| Jardim e mandarines Sônia van Dijck |
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| - Que noite terrível!
– pensou ao descer o último degrau da pequena escada que
dava para o jardim. |
| Tentava
pensar, olhar o jardim, ouvir o canto dos pássaros e apertava as
contas do rosário. A lembrança do riso solto e o cheiro
de mandarines. Agora, tentava entender por que a tinha convidado para
uma cerveja belga depois do jantar. Por que combinara uma vista ao museu
Branly? por que aceitara ouvir “não” tantas vezes naquele
outono? Por que trocara tantas mensagens até marcar um encontro
no ano seguinte? O jardineiro lhe disse “bom dia” quase ao mesmo tempo de os sinos advertirem que a hora da missa estava chegando. Sentou-se em um banco de pedra e apertou as contas até que os dedos doessem. Sorriu ao se lembrar do outono seguinte. A mensagem dela dizia quando estaria de volta a Paris. E ele havia pensado que ela não voltaria... |
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| Foi
uma semana de encontro, de paixão, de descoberta. Loucura, sensualidade.
E havia aquele jeito de ela rir e aquele modo de falar francês meio
atrapalhado, seu jeito de entregar-se na cama... seu cheiro de conhaque
e sua predileção por mandarines no café da manhã...
Os bicos de seus seios como contas do rosário... Tanto tempo... Os sinos voltaram a tocar. A missa começaria em alguns minutos. Quantas vezes ao longo desses últimos anos dissera o nome dela nas orações? Tinha aquelas noites mal dormidas. Lembranças e silêncio. - Não vou e não quero mudar minha vida. - Vai ser difícil; mas vou respeitar. Vai ser difícil para você também. - ela disse. E era uma fria manhã de outono, quando ela seguiu pela Gay Lussac. Tanto tempo... Apertou as contas... Uma chuva fininha começou a cair e o jardineiro aproveitou para lavar as mãos sob a cobertura das orquídeas e se dirigir para a igreja. |
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- Simon, estávamos à sua procura. Esqueceu que a missa de hoje é celebrada por você? Se não estiver bem, posso celebrar em seu lugar. Mas, de qualquer modo, venha comigo; você está todo molhado - disse o irmão Dominique, também com o hábito encharcado. Um movimento brusco quebrou o
fio do rosário e as contas se espalharam pelo jardim. |
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In: O conto brasileiro hoje, v. 8. São Paulo: RG Editores, 2008, v. 8, p. 119-122.
Photos: Sônia van Dijck © Copyright by Sônia van Dijck, 2008
<<< Capa: Neide Siqueira
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Midi: Only time (Enya) |