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Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
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* Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - + Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976 |
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PRESENÇA DO GROTESCO NO TEATRO HERMILIANO
Sônia Maria van Dijck Lima |
Como
traços característicos do conjunto da obra de Hermilo
Borba Filho, podemos destacar: presença da cultura popular, narrativa
de tom confessional, diversidade de níveis de linguagem, orientação
erótica das personagens, pesquisa histórica, freqüentação
do espaço transtextual, entre outras marcas do autor de Deus
no pasto. Todavia, gostaríamos de contemplar o grotesco,
enquanto categoria estética atualizada na obra hermiliana. - Anselmo, pelo amor
de Deus! Tire isso da cabeça (...). Anselmo! Sou eu, Dona, sua
mulher! Olhe para mim (...). Sou sua mulher de carne e osso, tenho olhos,
garganta, seios, ventre, coxas, tudo de verdade, real, bulindo! Aquela
desgraçada não tem nada disso! É uma assombração!
Quer somente perder você, como já perdeu os outros, todos
os maridos daqui da ilha. Vá olhar como aquelas viúvas da
outra sala envelheceram de repente. São moças da minha idade,
mas a pele já murchou e o sangue delas não corre mais! Não
vá embora, Anselmo! Não vá! Não vá! No Auto da mula-de-padre (Borba Filho,
1953), o autor também coloca no palco o elemento assombroso, e,
em “Sete dias a cavalo” (Borba Filho, 1976, p. 127-148), as
figuras carregam os sinais grotescos dos vícios da danação
e mais parecem saídas de um quadro de Hieronymus Bosch (Os
sete pecados capitais, Museu do Prado, Madrid), como uma advertência
quanto aos perigos da tentação. ************* Nossa leitura de Um paroquiano inevitável recorre a Wolfgang Kayser, em Lo grotesco (s. d.). Kayser assinala que a palavra grotesco, a princípio termo técnico, transformou-se em palavra significativa, ou seja, em categoria estética, na medida que aponta atitudes criadoras, conteúdos, estruturas e efeitos. Todavia, salienta que é a partir da estrutura que se deve definir o grotesco: “O grotesco é uma estrutura” (Kayser, s. d., p. 224). Conforme lição desse autor: A) “... o grotesco é o mundo distanciado”.
Para esse mundo distanciado, concorrem os seguintes fatores: Para Kayser, “a configuração do grotesco constitui a tentativa de banir e conjurar o demoníaco” (Kayser, s. d., p. 228), por isso, “as configurações do grotesco são um jogo com o absurdo” (Kayser, s. d., p. 228). saliente-se, porém, que o grotesco é diferente do trágico; seu sentido não se oculta no destino traçado nas mansões dos deuses nem na grandeza do herói, muito menos em alguma norma de conduta que antecede e excede a uma particular decisão humana. No grotesco não há, necessariamente, a preocupação em dar um sentido aos fatos. ************* Após essa breve apresentação
dos postulados teóricos de Wolfgang Kayser, retornemos a Um
paroquiano inevitável. A peça representa uma família
dita pequeno-burguesa, às voltas com duas preocupações:
o desemprego do Pai e dos filhos, e a perspectiva de casamento de um dos
filhos com uma negra. A ação é localizada apenas
no tempo: 1930. Sua duração não fica bem definida,
mas pode ser estimada em mais ou menos três meses e dias. Representam-se
três instantes da vida do grupo familiar, marcados, principalmente,
pelo horário do almoço. Aos conflitos decorrentes das preocupações
da família, soma-se a presença de seu Enéas, que
se constitui fonte de tensão crescente, e que, na verdade, ocupa
o centro da ação da peça, pois é a partir
de seu Enéas que os fatos acontecem e a representação
avança. - Você não
pode acreditar, mas vou dizer. Sabe que todas as vezes que ele chega eu
sinto frio? Como se chegasse pessoa de outro mundo. Desde sua entrada em cena, seu Enéas instaura uma atmosfera de estranheza e confirma a atitude da Mãe: uma sensação de horror, a princípio um tanto vaga, mas que se intensifica no decorrer da peça. Seu Enéas surge como uma personagem sem passado, sem laços de qualquer espécie. Sobre sua figura paira um certo mistério, que vai cedendo lugar ao sinistro. Sabe tudo o que acontece (mesmo estando ausente do fato) e anuncia o que vai acontecer. Suas falas vão, paulatinamente, denunciando seu caráter; no primeiro ato, ao falar da morte, pondera: - É o que você
pensa. Não se sente, mas ela anda junto de todos nós. Às
vezes é uma borboleta, outras vezes um gato e outras um homem como
eu. Quanto mais seu Enéas deixa notar sua
real natureza, mais as pessoas não parecem, efetivamente, saber
com quem estão tratando. Todos experimentam, gradativamente, um
arrepio de horror, mas não mostram que entendem, por completo,
a trama em que estão envolvidos. - ... enquanto eu
for viva aquela negra não põe os pés nesta casa Aos ouvidos de todos, o dito da Mãe soa,
a princípio, como uma expressão enfática da recusa
das intenções do filho de tomar uma negra como esposa. É
seu Enéas quem, no último ato, relembra a fala da Mãe.
Só então, fica explícito o projeto da Morte; a mãe
sem o saber, havia determinado a data fatídica: o dia em que a
negra entrasse em sua casa. Aquela fala da Mãe ganha o sentido
de sentença condenatória. Os poderes abismais não
só manobram as ações humanas, mas estão atentos
a todos os gestos e expressões do homem; com isso tecem seu destino. ************* Diante do exposto, podemos anotar alguns traços do grotesco no texto hermiliano: - personagens que desempenham papéis absurdos,
tirando seu progresso material da morte dos outros; O recurso de construir personagens sem nomes próprios, apenas indicadas por seus papéis no grupo, contribui para criar um relativo distanciamento. Por outro lado, o mesmo recurso funciona para levar o leitor/ ou espectador a um estremecimento, ao ver que estão em cena criaturas anônimas, com as quais qualquer um pode identificar-se. Não se trata de pessoas particulares, designadas por seus nomes, cuja experiência nos é mostrada, mas de funções sociais representadas pelas personagens. ************* Vemos, então, que o conceito de grotesco não se restringe à organização estrutural da obra. Essa categoria estética implica também a percepção que se tem dessa mesma estrutura. No caso do texto em consideração, fica difícil indicar um momento especial em que a peça pode levar o leitor/ ou espectador a um arrepio de horror, pois são muitas as cenas em que o ameaçador se mostra detentor do destino das pessoas. Mas, poderíamos assinalar como um dos momentos causadores de estremecimento aquele em que a frase da Mãe é revelada em todo seu significado de condenação, graças ao uso que os poderes subterrâneos fazem dos comportamentos humanos. O acento grotesco do texto ainda se faz presente no fato de algumas personagens desconhecerem que se dirigem para o abismal, enquanto a Mãe partilha conosco (leitores/ espectadores) o conhecimento desse desfecho. A atitude da Mãe acentua a ignorância dos outros e estabelece conosco o pacto do grotesco da situação representada. ************* Conforme lição de Wolfgang Kayser, “as configurações do grotesco são um jogo com o absurdo”. Logo, Um paroquiano inevitável insere-se na série do grotesco, pois tudo que se representa, nessa peça, está baseado em um contrato com o absurdo, e as ações humanas encontram sentido apenas no encaminhar-se para a morte. A peça ilustra uma verdade soturna: todos os gestos e preocupações humanas são presididos pela Morte. Hermilo Borba Filho, com fina ironia, analisa a labuta dos vivos: tudo conclui-se na Morte. É a Morte que encaminha a vida para sua resolução; a ela cabe a palavra final - sátira aguda e amarga de Um paroquiano inevitável.
REFERÊNCIAS
_____________________ Auto da mula-de-padre. Recife: Departamento de Documentação e Cultura, Prefeitura Municipal do Recife, 1953. _____________________ Um paroquiano inevitável. Recife: Imprensa Universitária, Universidade do Recife, 1965. ______________________ Sete dias a cavalo. Porto Alegre: Globo, 1976, p. 127-148. KAYSER, Wolfgang. Lo grotesco: configuración en pintura y literatura. Trad. Ilse M. de Brugger. Buenos Aires: Nova, s. d. LIMA, Sônia Maria van Dijck. Hermilo
Borba Filho: fisionomia e espírito de uma literatura. São
Paulo: Atual, 1986 (Lendo). |
Publicado em Caderno de textos, João Pessoa, CPGL/UFPB, 2. série, n. 6, 1991, p. 57-65. Versão preparada para esta página. © Copyright by Sônia van Dijck, 1991 Midi: Urutau (Folclore- Brasil) |
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