OS
CORPOS entrelaçados...
Os primeiros acordes... a voz invadiu o quarto...
- Quando ouvir esta canção, sempre se lembre de mim.
Ela interrompeu o beijo que lhe daria no peito; a mão segurou
a carícia.. Precisava acreditar no que ouvia...
Quantas vezes ouvira a mesma canção... e só tiveram
mesmo uma tarde com os pés molhados pelas ondas de um verde-novinho-em-folha-desmanchado-em-renda...
beijos... o encontro de céu e mar... o arrepio trazido pela noite...
e parecia ter chegado lá...
Respondeu, sem ontem nem amanhã:
- Você também.
Os amigos e
as amigas em torno da mesa cantarolavam baixinho – fantasias ou
lembranças... cada qual com sua bagagem... Olhou o imenso salão
repleto de mesas e de fãs do cantor de maior sucesso no momento...
a nostalgia estava em alta.... velhas canções estavam
na onda – sinal dos tempos?...
Não
devia mesmo ter acreditado naquele pedido no palco da cama... Ficara
com aquele compromisso... E lá estava o desejo tantas vezes negado...
a lembrança daquele horizonte... tanto tempo... pensava ter esquecido...
As lembranças são implacáveis...
“O mar
que não tem tamanho/ e um arco-íris no ar”
A despedida
foi rápida, como sempre:
- Ligo pra você amanhã.
- Tá bom. Espero.
Depois, foi assim: “visita de médico”... Um contato
por telefone. Um cartão pelo correio. As flores na portaria...
O próximo encontro... Não precisava mesmo dizer da tristeza
de suas preces inventadas: “tomara que ele fale comigo hoje”,
no fim de tarde, ao voltar do trabalho.
A visita foi como de costume, a despedida tinha sido como sempre. E
inútil a espera da campainha do telefone por noites e noites.
Até que...
- Oi! Vando! Por que não ligou antes?
- ...
- Claro que esperei.
- É que não deu mesmo.
- ...
- Não quero que deixe de sair por minha causa. Posso deixar o
recado na secretária. Nem sempre dá pra ligar... Depois,
você só está em casa à noite... e às
vezes fica difícil... você sabe... às vezes, ela
está aqui embaixo, perto do gabinete... aí, fica muito
tarde, e você já pode ter ido dormir...
Disse que a hora não tinha importância. Ele bem sabia.
Se estivesse dormindo, acordaria feliz. Muita conversa sobre compromissos,
problemas na empresa e tudo isso com a possibilidade de promoção
para o quadro de diretores. Estava muito bem visto pelo presidente da
multinacional, em visita à sede brasileira. Era uma grande oportunidade.
Até estava estressado com tudo isso.
- E você está onde, agora?
- Ainda no escritório. Tivemos uma reunião por causa da
auditoria de que lhe falei. Terminou agora. Aproveitei pra falar com
você... sabia que já devia estar em casa.
Não tinha mesmo tempo para perguntar o que andava fazendo. Se
havia saído com as amigas, como estava o projeto do Hotel. Também
ela não teve tempo para voltar a perguntar por que não
havia ligado na véspera ou no dia anterior, lá mesmo do
escritório:
- Um beijo. O dia foi complicado. Depois, ligo pra você.
- Um beijo. Ciao.
Nem pôde perguntar se ligaria amanhã....
Quando se conheceram, acharam que havia uma maravilhosa identificação
- como sempre deve acontecer em casos semelhantes. Uma coisa muito louca,
capaz de sobreviver na clandestinidade e de engendrar situações
de cumplicidade – julgaram, a exemplo do que todos acreditam como
verdade. Os mesmos filmes... as mesmas comidas... aliás, detestavam
restaurante japonês... opiniões bem parecidas sobre o governo,
que era o principal assunto, na falta de melhor, para preencher o tempo
do chop no fim de tarde, quando ele tinha tempo para um papo, mas sem
tempo para um carinho. No apartamento, ouviam os CDs de preferência
- compravam sempre dois: um era presente para o outro. Quando fizeram
a tão sonhada viagem à cidade mágica que ambos
sempre quiseram conhecer, encontraram, numa loja de CDs, de sucessos
mais ou menos antigos, aquela canção - afinal, o poeta
estava na preferência de ambos; haviam encontrado inúmeros
versos que pareciam de encomenda... isso do ponto de vista de cada um...
mas, que no fim ambos sempre apreciavam ou adotavam a sugestiva e insinuante
interpretação do outro... no final das contas, os dois
saíam contentes com o jogo de sedução, só
para desmentir as histórias tristes, tão do gosto dos
solitários ou das mal-amadas...
Jamais acreditara no casamento como projeto de vida. Isso incluía
qualquer relação mais séria que pudesse resultar
na vontade de ter o mesmo endereço. À frente de sua empresa
de engenharia e arquitetura, trabalhava com jovens recém-diplomados,
que buscavam experiência para completar a formação
dos bancos escolares. Tinham garra e topavam os desafios. Tranqüila
e firme, sabia exigir o melhor de cada um - o que era autoritarismo
para os que espontaneamente haviam se candidatado a uma vaga.
O tempo foi passando sem que notasse, como ninguém nota... só
se deixa ir, tocando a vida, por não poder contrariar o calendário...
As cantadas, as grosseiras e as inteligentes, foram ficando menos freqüentes
nos lançamentos de grandes projetos e nas inaugurações.
Notou isso, quando foi à sede da empresa de energia elétrica
para discutir o projeto do Hotel com o engenheiro responsável
pela expansão da rede na região que seria o novo pólo
turístico, para atrair amantes do verde.
- Vamos continuar nossa conversa no almoço? Estou com fome! Você
não? – ele disse entre charmoso e autoritário.
O projeto com suas dificuldades de implantação ficou esquecido,
para não causar indigestão... Havia livros lidos por ambos,
um poeta em comum, aquele filme que ele não vira, mas que agora
iria pegar na locadora.
- Vou ligar pra você. A gente pode até jantar e conversar
como está seu projeto. – ele, outra vez, entre charmoso
e autoritário...
O projeto nem sempre voltava à pauta, para não atrapalhar
o gosto do vinho.
E foram sendo consumidas as formalidades e superadas as resistências
em almoços e jantares e mesas de chop no fim da tarde. E veio
a vontade de um café em seu apartamento... pra saber como é
seu mundo... E de um fim de semana...
- Não conhece a pousada? Vai gostar. Providenciarei tudo. Espero
você na mini-rodoviária.
Por que queria tanto aqueles papos? Descobria-se, no shopping, procurando
uma novidade para fazer presente? Vivia aquela química de “estou
com saudade”, “e eu também”, “levo você
pra meu travesseiro”, “vou arrumar um jeito para nosso fim
de semana”. E ele parecia mover-se com desenvoltura no mapa das
pequenas cidades com os parques mais tranqüilos e endereços
das noites de lua mais insinuantes. O apartamento tornara-se universo
de cúmplices, e ela descobria um cinzeiro, uma toalha ao pé
da cama, uma revista que ele lhe dera, esquecida sobre a mesa... marcas
do encontro.
- O que aconteceu? Fiquei esperando. Você disse que havia reservado
o hotel...
- E reservei. Só que tive um problema com uma das linhas de expansão.
Todos os colegas tinham saído... sabe como é... fim de
semana, sempre sobra pro coordenador do projeto.
Precisava ser responsável; mostrar serviço... e tinha
aquela oportunidade de passar para o quadro de diretores.
- Olha, dessa vez não deu. Teremos outros fins de semana. Passarei
aí em seu apartamento. Vou encontrar um tempo. Fique tranqüila.
É mesmo muito trabalho... Quero muito estar com você. Aguarde
sem ansiedade.
- Tudo bem. Vou esperar.
O silêncio do telefone soou como advertência... De repente,
não mais que de repente... ou nem tão de repente... fez-se
do amigo próximo o distante. Voltou à turma dos velhos
amigos e amigas... Bobagem... Fora muito breve a vontade do mesmo endereço.
E tinha sido a primeira vez que experimentara aquela idéia...
A revista sobre os notáveis da sociedade, para o tédio
da espera, no salão de beleza, tinha como capa o casal de sucesso:
o novo diretor da Companhia Elétrica Olho d’Água
e esposa, na inauguração das novas linhas de transmissão.
“... falar
de amor...”
- Sofia, posso
passar em seu escritório amanhã?
- Acho que não, Carlos. Meu dia vai estar cheio com o problema
da inauguração do Hotel. A data está marcada. Depois,
preciso que me dê um tempo.
- ...
(- Por que não? Quem sabe?... Pode acontecer outra vez....)
- Juro! Telefono pra você. Talvez a gente se encontre no fim da
tarde.
Os acordes de outra canção encheram o grande salão
e chegaram aos camarotes... Palmas... enquanto do riso fez-se o pranto
pela lembrança que ficava antiga...
“Ainda viro este mundo...”
(- Que mundo?... e meu mundo?...)
- Sofia, você está bem?
- Acho que não. Mas, vou ficar...
- Quer sair?
- Leve-me pra casa, Carlos.
O frio da quase madrugada lavou a lembrança da canção,
quando o braço passou por sobre seu ombro. Sentiu “preguiça
no corpo”...
Publicado
em O galo, Natal,
Fundação José Augusto, ano 9, n. 1,
jan.2002, p. 19-20.
© Copyright
by Sônia van Dijck, 2002
Foto: Farol de
Itapoã, Geraldo Profeta Lima - fundo e detalhe
Midi: "Tarde
em Itapoã" (Vinicius e Toquinho)