| ESPAÇO dos AMIGOS Ingrid Bueno Peruchi |
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"A Lavagem pra francês ver" Reinterpretação e jogo identitário na Lavagem da Madalena em Paris, França Ingrid Bueno
Peruchi * |
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Detalhe dos participantes da Lavagem da Madalena - Paris - França |
A tradicional festa baiana da lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, que em mais de dois séculos de história firmou-se como a representação maior da fé e do sincretismo religioso na cidade de Salvador, vem sendo promovida anualmente na cidade de Paris (França) por iniciativa da associação franco-brasileira Viva Madeleine, desde 2002.
Detalhe do cortejo da Lavagem do Bonfim - Salvador - BA - Brasil |
| A
festa, que ocorre na Igreja de Santa Madalena, (chamada Église
de la Madeleine), tem por objetivos expressos o desenvolvimento de um
espírito ecumênico e dos valores de Paz e Tolerância,
baseados nos princípios da festa baiana. Ela guarda, no entanto,
diferenças em relação à festa original que
vão além do « estranhamento » do espaço
geográfico e dos olhares estrangeiros. Com base em um vídeo
promocional produzido pelos organizadores da festa 1,
buscaremos observar não somente as diferenças e semelhanças
entre o evento original e sua cópia no exterior, mas, a partir
deles, perceber que mais do que a divulgação ou representação
de uma nova forma de expressão religiosa estranha ao público
francês, a festa representa um espetáculo de identidades
em jogo e uma forma de mercantilização. |
| No
início do vídeo, deparamo-nos com a seguinte pergunta, proposta
pelo apresentador : “Mas na verdade, o que é o Brasil?”.
Para os franceses, conforme sugestão do vídeo, o Brasil
seria o país do carnaval, da festa, do samba e da dança
sensual protagonizada pelas mulatas. O apresentador adverte desde o princípio,
entretanto, que o Brasil é ainda formado por muitas outras coisas,
como o telespectador poderá comprovar ao conhecer o evento que
ele apresentará, ou seja, a “Festa da Madalena”. |
| O objetivo maior do evento, ou seja, trazer para a França uma forma de festividade religiosa tradicional da cidade de Salvador, parece, no entanto, no conjunto do vídeo e na festa em si, de valor minoritário. Como vimos, o organizador, ao ser questionado sobre o significado do evento, explica que ele é uma tradição brasileira que visa a “levar a paz às cidades e livrá-las dos maus espíritos”, sem maiores informações sobre a expressão religiosa que propriciaria tais benefícios, ou sobre os modos através dos quais se chegaria a eles. Além disso, em momento posterior, observa-se uma oposição claramente efetuada entre o catolicismo e o candomblé, tanto no discurso do apresentador quanto no do organizador, o que gerará uma confusão ou um estranhamento ainda maior quanto à dimensão religiosa do evento. O apresentador, ao classificar a relação do organizador com a religião como “particular” e sugerir em seguida que a religião católica no Brasil é sinônimo de “puritanismo”, evidencia não somente seu ponto de vista francês sobre o exotismo ou a diferença característica do evento que ali se produzia mas ainda efetua uma dualismo entre as religiões em questão, anulando a religião católica, sinônimo de puritanismo, em prol do que seria a religião do candomblé. O organizador, por sua vez, efetua a mesma oposição ao confirmar o puritanismo de um país que é majoritariamente católico e afirmar, por outro lado, que ele e sua família são adeptos do candomblé. |
Detalhes dos participantes da Lavagem da Madalena - Paris - França |
| Tais formulações, em primeiro lugar, contradizem a própria prática e concepção histórica do candomblé no Brasil, religião que não se constitui de modo autônomo ao catolicismo, mas que, pelo contrário, encontra nele sua complementaridade necessária. Em segundo lugar, essas formulações provocam um estranhamento da prática que ali se efetua, ou seja: se o candomblé é uma religião distinta do catolicismo, por que razão a festa em questão ocorre nas dependências da Igreja Católica e é dedicada a uma santa católica? A resposta aponta não para a anulação da causa religiosa no evento, mas para uma clara indicação de que ela é ali marginal, de que ela está relegada a segundo plano. 2 |
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A
Festa da Madalena guarda semelhanças com a Festa do Bonfim, que
podem ser verificadas através da repetição de determinados
símbolos, como a presença das baianas, da caminhada do povo
até a igreja, do ritual da lavagem das escadarias, da bênção
dos presentes e da dominante branca nas roupas. Tal festa, no entanto,
não é dedicada a Oxalá ou ao Senhor do Bonfim, como
ocorre na festa sincrética de Salvador, que não somente
atrai uma multidão de fiéis mas que tem razões religiosas
e históricas profundas. Ainda que se conserve o branco associado
a essa divindade do candomblé nas vestimentas, a santa homenageada
é Santa Madalena, que não tem destaque no culto afro-brasileiro,
o que nos leva a crer que a escolha de uma igreja em Paris que proporcionasse
um espaço físico apropriado para a encenação
da lavagem, ou seja, a Igreja da Madalena e sua escada, foi mais importante
que a celebração religiosa a uma entidade.
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Dentro da perspectiva dos estudos da sociologia pós-moderna, Stuart Hall afirma sobre a identidade que
Os efeitos de fronteira estabelecem-se nessa situação em relação àquela que é concebida como a outra identidade em questão, ou seja, a identidade francesa. Nota-se, de fato, no discurso dos entrevistados em geral, que a festa é sempre definida como “um evento tradicional que ocorre no Brasil”, e nunca como um evento representativo de uma localidade do país. O organizador afirma, ainda, a fim de comprovar a força do catolicismo no país, que “o Brasil tem uma igreja por dia”, ditado que se refere na verdade unicamente à cidade de Salvador, a qual teria 365 igrejas, ou seja, uma para cada dia do ano.
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| Tudo se passa,
assim, como se essa festa que se define como brasileira, que seria a
reprodução da Festa do Bonfim, ocorresse há quase
dois séculos em nível nacional. Verifica-se, no entanto,
que esta generalização não é sentida como
estranha pelos brasileiros presentes, o que pode ser explicado por duas
razões primordiais. |
Detalhe dos participantes da Lavagem da Madalena - Paris - França |
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O “jogo da différance” é marcado pelo adiamento e pela negociação que caracterizam a construção da identidade, que nunca se acaba ou se fixa, a não ser ilusoriamente. Este jogo se estabelece por formas simbólicas que definem o que somos “nós” em contraposição a “eles”. A oposição, no espetáculo da festa, não somente se constrói pela presença dos símbolos, anteriormente aqui evocados, que coincidem com os da Festa do Bonfim, mas sobretudo por símbolos como o carnaval de rua e a música brasileira, que não somente interpelam os brasileiros em geral presentes, provocando sua identificação, como ainda provocam a confirmação da expectativa dos franceses sobre o que seria a cultura brasileira.
<<< Detalhe dos participantes da Lavagem do Bonfim - Salvador - BA - Brasil |
Assim, se para
o francês o Brasil é sinônimo de carnaval, com todo
o conjunto de fatores que ele pressupõe, como as fantasias, o
samba e as mulatas, sua expectativa não se frustra no conhecimento
desse outro Brasil que a festa representaria, isso porque nesse outro
Brasil há pessoas dançando na rua atrás de um pequeno
trio elétrico onde se apresentam sobretudo cantores brasileiros
estabelecidos na França, que cantam músicas de carnaval;
há ainda a ostentação do símbolo maior da
nação, a bandeira brasileira; há a presença,
em meio ao cortejo, de pessoas vestidas com os paramentos de diversos
orixás, os quais podem ser facilmente interpretados, pelos olhares
estrangeiros ou mesmo brasileiros inadvertidos, como meras fantasias
carnavalescas. A presença de populações negras,
não somente formadas por brasileiros, mas também por antilhanos
e por africanos, convidados pelos organizadores para se integrarem à
caminhada até a igreja, momento em que eles dançam e tocam
instrumentos, é também uma forma de reconforto da expectativa
do francês em relação ao imaginário que eles
possuem sobre a população brasileira, ou seja, a de que
o país é constituído por uma população
essencialmente negra. |
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Ainda
que a Festa da Madalena fale fortemente de uma questão de identidade,
como discutimos, uma outra dimensão não escapa ao espetáculo
que se representa – a dimensão da mercantilização.
<<< Detalhe dos participantes da Lavagem do Bonfim - Salvador - BA - Brasil |
| Essa nova realidade transformaria essas religiões em produtos, desvinculados doravante de sua base social e étnica originária e submetidos a uma forma capitalista personalizada e utilitarista. As religiões, como produtos, passariam ainda por um processo de “espetacularização”, processo do colossal, do excessivamente elaborado. Nesse sentido, sobre a prática dos sacrifícios, afirma o autor que
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| A Festa da Madalena,
como vimos, banaliza o candomblé, através da pouca ou
confusa informação disponibilizada sobre os preceitos
desse culto, através da presença nas ruas dos orixás
carnavalizados e, ainda, através do isolamento discursivo desse
culto em relação à religião católica,
como forma de torná-lo uma expressão religiosa autônoma.
Nesse sentido, a festa é também objeto da crítica
de Motta: o evento constitui um espetáculo, transmitido pela
imprensa, que visa a um grande público, a um grande mercado,
tanto de brasileiros residentes em Paris, os quais mesmo não
tendo conhecimento da Festa do Bonfim participam da Festa da Madalena
por sua evocação de símbolos brasileiros mais amplos,
quanto de franceses, que vão ao evento motivados por uma expectativa,
um imaginário sobre o Brasil, que não se frustra. |
Detalhe dos participantes da Lavagem da Madalena - Paris - França |
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Fiéis a caminho da Lavagem do Bonfim - Salvador - BA - Brasil |
Promove-se, assim, uma festa, uma imagem do Brasil, artistas brasileiros e uma suposta forma religiosa diferente e criativa, simples nas suas concepções e cuja existência é independente da fé daqueles que na festa se reúnem. Promove-se, globaliza-se, reinventa-se uma cultura brasileira adaptada ao público ou aos clientes, que guarda, assim, poucas semelhanças com as culturas de origem. Promove-se uma “Lavagem para francês ver”, que não deixa de funcionar, ao mesmo tempo, como uma forma de interpelação identitária dos brasileiros presentes e como mercantilização de uma expressão religiosa. |
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* Ingrid Bueno Peruchi possui graduação em Letras pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (2000) e Mestrado em Lingüística Aplicada pela mesma universidade (2004). Atualmente é Profa. Leitora do Itamaraty na Université Paris X – Nanterre (França). Seu doutorado está em curso na mesma universidade. Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Lingüística Aplicada. Atua principalmente nos seguintes temas: Discurso Didático-Pedagógico, Ensino de Línguas e aspectos culturais, Identidade. |
| Comunicação apresentada no V Colóquio Internacional de Etnocenologia - de 25 a 29 de agosto de 2007. Organizado pela UFBA, Salvador, Brasil. © Copyright by Ingrid Bueno Peruchi, 2007 |
| NOTAS 1. Devido à impossibilidade de veiculação do vídeo neste espaço, as análises efetuadas podem ser acompanhadas pelas fotos da Festa aqui presentes e pelo resumo das cenas do vídeo, no parágrafo seguinte. 2. Ou sujeita a uma reinvenção que visa à mercantilização, como veremos no final dessa comunicação. |
| REFERÊNCIAS
HALL, S. Quem precisa de identidade ? In: Tomaz Tadeu da Silva (org.), Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. ________ A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2ª ed, 1998. MOTTA, R. L’expansion et la réinvention des religions afro-brésiliennes: réenchantement et décomposition. In: Arch. de Sc. soc. des Rel., 2002, n° 117 (janvier-mars). WOODWARD, K. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: Tomaz Tadeu da Silva (org.). Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais, Petrópolis: Vozes, 2000. |
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Leia também Alexandra DUMAS, Madalena, uma falsa baiana Sônia VAN DIJCK, Candomblé, uma cultura milenar |
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Igreja do Bonfim - Salvador - BA - Brasil Fotos da Lavagem da Madalena, 2007: Ingrid Bueno Peruchi Fotos da Lavagem do Bonfim e igreja: site da Bahiatursa Midi: "Sous le ciel de Paris" (Jean Brun e Hubert Giraud) Criação da página: Sônia van Dijck |