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SÔNIA van DIJCK Este é um espaço dedicado à Literatura |
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O FEMININO
e o MASCULINO na Literatura |
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SÔNIA VAN DIJCK uma voz feminina em busca de expressão Giovanna Soalheiro
Pinheiro* |
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No
FUNDO do pensamento.
Tenho por sono um cantar, Um cantar velado e lento, Sem palavras a falar Fernando Pessoa A
construção literária de Sônia van Dijck é
edificada não somente por meio de elementos pertencentes às
tradições culturais dos povos afro-brasileiros; a escritora
faz, na realidade, uma critica sutil, fundamentalmente em seus contos,
ao preconceito e à desigualdade social em nosso país. Além
de erguer uma literatura com base nas heranças dos negros, sua
produção poética é delineada pelo questionamento
em relação a própria construção textual. CIGARRA A
cigarra, elemento lendário constante na criação literária,
é um inseto que muda de casca e evoca o canto. Segundo a tradição,
teria sido a humanidade outrora. No diálogo platônico Fedro,
há a referência ao canto das cigarras, suposto mito criado
por Platão, em que esses seres lendários seriam homens antes
do nascimento das Musas, deusas gregas que evocam o canto e a arte. As
cigarras, descendentes da espécie humana, teriam recebido das Musas
“o honroso privilégio de não necessitarem de alimentação
durante sua vida, sendo capazes de cantar, do nascimento à morte”.
(PLATÃO, p.163). Ora representam o nascimento, ora a morte (mudança
de casca); ora o sol, ora a chuva e, portanto, a vida e a existência;
ora alegre, ora triste. O poema “Cigarra” é, na realidade,
um símbolo para toda a construção literária
da escritora. É um subsídio para um pensamento que é
inexprimível, mas plausível de se alcançar, visto
que o eu enunciador não desiste de buscá-lo. A estrutura
do poema e os termos lingüísticos, essencialmente focados
na utilização de gerúndios e em termos antitéticos,
enunciam o canto da cigarra e evocam um universo nostálgico e paradoxal,
representando a incessante busca pela construção poética,
por meio da linguagem-objeto. FICÇÃO Através
de um universo semiótico, o signo como algo representativo do mundo
interior da poética de Sônia van Dijck, observar-se-á
um complexo metafórico que expressa a poesia como produto de criação
do imaginário, ou seja, o mundo só existe na própria
construção textual. “Ficção” atesta
bem essa função: um príncipe que virou sapo e não
um sapo que virou príncipe. Observa-se o caráter paródico
da inversão e a fragmentação de um imaginário
relacionado aos contos folclóricos. A escritora, enquanto voz feminina
afro-descendente, denega o idealismo masculino e demonstra a sua descrença
em relação ao mundo real. O grande segredo, neste caso,
é trabalhar o imaginário e a fantasia, mecanismo que possibilitaria
um certo distanciamento em relação ao mundo factual. FADO No
poema acima, observa-se um dialogo claro entre a poética de Sônia
e a de Carlos Drummond de Andrade. O termo gauche, que, em francês,
significa “esquerdo”, está presente em ambas as construções
e apresenta acepções como, deslocado, desajeitado, inepto
à comunicação com o meio no qual vive e, ainda, o
que está à margem da sociedade. O prefixo “in”,
negando o substantivo próprio Sônia, remete à situação
de inadequação da poeta com o mundo no qual vive, assim
como acontece com Carlos Drummond de Andrade, “Vai, Carlos! Ser
gauche na vida”. Para finalizar, atente-se para o próprio
título do poema, “Fado”, que, já de inicio,
indica a condição irrevogável do ser - (in) Sônia. -
Vim pra você jogar os búzios. Abordando
o entrechoque cultural e humano-social, percebe-se que Sônia van
Dijck focaliza, também, a condição social e os cargos
exercidos por brancos e negros no país. O conto além de
relatar as diferenças culturais, nos informa sobre as desigualdades
provenientes da estrutura social e política do país e que
têm suas origens no próprio processo de colonização
fundado no escravismo e no sistema latifundiário. O advogado e
sua esposa, personagens brancos, não aceitam a visão de
mundo de Mãe Estela, afro-descendente, que tem uma visão
cultural e religiosa voltada para os seus. A mãe da menina, secretamente,
pede à empregada que a ajude a curar a filha e, então, realizam
um trabalho espiritual com ervas e com outros elementos dos cultos africanos.
Durante todo o enunciado podem-se perceber vários elementos vinculados
às tradições culturais desses povos, mas ao final
do conto, atente-se para o excerto citado acima, observar-se-á
a grande predominância dos mesmos. Vejamos esses elementos: Observa-se, portanto, que os valores culturais e humanos, imanentes à consciência coletiva dos povos brasileiros de origem africana, podem ser percebidos na prosa de Sônia van Dijck. Desde os primórdios da civilização brasileira, percebe-se uma luta mordaz pela autonomia social e cultural desses povos. Autonomia que vem se fixando e se firmando focada na construção de uma consciência nacional engajada na reconstrução de um processo, que é, antes de qualquer coisa, histórico. A literatura, enquanto mecanismo de divulgação de idéias e valores intrínsecos a uma determinada sociedade, tem se tornado uma aliada cada vez mais eficiente para a construção de uma identidade cultural que tenha, de fato, as características do povo negro. Literatura essa que tem, em Sônia van Dijck, suporte de divulgação e apreciação, uma vez que há a difusão, essencialmente no conto “A escolhida”, de elementos pertencentes ao seu continente cultural. * Graduanda em Letras pela UFMG Referências
bibliográficas |
© Copyright by Giovanna Soalheiro Pinheiro, 2005 Texto publicado no portal LITERAFRO (UFMG) , 2005 - www.letras.ufmg.br/literafro/frame.htm (copie em seu navegador) Midi: Iuna (execução Mestre Boneco) Fundo: Oferenda (desenho Geraldo Profeta Lima) |