|
HERMILO BORBA FILHO - 90 anos...>COURBET e HERMILO ..- .HERMILO E ARIANO ...- OS AMBULANTES DE DEUS: E LA NAVE VÀ. ....-O MARAVILHOSO EM HBF-... -O GROTESCO NO TEATRO HERMILIANO .......O POPULAR COMO POÉTICA .-.UM CAVALHEIRO QUE NÂO CONHECEU A DECADÊNCIA ............ NOTÍCIAS ........- FOTOS |
|
Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
| * Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - † Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976 |
TEXTOS de HERMILO BORBA FILHO |
|
Porto Alegre: Globo, 1975 Capa: Leonardo Menna Barreto Gomes |
As esporas
A Zezé e Raul Souza Leão
Era de nome Clementina, ninguém
não mais se lembrava dela, já que se finara pouco tempo
depois do casamento, desinfeliz, seca, os olhos esbugalhados, sem palavra,
manejada pela atmosfera fria, escura, verde da casa. Em cima da mesa,
numa bandeja de prata, nas três refeições do dia,
o par de esporas, por sinal também de prata e era prata sobre prata.
A comida não descia, quem há-de?, o bolo na garganta, só.
Isto e o silêncio. E mais os olhos fitos nela. No quarto, na parede
confronte os pés da cama, substituindo imagem de santo, o par de
esporas, levado em cerimonial, iluminado, na vigília, por uma lamparina,
à maneira de sagrado. Na penumbra, os olhos frios do marido, verrumando,
e no ano que durou a judiação nem uma palavra, somente os
olhos fitos nela. |
|
O som das esporas que subiam a escada da frente naquela tarde
chuvosa. Boas, foi o que ele dissera, e para o senhor também,
respondera, se alevantando um pouco da cadeira de balanço, no
terraço. Viera a trato de uns negócios de gado com o coronel,
está no engenho, tenha a bondade, mando chamá-lo. Uma
negra serviu café e poucas palavras trocaram enquanto o portador
ia e vinha: Tempo chuvoso, este vale é bonito, ainda vou varar
léguas, a noite vai cair mais depressa; ele mais do que ela,
muito mais. Lá para dentro, no quarto seria, a menina, dois meses,
chorou, ela se levantou para a mamada, o marido subia a escada. O resto
da tarde toda discutiram negócios, veio a noite e a chuva continuou,
fina, mas continuou. O homem ficou, no pernoite. Era o primeiro cheiro
de homem, afora o do marido, que sentia debaixo das telhas. O sono não
lhe veio, ou em pequenas doses, olhava o marido dormir, boca meio aberta,
o ar que saía tal qual silvo de cobra. Nas oiças o pigarro
do homem e o levantar-se sem esporas, ruído íntimo outro,
chocante, imaginou o jato no penico branco com flores azuis. Aí
o homem não saiu mais da cabeça, criou crostas nos joelhos
de se ajoelhar diante do santuário e rezar horas sem fim, num
tormento. E quando ele veio pela segunda vez anunciou que estava indisposta
e não apareceu, roendo as unhas, ouvindo o retinido das esporas
a manhã toda. Na outra chegada, não se conteve. Entre
os dois se estabeleceu uma conivência muda, sem explicações.
E lá num cair da noite ele chegou pelo de novo, o marido no engenho
do Major Dedé, só lá para mais tarde chegaria.
Se estabeleceram no terraço, durante algum tempo houve só
poucas palavras, até que ele se levantou e sem mais ergueu-a
da cadeira de balanço, no acocho apertado, beiço com beiço.
O corpo da mulher tremia, tremia mas não recusava. E foi ali
mesmo, em pé, contra a parede, no semi-escuro, na atrapalhação
das roupas. |
|
Porto Alegre: Globo, 1976 Capa: Leonardo Menna Barreto Gomes |
O peixe
Aquilo tudo eram terras de Teodósio
Guedes Farias de Azeredo, temido Major do 44 Espada d'Água, não
menos temido regimento de todos os amantes da de-cabeça naquelas
circunvizinhanças de bem mais ou menos ou tanto mais quinze engenhos
de porteira batida, os senhores nos mandos e desmandos, favores e desfavores,
arranca-tocos e vais-e-véns dos soberanos quereres. |
|
Vai, que ainda estava bem longe da despesca,
e Mucurana, nas suas andanças de engenho em engenho, aqui uma
calça velha, ali um sapato furado, mais adiante coisa de de comer
para o seu bornal, uma velha espingarda de cano de chapéu-de-sol,
de chumbinho, própria para peito de rolinha bem aberto quase
sem necessidade de pontaria, dormindo debaixo de mulungus a qualquer
hora do dia ou da noite que lhe desse na veneta, fazendo o seu foguinho
perto de qualquer olho-d'água, precisões nem se fala;
vai, ia-se dizendo e se vai dizer, Mucurana, de passagem pelas terras
do Major do 44 Espada d'Água Teodósio Guedes Farias de
Azeredo, embeiçou-se por um dos viveiros brilhando ao sol tal
qual superfície prateada se Mucurana jamais tivesse visto uma
superfície prateada, foi obra dum instante fazer uma vara com
um galho firme de goiabeira, uma linha arranjada no cós das calças
e um alfinete que, dobrado, em anzol se virou, uma minhoca logo apareceu
no massapé cavado e já Mucurana, o velho cigarro apagado
no canto da boca, de cócoras como devia ser, pescava na ribanceira
do viveiro do Major 44 Espada d'Água Teodósio Guedes Farias
de Azeredo, e nem bem o anzol bateu n'água e já ia na
mucica, vara envergando, com a maior precisão Mucurana dominando
o peixaço, que peixaço era, um camorim dos roliços,
ainda não muito enorme porque a ceva ia pelo meio, mas o bastante
para uma fome de séculos, e lá vai, e lá foi, e
com ele bateu no capim, o peixe tonto, e já Mucurana estava nas
suas fuças, e nas fuças de Mucurana estava o prestigioso
vigia de viveiros Belarmino-Fogo-Pagô, autor ele sozinho de quarenta
e três mortes e meia, porque a meia, podia-se contar, já
era a do propalado Mucurana, boca cheia de areia e capim, ouvindo o
brado de se for homem se mexa, e quietinho ficou, estatelado, o peixe
morrendo na mão e ele morto nas calças, ele e peixe foram
arrastados à augusta presença do Major do 44 Espada d'Água
Teodósio Guedes Farias de Azeredo, refestelado numa preguiçosa
na bem fresca de avencas e samambaias do seu sombreado terraço
e o 44 Espada d'Água, ao tomar conhecimento da ocorrência,
só fez rir, um riso do bem bom, do bem sossegado, dito tranqüilo
de não assustar ninguém, um riso assim mais de peito que
de dentes, passe o homem pra cá, falou, Mucurana ajoelhado tal
e qual nas devoções, passe o peixe cum arame nas guelras,
falou mais, tudo cumprido, ele só fez curvar-se sobre Mucurana
e colocar-lhe aquele colar, ficou bonito, o pescoço rodeado de
arame, nos peitos o peixe que ia até o umbigo, falou mais o 44:
Taí, meu filho, pra você passear nas ruas da cidade, ostentoso,
exibindo esse peixinho até ele cair por ele mesmo, viu? Fotos do espetáculo Mucurana, o peixe - adaptação e direção de Carlos Carvalho do conto "O Peixe". Recife, 2006. Elenco: Gilberto Brito (Coronel Teodósio Guedes Farias de Azeredo), Flávio Renovatto (Fogo Pagô e narrador), Azaias Zazá - Prêmio Melhor Ator 2007 (Mucurana), Soraya Silva (narradora e vigia do Coronel), Olga Torres e Patrícia Moreira (narradoras). Direção corporal: Raimundo Branco. Iluminação: Eron Villar. Letras e músicas de Carlos Carvalho e domínio público. Direção musical e preparação vocal: Kleber Santana. |
|
| HERMILO BORBA FILHO - 90 anos...>COURBET e HERMILO ..- .HERMILO E ARIANO ...- OS AMBULANTES DE DEUS: E LA NAVE VÀ. ....-O MARAVILHOSO EM HBF-... -O GROTESCO NO TEATRO HERMILIANO .......O POPULAR COMO POÉTICA .-.UM CAVALHEIRO QUE NÂO CONHECEU A DECADÊNCIA ............ NOTÍCIAS ........- FOTOS |
|
ESTE ESPAÇO ESTARÁ SEMPRE EM ATUALIZAÇÃO |
| Midi: Eu te amo e amarei (Modinha - Domínio público) Criação da marca comemorativa: DG DESIGN GRÁFICO Criação da página Sônia van Dijck |