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FOTOGRAFIAS
Sônia van Dijck
Novena
da padroeira e mais quermesse na praça, organizada por dona Isabel,
dona Rita e mais outras senhoras da cidade, todas ligadas à congregação
mariana. Marli e Sofia foram anjos no altar e, depois, estiveram entregando
as prendas da quermesse para a reforma do telhado da matriz. Dona Isabel
disse a dona Rita, lá pelas nove da noite:
- Sofia pode dormir lá em casa. A senhora parece cansada depois
dessa trabalheira toda. Pode ir sossegada. Nem se preocupe... afinal,
essas duas não se desgrudam mesmo... Amanhã, sua menina
estará de volta. Pode ir descansar. Teremos ainda a noite de amanhã,
antes da festa.
- Pois, então, boa noite, dona Isabel. Vou acordar cedinho para
começar os salgados da quermesse da noite.
Marli morava com a avó. A mãe partira com o dr. Ivan, engenheiro,
com algum dinheiro, e que tinha vindo trabalhar na construção
da ponte do Rio das Pedras. Apaixonado por Margarida, resolvera montar
casa na capital.
- Só um detalhe: é melhor Marli ficar com a avó por
uns tempos; só até a gente se acostumar um com o outro,
e você se acostumar na capital, conhecer meus amigos... Além
do mais, apesar de você ficar longe da garota, nada vai faltar a
ela, isso eu garanto; e você pode voltar de vez em quando, para
matar a saudade.
Margarida, atônita, pois nunca se separara da filha, resultado de
um namoro do tempo do colégio, entendeu que não tinha muita
escolha e cuidou de arrumar as malas. Para sua mãe, explicou que
mandaria o necessário para que a menina tivesse de tudo, sem ser
uma carga para dona Isabel, que nem precisava disso, porque ainda tinha
muito do que o marido lhe deixara; mas entendeu o orgulho da filha. Quem
sabe?... talvez a desmiolada, que dera tanto desgosto ao pai, até
arranjasse um casamento, um nome; afinal, o dr. Ivan era solteiro. Pena
que o velho morreu no desgosto de ver a filha sem nome. Conversou muito
com o padre, que lhe animou as esperanças, tanto quanto lhe havia
dado consolo quando a moça se desencaminhara da boa formação
recebida. Todo mês chegava direitinho o dinheiro para o colégio
e mais as despesas miúdas. Nunca faltava algum para a missa pelas
almas do purgatório, conforme vinha explicado na carta.
- Nisso, esse dr. Ivan parece que é gente séria. - pensou
dona Isabel, a caminho da cozinha, para dar as ordens para o almoço.
As meninas estudavam no mesmo colégio, o melhor da cidade. Sofia
tinha uma espécie de bolsa, graças a dona Rita ser professora
do estabelecimento. Continuavam uma amizade que vinha desde Margarida
e Rita, no tempo em que o pai desta, seu Genésio, era grande comerciante
de secos e molhados, embora cheio de dívidas, conhecidas depois
que baixara à sepultura. Seu Genésio nunca engolira aquela
amizade, desde que soube do mau passo de Margarida.
- ... tão mocinha - dissera -, e já caída na vida...
filha minha teria se casado na delegacia... mas casava.
Para Rita, não tinha havido necessidade de chamar delegado nenhum:
o rapaz assumiu a responsabilidade, mas poucos anos depois foi cuidar
da própria vida. Tudo tinha sido um namoro quente no último
ano do colégio.
Felizmente, seu Genésio tinha dado uma boa educação
à filha, que largada pelo marido, pegou o diploma na gaveta e virou
professora da escola onde tinha sido menina.
Naquela manhã de sábado, o silêncio da casa assegurou
às duas que podiam conversar à vontade, desde que falando
baixinho. E tinha o Rodrigo, nos seus treze anos, que achava Marli a menina
mais bonita da escola.
-... pois, aí, ele passou a mão na minha perna... foi lá
no pomar...
Tinham ido pegar umas folhas, para o trabalho de Ciências, em equipe.
Os dois e mais Sofia sempre eram do mesmo grupo. Marli tinha sempre o
que contar de Rodrigo desde o início do ano. Aos doze anos, era
bonita, de formas atraentes, esperta... Ao contrário de Sofia,
desajeitada e magricela. No último carnaval, para usar outra vez
a fantasia de Marli no carnaval passado, uma holandesa, dona Rita tivera
muito trabalho para botar tudo nos conformes de seu corpo.
- Essa menina parece um varapau. Nem toma corpo.. e já nos onze
anos... Parece uma vara de escorrer tripa...
Dona Rita sempre achava um jeito de lembrar que Sofia não era lá
essas coisas.
Ao ver os retratos, Sofia até que se achara bonita. Bom, poder
ter uma fantasia no carnaval. Não pôde evitar a lembrança
de como Marli estava linda nos retratos do carnaval passado. Mas, também
não fazia má figura, e ninguém se lembrava mais da
fantasia que a amiga usara, pensou, olhando, por longo tempo, um dos retratos.
Dona Margarida sempre mandava a roupa da filha com uma carta explicando
que não podia passar o carnaval no interior, mas queria receber
os retratos de Marli fantasiada; tinha certeza de que ia ficar uma gracinha.
Naquela manhã de sábado, Sofia queria saber dos detalhes...
como foi?... Seu corpo de onze anos acordava para as histórias
da amiga com Rodrigo.
E a mão de Marli, por debaixo do lençol, deslizou para a
coxa da amiga. Um calor invadiu a menina, que nunca sentira toque tão
inaugural em sua pele. Talvez o menino Rodrigo nem tivesse ido tão
longe... mas a mão de Marli continuou o caminho... a mão
de Sofia aprendeu a lição... os corpos mal acordados para
a vida encontraram-se... e as bocas... como nos filmes das tardes de domingo...
Sofia queria muito um Rodrigo... mesmo que fosse outro... e as mãos
cumpriram seu papel, até que um espasmo e, depois, uma moleza desconhecida
atingiram as meninas... quase que ao mesmo tempo...
Naquela manhã, mudas, olharam a porta. Temiam a violação
daquela magia. A casa estava em silêncio. As criadas na lida. Dona
Isabel cuidando das compras e dos pagamentos e da procissão do
dia seguinte: festa da padroeira. Marli, meio tardiamente, ia fazer a
Primeira Comunhão. Sofia esperaria o ano seguinte, quando o vestido
teria que ser apertado para seu corpo franzino.
- Estou com medo... Vou ter que contar ao padre na confissão de
hoje.
Seria sua primeira confissão. Os iniciados na Eucaristia confessavam-se
de véspera, e, com isso, desocupavam o padre para o domingo de
confissões dos adultos e de preparativos da missa e da procissão.
- Por que você tem que contar? Não fizemos nada demais. –
argumentou Sofia.
- A professora de catecismo disse que é pecado da carne.
- Pecado?! Pecado é coisa ruim. E não foi ruim. Foi gostoso.
Você achou ruim?!
- Você diz isso porque não é você que vai ter
que fazer a Primeira Comunhão.
- Mas... e então... pra que foi me mostrar?... eu não acho
que seja pecado. Não seja boba: se você não falar,
ninguém precisa ficar sabendo.
E Sofia se levantou para ir ao banheiro.
- Que besta! Contar ao padre... - pensou quando abriu o chuveiro.
Marli não teve coragem para contar ao padre. Sua avó era
uma das senhoras mais respeitadas na sacristia. Sua mãe qualquer
dia iria se casar, ter um nome... Bem... Sofia contaria no ano seguinte,
e, assim, ela também estaria perdoada. O vestido longo e branco
tinha vindo da capital.
Nessa manhã, Sofia, depois do telefonema, foi ao hospital. Marli
havia pedido à mãe para procurar a amiga.
- Tanto tempo... - pensou dona Margarida - Mas se é vontade dela...
Quando foi para o enterro de dona Isabel, dona Margarida ficou sabendo
que dona Rita havia morrido e que Sofia tinha sido levada por uma tia
paterna para a capital, onde estudava Direito. Para encontrar a antiga
amiga da filha, foi ao Presidente da OAB, que se mostrou interessado em
ajudar e ligou para o escritório da colega.
A assistente social recebeu Sofia, solícita, na hora marcada, para
explicar o quadro; coisa que nem era preciso, pois dona Margarida havia
dado a entender, e o nome da enfermaria já dizia tudo.
- Fiz tudo errado. – disse Marli, segurando a mão da amiga.
- Por que fez isso com sua vida? Por que nunca mais me procurou? Sua mãe
mandou buscar você para estudar aqui. Sete anos depois, eu também
vim pra cá, quando mamãe faleceu. Podia ter pedido notícias
minhas a sua avó, amiga de minha mãe...
- Eu devia ter contado ao padre. Como você não fez a Primeira
Comunhão, porque eu vim pra cá no fim do ano, nunca fui
perdoada. Procurei você em muitas garotas... a droga ajudava meu
sonho...
- Bobagem. Não fizemos nada demais. Coisa de meninas. Foi bom.
- Você acha? Você se lembra?!
- Foi bom. Nada demais. Tenho certeza.
Marli fechou os olhos e Sofia quase que pôde rever a menina bonita
no leve sorriso que tingiu o rosto da amiga. As mãos de Marli estavam
frias. Sofia buscou na memória aquele toque macio e quente.
O soro pingava no longo fio transparente.
A voz de Marli restabeleceu o presente:
- Por que nunca me procurou?...
O sorriso havia se apagado e só ficou o rosto magro e envelhecido,
a pele manchada. Pensou aquecer as mãos de Marli, colocando-as
entre as suas.
- Não sei. Coisa de menina. Acho que pensei que você voltaria
nas férias. Depois, achei que você nem se lembrava mais de
mim, uma remota amiga de infância. E você, por que nunca voltou?
- E, depois, você fez a Primeira Comunhão?
- Isso não tem importância. Não tenho mais nada com
a Igreja. Desde que mamãe foi morar com o diretor do colégio,
uns dois meses depois que você veio viver aqui, aquele padre não
quis mais que ela ficasse na congregação mariana e ajudasse
na festa da padroeira. Eles só voltaram a se falar quando mamãe
estava perto de morrer e quis se confessar. Seu Diogo foi lá dizer
que ele não podia negar a confissão a uma cristã.
Tudo bobagem, pois, com pecado ou não, mamãe foi muito feliz
com ele. A mulher dele se fechou em casa e morreu antes de um ano; dizem
que de desgosto com a separação. Mamãe foi quem cuidou
das crianças. Quando ela faleceu, ele também veio morar
aqui com os filhos. Morreu no ano passado. Casei-me com o filho mais velho
de seu Diogo: Rodrigo, aquele que paquerava você, lembra?
A assistente social avisou que a visita estava encerrada. O abraço
foi forte. Sem medos.
Sofia, de volta ao escritório, revia a amiga: o vestido branco
da Primeira Comunhão lhe dava um ar de encantamento, naquele domingo,
só agora revisitado. Olhou o telefone. A assistente social havia
dito que era uma questão de horas.
Dona Margarida ligou para o escritório no fim da tarde. O tormento,
do qual Sofia nunca havia desconfiado, tinha encontrado solução.
Sofia voltou-se para a estante. Aquela fantasia de holandesa tinha sido
a última de sua infância. Quando, já profissional,
pôde voltar a brincar carnaval, fantasiou-se de holandesa. Colocou
as duas fotos no mesmo porta-retrato. Devia ter contado a Marli.
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