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Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
| * Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 - † Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976 |
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OS AMBULANTES DE DEUS: E LA NAVE VÀ...
Antônio Fernandes de Medeiros Júnior |
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DEPONDO
sobre seu processo de criação, certa vez Hermilo Borba Filho
declarou: “cores, plantas, animais, homens, casos, dores e alegria
(...) lembranças da vida passada, experiências vividas, histórias
ouvidas, amizades, inimizades, tipos, leituras, cheiros, sons, sonhos
(...) é o material de que me valho”. Tal substância
– colhida dos fatos cotidianos, associada às impressões
retidas pela memória – informa traços importantes
de uma vertente da vasta obra hermiliana. Sob ângulo distinto –
embora complementar – merece destaque outra afirmação
do autor a qual noticia tanto a demarcação das conquistas
formais quanto os desdobramentos e as possibilidades de usos da linguagem
facultadas ao escritor contemporâneo: “desde James Joyce que
ficou comprovado: tudo cabe ao romance. A mim não importa que um
romance seja escrito em formas tradicionais ou revolucionárias.
O que me interessa é que seja de fato bom, que tenha qualidades
artísticas”. A estes registros pode-se acrescentar, ainda:
“considero moribundo, realmente, o romance regional nos moldes tradicionais,
mas vejo-o sempre vivo e vibrando e cheio de sangue se colocarmos o homem
em primeiro plano, e como ambiente do homem, a fantástica atmosfera
mágica que nos rodeia a todos aqui no Nordeste, re-criada”.
Estes breves fragmentos coligidos significam, de um modo, autênticas notas de pesquisa disponíveis para a sondagem e para a recomposição de um método de trabalho e, de outro modo, testemunham os critérios mobilizados por seu autor que, sem rejeitar nada, realça no âmbito da escritura a dimensão universal que transcende da matéria de cunho popular. De uma maneira particular, as narrativas a que Hermilo Borba Filho deu o nome de “novelas”, entre as quais revela-se o texto de Os ambulantes de Deus (1976) privilegiando todas as formas do inesperado e do surpreendente. É, na verdade, a presença constante destes elementos que define a própria natureza da ficção hermiliana e explica sua permanente disponibilidade à figuração do grotesco e do alegórico. No plano da superfície textual, o enredo da novela é de uma absoluta simplicidade aparente: cinco personagens, quatro homens e uma mulher, orientados por um remador – todos oriundos das camadas sociais pouco favorecidas – apresentam-se dispostos a realizar numa jangada a travessia de uma a outra margem do rio Una. Estabelecido o recurso analógico, o princípio adotado por Hermilo Borba Filho atualiza os elementos básicos contidos na imagem clássica da passagem para a morte por meio de uma barca. A partir desse fio condutor, surge o segundo e definitivo plano que converte o rio em espaço fantasioso desatado da realidade cronológica e narrativa, como um todo, em intervalo propício ao dilatamento de experiências fabulares. O início da viagem anuncia a exclusão inapelável das personagens do contexto humanizado e cotidiano no qual estavam inseridas; a supressão do ordenamento histórico e a formação de uma comunidade governada, doravante, por princípios próprios distintos dos anteriormente vivenciados. A especificidade desse universo exclusivo, instaurado no encadeamento de peripécias inusitadas – sem nenhum compromisso imediato com a verdade ou sem indicar qualquer transcrição realista do mundo objetivo – ressalta a sondagem narrativa irredutível cujo cerne se encontra na reflexão acerca da precariedade inerente à condição humana numa recriação literária. Em Os ambulantes de Deus, todas as personagens e todos os objetos estão expostos ao processo especialmente dinâmico da transfiguração: a fragmentação do constituído, o predomínio das proporções sobre a unidade e dos bocados ao invés do todo, o acidental tomado por fatal, compõem a ordem mutante identificada nessa ficção. A presença constante do absurdo configura a organização grotesco-alegórica que promove o desarranjo das convenções para fundar os aspectos particulares do universo narrativo. Nesse mundo movente, tudo revela-se contaminado pela perspectiva subversiva da morte. O tecido do enredo, esgarçado na seqüência estrutural da narrativa, deve ser cerzido pelo leitor, único modo possível para que ele recupere e reconstitua sua orientação diante de um mundo no qual se vê inserido e onde tudo parece desnorteado. Em Os ambulantes de Deus, o vínculo estabelecido entre as noções do grotesco e da alegoria parece indestrutível. Na prática, guardadas as devidas particularidades, esses conceitos se avizinham e por vezes atingem tamanho grau de combinação que chegam a se confundir: a alegoria e o grotesco, em trânsito constante e de mão dupla, contêm potencialmente indícios um do outro em idêntica proporção. O universo narrativo da novela é constituído por cinco capítulos caracterizados por indicações temporais seguidas por sintagmas nominais relacionados a fenômenos naturais ou culturais, assim denominados: 1º ano: a nuvem; 2º ano: a calda; 3º ano: a chuva; 4º ano: a cheia; e 5º ano: o sol. Cada um dos capítulos tem como epígrafe versículos do êxodo bíblico, subordinados, em seu conjunto, a uma epígrafe geral, construída por um trecho “de uma embolada nordestina”. Na epígrafe geral, encontra-se o eixo desencadeador do processo narrativo. Reunidas a epígrafe geral com as dos capítulos, vê-se estabelecida, no texto, uma analogia entre os hebreus e os nordestinos brasileiros. Estes procedimentos inaugurais de correspondência inscrevem um padrão simétrico válido para a composição da estrutura narrativa. Deste modo, as sugestões dos fenômenos indicados nas aberturas dos capítulos delineiam, com rigor, os aspectos distintos do modelo grotesco-alegórico. Cada uma das partes da narrativa contempla a investigação de uma idéia-base em torno da qual giram outras secundárias. As inúmeras superposições de camadas fabulares comportam atitudes das personagens que, embora sublinhem traços de ações individuais, formalizam repetições coletivas vinculados, necessariamente, aos índices da transfiguração mágica da vida em trânsito para a morte. Assim, destacam-se na novela, por um lado, o seu eixo narrativo, considerando que nele se encontram disseminadas as bases de um universo grotesco; por outro lado, é possível perceber que uma profusão alegórica decorre das ações das personagens. “Sinceramente, não
acho que deformo a realidade. Eu a represento totalmente. Representando-a,
uso uma categoria, como aquela da expressão, que descarta, escolhe,
seleciona e recompõe segundo um equilíbrio que é
aquele da história, do narrar, isto é, da necessidade de
fazer chegar aos outros, ao público, um ponto de vista meu, um
sentimento meu” . Este comentário de Federico Fellini –
embora expresso na década de 1980, decorridos alguns anos do falecimento
de Hermilo Borba Filho – não causaria espanto ao leitor se,
porventura, significasse a revelação de documento inédito
do escritor pernambucano. Como se pode notar, tanto o conteúdo
quanto o tom empregados na declaração do cineasta italiano
aproximam-se da dicção emprestada às assertivas do
ficcionista brasileiro. Publicado in: Correio das Artes: Hermilo 20 anos de encantado, edição especial, João Pessoa, 11 out. 1996, nº 389, p. 7-8. Suplemento literário de A União. © Copyright
by Antônio Fernandes de Medeiros Júnior, 1996. |
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