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ESTUDOS E COMENTÁRIOS CRÍTICOS |
Leveza e angústia
para falar do prazer carnal
Sônia
van Dijck |
Falando a respeito
de O que resta dos mortos, eu disse sobre o fazer literário
de Políbio Alves: Esse paraibano, cidadão carioca, amante de Cuba e sempre bem recebido naquela Ilha, desde que estreou em 1983, com O que resta dos mortos (em segunda edição: João Pessoa: FCJA; Ed. Universitária, 2003), vem abrindo seus caminhos no mundo literário com muito trabalho e competência, e tem sido recompensado graças aos inúmeros prêmios que tem conquistado. |
João Pessoa; Edições Ler, 1991 Capa: Marcos Nicolau |
Participante de antologias
no Brasil e no exterior, Políbio Alves acaba de ter mais uma
de suas obras traduzida. Desta feita, trata-se da tradução
para o inglês de Exercício lúdico: invenções
e armadilhas, realizada pela Profa. Bárbara de Fátima
Alves de Oliveira, da Universidade Federal do Tocantins, como parte
de um projeto de divulgação da Literatura Brasileira.
Muitos se alongam em falar das dificuldades da tradução. Mas, desde que Políbio me contou que Bárbara realizaria esse projeto, fiquei pensando na coragem dessa leitora da obra polibiana, pois, desde o título, Exercício lúdico: invenções e armadilhas, o poeta deixa claro que vamos mergulhar no jogo de velar e revelar, de confirmação e negação, de aceitação e recusa, a que me referi no início, sabendo que a única saída é o poema, conforme está anunciado na epígrafe colhida em Octavio Paz. Ler Exercício lúdico: invenções e armadilhas é folhear um inaudito Álbum de Família, anunciado no poema de abertura. O leitor, todavia, não encontrará exatamente “retratos” nesse álbum, pois o discurso lírico de Políbio, em insultuosa escritura, estará voltado para a humanidade, que, enquanto família, tem como traços de identidade a solidão, a perda, o desejo, o encontro, o gozo, a busca. Nesse álbum, os retratos são de intimidades, entrevistas mesmo Na antemanhã dos cúmplices ou denunciadas n’ a bermuda desbotada/ convulsa no armário. Discutindo seu próprio lirismo em momentos de metalinguagem exemplar, o poeta privilegia o banal e lhe atribui estatuto poético, e, assim, a escova de dentes, os cadarços, a bermuda desbotada ou a roupa lavada transmutam-se em matéria de pura poesia. Graças a esse expediente, Políbio pinta uma natureza-morta em “Perspectivas”, cuja mesa remete a cama, tanto quanto a devoração da salada é marcadamente erótica, em via-sacra de domingos/e aguerridos feriados. Por falar em erotismo, e para não me alongar muito, destaco da segunda parte do livro “Cavalo de verão”: descoberta, encontro, cópula, gozo, em poucos versos que insinuam até que, em feliz aproveitamento gráfico, tudo se completa no interior de parênteses, em um jogo de ritmo que só o leitor ingênuo pode interpretar como cavalgada inocente. Na verdade, o erotismo sugerido na primeira parte do livro explode em posse e em gozo na segunda parte, travestido em metáforas que emprestam à obra polibiana delicadeza e leveza, no trato do prazer carnal. Quando o texto bate forte como soco no estômago, seu tom naturalista se mistura com a angústia, e o Eu lírico pede desculpa pela crueza da situação, como em “Boy”. Se fosse levantar as isotopias da marginalidade, do pecado, da angústia, entre outras, encontraria como argumentar que, nesse livro, o prazer é marcado pela dor desse gozo que se diz maldito. Só para ilustrar, lembro expressões como solidão estática, noites de lobisomem, pasto rubro, precoces hienas, cruel desígnio, e, para não ir mais longe, destaco a fortíssima incesto, cujo sentido se amplia de forma intensa. Melhor do que qualquer crítica literária que eu possa cometer, disse o poeta em “Antes fosse mortal”: Somos agora o instante/o desespero, o vazio,// a cãibra, a febre/que reside no cio,//o esquivo, o restrito,/o testemunho, o maldito. Poeta querido, se seu Exercício lúdico: invenções e armadilhas é esse álbum inaudito da família humanidade, reserve uma página para mim, não só como sua leitora, mas também porque, apesar de tudo, sei como é bom lambuzar-se com o visgo caramelado (do doce de jaca, é claro!...), e bem sei que existe “O avesso de tudo”. Para terminar, o “Recado”: quem não quiser entrar nesse álbum que se vá, mas deixe os poemas de Lorca, os discos de Caetano - e a chave da porta, como eu mesma avisei em um de meus textos. Ainda Políbio Alves |
| Texto lido no
lançamento da tradução para o inglês
de Exercício lúdico: invenções e armadilhas. Cultura Inglesa, João Pessoa – PB- Brasil, 2 jul. 2004. Publicado em: Correio das artes, João Pessoa, ano 54, n. 69, 10-11 jul. 2004, p. 8. Suplemento literário de A União. © Copyright by Sônia van Dijck, 2004 Midi: Agnus Dei (I. M.) |