coimbra e na Academia
Real das Ciências de Lisboa. Não havia mais nenhuma universidade
e a Academia das Ciências era a máxima representação
da intelectualidade portuguesa. Os homens de Coimbra são os de
Lisboa e nesta época as academias e arcádias nascem da
acção maçónica. Vandelli está presente
nas instituições culturais nascentes, e sucessivamente
em outras bem mais importantes, como deputado da Junta do Comércio,
como conselheiro do Regente, ou mesmo como director do Real Jardim Botânico
da Ajuda, centro logístico das viagens filosóficas. Vemos
Vandelli a estudar à lupa os seus alunos, de modo a fazer uma
triagem perfeita, vemo-lo ainda interessado na criação
de sociedades, cuja designação franca seria "vendas".
Em carta de Coimbra, para Barbacena, escreve ele: Em minha casa
em um dia de cada semana se farão algumas conferências
sobre algumas experiências, ou observações que se
devem fazer, e viagens, e para também dispor em outras partes
Sociedades; nestas conferências somente virão os dos meus
discípulos nos quais acho talento, génio, e amor patriótico.
Dos resultados destas conferências com o tempo darei parte a V.
Exª. (Alexandre Vandelli, 1927).
Com que intenção havia um professor de seleccionar os
alunos pelo amor patriótico? E a que pátria de portugueses
nascidos no Brasil se referiria um italiano naturalizado português?
O conceito de patriotismo faz parte do dicionário maçónico,
e muito em especial do carbonário. Tal como lemos na epígrafe
deste ensaio, patriota era o maçon adepto da república.
Ora o mais típico maçon republicano é o carbonário.
Depois de escolhidos só os alunos patriotas, Vandelli convoca-os
para conferências na sua residência particular. Barbacena,
sabendo melhor do que nós o que Vandelli e ele congeminam, responde
à carta do seu ex-professor, aplaudindo as sociedades económicas
a fundar em Coimbra, em Braga e em Valença. Sociedades económicas,
eis uma forma discreta de dizer lojas e vendas, espaços onde
se compra e vende. Sem dúvida, os lugares de reunião de
maçons e carbonários podem com toda a propriedade designar-se
por sociedades económicas.
Manoel Gomes, nada sabendo de naturalistas, nem tendo, em aparência,
conhecimento de quem eram os professores na Faculdade de Filosofia,
esclarece a situação, quando fala de Maciel, um dos alunos
de Vandelli: José Álvares Maciel, educado na Europa,
possuía rara cultura geral, de literatura jurídica e filosofia,
tendo-se formado pela Universidade de Coimbra, em Filosofia (Física,
Química e História Natural). Foi um dos doze estudantes
brasileiros que, em Coimbra, em reunião maçônica,
assumiram, sob juramento, o compromisso de empregarem todos os recursos
possíveis para alcançarem a independência do Brasil.
Parece então que os notáveis da independência do
Brasil foram iniciados em casa de Domingos Vandelli ou mesmo no Laboratório
de Química da Faculdade de Filosofia, em Coimbra.
O facto de Vandelli ser maçon aparece nos registos históricos
sobretudo a propósito da Setembrizada, quando foi desterrado
para os Açores com outros notáveis, sob a suspeita de
jacobino. Sabemos que a Royal Society of London, instituição
maçónica, fundada sobre estatutos oriundos d' "A
Nova Atlântida", de Francis Bacon, intercedeu por ele, de
forma que depressa saiu da Ilha Terceira para seguir com Alexandre,
o filho, para Londres. Corre também a declaração,
fruto de equívocas intenções que tornaram Domingos
Vandelli uma personagem maldita, de que foi ele quem introduziu a Maçonaria
em Portugal. As primeiras lojas de que temos notícia abriram
em Lisboa uns trinta anos antes de Vandelli, em 1764, ter desembarcado
em Portugal.
Tendo em conta o cenário apresentado e o facto de que um dos
alunos de Vandelli, José Bonifácio Andrada e Silva, vem
a fundar no Brasil uma ordem carbonária, legítimo será
concluir que foi na Maçonaria Florestal Carbonária que
Vandelli iniciou os discípulos.
ii. João da Silva Feijó,
1783
Em 1783 partem para as colónias
equipas de filósofos naturais, com o propósito de averiguarem
quais os seus limites e riquezas e de nelas implantarem indústrias.
João da Silva Feijó é encarregado de explorar Cabo
Verde e a actual Guiné-Bissau. Em cartas dirigidas a Júlio
Mattiazzi, queixa-se de ser vítima de ameaças de morte,
e acusa os despóticos das ilhas. Um dos combates da maçonaria,
já o sabemos, é contra o despotismo, em favor da liberdade,
igualdade e fraternidade. Parte dos textos de Feijó foi
publicada no jornal “O Patriota”, editado no Brasil, numa
época em que a palavra “patriota” era sinónima
de “republicano”. Em Portugal, a Carbonária é
conhecida por ter sido o principal motor da implantação
da República.
Por motivos diversos, a bibliografia de Feijó é subversiva,
como já tive ocasião de apontar (Guedes & Arruda,
2000). De entre os seus muitos problemas, selecciono o uso anómalo
ou em situação anómala do termo “carvoeiro”.
Carvoeiros e Carbonários, palavras com a mesma raiz carbono,
são designações dos Bons Primos, e BB.’.
PP.’. são os IIr.’. que pertencem à Maçonaria
da Madeira, ou Maçonaria Florestal. Em artigo publicado n’
O Patriota, Feijó menciona a existência em Cabo Verde de
umas aves a que chama “escarvoeiros”. Ninguém sabe
a que aves se refere, partindo do princípio de que esteja a falar
de pássaros e não a usar a língua das aves para
referir os Carbonários.
No manuscrito intitulado “Itinerario Flosofico...”, que
contém o primeiro relato conhecido de uma erupção
vulcânica na ilha do Fogo, Feijó risca e emenda o topónimo
“Carvoeiro”, para ora surgir a palavra “Escarboeiro”,
ora “Garboeiro”. Como assinalo em nota de rodapé
do artigo em que Luís Arruda e eu divulgámos parte deste
ensaio, por vezes Feijó sobrepõe um C ao G, o que propicia
dupla leitura, uma delas subordinada à protecção
de G. A capital G, presente às vezes na iconografia, à
maneira de delta radiante, anuncia a glória do GADU, Grande Arquitecto
do Universo, por extenso.