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Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
| * Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - † Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976 |
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Capa de caderno de anotações - Novelas Arq. HBF |
O maravilhoso nas novelas de Hermilo Borba Filho
Carlos Eduardo Galvão Braga |
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Hermilo Borba Filho observou certa vez que “a arte do
Nordeste, abrangendo a literatura, a pintura, a escultura, o teatro,
[tende a representar] a realidade-imaginada, campo onde o artista se
movimenta numa região em que o mágico, o fantástico,
o maravilhoso andam de mãos dadas com a realidade.” É
nessa região que se acham ambientadas as narrativas de O
General está pintando, sua primeira coletânea de
novelas. Com este livro, seu autor reconhece ter dado “um passo,
um pequeno passo além da realidade real ”(1).
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Ao pressupor a fé no milagre, o conceito do “real-maravilhoso” proposto por Carpentier denota, como salientou Irlemar Chiampi, “uma operação modificadora do objeto real” e implica “uma operação mimética da realidade”(4). Além disso, contrapõe ao maravilhoso fabricado pelo europeu colonizador como alternativa e desafogo para os excessos da racionalidade, a imagem de uma “sobre-realidade” que mantém com a “realidade ordinária e empírica” uma relação de contigüidade. Essa sobre-realidade constitui a expressão contemporânea de uma “América primitiva, não contaminada pela reflexividade, como um universo de mitos e religiosidade primitivos, capaz, portanto, de efetivar o projeto de poetizar o real maravilhoso”(5). Lembrando que nos contos de Perrault o disforme, o horrendo, a truculência das personagens – como se vê na história de O Pequeno Polegar – são ingredientes da maravilha, Carpentier rejeita a “noção de que o maravilhoso é o admirável porque é belo” e inclui nessa forma de representação da realidade o insólito, o assombroso, o que foge às normas estabelecidas (6). Neste sentido, Irlemar Chiampi adverte, por sua vez, que “também a crueldade, a violência, a deformação dos valores, o exercício tirânico do poder integram a noção dos prodígios americanos .”(7) As novelas de Hermilo Borba Filho podem ser consideradas, em seu conjunto, como expressão do realismo maravilhoso. Elas delineiam um espaço narrativo abrangente, no qual a negatividade do maravilhoso – pensamos em O General está pintando – alterna-se com o triunfo da “moral ingênua”(8) sobre a iniqüidade dos homens. Exemplo dessa vocação reparadora do maravilhoso popular é “O romance de João Besta e a jia da lagoa”, reescritura transtextual do folheto homônimo de Francisco Sales Areda (9). De um modo geral, a escrita das novelas tende à exibição de um maravilhoso desentranhado da própria realidade cotidiana. Devido à proliferação das imagens evocadas, alarga-se o campo perceptivo do leitor-espectador, que é convidado pelo narrador a partilhar com ele uma notável -“experiência visual ”(10). |
Página de caderno de anotações - Novelas Arq. HBF |
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Nas novelas hermilianas, uma profusão de elementos descritivos
solicita reiteradamente a intervenção do olhar. “Da
Peixa”, por exemplo, pode ser caracterizada nesse sentido como
narrativa coreográfica, tal a quantidade de formas, de cores,
de sons e de movimentos que ela harmoniza diante do seu leitor. Junto
com a personagem-título – Da Peixa, o “navegante
da noite” – e o Observador Astronômico (11),
somos espectadores da Fantástica Visão do Mercado, que
faz convergir, num cenário subitamente poetizado, um sem-número
de imagens da Festa popular.
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“As aparições” remetem à narrativa
de “As meninas do sobrado”, na qual vivos e fantasmas conversam,
comem juntos e, mais do que isso, o imaterial atua sobre a matéria:
cada um dos maridos mortos volta sob a forma de espectro para fecundar
a mulher que ele havia deixado viúva. Emprestando ao fantasma
atributos que só os vivos podem possuir, Hermilo Borba Filho
confunde, portanto, planos distintos de uma mesma realidade; com isso,
adota o “procedimento mais comum a toda a literatura imaginária”
(16), na qual mortos ressuscitam e caminham,
flores falam, homens tornam-se invisíveis. Entretanto, e a exemplo
do que ocorre em Cem anos de solidão, uma vez “Instalado
o fantasma na realidade fictícia, todo o tratamento narrativo
dele tende a eliminar sua condição
imaginária, a aproximá-lo do real objetivo, fazendo-o
viver as situações próprias dos vivos ”
(17) . (Grifos nossos).
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Fragmento de papel encontrado no caderno de anotações - Novelas Arq. HBF |
| Mesmo quando se aproxima do fantástico
ao sublinhar a força inquietadora do mistério (22),
a ficção das novelas de Hermilo Borba Filho assegura o predomínio
do realismo maravilhoso, deixando, por exemplo, de atender àquela
que é, de acordo com Todorov, a primeira condição
do fantástico: a “hesitação do leitor”
entre duas interpretações possíveis – e nunca
satisfatórias – para o evento sobrenatural. A impossibilidade
de encontrar uma explicação racional, capaz de desfazer
a ambigüidade da sua percepção, faz desse leitor um
paciente da dúvida: “‘Quase cheguei a crer’:
eis a fórmula que resume o espírito do fantástico.
A fé absoluta, tal como a incredulidade total, conduzir-nos-ia
para fora do fantástico; é a hesitação que
lhe dá vida” (23). À semelhança do seu narrador, o leitor das novelas de Hermilo Borba Filho não põe em dúvida o caráter maravilhoso dos acontecimentos relatados, nos quais acredita com uma “fé poética” (24) que inviabiliza qualquer vacilação de natureza intelectual. É válido para essas narrativas o que Irlemar Chiampi escreveu sobre o realismo maravilhoso: contrapondo-se ao fantástico, cuja estratégia narrativa postula – e exacerba – o antagonismo entre o real e o imaginário, a fim de obter “o estranhamento do leitor, o realismo maravilhoso desaloja qualquer efeito emotivo de calafrio, medo ou terror sobre o evento insólito. No seu lugar, coloca o encantamento como um efeito discursivo pertinente à interpretação não-antitética dos componentes diegéticos” (25). Uma outra característica das novelas hermilianas contribui para o alcance do efeito de encantamento, visado pela narrativa realista-maravilhosa: com a dissolução das fronteiras entre o natural e o sobrenatural, que deixam de ser antagônicos para se interpenetrar no âmbito de uma mesma realidade, narrador e leitor não sentem mais a necessidade de explicar o acontecimento insólito. E o relato está livre, como mostrou Benjamin, para converter-se em história notável: “já é metade da arte de narrar, liberar uma história de explicações à medida que ela é reproduzida .” (26) |
Novelas (contos) de Hermilo Borba Filho |
NOTAS E REFERÊNCIAS 1. O bestiário
de um artista. Diário de Pernambuco, Recife, 21 fev. 1974.
Recorte s. ind. pág. Arquivo de Hermilo Borba Filho. O
General está pintando foi publicado em 1973 pela Editora
Globo, de Porto Alegre. A mesma editora publicou outras duas coletâneas
de novelas: Sete dias a cavalo, em 1975,
e As meninas do sobrado, em 1976. Publicado
in: Correio das Artes: Hermilo 20 anos de encantado, edição
especial, João Pessoa, 11 out. 1996, nº 389. Suplemento
literário de A União. |
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