|
Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
* Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - † Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976
|
A origem -do -mundo -em uma -delegacia de Palmares: o desejo e uma certa brutalidade nas lembranças de Hermilo Borba Filho Luís Augusto Reis |
|
|
No famoso quadro A origem do mundo, do pintor francês Gustave Courbet (1817-77), desejo e razão não são tratados como coisas autônomas, reciprocamente exclusivas, e incomunicáveis entre si. Pelo contrário, a genialidade dessa obra parece advir de sua desconcertante capacidade de apresentar esses dois aspectos essenciais da natureza humana como coisas indissociáveis.
A origem do mundo. G. Courbet, 1866 Musée d'Orsay (Paris - França) |
O corpo nu de uma mulher repousa,
deitado, envolto pela maciez de um lençol branco. Não se
vê o rosto dessa mulher, dela somente se vêem: os seios, embora
parcialmente encobertos; o ventre; as coxas, entreabertas; e, em primeiríssimo
plano, no centro da composição, a vulva. A negritude dos
fartos pêlos pubianos contrasta com a clareza da pele, do mesmo
modo como a cor do lençol destaca-se do fundo escuro da tela. A
pintura, a óleo, de uma precisão quase fotográfica,
coloca-se além da tradição figurativa clássica.
E essa opção por uma representação extremamente
realista (naturalista) do objeto retratado talvez já possa ser
observada como uma crítica às velhas escolas. Ainda mais
ao se levar em consideração que por essa época (1866)
já se viam, sobretudo na França, claros sinais de que essa
arte estava prestes a mergulhar em um turbilhão de transformações
sem precedentes em sua história. O próprio Courbet, em outros
trabalhos, evidenciaria mais diretamente a iminência dessas torrentes
experimentalistas. Aqui, em A origem do mundo,
ele obtém um belo efeito de estranhamento ao contrapor um feitio
mais clássico no desenho, na cor e na pincelada à peculiaridade
de um enquadramento muito distante do usual. Afinal, a iconografia ocidental
está repleta de nus femininos, alguns pintados com igual realismo,
mas não se conhecem muitos quadros em que se priorize dessa forma
a genitália, deixando em segundo plano as demais partes do corpo.
À primeira vista, especialmente pela fidedignidade do traço, pela limpidez da luz e pela proximidade em relação ao observador, não seria um despropósito pensar que esse quadro poderia ter sido concebido originalmente como ilustração de algum tratado de anatomia feminina – sobretudo quando se sabe que, desde a segunda metade do século XVIII, os estudos sobre a fisiologia sexual-reprodutiva da mulher passavam a ocupar um espaço de grande centralidade nas ciências médicas (1). Porém, de imediato, a inequívoca carga de sensualidade, construída por meio de detalhes, parece dirimir qualquer finalidade médico-científica para essa pintura. Não é difícil perceber que esse corpo retratado está repleto de vida: seja por meio de um mamilo discretamente enrijecido, quem sabe denunciando excitação erótica; seja por meio de uma leve vermelhidão nos grandes lábios, talvez indicando que o ato sexual tenha acabado de acontecer. Além disso, a própria disposição do corpo, o modo distencionado como essa mulher está deitada, parece denotar prazer e satisfação. Não é um médico quem a observa. Não há outro ponto de vista, senão o do amante, imerso no conforto de uma intimidade absoluta. Todavia, sobrepondo-se às camadas interpretativas mais imediatas, esse trabalho de Courbet permite ainda possibilidades de apreciação um tanto transcendentes, de inclinação metafísica, ou espiritual. E quando acionados, certamente aventados pelo próprio título da obra, esses significados, embora menos evidentes, parecem ter a força necessária para preencher cada centímetro da tela com uma dignidade quase solene, criando uma instigante tensão em relação à crueza quase pornográfica da imagem. Agora, portanto, em vez de uma vulva lasciva, é o milagre da vida que se vê em close-up. Essa mulher, desejada e desejosa, quem sabe fecundada há poucos instantes, transforma-se em uma alegoria do próprio universo. Ela passa a ser o cosmo: o princípio e o fim de tudo. De repente, esse corpo, tão absolutamente humano em sua representação, pode se aparentar com um corpo celeste, com um astro, gravitando harmonicamente na escuridão do espaço sideral. Assim, não se deve menosprezar a possibilidade de que essas leituras de inspiração quase teológica venham a diluir, ou até mesmo a reprimir, a força sensual disseminada pelo quadro, talvez ao ponto de fazer com que algum espectador chegue a se sentir envergonhado, ou culpado, por se saber atraído primordialmente pelo erotismo contido na tela. No entanto, seja qual for o viés escolhido, o que de fato parece se ver retratado nessa tela é o reflexo de um olhar atônito e contemplativo diante da mulher. Talvez um olhar datado, típico do século XIX, quando se tentavam imputar à anatomia feminina as respostas para muitos dos mistérios da vida. Ou quem sabe, a julgar pela atualidade do interesse em torno da obra, trate-se de um olhar que carregue em si algo de atemporal e de universal, indiferente aos reclames de uma ciência sempre tão incipiente quanto presunçosa. Um olhar arquetipicamente masculino, independente do gênero e da sexualidade de quem olha. Um olhar que procura se distanciar – teorizar – ; mas que se flagra enredado pelo erotismo que emana de seu objeto. Um olhar que se equilibra entre a admiração e o desejo de posse, entre a reverência e a tentativa de dominação. Um olhar libidinoso, cativo e ao mesmo tempo subjugador. Um olhar carinhoso, mas também traiçoeiro e cruel: pela própria disposição de examinar, ou de analisar, em vez de apenas fruir. Um olhar que decerto já visitara a sensibilidade de outros artistas, mas que ganha contornos mais explícitos nesse trabalho de Courbet. Um olhar que, adaptado às determinações de cada época e de cada local, sem dúvida ainda reaparecerá em tantas outras obras de arte. Um olhar que, por exemplo, talvez esteja presente em um tocante fragmento do romance Margem das lembranças, escrito por Hermilo Borba Filho em 1966, exatos cem anos após a primeira exibição do quadro. |
| Nesse
livro, primeiro volume da tetralogia de inspiração autobiográfica
Um cavalheiro da segunda decadência (2),
o protagonista, personagem chamado Hermilo, narra algumas de suas experiências
enquanto adolescente e jovem adulto, durante os primeiros anos da década
de 1930, vivendo em Palmares, sua cidade-natal, situada na Zona da Mata
Sul do Estado de Pernambuco. Ao mesmo tempo em que vai descobrindo o sexo,
o jovem Hermilo vai sendo apresentado à violência das injustiças
sociais próprias daquela região. E essa sua inescapável
aprendizagem, convivendo com as dores da vida e os prazeres da carne,
permeará toda a obra. |
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966 Capa: Marius Lauritzen Bern |
|
Logo no início da narrativa, precisamente
no segundo capítulo, Hermilo recorda-se de suas experiências
como escrivão, trabalhando na delegacia de polícia da
cidade. Muito jovem, em um de seus primeiros empregos, "arranjado
por um parente" (3), cercado
por corrupção, por tortura e por todo tipo de abitrariedade,
ele irá se iniciar no seu "artesanato com a morte, o vício
e o crime". Um dia, enquanto burlava o conteúdo de um depoimento,
sob a segura supervisão do delegado, ele seria convidado a participar
de um esdrúxulo exame de corpo de delito, a ser executado por
um certo Dr. Bertoldo, que eventualmente prestava serviços como
legista para a polícia. O leitor fica sabendo que o médico,
"casado com uma das mulheres mais bonitas da cidade" (4),
gostava de conversar com o jovem aprendiz de escrivão, talvez
por serem os únicos, naquele ambiente, que se interessavam por
literatura. Bantendo no ombro de Hermilo, em tom de camaradagem, ele
diz então: "– Venha ver uma mulher deflorada". "Apareceu nua, peitos fartos e empinados, o ventre batido, os pêlos do púbis muito crespos confundindo-se com o negro da pele que brilhava com reflexos mornos nas coxas e nádegas. Avaliou os seios com as mãos, torceu os bicos e depois acariciou levemente o monte, enquanto suas carnes se agitavam a espaços, aqui e ali, como se nelas passasse uma corrente elétrica". A partir daí, o leitor poderá
começar a se incomodar com a cena. Talvez por perceber que está
prestes a cair, se já não caiu, em uma intricada armadilha:
a possibilidade de se deixar tomar pelo erotismo existente em uma situação
deveras reprovável, ética e moralmente. Todavia, quiçá
servindo como um atenuante, a atitude da jovem não evidencia
o constrangimento e a humilhação sugeridos pelo absurdo
da situação. Ao contrário, dentro daquela suposta
passividade, obedecendo todas as ordens do médico, ela se mostra
saliente e provocante, como se fosse sabedora de seu poder erótico
sobre aqueles homens. "Doutor Bertoldo, de mãos na cintura,
acompanhava a cena com um ar cada vez mais divertido, aquilo não
era um exame de desfloração (...), mas uma exibição
privada grátis de uma mulher que desejava explodir diante de
machos, doando-se." O médico, por sua vez, divorciando-se
de qualquer pudor ético, também se exibia, tentando impressionar
o jovem rapaz pelo controle exercido sobre o corpo de sua paciente.
Instaura-se, assim, uma complicadíssima rede de desejos entre
os três personagens. "Não me arredei de onde estava mas não perdia um detalhe. Delicadamente, o doutor Bertoldo abriu os lábios da vagina e a negra mexeu-se um pouco. Olhei mais de perto, as carnes arroxeadas palpitavam como o bater de asas de uma borbuleta noturna, o pequeno orifício do ânus se contraía em espasmos. O examinador ajeitou mais os óculos, quase mergulhando na mulher, os dedos afastando carnes e pêlos com uma certa brutalidade. Então eu vi que tudo era ligado em camadas, dobras, revestimentos úmidos, um pequeno olho vazio espiando o mundo (era roxa, a crica, vista à luz crua, não sei que pesadelos, que terror podia meter à noite, com becos, com camarinhas, com salas, com corredor e ali estava o buraco do túnel por onde passaria o vapor numa viagem onde poderia encontrar vagões abandonados, trilhos arrancados, agentes de estação uniformizados, a caixa d'agua alimentando as caldeiras, as águas se misturando às águas). O doutor Bertoldo tirou a mão de vez e os lábios, juntando-se, fizeram um ruído de sucção, úmido, desprendendo o odor de plantas verdes machucadas." Terminado o exame, o médico sentencia:
"– Essa negra é virgem". De pronto, a paciente
retruca: "– Não tem ninguém que me faça
essa caridade?" Então, apontando "com o beiço"
para a calça do jovem Hermilo, ela diz: "– Aquele
ali já está pronto, veja." Enquanto o médico
lavava as mãos, ela desce da cama, se aproxima de Hermilo, envolvendo-o
ainda mais como seus odores, pega a mão do rapaz e passa-a levemente
por seus pêlos pubianos, levando-a em seguida até suas
nádegas. Não fosse a interferência do médico,
invocando cinicamente os interditos da lei e da moral, talvez o ato
sexual houvesse se consumado ali mesmo. " – Acabem com essa
safadeza. Se quiserem trepar, vão trepar fora daqui. Mas eu te
previno (...) essa negra é de menor e você vai parar na
cadeia." Em seguida, "ofegante e sorridente", complementou:
" – Mas pode casar e fabricar uns mulatos (...) – Filho
de gato é gatinho. Doido por negras como o pai." Percebendo
a disposição da jovem para continuar se exibindo, Dr.
Bertoldo a expulsa da sala com rispidez: " – Bota a roupa,
mulher. (...) – Sai, puta."
© Copyright by Luís Augusto Reis, 2005 (Trabalho apresentado na disciplina Teoria da Ficção - Prof. Dr. Alfredo Cordiviola - CAC - UFPE - PPGL - Recife-PE - Brasil) Publicado in: Revista Brasileira
de Sexualidade Humana, São Paulo, Sociedade Brasileira de
Estudos em Sexualidade Humana, Iglu, v. 18, n. 2, 2007 - com o título
A origem do mundo: o desejo e uma certa brutalidade nas lembranças
de Hermilo Borba Filho |
|
2ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto,1993 Capa; Leonardo Menna Barreto Gomes, sobre Estudo de nu, de T. Lautrec |
NOTAS 1.
Conforme relata Thomas Walter Laqueur em seu livro Making Sex: Body
and Gender from the Greeks to Freud, publicado em 1990, obra citada
nas referências bibliográficas deste ensaio. _________________________________ REFERÊNCIAS BORBA FILHO, Hermilo. (1993 [1966]). Margem das lembranças, 2ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto. LAQUEUR, Thomas Walter, (1990). Making Sex:
Body and Gender from the Greeks to Freud. Cambridge, Mass: Harvard
Univ. Press. |
| Programa das comemorações dos 90 anos
ESTE ESPAÇO ESTARÁ SEMPRE EM ATUALIZAÇÃO |
| Criação da marca comemorativa: DG DESIGN GRÁFICO Criação da página Sônia van Dijck Midi: Principles of Lust (Enigma) |