
Marcus Accioly
Foto: Céline Ebersviller
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POEMETO DO TECELÃO
ou A CANÇÃO TECIDA
(a Hermilo Borba Filho,
também tecelão de palavras)
Marcus Accioly
Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Um a um, fio por fio,
Como faz o tecelão
Que fabrica o seu tecido
De cambraia-de-algodão.
Prende os fios coloridos
No labor da tua mão,
Tece, tece, tece, tece,
Bem tecida essa canção,
Com carinho, com cuidado,
Com silêncio e solidão.
Tece, tece, que tecendo
Cresce, cresce a fiação,
Urde as formas das estampas,
Firma as cores do padrão,
Roda a roda, tece, tece,
Bem tecida essa canção.
Noite e noite, sempre e sempre,
Nunca inútil, nunca em vão,
Dia a dia te aproximas
Mais e mais da perfeição.
Não te falte uma esperança
Nem te falte uma razão
Que tecida por ti mesmo
Faz nascer essa canção.
Tece, tece, muito e muito,
Por dever e obrigação,
(Pois tecer é teu ofício
De poeta e tecelão).
Tece como se tecesses
Tua morte ou redenção,
Com amor e sacrifício,
Rapidez e lentidão,
Muito embora ninguém saiba
Que teceste esta canção
Com os fios do teu pranto
No tear do coração.
Recife, 9-7-1967
Em comemoração
do primeiro ano do Teatro Popular do Nordeste (TPN)
Publicado in: Diário de Pernambuco, Recife, 16 jul.
1967
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para Leda, a companheira
Juhareiz Correya
na hora H, te encantaste,
Hermilo.
a tua hora, sem linhas, Estados, convenções, estratégias,
dor no mapa da vitória, sorte dos aliados:
a tua hora, sem homens, como em nenhum tempo.
na hora-Hermilo, teu nome expira
e o mundo se apequena mais que Palmares
- universo maldito
como a tua boca vomitando tanta vida.
não é mais um, que se vai ou passa,
porque não há mais conta para esta desgraça:
é você quem some, Hermilo,
é você quem conta
nesta hora sacana sem respeito à ereção do
teu nome,
contágio do Homem.
na hora-Hermilo, sagrada por ti,
desaparecer por encanto desnorteia a gente
até uma oração que te deixaria puto:
- a vida é uma merda.
que será de Gogueia, Mucurana, Zumba-sem-dentes,
Bole-se-tempo, Veado-Podre e Fanhim?
que será dos fodidos, das putas, do eterno Pirangi,
que será de tudo, de todos, que será de mim?
na hora-H, ninguém te elegia, Hermilo,
- teu sangue vivo bulindo
bombeia o coração de esperança,
tu dando pinotes,
passando a mão na bunda da Morte,
cagando pra Glória, sonho de todo mundo.
na hora-Hermilo, a gente só se conforma
porque sem medo, derrota, mentira e covardia
teus assombros vitais
anularam as Bestas safadas
e as Feras dos dias.
Publicado
in: CORREYA, Juhareiz. Americanto Amar América.
Recife: Nordestal, 1982, p. 49
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Juhareiz Correya
Foto: Sônia van Dijck
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Ronaldo Monte
Foto: Mano de Carvalho
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AGÁ
(de um sonho com Hermilo Borba Filho)
Ronaldo Monte
O morto veio vivo
e me abraçou.
Depois, guardando a mínima distância
que separa os vivos dos mortos,
vi que no lugar do seu coração
ainda teimava o fogo
que o mantinha vivo.
Por isso me queimava.
jun. 1976
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dos poemas by Marcus Accioly, Juhareiz Correya e Ronaldo Monte |