ESTUDO DA GÊNESE
DE UM DISCURSO
Sônia Maria
van Dijck Lima
INTERESSE DO
TRABALHO
Privilegiando
a leitura do manuscrito, reconstituímos alguns aspectos da escritura
de Meus verdes anos, de José Lins do Rego, procurando o reconhecimento
dos modos de proceder do autor.
Não mostramos o texto enquanto estabelecimento do ânimo
autoral.
Não estando o interesse do trabalho voltado para o estabelecimento
do texto definitivo ou da última vontade do autor, não
tomamos outras edições, além da 1ª (1956),
para verificação de variantes.
CRÍTICA LITERÁRIA E CRÍTICA GENÉTICA
A crítica
literária desconhece as formas alternativas experimentadas pelo
autor; formas essas que traduzem um repertório lingüístico,
assim como um universo cultural freqüentado por ocasião
da escritura.
Voltando-se para os documentos originais do texto, sem privilegiar essa
ou aquela lição, o geneticista, estudioso de manuscritos
modernos, reencontra complexas operações metalingüísticas,
pois, no eixo das similaridades, as formas escolhidas para a publicação,
e, portanto, organizadas no eixo das contigüidades, falam daquelas
que foram expurgadas, alimentando-se, ao mesmo tempo, de seus significados.
INTERESSE PELO PROVISÓRIO
O geneticista
detém-se na contemplação do provisório,
nos movimentos alternativos de substituição, eliminação,
acréscimo. No manuscrito estão as marcas das hesitações,
documentadas nas e pelas rasuras. (Lima, 1993: 239)
O interesse consiste em preservar os traços reveladores dos caminhos
percorridos nos eixos da linguagem, reconstituindo os movimentos de
seleção e de combinação executados na escritura.
Dessa forma, através do manuscrito, organizado como prototexto,
podem ser reconstituídas as formas alternativas experimentadas
por José Lins do Rego em Meus verdes anos, que atualizam a relação
dialética entre uma bagagem lingüística e cultural
de fatura erudita e uma linguagem de gosto popular e regional.
CARÁTER DO SIGNO
O autor tem
na palavra seu instrumento de trabalho para a construção
de um universo poético.
Os registros do(s) manuscrito(s) objetivam o caráter arbitrário
do signo – mostram a mobilidade do processo de atualização
da língua.
A escritura nos leva ao funcionamento da linguagem.
No manuscrito, não se procura um produto.
Investiga-se a produção de um discurso.
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RECONSTITUINDO UMA ESTRATÉGIA
Maria Lúcia
de Souza Agra
O protonarratário é,
na construção da narrativa, o ponto para o qual convergem
todos os movimentos do protonarrador, e que este, no trabalho de orientação
da construção da narrativa, é sempre levado ao
protonarratário, como condição essencial para o
êxito de sua orientação.
Todavia, o protonarrador orienta sua própria construção,
porque, sendo uma voz, nasce em simultaneidade com o discurso que constrói.
Concluída a orientação, isto é, definido
o discurso final, este já não mais pertencerá ao
protonarrador, mas ao narrador.
Uma vez que, para concluir sua orientação, o protagonista
da construção da comunicação narrativa necessita
da compreensão ativa do protonarratário, podemos afirmar
que é a relação entre eles que leva ao narrador
e seu discurso, no texto final.
QUEM NARRA - QUEM ESCUTA - QUEM LÊ
Afirma Genette
(s. d.: 260), o verdadeiro autor da narrativa não só é
quem conta, mas também, e por vezes muito mais, quem a escuta.
Contemplando o prototexto de Meus verdes anos, vemos que os movimentos
do protonarrador, como diz Wilma M. de Mendonça (1993: 167),
representam uma tentativa do autor de convencer o leitor de que o resgate
do passado não apenas é possível, mas que é
efetuado durante o processo de escritura.
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ESTUDO DAS PERSONAGENS
Marilene
Carlos do Vale Melo
ENCONTRO DE UM TEMPO PERDIDO
José Lins do Rego ultrapassa o registro memorialístico
e autobiográfico trazendo à tona um mundo recuperado;
lembranças que fluem, num jogo em que se mesclam a memória
e a imaginação.
O alimento memorialista e autobiográfico que nutre as narrativas
Menino de engenho e Meus verdes anos tem a mesma origem e aflora à
consciência do autor sob formas que repetem, no espaço
textual, o vivido e o observado.
Diz Antonio Candido:
... a personagem constitui a ficção... o romance transforma
a vida.
TEMPO VIVIDO # TEMPO DA ESCRITURA
No manuscrito de Meus verdes anos, a escrita corrida, sem marcas de
parágrafos e de capítulos, remete à desordem da
memória, que traz os fatos fora da ordem "lógica"
do tempo. Trata-se de um tempo agora interiorizado.
A fatura ficcional que José Lins do Rego imprime a Meus verdes
anos evidencia-se desde o início do discurso, quando o narrador
diz:
Tanto
me contaram a história que ela se transformou na minha primeira
recordação da infância. (pt., f.1)
A distância
entre o tempo vivido e o tempo da escritura fragmenta o acontecido,
que só pode ser, então, presentificado na narrativa alçando-se
à dimensão ficcional.
"ARISTOCRACIA"
RURAL
José
Lins do Rego conservou uma representação de uma sociedade
"aristocrática" rural.
Em torno de Carlinhos, em Menino de engenho, e de Dedé, em Meus
verdes anos, é que agem as demais personagens, harmonicamente,
cada uma representando os modelos reais que foram parte integrante daquela
sociedade.
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by Sônia van Dijck, Maria Lúcia de Souza Agra, Marilene
Carlos do Vale Melo, 2004