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Arquivo Hermilo Borba Filho (Recife - PE) |
HERMILO BORBA FILHO dramaturgo, contista, romancista, cronista, tradutor, pesquisador, professor universitário, agitador cultural
* Engenho Verde - Palmares (PE - Brasil), 8 de julho de 1917 ___† Recife (PE - Brasil), 2 de junho de 1976 90 anos |
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HERMILO: o popular como fonte
poética
Sônia Maria van Dijck Lima |
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Capa: Leonardo Menna Barreto Gomes |
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Alzira, Velho Faceta (artistas do Pastoril) e Hermilo Borba Filho, no Janga (PE), 1974. Arq. HBF |
Hermilo Borba Filho, pesquisador da cultura popular e profundamente marcado pela origem nordestina, não hesitou em incorporar à sua criação a cultura popular, trazendo para a literatura erudita formas cultivadas pelo povo, como, por exemplo, o folheto de cordel, também conhecido como folheto de feira. A presença do popular na literatura erudita não é um fato novo em nossa cultura e nem foi inaugurado por Hermilo Borba Filho e já pode ser notada na obra dos sertanistas, por exemplo. A partir do Movimento Modernista, com a defesa da valorização do nacional em demanda da identidade brasileira, tomou corpo um maior interesse pela cultura popular. No seio das várias correntes nacionalistas, firmou-se a tendência de procurar no popular uma expressão genuinamente brasileira. Os textos populares ganharam freqüência nas páginas de autores eruditos. As técnicas de aproveitamento são variadas; mas tanto Mário de Andrade, como Manuel Bandeira e José Lins do Rego, entre outros, transportaram formas correntes no meio do povo para obras com sua assinatura. |
O romance e o conto
Da obra hermiliana, elegemos a novela "Auto-de-Fé do Pavão Misterioso", contida em O General está Pintando (1), construída a partir do cordel Romance do Pavão Misterioso. Sem o propósito de esgotar o assunto, destacaremos, no texto de Hermilo, a composição do título e a construção do herói. A literatura popular escrita apresenta-se sob
a forma de folhetos com 8, 16, 24, 32 páginas. Denominam-se simplesmente
folhetos as obras de até 8 páginas; desse número
em diante, temos os romances. A palavra romance no título
Romance do Pavão Misterioso garante tratar-se de uma
narrativa feita nos moldes tradicionais: tem 32 páginas, em versos
de sete sílabas ou redondilhas maiores, e sua matéria
diz respeito a uma aventura de amor e ou de heroísmo. Hermilo,
desviando-se do modelo, preferiu intitular seu texto, composto em prosa,
como auto-de-fé. |
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Façamos aqui um parêntese para informar que o Romance do Pavão Misterioso foi escrito, originalmente, pelo paraibano José Camelo de Melo Resende. Trata-se de um romance moderno. Na década de 20, do século passado, João Melquíades Ferreira apossou-se da narrativa e passou a publicá-la como criação sua — fato não muito raro no mundo dos folheteiros de cordel. No arquivo de Hermilo Borba Filho, encontramos
dois exemplares do Romance do Pavão Misterioso. Em um
deles, lê-se na primeira página: Editor proprietário
— José Bernardo da Silva; no outro, a capa informa o seguinte:
João Melquíades Ferreira — Proprietárias:
Filhas de José Bernardo da Silva. Ambos impressos na Tipografia
São Francisco (Juazeiro do Norte — Ceará). A colação
dos três folhetos mostrou que não há diferenças
pertinentes entre eles, no que interessa aos objetivos deste estudo.
Tomamos como base aquele que indica como autor João Melquíades
Ferreira. |
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(Folha de rosto) |
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Folhetos com o nome de José Camelo de Melo Resende Bib. Sônia van Dijck |
| Encerrado o parêntese, voltemos ao ponto em que estávamos. O termo romance tem uma implicação de gênero. Uma vez que a percepção genérica auxilia a leitura da obra, pois conduz a atenção do receptor para determinado sistema de relações, separemos do sintagma organizado pelo nosso autor a forma auto-de-fé, para compreender a modificação ocorrida. |
| Chamava-se auto-de-fé a solenidade da Inquisição, durante a qual aqueles que caíam nas malhas do Santo Ofício ouviam as sentenças; os penitenciados viam-se diante de duas alternativas: ou a abjuração de suas idéias e práticas ou a purificação pelo fogo. Não estamos, contudo, frente a uma revitalização da Santa Inquisição, mas sim diante de um texto ficcional. A opção por auto-de-fé, ao invés de romance, se não significa propriamente a adoção de um novo gênero literário, afasta-se do estatuto do texto original: romance é um discurso do profano, comprometido com o verossímil; auto-de-fé implica a manifestação pública da verdade (ou de uma verdade), defendida como absoluta, atuação de forças investidas do poder divino na condenação do demoníaco. Dessa forma, a designação auto-de-fé concedida à narrativa conota uma representação da palavra ungida e o discurso anuncia que se instaura como expressão do sagrado. Por conseguinte, o título do texto hermiliano, no plano da contigüidade, indica que a narrativa se aproxima do folheto de cordel, mas no plano metafórico mantém uma relação com outro nível de discurso: no eixo da similaridade, a titulação informa que a palavra do narrador inspira-se na palavra ritual dos autos-de-fé. |
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http://www.bbc.co.uks |
Tanto o folheto como o texto hermiliano destacam no título o pavão. Qualificado, em ambas as obras, como misterioso, o pavão é uma figura de significados mágicos. Sua presença na titulação não só registra sua participação na aventura, mas adverte-nos quanto aos sentidos míticos do que se narra. O pavão insere-se numa complexa simbologia. Signo solar, do fogo, da beleza, do poder de transmutação, pela vistosidade de sua plumagem, é também conhecido, mitologicamente, como destruidor de serpentes (seres da obscuridade). Símbolo da paz, da prosperidade, da fertilização, sua morte ritual tem o poder de trazer a chuva. Aparece como montaria em algumas mitologias e na tradição cristã é sinal de imortalidade. Como representação da dualidade psíquica do homem, o pavão conota as forças positivas, por todos os conteúdos que lhe são atribuídos.(2) |
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Sua carga simbólica já estava contida na história do folheto e foi mantida por Hermilo Borba Filho: a personagem é auxiliada, na consecução de seus objetivos, por um pavão mecânico, que lhe serve de montaria; o amor e o heroísmo triunfam sobre o mal. Mas a combinação de auto-de-fé com a figura do pavão, ambos lembranças do fogo, constitui-se um anúncio de revelação dos conteúdos mágicos do pensamento popular: o ato de narrar assume um caráter purificador na medida que dá conhecimento do sucesso das forças primordiais positivas. A análise do título "Auto-de-Fé do Pavão Misterioso" deixa ver a ocorrência de "... um cruzamento de superfícies textuais, um diálogo de diversas escrituras... ".(3) A relação entre o folheto de cordel e a novela hermiliana, desde a titulação, faz-se de modo complexo, resultado de um processo de elaboração. A simples constatação da introdução de um discurso em outro não esgota a multiplicidade de procedimentos empregados. Por isso, Gérard Genette prefere falar de relações transtextuais, ou seja, transtextualidade: "tudo o que coloca um texto em relação manifesta ou secreta com outros textos"(4). |
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A estrutura do maravilhoso A matéria do Romance do Pavão Misterioso e do "Auto-de-Fé do Pavão Misterioso" é a aventura de um rapaz, chamado Evangelista, que ao contemplar a beleza de Creusa/Creuza, donzela conservada prisioneira pelo conde (seu pai), sente-se invadido por um forte desejo: tirar a moça do sobrado do conde e tomá-la como mulher. Evangelista foge com Creuza/Creuza, ajudado por um pavão mecânico. O fato de ser mantida reclusa no sobrado, em cuja janela só aparece uma vez por ano, corresponde a um malefício imposto à donzela. A Evangelista cabe salvar a vítima da prisão, (re)instaurando a ordem. A beleza proibida da donzela desperta em Evangelista a vontade de possuí-la; a moça passa a objeto do desejo do rapaz, cujas ações visam à satisfação da carência gerada pelo desejo. O sucesso da demanda empreendida pelo apaixonado (re)estabelece o equilíbrio quebrado pela vontade de posse do objeto. Logo, a libertação da donzela tanto significa a reparação de um malefício (reclusão) como a eliminação de uma carência (desejo amoroso), a vitória cabendo ao herói. Sendo esses elementos a espinha dorsal da história, podemos considerá-la como um conto maravilhoso, tomando aqui o conceito de Vladimir Propp.(5) |
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A natureza mítica do herói Como em muitas narrativas populares, no folheto Romance do Pavão Misterioso, o herói vem de um país estrangeiro e sua história transcorre também numa região longínqua daquela do leitor ou ouvinte. O Evangelista do cordel vem da Turquia e sua aventura tem a Grécia como palco. A construção do espaço decorre de dados culturais e contribui para conferir à personagem das histórias populares um caráter mágico. Vivendo em paragens remotas ou simplesmente desconhecidas do apreciador da história, ou ainda povoadas de perigos e ameaças, o herói reveste-se de uma natureza próxima daquela das criaturas míticas, habitantes de um espaço e de um tempo distantes. (6) Hermilo ambientou a história no Nordeste brasileiro e fez de Evangelista um pernambucano. Hermilo realizou uma transformação espacial. |
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Hermilo ambientou a história no Nordeste brasileiro e fez de Evangelista um pernambucano. Hermilo realizou uma transformação espacial. O percurso de Evangelista remete ao interior de Pernambuco (Fanal da Luz, Esperança, por exemplo) e Recife, onde "foi para espairecer" (p. 91). Porém, essa paisagem montada com elementos do real não tem os contornos do Estado da Federação; suas fronteiras são imprecisas, uma vez que Em montes e vales,
colinas, outeiros, chãs, cristas, chapadões, em bosques
e capoeiras, riachos e alagados, várzeas, canaviais, no brejo,
andara Evangelista, (...) ao largo de Fanal da Luz, Esperança,
Trombetas, Bomiral, o cheiro, no vento, o cheiro da caça, levando-o
mais direto para Alegria do Una. .. (p. 86) |
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Em outra ocasião, a personagem ... foi e varou campinas, grutas, cascatas, carrascais, desfiladeiros, ribanceiras, barrancos, olhos-d'água... (p. 89) A ambientação regional não caiu no lugar-comum de pintar a caatinga, o deserto, fatos por demais sabidos. O autor escolheu a variedade de acidentes geográficos (geografia física; geografia econômica) para compor um espaço singular: a origem de um herói um conto maravilhoso de amor e heroísmo. A transformação espacial da Turquia/Grécia para o Nordeste valeu-se de recursos de linguagem para conotar o longínquo: os substantivos comuns no plural utilizados no traçado do mapa do território cruzado por Evangelista carregam, além da impressão de vastidão, uma nota de vaguidade, como se a geografia descrita estivesse localizada numa região remota. A opção pelo Nordeste deu lugar a que o discurso registrasse um universo cultural, trazendo costumes, como a "farofa de água fria" (p. 87), e expressões regionais, recolhidas pelo escritor em ocasiões tão pitorescas como as que essas construções podem sugerir: — "só o vento
levantando uma poeirinha escalafobética" (p. 86) Mas a mudança de cenário favoreceu principalmente a que fosse revelado o lado mágico da cultura regional em uma infinidade de manifestações. Assim é que, no encerramento da novela, Hermilo Borba Filho introduziu uma longa enumeração dos traços culturais nordestinos — dos folguedos populares (fandango, bumba-meu-boi, mamulengo, maracatu, entre outros) aos folhetos de feira. |
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A caça como prova do herói Alguns heróis populares pertencem a camadas sociais elevadas ou adquirem riqueza e poder no decorrer da história; com esses traços diferenciam-se do cotidiano do homem comum que lhes presta admiração. Assim, o Evangelista do Romance do Pavão Misterioso é um rico herdeiro de "um viúvo capitalista". No texto de Hermilo, Evangelista, no Sábado de Aleluia, vem de longa caminhada desde os limites do mundo organizado e entra na civilização. Na transformação espacial operada, diluem-se as fronteiras entre o real empírico e o mundo mágico povoado pelas criaturas de exceção. Evangelista, caçador solitário, nordestino, conhece os domínios das regiões remotas e, assim, participa da natureza das criaturas daí advindas e cultivadas pelo gosto popular. Transformando Evangelista de rico herdeiro em caçador, Hermilo Borba Filho instaurou uma relação entre sua personagem e os heróis ancestrais, vencedores de animais selvagens, perigosos, enquanto encarnações de poderes maléficos. A figura do caçador insere-se numa simbologia que remonta a concepções míticas. A caça está relacionada a uma concepção mágica dos significados das ações humanas. A perseguição e a matança de animais remetem à destruição da ignorância, das tendências negativas e abismais; quer seja de penas, de pêlo ou de escamas, toda caça é vista como suporte das forças do mal, portanto ameaçadoras: demônios, feiticeiras, inimigos públicos ou particulares, tanto os declarados como os virtuais; o gesto do caçador tem o poder de esconjurar tais ameaças.(7) As conotações rituais da caça atribuem a sua prática uma afirmação de valor, de positividade, de juventude e vigor. Para alguns povos tribais, caçar é um privilégio que confere dignidade. Sendo caçador, Evangelista possui virtudes e um estado próprio dos seres que se distinguem do comum dos homens. Além de uns bichos miúdos, Evangelista caçou um veado-galheiro. |
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O veado-galheiro, assim como o gamo e o cervo em outras regiões, é pleno de significados simbólicos: fecundidade, ritmos de crescimento, renascimentos, ardor sexual; é o anunciador da luz (8), é mediador entre o céu e a terra; símbolo da velocidade e da agilidade, foi, na Antiguidade, consagrado a Diana. No cristianismo, remete à revelação salvífica. Também é signo de prudência, porque sempre foge no sentido do vento, que leva seu cheiro, e porque se lhe atribui o conhecimento de plantas medicinais.(9) Evangelista, apropriando-se, através da caça, do animal, tornou-se possuidor das virtudes atribuídas a esse ser e, por conse¬guinte, teve ampliado o significado de seu estatuto de caçador. |
Diana (Versalhes) http://www.artemisenergia.com.br |
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Arte pré-romana (Ligúria) http://www.pietrantica.it |
Contudo, sendo um animal solar, o cervo (e, no nosso caso, o veado-galheiro) associa-se à seca; essa interpretação está registrada no texto de Hermilo, quando assinala a sede de Evangelista: Atravessado nos ombros, pluma sentia, um veado-galheiro, mas ele, enfastiado, espingarda de cano para baixo, culatra embaixo do sovaco, sem mais cartuchos, só sede e no bucho aquela sensação de madrugada que sempre anunciava a sua fome... (p. 86) (grifos nossos) |
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Nas mitologias que creditam ao cervo a ligação com a seca, pensa-se que é preciso matar o animal para que venha a chuva e a fartura. De acordo com tal concepção, a entrada do cervo numa cidade anuncia ocorrências nefastas. Na história de Hermilo, a personagem, conduzindo o veado-galheiro morto, encaminha-se para a cidade, onde poderá saciar a sede e a fome. A entrada do caçador levando o animal emblemático prenuncia a derrota do pai de Creuza, como se verifica no decorrer da aventura. Bestiário medieval (Oxford) >>> http://www.commons.wikimedia.org
>>>
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Não devemos desprezar as conotações guardadas em sede e fome, como metáforas do desejo. Com efeito, depois da matança do veado-galheiro, a personagem acha-se credenciada a matar a sede e a fome da posse amorosa, conquistando a donzela. Evangelista, ao tomar o rumo da cidade, tinha intenção de preparar a caça para ser comida e repartida com quem o hospedasse. Com alguns detalhes nordestinos — farofa de água fria, uma talagada —, Hermilo construiu um repasto comunal, no qual os animais, tornados emblemáticos por terem sido conquistados na caçada (e o texto destaca mais uma vez o veado-galheiro), são repartidos como símbolos de poderes mágicos. Hermilo transformou a personagem do cordel, enriquecendo-a graças à recorrência a sugestões simbólicas. A caçada, a conquista do veado-galheiro e o banquete funcionam como iniciação da personagem, que se credencia para feitos maiores: possuir o auxiliar mágico — o pavão e outros objetos, vencer a interdição do pai de Creuza e assim lograr possuir a donzela, restabelecendo o equilíbrio. Na personagem hermiliana permanece a figura
do herói que se mostra corajoso, esperto, motivado por um amor
espontâneo e natural, vencedor das forças obscuras que
se interpõem no seu caminho, capaz de alcançar a realização
de seu objetivo. |
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Epifania do caráter mágico da cultura popular Podemos, então, concluir: a transposição de elementos narrativos próprios do conto maravilhoso reafirma, na literatura de Hermilo, a mesma estrutura das narrativas de gosto popular, anulando a distância entre os dois níveis de criação artística. A relação entre o folheto e a obra de Hermilo, levando em conta a introdução dos conteúdos simbólicos apontados, deixa que percebamos a ambivalência do discurso dialógico: o texto joga com o distanciamento do original e com a continuidade dos aspectos ideológicos do modelo. O afastamento resulta da estilização da narrativa popular; a reafirmação decorre da paráfrase. A transposição do Romance do Pavão Misterioso para a obra hermiliana vem ao encontro de um projeto do autor. No "Auto-de-Fé do Pavão Misterioso" a função do pavão extrapola a de simples auxiliar mágico; ele contribui não apenas para a consecução dos planos amorosos do herói, mas erige-se símbolo do resgate de uma tradição; por seu intermédio, as personagens reintegram-se a seu universo. No final do texto de cordel, o herói, depois do casamento, toma posse da riqueza do falecido Conde e com isso realimenta aspectos ideológicos que poderiam ter sido superados; Hermilo optou por privilegiar o conteúdo erótico motivador da ação. O auto-de-fé leva à abjuração/derrota dos falsos valores para que a legítima atração erótica exerça sua influência libertadora e criadora de uma nova ordem. O pavão como poder purificador, enquanto signo do fogo, e fertilizador, porque miticamente associado à chuva, encarrega-se da instauração da plenitude. Vale a pena transcrevermos o último trecho da novela: |
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Assim, o "Auto-de-Fé do Pavão Misterioso", discurso ungido pela relação dialógica com o texto popular, impõe-se como epifania de uma poética comprometida com a cultura popular regional. |
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NOTAS E REFERÊNCIAS 1.
BORBA FILHO, Hermilo. O General está pintando. Porto
Alegre: Globo, 1973, p. 86-96. Trabalho apresentado na III FLIPORTO - III FEIRA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PORTO DE GALINHAS (Porto de Galinhas - PE - Brasil), 28 set. 2007. Reprodução proibida. |
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