Em
1946, Guimarães Rosa
não era, propriamente, neófito em matéria de literatura.
Já havia recebido o 1º Prêmio de Poesia da Academia
Brasileira de Letras, com Magma, no dia 29 de junho de 1937.
Também na narrativa fora bem sucedido: o conto “Mystério
de Highmore Hall” foi selecionado em concurso promovido pela revista
O Cruzeiro (Rio de Janeiro), e publicado na edição
desse periódico do dia 7 de dezembro de 1929. No ano seguinte,
o conto “Makiné” estava no suplemento dominical de
O jornal (Rio de Janeiro), no dia 9 de fevereiro. O ainda estudante
da Faculdade de Medicina voltou às páginas de O
Cruzeiro, com dois novos contos: “Chronos Kai Anagke
(Tempo e destino)", “a mais extraordinária história
de xadrez já explicada aos adeptos e não-adeptos do tabuleiro,
num conto de João Guimarães Rosa”, em 21 de junho
de 1930, e “Caçadores de camurças”, no dia
12 de julho de 1930 (Lima, 1996: 250). Porém, não havia
despertado maior interesse da crítica literária. Para
integrar o cânone da Literatura Brasileira faltavam o livro e
a avaliação da crítica.
Procuraremos, então, reconstituir a recepção que
a crítica concedeu a Sagarana, a partir dos recortes
de periódicos do ano de 1946, colecionados por Guimarães
Rosa. Neste momento, essa reconstituição tomará
a discussão em torno do regionalismo como centro da recepção,
recorrendo a algumas formulações tomadas como exemplares.
O CONCURSO DA JOSÉ OLYMPIO
Mesmo antes
de surgir em letra de fôrma, Sagarana gerou polêmica.
Inscrito no Prêmio Humberto de Campos, da Livraria José
Olympio (31 de dezembro de 1937), com o título Contos,
que lhe alterava a nomeação original – Sezão
(Lima, 1999: 32-34), a obra provocou o primeiro debate, conforme
Graciliano Ramos (1946):
... abri um cartapácio de quinhentas páginas
grandes: uma dúzia de contos enormes, assinados por um certo
Viator que ninguém presumia quem fosse. (...) No dia do julgamento,
eliminadas composições menos sólidas, ficamos horas
no gabinete de Prudente de Morais, hesitando entre esse volume desigual
e outro, Maria Perigosa, que não se elevava nem caia
muito. Optei pelo segundo – e, em conseqüência, Marques
Rebelo quis matar-me: gritou, espumou, fez um número excessivo
de piruetas ferozes. (...) Dias da Costa apoiou-me. Prudente de Morais
sustentou Marques. E Peregrino Júnior, transformado em fiel da
balança, exigiu quarenta e oito horas para manifestar-se. Escolheu
Maria Perigosa – e assim Luís Jardim obteve o
prêmio Humberto de Campos em 1938.
Como ninguém sabia quem era Viator, e insatisfeito com o resultado
de 1938, Marques Rebelo (1939) resolveu provocar o autor, publicando
uma espécie de relatório de sua participação
na comissão do Prêmio, sem poupar elogios ao desconhecido
perdedor:
Qualidades excepcionais, não só
de contista, como de escritor propriamente. Conhecedor forte da vida
brasileira, segurança absoluta na exposição dos
seus ambientes, diálogo muito bem feito, elevação
de idéias, bom gosto.
Viator, pseudônimo de quem ia ter de começar
longas viagens, estava longe e alheio ao debate. Assim, em 1941,
F. Magalhães Martins escreveu, lembrando o resultado do Prêmio:
Vejamos o que aconteceu no último Prêmio
Humberto de Campos (...). Luiz Jardim surpreendeu com Maria Perigosa.
Sete contos inéditos e ótimos, entre os quais avulta “Os
cegos”. Outro concorrente apresentou um volume que daria 500 páginas,
pelo qual o sr. Marques Rebelo quebrou lanças. Os outros membros
da comissão optaram por Maria Perigosa, e o
autor dos Contos de Viator (sic), lidos apenas pela comissão
continua no anonimato, até hoje...
Até então, nem sinal do contista...
Cícero Dias, companheiro de confinamento em Baden-Baden, durante
a Segunda Guerra, leu o gordo volume de 447 ou 446 páginas e
gostou, animando o autor a publicar . Finalmente, depois de retomados
pelo autor, os contos que tanto entusiasmaram Marques Rebelo foram entregues
ao público, com um novo título para o conjunto. Sagarana
(Rio de Janeiro: Universal), lançado no início de abril
de 1946, reacendeu e ampliou o debate crítico. O anúncio
de O globo (Rio de Janeiro), de 29 de abril, traduziu o clima
instaurado: O livro do momento. SAGARANA. J. Guimarães
Rosa. Já está à venda em todas as livrarias.
Esgotado em poucos dias, já se falava em segunda edição
em maio do mesmo ano, conforme reportagem de Ascendino Leite; fato confirmado
em nota, de 30 de junho, de O jornal (Rio de Janeiro): ...
convém lembrar que se esgotou em poucos dias a primeira edição
de Sagarana, (...). A Editora Universal já está
mesmo cogitando de lançar a segunda edição, tantos
são os pedidos que não puderam ser atendidos. A
segunda edição foi anunciada na coluna “Livros”,
de A noite (Rio de Janeiro), no dia 30 de julho, salientando
que a publicação estava destinada ...
a atender aos inúmeros amigos dos bons livros que não
haviam conseguido adquirir a obra no lançamento inicial.
O livro era sucesso de vendas, apesar do selo de uma editora pequena,
que estreava no mercado, e embora não deva ter tido uma grande
tiragem na primeira edição. Por outro lado, o público
leitor da década de 40 não deve ser encarado pelas nossas
medidas de hoje, ainda que, na opinião de Almeida Fischer (1946),
o interesse pelo livro de contos já
fosse, em 1946, bem maior do que há vinte
anos atrás.
OS CRÍTICOS FALARAM DE SAGARANA
Coube a Álvaro
Lins (1946) a primeira avaliação:
De repente, chega-nos o volume, e é uma
grande obra que amplia o território cultural de uma literatura,
que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao
mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público,
penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo
um dos seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e
o escritor é o sr. J. Guimarães Rosa.
Ao ensaio do consagrado crítico, que não deixou de apontar
em alguns momentos do livro uma certa fragilidade
na ação novelística, seguiram-se, ao longo
de 1946, resenhas, notas assinadas e outras da responsabilidade da redação,
reportagens, novos ensaios; colunas dedicaram-se a falar do autor e
da obra; jornais apressaram-se a pedir entrevistas ao autor e João
Condé conseguiu um depoimento sobre a gênese da obra. Ofereceram-se
ao leitor trechos do livro como “Um ‘trailler’(sic)
de Sagarana” , independentemente das inúmeras
citações feitas nos textos críticos estampados
nos periódicos. Na coluna “Cara ou coroa”, Henrique
Pongetti (1946) fez um balanço, bem pouco inocente, do que acontecia:
Na nossa literatura os endeusamentos e as excomunhões
se manifestam sob a forma de andaço. Em certo dia aparece no
suplemento literário o artigo-vírus do baliza do grupo:
todos os componentes passam a acusar em seus escritos-cobaias os efeitos
do contágio. (...) Todos correm para botar incenso nos turíbulos
ou pedras nas fundas. (...) O último andaço das nossas
letras é o Sr. Guimarães Rosa, autor de Sagarana.
Não nos é possível, nos limites deste trabalho,
analisar os compromissos políticos, ideológicos e culturais
da crítica literária militante, naturalmente direcionada
pela linha editorial de cada periódico. Mas não podemos
desprezar as observações de Pongetti, ainda que notando
o tom de seu texto, que se refere a Álvaro Lins como o baliza
do grupo e a seu ensaio como o artigo-vírus,
embora sem a coragem de apontar claramente. Mas, na verdade, falou-se
tanto do autor e do livro, que a impressão que se tem é
a de que todos - escritores, críticos, jornalistas, intelectuais
e periódicos - queriam marcar presença no debate. E o
fenômeno ultrapassou os limites do eixo Rio - São Paulo,
ainda em 1946. O próprio Pongetti, no mesmo artigo, declarou:
Não li ainda o livro porque ainda não
escreveram sobre ele os vinte admiráveis espíritos que
escreverão sobre ele nesses próximos sessenta dias, contagiados
de um entusiasmo sem vacina, inevitável. Gosto de ler certos
livros na segunda edição e de ver certos filmes na "reprise".
O articulista não precisou esperar muito pela segunda edição
de Sagarana, e logo havia muito mais do que vinte nomes (admiráveis
espíritos ou não... tudo depende de quem julga...)
assinando matérias sobre Sagarana. Mas, não só
Pongetti falou do que não havia lido. José Lins do Rego
(26 abr. 1946), no calor da hora, apressou-se a falar do livro:
O crítico Álvaro Lins lançou
um rodapé de absoluto elogio ao livro de um estreante.
E por isso tenho ouvido os comentários mais opostos. Para uns
o artigo do crítico se excedera, a consagrar o que não
merecia tanta vela de libra. Para outros, e entre estes o poeta Augusto
Frederico Schmidt, o elogio ainda assim não corresponde à
realidade do livro.
Estamos, portanto, diante de um caso literário. É de espantar,
porém, que haja quem não dê fé na opinião
do mestre Álvaro. O que me faz crer na nossa fraca capacidade
para admirar.
Para, logo em seguida, confessar:
Eu ainda não li o tal livro de contos
, mas pelo que dele me falam homens como Pedro Dantas e Graciliano Ramos,
homens que não são de fácil elogio, trata-se de
coisa muito séria.
(...) vou eu à procura do livro de contos, com disposição
para pisar em terra nova!
Tendo lido Sagarana, Lins do Rego (10 maio 1946), voltando
a mencionar Álvaro Lins e aludindo às críticas
em circulação, revelou a sua opinião:
Li todos os contos do novo escritor mineiro e
cheguei ao fim de sua última página com a impressão
de que há qualquer coisa de realmente grande na sua ficção.
O que não me convence é a afirmação de que
a forma literária do Sr. Rosa seja uma terra nova, um mundo à
vista, como nunca existira. O que menos vale no conjunto de contos é
a intervenção do autor, quando se propõe a brilhar
e a tomar conta dos acontecimentos.
Depois de falar da erudição botânica,
dos conhecimentos de zoologia e de uma
quase pedante exibição de
detalhes que nos enfada, o consagrado autor de Fogo morto
admitiu que o livro do estreante
se não chega a ser a obra-prima da exaltação
do poeta Augusto Frederico Schmidt, é um magnífico livro
de contos, como já nos deram o Sr. Monteiro Lobato ou o Sr. Luiz
Jardim.
E que nos obriga a acreditar na sinceridade de seus críticos.
Para não nos alongarmos em citações, tomemos um
trecho de Gracioso Filho (1946), que bem resumiu a polêmica de
imediatamente após o lançamento de abril:
O último exemplo que presenciamos, trazendo
outra vez à baila o desencontro da crítica, foi motivado
pelo discutido livro Sagarana de J. Guimarães Rosa.
Álvaro Lins começou os comentários, antecipando-se
aos seus colegas, e não teve dúvidas em aplaudir a obra,
intitulando-a como "uma estréia auspiciosa", porém
não sem fazer referência às partes defeituosas que
atraíram a sua atenção. Depois, Genolino Amado
também teve idêntica opinião, se bem que não
tivesse agido como um crítico, mas, sim, como um cronista impressionado
pelo valor do trabalho. Posteriormente, Sérgio Milliet falou
de Sagarana, contrariando Lins e Genolino. Não condenou,
radicalmente, limitando-se a dizer que, apesar de se tratar de um livro
interessante, não merecia o cartaz que lhe estavam imputando.
Finalmente, a quarta crítica que chegou ao nosso conhecimento,
por intermédio de um amigo, colocou Clóvis Ramalhete em
posição de combate, esperando os resultados da ofensiva
por ele desencadeada contra Sagarana. Os seus termos, passaram
longe do esperado, e a obra de Guimarães Rosa, uma série
de contos inspirados em quadros do interior do Brasil, desceu sensivelmente
no conceito dos meios literários.
O articulista exagerou um pouco na avaliação dos efeitos
da crítica de Clóvis Ramalhete. Sagarana esteve
entre os mais vendidos ao longo de 1946, e seria o responsável
por mais um prêmio concedido a Guimarães Rosa. Quando da
reunião de janeiro de 1947, a Sociedade Felipe d’Oliveira,
que tradicionalmente premiava o escritor que,
tendo ingressado na vida das letras, publicou
o melhor livro do ano anterior, concedeu o prêmio de cinco
mil cruzeiros a J. Guimarães Rosa, considerado a
mais pujante vocação literária de
1946, ao lado de Afonso Pena Júnior, fulgurante
expressão de nossa cultura. Guimarães Rosa passava
a integrar uma galeria de premiados, já habitada por Amando Fontes
(Os Corumbas), Gilberto Freyre (Casa-grande e senzala),
Rachel de Queiroz (As três Marias), Manuel Bandeira,
pelo conjunto de obra, entre outros ilustres da cultura brasileira.
O REGIONALISMO EM DEBATE
Todo crítico, todo historiador fala a
partir de seu presente, lembra Jean Starobinski (1978: 10). Isso
significa que o leitor tem um repertório que lhe é familiar
e à luz do qual realiza a leitura do novo texto, que confirmará,
negará ou afastar-se-á desse repertório, pelos
seus aspectos inovadores. Bom exemplo disso é o primeiro texto
de Sérgio Milliet (19 maio):
Falou-se de Monteiro Lobato, a propósito
de Sagarana. O anedotário regional do autor estabelece
o paralelo, mas eu prefiro lembrar Valdomiro Silveira mais artista e
purista dentro da mesma preocupação de espelhar um clima
sertanejo. Dois ou três contos de Sagarana alcançam
entretanto, a meu ver, uma realização de obra de arte
perfeita a que nem Valdomiro Silveira nem Lobato se alçam jamais:
“Sarapalha” e “A hora e vez de Augusto Matraga".
(...) Acontece que li Sagarana depois
de me haver comovido intensamente com os contos de Graciliano Ramos
e minhas observações sem dúvida se ressentem de
comparação inevitável.
Álvaro Lins também leu o livro à luz de um repertório
literário; detendo-se em “São Marcos”, sublinhou:
... com uma descrição da natureza,
tão monumental nas proporções e tão orquestral
no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente,
a maneira euclidiana.
Eis uma das manifestações do que Hans Robert Jauss (1978:
54 e seg.) chama de horizonte de
expectativa, dentro de um cânone literário. Para
os críticos de Guimarães Rosa, o horizonte de expectativa,
além dos nomes acima mencionados, ainda estava marcado por Afonso
Arinos, Alcântara Machado, Graça Aranha, Machado de Assis,
Marques Rebelo, Simões Lopes Neto, mestres do conto e/ou expressões
do regionalismo, entre outros.
Mas, no caso de Sagarana, o horizonte
de expectativa não se traçava apenas no campo das
obras literárias propriamente ditas. E aí foi relevante
o papel de Álvaro Lins. A seu respeito, afirma Alfredo Bosi (2000:
491-492): foi, entre 40 e 60, um dos nossos críticos
mais ativos e percucientes, muito próximo do modo de ler dos
franceses pelo gosto da análise psicológica e moral.
Sua importância foi atestada por um seu contemporâneo; Antonio
Candido (1 set. 1946), explicando sua predileção por “A
hora e vez de Augusto Matraga” disse ter confiado no juízo
...dos mais seguros do Brasil em matéria
de ficção: o de Álvaro Lins, mestre de todos nós
e entusiasta fervoroso de Sagarana, que foi o primeiro a indicar aos
leitores como obra-prima.
Críticos do porte de Braga Montenegro, Brito Broca, além
de José Lins do Rego e Gracioso Filho, referem-se à avaliação
de Álvaro Lins. Outros, como Monte Brito, não podem evitar
mencioná-lo, ainda que sem dar crédito a sua opinião.
A revista Atualidades literárias transcreveu longo trecho
do ensaio de Lins. A julgar por algumas notas, às vezes de certa
malícia, falava-se tanto de Sagarana como da opinião
de Álvaro Lins: O livro em cartaz, no momento,
parece que é Sagarana, de J. Guimarães Rosa.
Foi com foguetórios que o crítico Álvaro Lins saudou
o seu aparecimento. Como a Livraria José Olympio era uma
espécie de ponto de encontro das muitas “rodinhas”
de intelectuais, pode-se imaginar o que e o quanto se falava da obra
e do crítico...
Álvaro Lins viu no livro o retrato físico,
psicológico e sociológico de uma região do interior
de Minas Gerais, passando a tratar de seu caráter regionalista:
Mas o valor dessa obra provém principalmente
da circunstância de não ter o seu autor ficado prisioneiro
do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo
literário, à estreita literatura das reproduções
fotográficas, ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e
do simplesmente descritivo. (...) Em Sagarana temos assim um
regionalismo com o processo da estilização, e que se coloca
portanto na linha do que, a meu ver, deveria ser o ideal da literatura
brasileira na feição regionalista: a temática nacional
numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe
do interior valorizado por uma arte civilizada e por uma técnica
aristocrática de representação estética.
Podemos até dizer que estava dado o mote. Passou-se, então,
a falar de regionalismo nas páginas dos periódicos. Francisco
de Assis Barbosa (1946), por exemplo, também deu sua opinião,
mandando a certos habitantes da Cidade das Letras
uma pequena alfinetada, para não perder a oportunidade:
Regionalista, no bom sentido da palavra, (...)
O interior de Minas está inteirinho nas suas novelas, escritas
com uma técnica verdadeiramente notável, onde encontramos
sempre a palavra exata, a composição perfeita, até
com requintes que chocam em meio à maneira desmazelada e muitas
vezes antiliterária de certos escritores, nomes consagrados.
(...) Mas não estaremos nós narcotizados por tanto desleixo,
por tanta incorreção gramatical?
Conforme lição de H. R. Jauss (1978: 56),
... a recepção de um texto pressupõe
sempre o contexto de experiência anterior no qual se inscreve
a percepção estética: o problema da subjetividade
da interpretação e do gosto do leitor isolado ou em diferentes
categorias de leitores não pode ser colocado de forma pertinente,
se não se tem inicialmente reconstituído este horizonte
de uma experiência estética intersubjetiva preliminar que
funda toda compreensão individual de um texto e o efeito que
ele produz.
Assim, ao tratar de Sagarana, os críticos passaram a
discutir “regionalismo”. Para esses críticos, o livro
de Guimarães Rosa, ao que parece, estava à frente de suas
experiências com o regionalismo; procurou-se, então, um
conceito que se lhe aplicasse. Se um falava de um regionalismo
com o processo da estilização, contrário
a um chamado convencional regionalismo literário,
o outro usou o conceito no bom sentido da palavra.
Renato Almeida (1946), depois de reconhecer o êxito de Sagarana,
e falar de corte transversal
na alma da gente do interior, preferiu emprestar um tom político
ao debate:
O drama das populações do interior
e o equívoco da civilização brasileira mais uma
vez se patenteia. Ao invés de orientarmos a marcha do progresso
para o interior, de uma forma racional, quer dizer preparando o material
humano, deixamo-nos ficar nos contornos urbanos, seja nas zonas favoráveis,
onde aumentamos o padrão de vida, e abandonamos o mais até
que, pela ordem das coisas, porque Deus é brasileiro, as circunstâncias
favoreçam melhores dias.
Oscar Mendes (1946) sistematizou duas noções de regionalismo,
servindo, inclusive, para esclarecer como, em 1946, poderiam ser entendidas
as formulações de Álvaro Lins e de Francisco de
Assis Barbosa:
Criou-se um conceito de regionalismo na verdade
muito estreito. Para muitos, escritor regional é apenas aquele
que escreve usando termos de linguajar caipira ou matuto para contar
casos de muito pouca importância e de interesse muito restrito.
(...) Mas o verdadeiro escritor regional a nosso ver, é aquele
que, num cenário característico especial, único
por vezes, sabe fazer viver o drama universal da condição
humana. Poderá usar termos regionais para maior pitoresco e cor
local, mas apenas como um recurso estilístico e maior força
de caracterização.
(...) Da leitura do livro do sr. Guimarães Rosa não me
veio a impressão dum regionalismo daquela espécie limitada.
Antonio Candido (21 jul. 1946) começou estabelecendo a questão
em termos de regionalismo e de nacionalismo literário. Relembrando
a formação de uma consciência federalista, a crise
de 1929, o Estado Novo, a fase nacionalista, cujo expoente, segundo
ele, foi Bilac, via na década de 40 uma tendência para
ser bairrista, aí... citando Gilberto
Freyre como porta-voz da corrente. E é nesse contexto de sabor
da terra (expressão usada por Candido) que se apresentou
Sagarana. O crítico é o primeiro a sublinhar
que, em Guimarães Rosa, Minas é
menos uma região do Brasil do que uma região da arte,
com detalhes e locuções e vocabulário e geografia
cosidos de maneira por vezes quase irreal, tamanha é a concentração
com que trabalha o autor. Mais adiante, tendo falado de um regionalismo
"entre aspas", ou seja em que os
escritores trouxeram a região até o leitor, conservando,
eles próprios, atitude de sujeito e objeto, Candido disse
que
Guimarães Rosa construiu um regionalismo
muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência
total em que o pitoresco e o exótico são animados pela
graça de um movimento interior em que se desfazem as relações
de sujeito e objeto para ficar a obra de arte como integração
total de experiência.
Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura.
O colégio crítico esteve, mesmo, ativo no debate. Como
em verdadeira assembléia, seus membros dialogavam, através
dos periódicos, retomando ou ampliando pontos, trazendo novos
argumentos e apontando divergências. Sérgio Milliet ( em
19 maio), que, um tanto ambivalente, já havia dito:
Sagarana é, entretanto, uma grande
estréia. Mais pela promessa do que pela realização.
Estamos diante de um escritor capaz, de uma grande obra. Se conseguir
libertar-se de sua propensão para a anedota, o caso curioso,
se puder livrar-se da tendência para o efeito e o rebuscamento,
se se depurar enfim e tentar uma penetração mais vertical
do mundo, há de dar-nos dentro em pouco uma grande obra.,
resolveu voltar ao palco (em 21 jul.), por causa do artigo de Candido:
O jovem crítico paulista considera que
o sr. Guimarães Rosa transcende o regional em seus contos, que
"Sagarana nasceu universal pelo alcance e a coesão
da fatura" e, ainda, que a língua usada "parece ter
atingido o ideal da expressão literária regionalista".
Desejaria que o sr. Antonio Candido esclarecesse melhor a sua concepção
do universal e nos dissesse também em que essa língua
erudita e admiravelmente artística de Guimarães Rosa se
prende ainda ao regional.
Apesar de argumentar contra o caráter universal, Milliet chegou
a assegurar não negar as qualidades do
escritor Guimarães Rosa nem a importância de seu livro
como marco de uma nova tentativa regionalista, ainda que, logo
em seguida, estivesse apontando amor ao efeito,
um rebuscamento, uma profusão barroca que
atordoam por vezes mas não penetram além da inteligência
da gente. E concluiu: Releio Sagarana depois
do rodapé de Antonio Candido. Lerei sem dúvida outras
vezes o livro. Para discuti-lo ainda, o que não deixa de ser
ótimo sinal.
Pelo menos em 1946, não foi com Antonio Candido que Milliet deu
curso à discussão sobre Sagarana. Em setembro,
o jovem crítico paulista voltou
a tratar do livro, mas para responder a um leitor que o argüiu
por causa de sua predileção por “A hora e vez de
Augusto Matraga”. Candido escreveu reafirmando sua preferência
e ilustrando a dificuldade que é tentar estabelecer listas de
“10 melhores”, ao mesmo tempo que saiu compondo listas variadas.
PARA CONCLUIR
Quase que antecipando
a lição de Jauss (1978: 73), segundo a qual ...a
resistência que a obra nova opõe à expectativa de
seu primeiro público pode ser tão grande, que um longo
processo de recepção será necessário antes
que seja assimilado aquilo que era originalmente inesperado, inassimilável,
Agrippino Grieco (1946) disse: ... o livro parece-me
opulento. Muitos episódios bons e, naturalmente, episódios
maus. Há onde se lhe pegue. Existe. Mesmo nas ruins passagens
(e que bom trabalho não as tem?), aí está, implícito,
um grande livro futuro.
Se Sagarana foi acolhido com aplausos e com restrições
por parte da crítica também não ficou parado nas
prateleiras das livrarias, passando a figurar entre os mais vendidos
daquele ano. Para Almeida Fischer (1946), é
verdade que certos críticos e cronistas exageraram um pouco os
méritos do livro e se esqueceram de apontar-lhe as deficiências,
o que explica, em parte, o sucesso obtido. Porém, para
Alcântara Silveira (1946), talvez mais realista e com uma certa
neutralidade, era
... bobagem afirmar – como estão
fazendo a propósito de Sagarana e seus críticos
– que a crítica entre nós é responsável
pelo êxito do livro. O que houve no caso de J. Guimarães
Rosa, foi apenas coincidência entre a opinião do povo e
a do crítico (coisa que raramente acontece) e por isso Sagarana
tem sido lido.”
Na verdade, a crítica refletia uma atitude de recepção.
Sagarana trazia nova seiva para a corrente regionalista, e,
por isso, o debate levou a que se refletisse sobre esse conceito, marcando
sempre o caráter de exceção, ou de originalidade,
ou de subversão contido no livro. A polêmica esteve sempre
orientada por uma atitude comparativa, quer com os grandes contistas,
quer com os reconhecidos nomes do regionalismo. Ou seja: o debate foi
travado à luz do cânone de até 1946. A partir daí,
Sagarana passava a integrar o cânone, agora enriquecido
com sua participação, como exemplo de regionalismo entre
aspas, regionalismo de técnica aristocrática
de representação estética, regionalismo
no bom sentido da palavra, como procurou
explicar a crítica.
Sagarana estava consagrado. E, indiferente à polêmica,
dando voz aos capiaus, acompanhando o destino do burrinho, tangendo
seus bois, padecendo com seus próprios mosquitos, entrava para
a Literatura Brasileira. Álvaro Lins sabia:
... o que desejo principalmente é anunciar
ao público a presença, na literatura brasileira, de um
novo grande livro, e saudar, no autor de Sagarana, o companheiro que
entra na vida literária com o prestígio de um mestre na
arte da ficção.
E o público agradece.