É
de surpreender como saiu rápido, no Brasil, neste ano de 1996,
a tradução do importante livro do brasilianista Kenneth
Maxwell sobre o Marquês de Pombal. Lemos a obra, no ano passado,
na edição inglesa ["Pombal, paradox of the Enlightenment",
Cambridge, 1995], graças aos bons ofícios desse infatigável
importador de livros imperdíveis, o intelectual Odilon Ribeiro
Coutinho. Agora, cerca um ano depois, em tradução de
Antônio de Pádua Danesi, chega-nos a bem cuidada edição
brasileira, pela editora Paz e Terra ["Marquês de Pombal,
paradoxo do Iluminismo", 1996].
Para Maxwell, competente pesquisador e historiador, com outras obras
publicadas (como “Conflicts and conspiracies: Brazil and Portugal
- 1750-1808”), Pombal foi uma das maiores figuras do Iluminismo,
movimento intelectual europeu que, nos séculos XVII e XVIII,
voltou-se para a Razão como forma de dominar a Natureza e promover
o progresso geral do Homem, das nações, do Conhecimento,
da Política, da Filosofia, da Arte etc. Mas tudo isto, como
se verá, só se consegue com muito sangue, suor e lágrimas.
MANDANDO
COMO UM REI
Sebastião José de Carvalho e Mello [1699-1782], marquês
de Pombal a partir de 1770 e Conde de Oeiras, foi o todo-poderoso
ministro do vigésimo-quinto rei de Portugal, Dom José
I [1714-1777, regnabat 1750-1777). Foi o monarca conhecido
como “o Reformador”, não por seus próprios
méritos, mas especialmente pelos de Pombal.
O pai do rei José I, o rei Dom João V, o Magnânimo
[1689-1750], enriquecera e de certa forma enriquecera Portugal graças
ao ouro e aos diamantes levados do Brasil. Explica-se, de certa forma,
que o Marquês de Pombal tivesse tanta autoridade (ou, digamos
de uma vez, mandava literalmente em tudo durante o reinado de Dom
José I): é que o pai deste, Dom João V, reinara
absolutamente e não entregara nenhuma responsabilidade ao filho,
futuro rei, seu sucessor. Dom João V, carola, bonacheirão,
perdulário, preferia dedicar-se a suas caçadas, amantes,
manutenção de suntuosa corte — e a construção
do gigantesco palácio-convento de Mafra.
RECONSTRUTOR
DE LISBOA
Quando Dom José I finalmente assumiu o trono, não estava
acostumado, pelas razões que já se viu, a ocupar-se
com as coisas do Estado e folgou em entregar tudo às mãos
dos ministros. O Marquês de Pombal, que dele recebera muitos
outros benefícios e títulos, inclusive este, era um
dos homens mais inteligentes do século XVIII e era talhado
para executar as reformas que praticamente todos exigiam, ante a decadência
que pairava sobre Portugal e até a diminuição
dos aportes de ouro vindo do Brasil. Na verdade, Pombal é considerado
por Maxwell, nesta sua nova obra, como um autêntico "paradoxo
do Iluminismo" — embora com todas as grandezas e pequenezas
que podiam configurar o chamado Século das Luzes.
Estadista, deveu-se a ele a reconstrução de Lisboa,
em modernas concepções urbanísticas, após
o horrível terremoto de 1755, com uns 60 mil mortos [em Portugal,
sempre se disse e ainda hoje se diz “terramoto”]. Decretou
a execução sumária de quem se aproveitasse da
situação pós-terremoto para fazer saques, explorar
o povo ou violar mulheres.
REFORMA
DA UNIVERSIDADE
Foi ele também quem acabou com a preconceituosa divisão
entre “cristãos-novos” (judeus conversos) e “cristãos-velhos”
(católicos tradicionais). Criou a primeira região produtora
de vinhos demarcada do Mundo, ao mesmo tempo em que exercia terrível
repressão contra as massas que não aceitavam a criação
de uma companhia geral agrícola nas vinhas do Alto Douro. Reformou
os estatutos da Universidade e do ensino em geral, sendo esta considerada
uma de suas maiores, mais abrangentes, mais duradoras e mais influentes
obras [“Estatutos da Universidade de Coimbra”, 1772].
Mas a guerra sem quartel movida por Pombal contra os jesuítas
fazia, por exemplo, com que uma obra das proporções
e alcance de “Compêndio Histórico do Estado da
Universidade de Coimbra (1771) ressumasse a panfleto antijesuítico.
José Bonifácio de Andrade e Silva foi um dos brasileiros
que se beneficiaram com a reforma da Universidade promovida pelo Marquês
de Pombal. E lamentou, em versos satíricos (“No reino
da estupidez”, em parceria com o luso-brasileiro Francisco de
Mello Franco), o total descaso com que dirigentes e professores de
Coimbra, onde se formou, aplicavam as acertadas medidas pombalinas
para o ensino superior. Mas isto foi depois de 1780, quando o ex-superpoderoso
ministro já não mandava em nada e caminhava desalentado
para a morte. Até os ratos dançam sobre a carcaça
do leão morto...
A
“DEDUÇÃO CRONOLÓGICA”
Também com total apoio de Dom José I, Pombal demitiu,
prendeu e por pouco não condenou à morte o inquisidor-geral
de Portugal, mesmo sendo ele um dos filhos bastardos do rei anterior,
Dom João V. Impôs o poder do Reino de Portugal ante os
demais povos europeus, desafiando até mesmo o poderio econômico
da Inglaterra. Obteve o apoio da Espanha e da França contra
os jesuítas. E também contra esses idealizou e escreveu
em grande parte a “Dedução cronológica
e analítica”, terrível libelo, que fez furor na
Europa, atribuindo aos jesuítas todos os males historicamente
ocorridos a Portugal. O richeliêulico ministro dava seu troco,
na mesma moeda (ver, adiante, o “Juízo” de Malagrida
sobre o terremoto).
Esse livro pombalino, de lógica implacável e admirável
estilo, tanto impressionou cardeais e outros assessores papais inimigos
da Companhia que eles se perguntavam: se é a Companhia de Jesus
que leva ao Mundo tão má imagem da Igreja, não
seria melhor que o Papa suprimisse a Ordem desses inacianos?! Foi
o que terminou ocorrendo, no Papado seguinte. Quando queria ser maquiavelicamente
diabólico, o Marquês concorria com poucos rivais...
TÍTULO QUILOMÉTRICO
Assinado por José de Seabra da Silva, o livro — que,
patrocinado pelo Estado, tirou sucessivas edições —
era parcialmente escrito por Pombal e sem dúvida por ele todo
inspirado. Seu título completo, para entreter a curiosidade
do leitor, é:
“Deducção Chronologica, e Analytica. Parte primeira,
na qual se manifestão pela successiva serie de cada hum dos
Reynados da Monarquia Portuguesa, que decorrerão desde o Governo
do Senhor Rey D. João III até o presente, os horrorosos
estragos, que a Companhia denominada de Jesus fez em Portugal, e todos
seus Dominios, por hum Plano, e Systema por Ella inalteravelmente
seguido desde que entrou neste Reyno, até que foi delle proscripta,
e expulsa pela justa, sabia, e providente Ley de 3 de Setembro de
1759."
Dada á luz pelo Doutor Jozeph de Seabra da Silva, Desembargador
da Casa da Supplicação, e Procurador da Coroa de S.
Magestade [Majestade], para servir de instrucção, e
fazer parte do recurso, que o mesmo Ministro interpoz, e se acha pendente
na Real Presença do dito SENHOR, sobre a indispensável
necessidade, que insta pela urgente Reparação de algumas
das mais attendiveis entre as Ruinas, cuja existencia se acha deturpando
a Authoridade Regia, e oprimindo o Publico Socego. Em Lisboa, anno
de MDCCLXVII. Na Officina de Miguel Manescal da Costa por ordem de
Sua Magestade”.
Como se vê, Pombal e os pombalinos não diziam “Companhia
de Jesus”, mas “Companhia denominada de Jesus”...
inclusive para não melindrar os demais católicos. E
o livro servia também para propagandear a idéia de uma
monarquia de poder ilimitado, embora o rei devesse ser vassalo da
Lei.
MECENAS
IMORTALIZADO
Um dos motivos pelos quais os jesuítas não gostavam
de Pombal: ele, preocupado apenas com as razões de Estado e
com a afirmação do Reino português, determinou
um ataque militar aos Sete Povos das Missões, as amplas reduções
jesuíticas a oeste do atual Rio Grande do Sul.
Este ataque, por sinal, ficou imortalizado no poema épico de
[José] Basílio da Gama, “Uraguay” [erroneamente
citado como “Uruguay], que exalta o feito pombalino. Como lembra
outro Voltaire, não o Voltaire (1694-1778) filósofo
do Iluminismo, escritor, poeta, dramaturgo, mas o historiador Voltaire
Schilling, no Brasil de hoje, ao citar a tese de Ivan Teixeira (“Mecenato
pombalino e poesia neoclássica”, de 1999), Pombal também
era um mecenas.
MACHADO,
BASÍLIO, POMBAL
A propósito de “Uraguay”, Machado de Assis, com
seu humor triste e humaníssimo, lembra noutra crônica
de “A Semana” a aproximação entre o Marquês
de Pombal e o poeta Basílio da Gama. Por tocante, merece a
crônica ser transcrita em grande parte:
“Hoje
comemora-se o centenário de um poeta. Digo mal. Nem se comemora,
nem é ainda o centenário. Este é no fim do mês;
o que se faz hoje, segundo li nas folhas, é convidar os homens
de letras para tratarem dos meios de celebrar o primeiro centenário
da morte de José Basílio da Gama. Não conheço
o pio brasileiro que tomou a si essa iniciativa. Não se vive
só de política. As musas também nutrem a alma
nacional. Foi o nosso Gonzaga que escreveu com grande acerto que as
pirâmides e os obeliscos arrasam-se, mas que as “Ilíadas”
e as “Eneidas” ficam.
José Basílio não escreveu “Eneidas”
nem “Ilíadas”, mas o “Uraguai” é
obra de um grande e doce poeta, precursor de Gonçalves Dias.
Os quatro cantos dos Timbiras, escapos ao naufrágio, são
da mesma família daqueles cinco cantos do poema de José
Basílio. Não tem este a popularidade da Marília
de Dirceu, sendo-lhe, a certos respeitos, superior, por mais incompleto
e menos limado que o ache Garrett; mas o próprio Garrett escreveu
em 1826 que os brasileiros têm no poema de José Basílio
da Gama "a melhor coroa da sua poesia, que nele é verdadeiramente
nacional e legítima americana".
Neste tempo em que o uso do verso solto se perdeu inteiramente, tanto
no Brasil como em Portugal, Gonzaga tem essa superioridade sobre o
seu patrício mineiro. As rimas daquele cantam de si mesmas,
quando não baste a perfeição dos seus versos,
ao passo que o verso solto de José Basílio tem aquela
harmonia, seguramente mais difícil, a que é preciso
chegar pela só inspiração e beleza do metro.
Não serão sempre perfeitos. O meu bom amigo Muzzio,
companheiro de outrora, crítico de bom gosto, achava detestáveis
aqueles dous famosos versos do “Uraguai”:
Tropel
confuso de cavalaria,
Que combate desordenadamente.
—
Isto nunca será onomatopéia, dizia ele; são dous
maus versos.
Concordava que não eram melodiosos, mas defendia a intenção
do poeta, capaz de os fazer com a tônica usual. Um dia, achei
em Filinto Elísio uma imitação daqueles versos
de José Basílio da Gama, por sinal que ruim, mas o lírico
português confessava a imitação e a origem. Não
quero dizer que isto tornasse mais belos os do poeta mineiro; mas
é força lembrar o que valia no seu tempo Filinto Elísio,
tão acatado, que meia dúzia de versos seus, elogiando
Bocage, bastaram a inspirar a este o célebre grito de orgulho
e de glória: — Zoilos, tremei! Posteridade, és
minha!
A reunião de hoje pode ser prejudicada pela grande comoção
de ontem. Outro dia seria melhor. Se alguns homens de letras se juntarem
para isto, façam obra original, como original foi o poeta no
nosso mundo americano. Antes de tudo, seja-me dado pedir alguma cousa:
excluam a poliantéia. [...]
Não; há vários modos de comemorar o poeta de
Lindóia, dignos do assunto e do tempo. Não busquem grandeza
nem rumor; falta ao poeta a popularidade necessária para uma
festa que toque a todos. Uma simples festa literária é
bastante, desde que tenha gosto e arte. Oficialmente se poderá
fazer alguma cousa, o nome do poeta, por exemplo, dado pelo Conselho
Municipal a uma das novas ruas. Devo aqui notar que Minas Gerais,
que tem o gosto de mudar os nomes às cidades, não deu
ainda a nenhuma delas o nome de Gonzaga, e bem podia dar agora a alguma
o nome de Lindóia, se o do cantor desta lhe parece extenso
em demasia; qualquer ato, enfim, que mostre o apreço devido
à musa deliciosa de José Basílio, o mesmo que,
condenado a desterro, pôde com versos alcançar a absolvição
e um lugar de oficial de secretaria [N. do R.: sob o governo de Dom
José I/Pombal]:
Eu
não verei passar teus doze anos,
Alma de amor e de piedade cheia,
Esperam-me os desertos africanos,
Áspera, inculta, monstruosa areia,
Ah! tu fazes cessar os tristes danos...
“Assim falou ele [Basílio da Gama] à filha do
Marquês de Pombal, como sabeis, e dos versos lhe veio a boa
fortuna. A má fortuna veio-lhe do caráter, que se conservou
fiel ao marquês, ainda depois de caído, e perdeu com
isso o emprego.” — conclui Machado de Assis.
NOBRES
& JESUÍTAS
A um tempo amado por muitos e por muitos figadal e rancorosamente
odiado, mandou para a masmorra muitas figuras importantes da nobreza
de Portugal, cujos privilégios combateu vigorosamente. Sua
influência sobre o rei atraía a inimizade de grande parte
dos nobres e de setores da Igreja, marcadamente os jesuítas.
Não titubeou em decretar a horrenda execução
pública do próprio Duque de Aveiro, logo após
o sério atentado contra a vida do rei Dom José I. Ao
affaire, chamou-se Conspiração dos Távoras.
Foi essa Conspiração dos Távoras [1758–1759],
uma das mais destacadas famílias portuguesas, que deu ao Marquês
o pretexto por ele esperado para esmagar rápida e maquiavelicamente
seus opositores, inclusive a nobreza e os jesuítas. Na noite
de 13 de setembro de 1758, três homens a cavalo, escondidos
numa estrada, haviam atacado a carruagem real. Apesar da habilidade
e rapidez do cocheiro, o rei foi ferido.
A
TERRÍVEL EXECUÇÃO
Para horror dos mandantes e demais implicados na tentativa de morte
contra o rei, Dom José I sobreviveu, embora ferido —
e cerca de três meses depois, sob a direta supervisão
do Marquês, instalou-se temível corte especial para julgar
quem fosse encontrado em culpa. Basta dizer que alguns membros da
família Távora, sentenciados em 13 de janeiro de 1759,
foram cruelmente executados no patíbulo especial para isto
construído na Praça de Belém. Existem detalhados
desenhos contemporâneos desse mesmo patíbulo —
patíbulo elevado, bem visível à multidão,
porque a execução servia de advertência a outros
que pensassem em regicídio.
Assim é que, a 13 de janeiro de 1759, dez foram supliciados:
1) a Marquesa de Távora; 2) seu filho mais jovem, José
Maria; 3) o Conde de Atoguia; 4) o jovem Marquês de Távora
(Luís Bernardo, cuja esposa era “favorita”, isto
é, amante do rei); 5) Manuel Álvares Ferreira (plebeu,
criado do Duque de Aveiro); 6) José Miguel (idem, idem); 7)
Brás José Romeiro (idem, idem); 8) o Marquês de
Távora (pai); 9) o Duque de Aveiro; e 10) António Álvares
Ferreira (um dos dois que haviam atingido o rei a tiros; o outro,
Manuel Álvares Ferreira, não foi preso nem executado,
provavelmente por haver revelado toda a trama às autoridades,
durante os interrogatórios e sessões de tortura). No
dia seguinte, 14 de janeiro, toda a Corte participou do beija-mão
no Paço Real, em homenagem ao rei. E, no dia 19 do mesmo mês
e ano, dá-se a ordem de seqüestro de todos os bens de
todos os jesuítas em todos os domínios de Portugal.
COMO
O REI ESCAPOU
Nunca ficou comprovada a participação dos jesuítas
na tentativa de assassinato do rei. Mas, com relação
aos Aveiro e outros, e apesar de todo o mistério que ainda
cerca o caso, havia então alguns indícios que ajudaram
Pombal a livrar-se de alguns de seus principais inimigos declarados.
Por exemplo: Dom José de Mascarenhas (Duque de Aveiro), manifestara
bem antes do atentado a exigência de auferir as rendas a que
faziam jus os duques seus antecessores.
Pombal convenceu o rei a não lhe dar tal privilégio
e o Duque passou a odiar Dom José. Aí decidiu matar
o monarca, conversando sobre isto com seu roupeiro, Manuel Álvares
Ferreira (irmão do número 10 da relação
acima). Pelo plano, Manuel deveria combinar o atentado com seu irmão
Antônio Álvares Ferreira (que de fato atingiu o rei)
e com outro parente, José Policarpo de Azevedo.
Dom José I foi atacado entre a Quinta de Cima e a Quinta de
Cima, quando retornava ao Paço da Ajuda, vindo da casa de uma
de suas favoritas/amantes. Qualquer um mais azarado teria morrido
nesse transe, mas um dos bacamartes errou o tiro (o outro acerto-lhe
um braço, mas de leve); e o chocheiro, ao invés de seguir
adiante, decidiu retornar, numa manobra rápida e inteligente,
quem sabe ditada pelo próprio ferido. Pombal foi imediatamente
avisado e, indo ver na hora o rei ferido, divisou num átimo
que poderia aproveitar-se da oportunidade para consolidar seu poder
e o poder da monarquia contra os nobres. E, quiçá, com
os jesuítas...
“O
REI DEU UMA QUEDA...”
Inteligente, maquiavélico e de sangue-frio já comprovado
no pós-terremoto de Lisboa, Pombal determinou que não
se desse publicidade ao fato, inventando-se, ao contrário,
que o rei havia levado uma queda. Foi assim que pôde fazer todas
as investigações no maior segredo. Exatamente três
meses depois, em 13 de dezembro, estavam presos os principais envolvidos,
menos José Policarpo de Azevedo (Pombal ainda não sabia
de seu envolvimento). Vasculhadas, as casas forneceram novos indícios
e pistas. Os criados confessaram logo sua culpa e a do amo, o Duque
de Aveiro, que também se declarou culpado, após terríveis
torturas. Foi seu, aliás, o único depoimento do processo.
Outras prisões foram sendo feitas ao longo das investigações.
Entre os presos, estavam os Aveiro, Távoras, Alornas, Atouguias...
Os nobres presos por esse tempo enchiam as fortalezas às margens
do Tejo. Enfim, fizeram-se mais de mil prisões. Nunca se pôde
comprovar em toda a extensão a culpa dos Távoras. E,
à luz do Direito de hoje, o processo viciou-se por falhas graves,
a começar pelo fato de todos os ministros integrantes do tribunal
especial serem funcionários diretos do próprio rei...
QUEBRADOS
A MARRETADAS
Além disto, se a legislação previa a tortura
dos suspeitos (o que foi feito com toda a crueldade possível),
não admitia a tortura igualmente das testemunhas de acusação
— mas essas também foram seviciadas, o que era contra
a lei. Enfim, o tribunal especial de inconfidência passou por
cima da já cruel legislação coeva. E até
ganhou o direito de inventar novas penas, a seu bel-prazer, já
que não se podia imaginar que castigo fosse suficiente para
punir o crime de regicídio (ou tentativa de). Desta forma é
que os executados tiveram os ossos dos braços e pernas quebrados
a marretadas, antes de serem efetivamente jogados, agonizantes mas
ainda vivos, dentro da imensa fogueira.
Não foi esta a primeira oportunidade que Pombal teve de mostrar
seu extremado pulso no campo político-institucional. Em 1756,
os nobres fizeram uma tentativa golpista de empolgar o poder —
mas os envolvidos na conspiração foram todos desterrados
para Angola... E o que pensam que ocorreu ao genovês Pele, acusado
de tentativa de morte contra o próprio Marquês de Pombal?
Simplesmente foi executado como regicida.
POMBAL
VERSUS JESUÍTAS
Para completar os paradoxos, Pombal (mui propriamente considerado
como um dos maiores "déspotas iluminados" internacionais
daquele período histórico, e que fora bom embaixador
em Londres e Viena sob o rei Dom João V) expulsou sem contemplação
todos os jesuítas de Portugal e dos territórios ultramarinos
portugueses (1759) — embora guardasse tantos pontos de vista
em comum com os jesuítas, a começar pelo entendimento
de que Portugal errara, e errara muito, em expulsar os judeus, responsáveis
maiores pelo antigo esplendor econômico e financeiro do Reino.
Entre outras coisas, os jesuítas (deportados para os Estados
Papais e que ainda hoje não conseguiram “digerir”
o Marquês) foram acusados de comércio ilegal, incitamento
a revoltas na América e cumplicidade no golpe para matar o
soberano português. O protesto do então Papa Clemente
XIII só provocou nova expulsão: a do núncio apostólico...
Foi como resultado da ação do Marquês, neste particular,
que mais tarde a Societas Jesu (Companhia de Jesus ou Ordem dos Jesuítas)
ver-se-ia extinta, em 1773, pelo Papa Clemente XIV, quando contava
com quase 22 mil 600 membros.
O certo é que, no dia 2 de julho de 1760, o embaixador lusitano
Francisco de Almada, acreditado junto à Santa Sé, afixou
na igreja de Santo Antônio dos Portugueses edital tornando público
o rompimento de relações diplomáticas entre Portugal
e o Vaticano. O edital também obrigava os portugueses a abandonaram
os Estados Papais, nos quais, evidentemente, se incluía a cidade
de Roma. No dia 6, novo edital ampliava o prazo para que os lusos
deixassem os domínios do Papado.
ONZE
IRMÃOS, DOIS DE DESTAQUE
Por nove anos, Pombal cortou relações diplomáticas
com o Vaticano e secularizou a Inquisição em Portugal,
colocando um de seus 11 irmãos (dissemos onze) para dirigi-la.
Desses 11 irmãos, dois se destacaram, mas não tanto
quanto Pombal, a quem serviam canina ou fielmente: Paulo de Carvalho
e Mendonça (1702-1770) e Francisco Xavier de Mendonça
Furtado (1700-1779). Dom Paulo de Carvalho e Mendonça nasceu
em 1702 e foi monsenhor da Patriarcal de Lisboa.
Dom Paulo chegou a ser criado Cardeal pelo Papa Clemente XIV, sucessor
de Clemente XIII (inimigo de Pombal). Isto se deu a 29 de janeiro
de 1770, num claro agrado ao Marquês, mas, quando a notícia
chegou a Lisboa, Dom Paulo já falecera, aos 68 anos de idade.
É bom não esquecer que, quando prendeu e demitiu o filho
bastardo do rei anterior, bastardo que dirigia a Inquisição
em Portugal, Pombal lá colocou seu irmão Paulo de Carvalho
e Mendonça, que passou a ser portanto o Inquisidor-Mor do Reino
(depois de Inquisidor é que seria Cardeal). Como Pombal não
poderia mandar em tudo, se um irmão era o chefe-d’armas,
comandando as tropas de terra e mar (no Brasil e depois em Lisboa)
e o outro era chefe da Igreja?!
A
“SALA DA CONCÓRDIA”
No Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, existe uma
algo misteriosa Sala da Concórdia. Nela há um enorme
retrato a óleo, no teto. Um retrato não do Marquês
de Pombal sozinho, mas dele em companhia dos dois principais irmãos,
Dom Paulo de Carvalho e Mendonça (à direita), Francisco
Xavier de Mendonça e Furtado (à esquerda) e, ao centro,
claro que o primeiro Marquês de Pombal. Os três manos
estão abraçados e este abraço semelha um grande
oito horizontalmente posto, sinal que, também para o racionalismo
iluminista da época, significava o infinito.
Diz-se que era nessa Sala (mui justamente chamada “da Concórdia”)
que os três irmãos se reuniam, chegando necessariamente
a bons termos, sempre que entre eles surgisse alguma divergência
pessoal, política, ideológica, administrativa, ou quando
havia assuntos essenciais de Estado a decidir.
MANDOU
QUEIMAR MALAGRIDA
Como demonstra Maxwell, de 1684 a 1747, 4 mil 672 pessoas haviam sido
condenadas pela Inquisição e 146 foram queimadas na
fogueira (dizia-se "relaxadas em carne"; e o uso da fogueira
"atendia", brrr!, ao preceito bíblico de não
derramar sangue...); e, de 1750 a 1759, houve 1 mil 107 sentenças
e 18 execuções em fogueiras, procedimento bárbaro
que, evidentemente, começara bem antes de Pombal.
Foi sob o incontrastável poder do Marquês de Pombal que
a fogueira inquisitorial queimou o missionário (e visionário)
italiano Gabriel Malagrida [1689-1761], cuja biografia liga-se proximamente
à História da Paraíba. Foi esse frade quem, entre
outras façanhas dignas de louvor no Maranhão, no Pará,
em Pernambuco, na Bahia, na Parahyba e noutras paragens (sem esquecer
Recife, Olinda, Penedo, Belém, parte da Amazônia Setentrional),
ajudou efetivamente a desenvolver o antigo Colégio dos Jesuítas
da Paraíba. Esse Colégio foi fundado em 1586, no mesmo
ano em que se construiu o Convento dos Jesuítas, atual Palácio
da Redenção. Para se ter uma idéia, o Colégio
dos Jesuítas do Rio de Janeiro havia sido criado em 1567.
COLÉGIO
DOS JESUÍTAS
Procurando detalhar mais e correndo o risco de sermos repetitivo (“quando
se tenta esgotar um assunto, o que se esgota é a paciência
do leitor...”): o Colégio jesuíta da Parahyba
— cujo prédio atual foi erguido em 1746, como se pode
ver pela inscrição existente em seu frontispício
— funcionava onde hoje se encontra o prédio da Faculdade
de Direito da UFPB, na atual Praça João Pessoa e bem
ao lado do Palácio da Redenção. A rua ao lado,
por sinal, que desde seus primórdios foi chamada de Beco do
Colégio, tem hoje o nome do Padre Malagrida, mas não
por ele haver ajudado a construir o Colégio (nem era nascido
ainda em 1586 e só entrou na Companhia de Jesus em 1711).
Não foi este, da Parahyba, o único colégio organizado
por Malagrida, que fez o mesmo em Pernambuco. Não se limitava
a fundar colégios ou seminários. Em 1742, por exemplo,
fundou na vila de Igaraçu (erroneamente dita Igarassu), com
o padre Miguel Rodrigues Sepúlveda, o “recolhimento”
do Sagrado Coração de Jesus. Estabelecimentos como este
tinham o objetivo de recolher moças pobres que se podiam dedicar
à vida religiosa. Noutros estabelecimentos, cujas “recolhidas”
o frade Malagrida e seus contemporâneos chamavam de “convertidas”,
abrigavam-se ex-prostitutas conversas para uma nova vida de obras
cristãs. Tanto quanto aos índios, o frade italiano tinha
especial dedicação a essas almas desgarradas, em cuja
salvação era preciso insistir.
Malagrida passou 25 anos percorrendo (o mais das vezes a pé)
os caminhos entre o Pará, o Maranhão e a Bahia, sem
esquecer Pernambuco, Paraíba e outras plagas. Sempre fundando
seminários, colégios, escolas, abrigos para moças
pobres ou para mulheres-de-vida-difícil, casas de “exercícios
espirituais” (bem no estilo de Loyola, o guru-inventor desse
método específico de meditação).
PALÁCIO
DO GOVERNO
Foi concluída ainda em 1586, um ano após ser fundada
a Paraíba, a construção do primeiro conjunto
de prédios, formado
1) pelo Convento (hoje Palácio da Redenção);
2) pela Igreja (antes de São Gonçalo e, se muito não
me engano, depois de Nossa Senhora da Conceição, derrubada
em 1929, pelo presidente João Pessoa, com a construção
de outro templo, uma igrejinha menor, mas com a mesma invocação,
na Rua São Miguel, também no centro da cidade, em entendimentos
com as autoridades eclesiásticas, para compensar a perda);
e
3) pelo Colégio dos Jesuítas (atual Faculdade de Direito
da UFPB).
Mas aqueles não eram os mesmos prédios como hoje os
conhecemos. Quando os jesuítas foram expulsos também
da Paraíba (a lei de 3 de setembro de 1759, assinada por Dom
José I por inspiração de Pombal, mas só
integralmente cumprida na Paraíba em 1760, valia para todas
as possessões lusas), seus prédios foram adjudicados
ao governo paraibano, que passou a ocupar um dos próprios,
o do Convento, como palácio e residência do governador.
Mas este foi um processo longo, que demandou muita tinta e papel,
na correspondência entre a Paraíba, a Corte, o Vaticano,
a Ordem Jesuíta... Em torno disto, temos igualmente alguns
documentos inéditos, cujos fac-símiles vão estampados
nas páginas seguintes, com seu devido traslado paleográfico.
BATAVOS
NÃO FIZERAM, POMBAL FEZ...
Cerca de dez anos depois, já sendo outro o Papa (Clemente XIII,
com quem Pombal rompeu relações diplomáticas,
fora substituído por Clemente XIV, que extinguiu a Ordem jesuíta
e retomou essas relações), aceitou o novo Pontífice
as razões apresentadas pela Paraíba ao Governo português
e este, por sua vez, ao Papado, de a sede do Governo e a residência
serem no Convento, ficando outros setores do Estado (administradores,
guarda etc) no Colégio. Quanto a este último ponto,
não há concordância entre alguns historiadores.
É bom ver que nem o invasor holandês usara esses Convento
e Colégio dos jesuítas. Preferiram usar a igreja de
São Francisco e o Convento de Santo Antônio, como suas
instalações militares.
Muito tempo depois, já entre 1920 e 1930, o presidente João
Pessoa reformou quase completamente o Palácio da Redenção.
E o atual prédio da Faculdade de Direito, descontadas algumas
pequenas reformas, internas e externas, data de 1746, sempre como
obra dos jesuítas. Basta dar uma olhada pra cima e ver, lá
no frontispício, a data de 1746.
PREGAÇÕES
PERIPATÉTICAS
Assim, Malagrida fundou o colégio, o seminário jesuíta
(no caso, tanto faz colégio como seminário). Não
foi ele quem pessoalmente construiu o prédio, porque nem tinha
tempo para isto: vivia percorrendo parte da Amazônia Setentrional
e quase todo o Nordeste. A História registra que ele colocou
a primeira pedra (a pedra inaugural), mas não chegou a colocar
pedra de toque... Também conseguiu o dinheiro necessário
para o prédio (como o conseguiu para outras obras suas, nas
missões deambulantes ou pregações peripatéticas
em que constantemente se empenhava).
Como arranjava os recursos menos dificultosamente? Além de
ser conhecido como santo, taumaturgo e de gozar de grande prestígio
também em Portugal, era confessor e muito amigo do rei Dom
João V. Certa vez, por volta de 1750-1751, o rei deu todo o
dinheiro que o Frade exigia para suas missões e outras obras
religiosas. Mas, com o novo rei, Dom José I, filho daquele,
Malagrida não tinha muita aproximação, mesmo
porque o futuro Marquês de Pombal não permitia —
e a mentalidade desse novo governo era outra, tentando se livrar da
tremenda influência exercida pelos inacianos.
NÃO FOI O PRIMEIRO COLÉGIO
Malagrida não participou, evidentemente, da construção
INICIAL do Colégio dos Jesuítas, e não poderia
mesmo, pela boa e simples razão de haver nascido em 1689. Já
a construção do atual o atual prédio, terminada
em em 1746,foi de responsabilidade da Ordem dos Jesuítas. De
qualquer forma, em hipótese alguma Malagrida poderia ter fundado
o PRIMEIRO colégio jesuíta na Paraíba, porque
ele já existia desde praticamente o início da cidade/capital.
O que Malagrida realizou aí, bem depois, foram principalmente
duas coisas: a) fundou um SEMINÁRIO jesuíta (a instituição,
não o prédio), com vistas a atender ao ensino dos vocacionados
para a intrépida ação missionária dos
jesuítas; e b) obteve dinheiro também para reformas
internas no prédio a fim de acomodar alunos e professores.
POVO
QUERIA UM COLÉGIO
Dispomos de documentos inéditos que demonstram à saciedade
que o desejo da população da cidade de Paraíba
ter um colégio já se manifestava por escrito pelo menos
desde 1683, quando, no dia 15 de novembro daquele ano, em Lisboa,
o Conselho Ultramarino fez consulta ao rei Dom Pedro II (claro que
não o imperador Dom Pedro II, do Brasil, bem posterior a esse
Dom Pedro II lusitano), “sobre as cartas do capitão-mor
da Paraíba, Alexandre de Sousa e Azevedo, e de outras autoridades
da Paraíba, acerca dos moradores quererem fundar um colégio
da Companhia de Jesus”.
A consulta enviada pelo Conselho ao rei continha em anexo mais cinco
documentos, justamente as missivas do governador paraibano e dos peticionários.
Esses documentos são também transcritos adiante, com
seus fac-símiles.
CÔNGRUA
E CASA DE RESIDÊNCIA
Da mesma forma transcrevemos documento por aqui inédito, de
6 de novembro de 1700, datado também de Lisboa: o decreto do
mesmo rei Dom Pedro II ordenando ao Conselho Ultramarino “consultar
o papel que fez [isto é, o relatório que enviou] o ex-capitão-mor
da Paraíba, Manuel Soares de Albergaria, sobre as missões
[religiosas] da Capitania, e o que propõe a Junta das Missões
para encarregar algumas dessas missões aos padres da Companhia
de Jesus, dando-se-lhes côngrua e casa de residência”.
Essa casa de residência, sem qualquer dúvida para nós,
foi aquela veio a situar-se onde hoje é a Faculdade de Direito
da UFPB. Côngua, que veio de côngruo (= convergente, coerente),
era a pensão concedida pela Coroa aos párocos, “para
sua conveniente sustentação”.
O ativo Albergaria, que foi nomeado pelo rei Dom Pedro II a 14 de
fevereiro de 1697 e tomou posse no governo da Capitania da Paraíba
em setembro de 1697, por aqui se demorou até julho de 1700.
Foi durante sua administração que se iniciou a reconstrução
da fortaleza de Santa Catarina, em Cabedelo, trabalhos esses que só
viriam a se concluir bem depois, já no governo de Joaquim Rebelo
da Fonseca Rosado. A administração deste, por sua vez,
iniciou-se em agosto de 1819 e terminou abrutamente em outubro de
1821.
Abrutamente, sim, porque, como nos revela o médico e historiador
Guilherme Gomes da Silveira d’Ávila Lins — o maior
conhecedor da História Colonial da Paraíba e responsável
por total revisão de todos nossos conceitos sobre os sucessivos
governantes paraibanos desde 1585 —, o governador Fonseca Rosado
“largou o governo da Paraíba em virtude da eleição
de uma Junta Provisória determinada pelo decreto das cortes,
de 29 de setembro de 1821”.
OLIVEIRA
LEDO, MARQUÊS, POMBAL
Albergaria está também ligado à História
do Sertão paraibano, pelo contato que manteve com os capitães-mores
do Interior ligados à família dos desbravadores Oliveira
Ledo. Por exemplo, em 3 de setembro de 1699, o Conselho Ultramarino
fez por escrito uma consulta ao rei dom Pedro II justamente sobre
“a carta do capitão-mor da Paraíba, Manuel Soares
de Albergaria, acerca da gente [índios mansos, soldados, padres]
e munições que deu ao capitão-mor dos Sertões
das Piranhas e Piancó, Teodósio de Oliveira Ledo, para
entrar no sertão contra o gentio tapuia”.
A base de operações dos Oliveira Ledo era o velho arraial
de Piranhas, isto é, a velha povoação de Nossa
Senhora do Bom Sucesso, no Alto Sertão da Paraíba, povoação
essa que depois — ao tempo do seu, do nosso, do vosso Marquês
— viria a se transformar na Vila Nova de Pombal e, ainda mais
recentemente, na cidade de Pombal.
INSPIRADO EM LOYOLA
Mais que os Oliveira Ledo o faziam a cavalo, o carismático
sacerdote Malagrida, inspirado no exemplo deambulante de Inácio
de Loyola, andava muito a pé — mas não a pé,
porque também de canoa, burro, barco, navio etcétera
e tal. Tanto que ficaria mais tarde conhecido igualmente como "missionário
ambulante", responsável por um tipo de ação
missionária dita "absolutamente original".
Quanto à igreja derrubada da igreja dos jesuítas (entre
o Convento e o Colégio dos Jesuítas), o saudoso fotógrafo
Walfredo Rodriguez, de origem espanhola e que chegou a ser nosso amigo,
quando tínhamos uns 20 anos de idade e ele bem uns 70, publicou
duas fotos, uma frontal e outra lateral, de todo o conjunto. Está
no livro dele, “Roteiro sentimental de uma cidade”, obra
clássica, reeditada pelo Conselho Estadual de Cultura da Paraíba.
O
MENAGGINO MALAGRIDA
Nessas fotos, vê-se que a igreja, ao contrário do que
muitos pensam, não era recuada, mas se projetava na calçada,
ficando no mesmo nível do Palácio e da Facudade de Direito
(que, dentro de sua vocação para o ensino, já
abrigou o Lyceu Parahybano, antes da construção do atual
Lyceu). A rua ao lado era chamada, já desde tempos remotos,
de Beco do Colégio, como ocorre no centro de São Paulo
(também um colégio jesuíta!), bem ao lado da
casa da célebre Marquesa de Santos.
Malagrida nasceu na então pequena vila italiana de Menaggio.
Fica junto ao lago Como e apresenta, portanto, belíssima paisagem,
além de ser uma cidade de passado medieval. Na Itália,
quem nasce em Menaggio é chamado "menaggino", mais
ou menos "menagginense", como dizemos "pessoense",
"patoense", "campinense".
GABRIEL
DO MAU GRITO?
Agora, forçando um pouco a barra na área lingüística...
Já entre as interpretações possíveis para
a origem do sobrenome “Malagrida”, pense antes noutros
sobrenomes italianos que não tem nada a ver, como “Bonaparte”,
depois em “Malaparte”; ainda depois em “malagràzia”;
e, finalmente, mas só finalmente, em “mau grito”,
“má gritaria”. “gritos feios”, “grito
pavoroso”...
Tal qual a cantora de ópera que se chama efetivamente Luise
Malagrida (cujo nome, em princípio, significaria “Luísa
do Mau Grito”, mas que canta divinamente), o Padre Gabriele
Malagrida não teria do que reclamar em relação
a sua voz: era ótimo orador sacro — e a prova disto é
que muito moço ainda foi indicado para pregador no Maranhão
e, depois, noutras comunidades jesuíticas...
UMA
“VIAGEM” PARALINGÜÍSTICA
Compulsando dicionários italianos, sobretudo o inexcedível
“Garzanti”, podemos deduzir, tirante a antigüidade
do termo e a óbvia significação de “mala”
= “má”, que “Grida”, a parte final
do sobrenome “Malagrida”, pertence a uma família
de palavras em que se incluem, entre outras:
* grida = antigo decreto emanado de autoridade local e levado ao conhecimento
do público pelo leiloeiro ou pregoeiro; banditore = proclamação,
proibição;
* grido = grito, berro, brado, fama;
* gridacchiare = ralhar (como em “io gridàcchio”
= eu ralho);
* gridare = gritar (como em “gridare un po’” = gritar
um pouco; e, por extensão, ralhar, criticar; também
o mesmo que “brontolare” = resmungar, reclamar; levantar
a voz para reclamar a atenção de outrem ou por qualquer
outro motivo (como em “gridare a squarciagola” = gritar
até não mais poder; “gridare a gran voce”
= gritar a plenos pulmões;
* gridario = gritaria
* gridata = vozerio, gritaria
* sgridata = repreensão, reprovação, censura,
bronca, sabão;
* gridato = berro, grito, rangido, chio, guincho; também o
particípio passado de “gridar” = gritar (gritado);
por extensão, excessivo, exasperado;
* gridatore = gritador, gasguito;
* gridatrice = gritadora, gasguita;
* gridellino = a cor entre o cinza e o rosa; violeta pálido;
lilás; lilás berrante; rosa-shock;
* gridio = gritaria insistente, de diversas vozes ao mesmo tempo;
* grido (com o plural “le grida” ou “i gridi”)
= gritos do homem ou animal; etc etc etc.
MÃE
DE JESUS NO ÚTERO
Para não falar do panfleto mais conhecido (sobre o terremoto
de Lisboa), as prolíficas cartas de Gabriele Malagrida, hoje
nas coleções da Companhia de Jesus, indicam novamente
que escrevia bem, num tom sempre candente e por vezes apocalíptico.
Não nos foi ainda possível ler o seu famoso livro sobre
as conversas mantidas entre ele e, ehr, a própria Virgem Maria,
“em pessoa” (como diria o inesquecível garçom
Cobrinha, do Esporte Clube Cabo Branco) — e com Ela, a Mãe
de Jesus, lhe contando coisas do tempo em que ainda vivia no ventre
da senhora genitora lá dela, Sant’Ana. Mas, como somos
todos muito moços, ainda há sobradas esperanças
de que isto venha a ocorrer mais dia, menos dia.
MATAR
O REI NÃO É CRIME
O Papado, então sob o reinado de Clemente XIII, não
aceitou que Malagrida e os demais jesuítas presos fossem julgados
pela Inquisição portuguesa. Mas, ainda assim, eles o
foram. Durante o julgamento de Malagrida, dizem historiadores que
ele pôde apresentar sua defesa, sustentando-a candentemente
ao lado de dois causídicos, Mathos e Alexandre, ante o tribunal
do Santo Ofício.
Num desses debates, Malagrida chegou a declarar abertamente que não
aceitava a acusação de regicídio — mesmo
porque, para sua consciência, matar o rei não constituiria
crime. Mas Pombal, ainda maquiavelicamente, não havia entregue
Malagrida à Inquisição como acusado de regicídio
e, sim, de heresia. Para apoiar seus argumentos, foram anexados ao
processo dois livros de Malagrida, “A vida do Anticristo”
[La vie de l’anté-Christ”] e “A vida de santa
Ana” [“La vie de Sainte-Anne”], em que havia extravagantes
considerações de um misticismo sem fronteiras.
Com os causídicos Alexandre e Mathos, Malagrida sustentou perante
o tribunal que matar o rei não seria um crime, segundo a sua
própria consciência. Estava consciente de que o Papa,
do alto de sua autoridade, em Roma, não permitiria o seu julgamento
civil. Mas, como vimos, Pombal não o quis acusar de regicida,
mas, sim, de herético, motivo suficiente para mandá-lo
para um “julgamento” no Santo Ofício. À
luz do que hoje sabemos, tudo foi muito paradoxal e a última
vítima individual da Inquisição portuguesa deveu-se
a um homem que fazia de tudo para retirar poder a essa mesma Inquisição
e que era um dos maiores representantes do Iluminismo, do Século
das Luzes.
A
CASA DE MALAGRIDA
Em visita à cidade, não deixe de dar uma passadinha
na casa em que nasceu Malagrida. O saite www.menaggio.com/ita/itinerari-storico.php
é um dos que dão o mapa da mina para encontar rapidinho
essa velha residência, bem conservada: após a igreja
de Santa Marta, junto à comunidade paroquial de Santo Estêvão
(Santo Stefano), segue-se à direita, penetrando na rua Caronti;
já no final da via, dobra-se novamente à direita, na
rua Leoni; aí, após uns 30 metros, entra-se à
esquerda na rua Castellino da Castello.
À saída para Castello, que domina a urbe, pode-se observar
admiráveis portas monumentais de igrejas e palácios.
Na esquina com a rua Strecioum, está finalmente o local de
nascimento de Malagrida.
O
RIDÍCULO E O HORROR
Maxwell lembra até a famosa frase de Voltaire [1694-1778] sobre
a por todos os títulos indesculpável morte do Frei Malagrida
na fogueira: "Ainsi l'excès du ridicule et de l'absurdité
fut joint à l'excès d'horreur [= "Assim juntou-se
o excesso do ridículo e do absurdo ao excesso do horror"].
Costuma-se pensar que as referências mais explícitas
de Voltaire estão em “Candide, ou l’optimisme”.
Elas se acham, porém, noutras obras, em particular as mais
propriamente históricas do filósofo iluminista francês,
como o capítulos 38 de seu “Précis du siècle
de Louis XV”, que hoje integra as “Oeuvres historiques”
do mesmo autor. O capítulo 38 trata do “assassinat”
(na verdade, tentativa de assassinato) contra o rei de Portugal, com
os jesuítas sendo expulsos desse reino e depois da França
etc.
EM
“CÂNDIDO, O OTIMISTA”
Especialmente no capítulo VI de “Candide, ou L’optimisme”,
Voltaire ridiculariza tanto os auto-de-fé da Inquisição
portuguesa como os que desejam conter os terremotos com manifestações
explícitas de piedosa fé, caso de Malagrida. Diz o célebre
autor francês: “Após o tremor de terra que destruiu
três quartos de Lisboa, os sábios do país não
encontraram um meio mais eficaz de evitar a ruína total do
que oferecer ao povo um belo auto-de-fé. Decidiu-se na Universidade
de Coimbra que o espetáculo de algumas pessoas queimadas a
fogo brando, numa grande cerimônia, era um segredo infalível
para impedir a terra de tremer”.
— Em conseqüência, prendeu-se um biscainho [basco]
que desposara a comadre e mais dois portugueses que, comendo um frango,
dele retiraram a gordura. E prenderam igualmente o doutor Pangloss
e seu discípulo Cândido, um por haver falado alguma inconveniência
no almoço e outro por tê-la escutado com ar de aprovação.
Os dois foram levados separadamente a quartos de extremo frescor,
onde jamais poderiam ser incomodados pelo sol. Oito dias depois, vestiram-nos
com sambenitos e ornaram suas cabeças com mitras de papel.
A mitra e o sambenito de Cândido eram pintadas com chamas viradas
para baixo e diabos sem caudas ou garras; mas os diabinhos de Pangloss
traziam garras e caudas, sendo as chamas dirigidas para cima. Assim
vestidos, eles marcharam em procissão e ouviram um sermão
patético, seguido de bela música em fabordão.
Cândido foi chicoteado em cadência, ao som de tambores,
enquanto todo mundo cantava. O biscainho e os dois homens que não
quiseram comer o toucinho foram queimados lentamente numa estaca da
fogueira. E Pangloss viu-se enforcado, embora tal costume não
fosse o mais usual. No mesmo dia, a terra tremeu novamente, agora
com um barulho ainda mais ensurdecedor...
POMBAL
& A PARAÍBA
Além de haver sido homenageado na Paraíba com a criação
da Vila Nova de Pombal (hoje simplesmente Pombal), por ação
de seu parente e amigo que então governava Pernambuco, o Marquês
de Pombal deixou outras marcas também em nosso Estado. Após
a fundação da Companhia do Grão-Pará e
Maranhão ou também do Grão-Pará e Rio
Preto (com o direito exclusivo de todo o comércio e navegação
das capitanias por 20 anos), Pombal, dando prosseguimento a suas tentativas
de introduzir novas práticas comerciais no Reino e em suas
colônias, estabeleceu uma segunda empresa monopolista "no
importante e populoso mercado de Pernambuco e Paraíba, em 1759".
Basta ver um documento que Maxwell consultou, o "Mapa de todas
as fazendas que a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba tem
extraído das fábricas do Reino e exportado para as conquistas
desde o seu estabelecimento e até 31 de dezembro de 1777"
[por "fazendas", entenda-se "rendas"].
Essa companhia foi criada exatamente a 13 de agosto de 1759. Já
com relação ao irmão que veio de mala-e-cuida
para tomar conta da Capitania do Grão-Pará, Rio Negro,
Maranhão e outros domínios ao Norte do Brasil, ele chegou
a Belém em setembro de 1751. Além de governador-geral
e chefe de armas, era também Plenipotenciário das Demarcações,
cargo muito útil no tempo em que existiam tratados (como o
de Tordesilhas e, depois, o de Santo Ildefonso) a serem implementados,
do papel para o terreno propriamente dito. E a ordem de Pombal era
redesenhar a Amazônia, em favor da Coroa.
Após a morte do rei José I, a Coroa portuguesa extinguiu
as duas Companhias, tanto a do Grão-Pará e Maranhão
(que deu alguns resulados financeiros) quanto a da Pernambuco e Paraíba
(que só deu prejuízos). Mas, em termos gerais, Portugal
veio a se beneficiar, a médio e longo prazo, das reformas econômicas
empreendidas pelo inegável pulso do Marquês, segundo
reconhece a maioria dos historiadores independentes (quer dizer, nem
partidários dos jesuítas nem admiradores do “Paradoxo
do Iluminismo”.
ÚLTIMAS
VÍTIMAS DA FOGUEIRA
Insistindo em causas sobrenaturais para o terremoto, Malagrida foi
não só a última vítima da Inquisição
em Portugal [sempre se pensou assim, mas é preciso ver que,
no mesmo ano da morte do Marquês de Pombal, em 1782, é
que realmente se queimaram as últimas pessoas em Portugal:
17 no último auto-de-fé de Coimbra e 8 no último
auto-de-fé em Évora]; mas, por tabela, foi Malagrida
também a última vítima das próprias “causas
naturais” do sismo...
Na fratricida e monumental queda-de-braço pelo poder, Pombal
aproveitou a situação para ele favorável e ganhou
esse round, livrando-se igualmente do taumaturgo algo fanático
que dizia conversar com a “Virgem Maria”. Além
do mais, por defender os índios, como os demais jesuítas,
não havia ele se atritado no Norte/Nordeste brasileiro, com
um dos irmãos de Pombal, governador-geral do Grão-Pará
e Maranhão?! Acusado de herético e regicida (por ser
confessor da esposa de um dos acusados), a ironia é que Malagrida
assistira anos antes, em 1750 — a pedido do moribundo, seu admirador
— os últimos momentos de vida do pai de Dom José
I, Dom João V...
PROPAGANDA
NO EXTERIOR
Mas a cruel execução do influente e carismático
Malagrida recebeu tantas críticas na Europa que o Marquês
distribuiu largamente, no mesmo ano, uma tradução francesa
da sentença portuguesa, sob o título de "Liste
des personnes qui ont été condamnées à
l'act public de Foi, célèbré dans le cloître
du couvent de s. Dominique de Lisbonne le 20 septembre 1761"
[= "Lista das pessoas condenadas no ato-de-fé público
celebrado no claustro do convento dos dominicanos de Lisboa em 20
de setembro de 1761].
Houve também tradução para o espanhol e outras
línguas, mas o francês, depois do latim, era a língua
mais universal da época e se a coisa não saísse
na língua de Voltaire deixaria de alcançar, para usar
a expressão hoje corrente, o desejado índice de leitura.
Ao mesmo tempo, em cartazes da época, os jesuítas eram
acusados de regicídio.
LIGAÇÕES
PERIGOSAS
O Padre Malagrida era muito ligado à bela e valente dona Leonor
Tomásia de Távora [1700-1759], sexta condessa de São
João da Pesqueira e terceira marquesa de Távora, de
quem era confessor, influindo praticamente em todos os seus atos civis.
Figura orgulhosa, Leonor desafiava o poder do Marquês de Pombal
e mantinha permanente contato com os jesuítas, em constantes
encontros realizados em sua casa.
Isto fez com que, após o atentado ao rei, dona Leonor fosse
presa como principal mandante do crime. Pouco depois, era sentenciada
a morrer no cadafalso, onde teria a cabeça separada do corpo.
Todos os seus bens foram também confiscados em prol da Coroa.
Além dela e de outros réus com pena capital, estavam
Francisco de Assis e José Mascarenhas de Távora.
MALAGRIDA
NA PARAHYBA
Por volta de 1721, Malagrida estava no Maranhão, pregando.
Em 1723, passou a pregador do Colégio Jesuíta do Pará,
promovendo também missões no interior. Depois desse
ano é que ficou encarregado da missão dos índios
tabajaras (aproximadamente entre 1724 e 1727), exercendo suas funções
com admirável destemor. Os tabajaras concentravam-se sobretudo
na Parahyba. Já por essa época, ouvia vozes que o advertiam
sobre coisas a acontecer. Acreditava firmemente que milagres podiam
ocorrer no dia-a-dia — e que era um enviado especial da divindade.
Conversava até com a Mãe de Jesus, quer dizer, Nossa
Senhora ou a Virgem Maria, conforme revelou no livro “La vie
de Sante-Anne”.
Foi nesse ano de 1727 que voltou ao Maranhão para ensinar letras
no Colégio. No ano seguinte, já pregava novamente aos
índios. Em 1730, retornou ao Maranhão para lecionar
letras e teologia. Quatro ou cinco anos depois, dirigiu-se à
Bahia, Pernambuco e novamente o Maranhão, passando uns 14 anos
em missões pelo interior nordestino, a partir de quando passou
a ser chamado Apóstolo do Brasil. Naquelas e nessas missões,
manteve contatos com a Parahyba, inclusive realizando peregrinações
pelo interior.
Já com o prestígio de santo, retornou a Portugal em
1749-1750, para conseguir recursos com os quais sustentar colégios,
seminários e conventos por ele fundados. Dom João V
deu-lhe praticamente tudo o que pedira. Dois anos depois, veio novamente
ao Brasil e atritou-se com o governador do Grão-Pará,
irmão do Marquês de Pombal. Dirigiu-se então ao
Maranhão, onde também esse irmão de Pombal exercia
sua autoridade, e aí ficou até 1754, ainda realizando
missões e fundando novos estabelecimentos, embora com certa
oposição do bispo local (por causa de seu excessivo
fervor místico). Em 1750/1751, a rainha-viúva o chamou
de volta a Portugal — e esse último retorno lhe foi fatal.
MAXWELL
SOBRE MALAGRIDA
Não podemos nos furtar a uma longa citação do
próprio Maxwell enfocando Malagrida:
"No dia anterior à espetacular punição dos
aristocratas e dos demais condenados pelo atentado regicida, oito
jesuítas foram presos por uma suposta cumplicidade, entre eles
o Padre Gabriel Malagrida, missionário e místico jesuíta.
Malagrida, que nascera na Itália, partiu para o Brasil em 1721,
a fim de trabalhar no Maranhão. Após uma rápida
estada em Lisboa, entre 1749 e 1751, retornou ao Brasil, onde entrou
em atrito com o irmão de Pombal. Exatamente um ano após
o terremoto de Lisboa, Malagrida também publicou um panfleto
sobre a tragédia, "Juízo da verdadeira causa do
terremoto", atribuindo o desastre à ira divina. E Pombal
havia chegado a todos os extremos para explicar o terremoto como um
fenômeno natural!...
“Para o Estado agir contra os jesuítas, Pombal necessitava
de dispensa papal. Mas, para a Igreja, entregar os jesuítas
às autoridades seculares seria reconhecer implicitamente a
culpa deles. E isso o Papado não estava disposto a fazer. Pombal
voltou, em vez disso, para Dom João Cosme da Cunha, arcebispo
de Évora e conhecido como Cardeal da Cunha, que publicou uma
carta pastoral contra os jesuítas, escrita pelo brasileiro
Frei José de Santa Rita Durão [autor do famoso poema
"Caramuru"]. Dom Cosme era membro da família Távora,
mas tornou-se um dos mais sicofânticos adeptos de Pombal, tendo
galgado muitas posições importantes no curso dos vinte
anos seguintes”.
DOIS
CARDEAIS, DUAS CABEÇAS
Ver-se-á aqui o papel de dois Cardeais portugueses em tudo
por tudo diferentes. Esse Cardeal da Cunha nascera em Lisboa, em 1715,
formando-se em Leis. Em 1738, tomou o hábito da Ordem de Santa
Cruz. Quando do terremoto de Lisboa, atuando como cônego dessa
Ordem, percorreu as ruas descalço, com uma corda no pescoço
e um crucifixo levantado acima da cabeça, pregando que os vivos
deveriam fazer penitência em sufrágio pelos mortos. Talvez
por isto Pombal o tenha escolhido como um dos inspetores da reconstrução
da capital portuguesa. Em 1760, com apoio de Pombal, tornou-se Arcebispo
de Évora. E, depois, em 1770, Pombal ainda pediu ao Papa Clemente
XIV que o criasse Cardeal, o que foi de pronto atendido.
Agora, o outro Cardeal. O terremoto foi também testemunhado
pelo segundo Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom José Manuel da
Câmara, nascido na capital lusa em 1686. O Papa da época,
Bento (Benedito) XIV, criou-o Cardeal em 1747. Em 1754, foi eleito
Patriarca de Lisboa, vivenciando logo no ano seguinte o dito tremor
de terra tamanho gigante. Mas, quanto se iniciaram as hostilidades
entre os jesuítas e Pombal, ele se aborreceu muito com o que
considerava perseguições e renunciou a seus cargos,
retirando-se da vida pública.
O
JUÍZO DO TAUMATURGO
Prossegue Kenneth Maxwell:
“Pombal, pessoalmente, denunciou Malagrida à Inquisição,
à frente da qual havia instalado seu irmão Paulo de
Carvalho. Um alvará real, em 3 de setembro de 1759, declarou
que os jesuítas estavam em rebelião contra a Coroa,
reforçando o decreto real de 21 de julho do mesmo ano, que
ordenava a prisão e a expulsão dos jesuítas do
Brasil. Na altura de março e abril do ano seguinte, 119 jesuítas
haviam sido expulsos do Rio de Janeiro, 117 da Bahia e 119 do Recife.
As vastas propriedades da ordem no Brasil, em Portugal e em todo o
Império português foram expropriadas.
Maxwell não o diz com todas as letras, mas, "au grand
complet", o folheto do taumaturgo Malagrida intitulava-se "Juízo
[isto é, opinião] da verdadeira causa do terremoto que
padeceu a corte de Lisboa no 1.º de novembro de 1755". Nele,
indignava-se ante a visão pombalina de que o sismo tivera causas
naturais. Malagrida dizia abertamente que o tremor de terra fora castigo
de Deus. Baseado em profecias de antigas freiras, criticava os que
tentavam reconstruir a capital portuguesa, recomendando, ao contrário,
muitas penitências, procissões, meditação
e exercícios místicos.
GARROTEADO
& QUEIMADO
Mas o Marquês de Pombal, ocupado em sua ciclópica tarefa
de reerguer não só a cidade transformada em cinzas,
mas o próprio Portugal, não estava para brincadeiras.
Em 1756, ordenou que se queimasse o folheto de Malagrida e exilou
o autor em Setúbal. Dessa cidade, e após o atentado
à vida do rei Dom José I, em 3 de setembro de 1758,
o carismático Malagrida enviou nova e candente carta, sendo
preso cerca de três meses depois. Facilitara a Pombal o trabalho
de convencer o rei de sua culpabilidade...
Transferido, ainda preso, para o Colégio dos Jesuítas,
em inícios de 1759, pespegaram-lhe a culpa por crime de lesa-majestade,
passando às prisões do reino. Entregue à Inquisição,
viu-se condenado à morte. E vejam bem esta: caracteristicamente,
Pombal fez com que o rei Dom José I assinasse o decreto de
expulsão dos jesuítas no dia 3 de setembro de 1759 —
exatamente no primeiro aniversário do atentado regicida...
Prossegue Maxwell: "A morte pelo garrote e pela fogueira [assassinato
judicial talvez seja um termo mais apropriado] de Malagrida, do jesuíta
já velho e meio louco, em 20 de setembro de 1761, no Rossio,
em Lisboa, foi a última gota para muitos europeus que só
enxergavam o atraso de Portugal e a tirania de Pombal. [Maxwell comete
aqui um equívoco: embora a condenação de Malagrida,
também chamado em Portugal mesmo de “o apóstolo
do Brasil”, tenha ocorrido realmente em 20 de setembro, sua
execução deu-se no dia seguinte, 21 de setembro de 1761].
Foi uma curiosa ironia histórica, contudo, que a última
morte na fogueira individual, pelas autoridades portuguesas, por instigação
da Inquisição, tenha sido a de um padre e membro de
uma Ordem que havia sido uma verdadeira ponta de lança da Contra-Reforma”.
PRIMEIRA
PROVÍNCIA INACIANA
Por que Maxwell diz isto? Porque em grande parte a própria
estabilidade de Portugal se devia à ida dos jesuítas
para seu território, por iniciativa do então rei Dom
João III [1502-1557], o Piedoso, décimo-quinto rei dos
lusitanos e neto materno dos famosos reis católicos Fernando
e Isabel, aqueles mesmos que, num ataque de fanatismo religioso e
de burrice administrativa, expulsaram os judeus da Espanha. O doutor
Diogo de Gouveia, dirigente do parisiense Colégio de Santa
Bárbara recomendara ao rei convidar alguns jesuítas
para trabalharem em seu reino. Feito o contato, Inácio de Loyola
mandou a Portugal, em 1540, os primeiros jesuítas: um português,
Simão Rodrigues,e o navarrense Francisco Xavier, o mesmo que
depois viajaria à Índia e se tornaria mártir
no Oriente. Foi Simão quem deu início, em 1546, à
primeira Província jesuítica portuguesa — na realidade,
a primeira Província na História da Ordem inaciana.
Muito tempo depois, porém, já sob o poder discricionário
de Pombal, os jesuítas começaram a tomar atitudes que
se chocavam com as alegadas “razões de Estado”.
Por exemplo, opuseram-se — segundo o próprio Marquês
— à implementação do Tratado de Madri,
assinado entre Portugal e Espanha para a delimitação
de fronteiras sul-americanas. Foi esse um dos primeiros estopins para
a luta de vida e morte entre Pombal e os inacianos.
O
CAVALEIRO DE OLIVEIRA
Ainda é Kenneth Maxwell:
“Como para enfatizar a questão, o Cavaleiro de Oliveira
[Maxwell refere-se a Francisco Xavier de Oliveira (1702-1783), autor
do "Discours pathétique", também citado por
Voltaire, por haver sido "queimado" em efígie após
considerar o terremoto de Lisboa como manifestação da
cólera divina diante dos absurdos excessos da Inquisição],
aventureiro português que havia recomendado a Dom José
I que estabelecesse uma Igreja Lusitana segundo o modelo da Igreja
da Inglaterra, e que mais tarde se fez luterano, foi queimado em efígie
ao lado do jesuíta [Malagrida].
“Na verdade, os dois homens foram queimados por motivos exatamente
opostos: o Cavaleiro de Oliveira por dizer que o terremoto havia sido
uma punição por Portugal seguir uma religião
errônea e por adorar ídolos; e o Padre Malagrida por
dizer que o terremoto era uma punição divina por Portugal
ter abandonado a verdadeira religião".
UM
DIA A CASA CAI
Com a morte do rei Dom José I, em 1777, foi aclamada rainha,
em maio do mesmo ano, Dona Maria I (depois dita “a Louca”),
que reinou entre 1777 e 1816, e que terminaria seus dias no Brasil.
Como grande parte da nobreza e da burguesia, ela não via com
bons olhos (muito pelo contrário!) o até então
superministro. O Marquês foi demitido e banido para os domínios
privados, em Pombal. Seus perigosos inimigos foram restaurados no
poder. Era a chamada “Viradeira”, como diziam e dizem
os portugueses... Oitocentos prisioneiros foram soltos. Dois mil e
quatrocentos não puderam ser libertados, no entanto, porque
já haviam morrido nas enxovias!
A religiosamente devotíssima e moralizadora (embora progressista)
Dona Maria I era a primogênita de D. José I, mas veio
a ser afastada da direção da coisa pública em
inícios de 1792, por causa de doença mental, provocada
por vários fatores (morte do marido, perda de um filho, medo
da invasão francesa). Quem assumiu esses poderes foi seu filho,
o príncipe Dom João — até 1799, quando
passou a ser Regente. Após a morte da mãe, a quem sucedeu
como rei, com o título de Dom João VI, seria obrigado
a transferir a Corte para o Brasil, em 1808, fugindo dos exércitos
napoleônicos.
Anote-se: sempre houve animosidade entre a rainha Dona Maria I (desde
quando ainda era Princesa do Brasil) e o Marquês de Pombal,
mesmo porque este sustentava que ela devia renunciar ao trono, se
bem que em favor de seu filho Dom José.
DEMITIDO
MAS RECEBENDO
A rainha, para surpresa dos indignados nobres finalmente de volta
ao poder, foi algo magnânima em relação ao Marquês
de Pombal, perdoando-o ou, antes, dispensando-lhe penas físicas.
Muitos desses inimigos desejavam-no morto ou no mínimo torturado
e humilhado. Antes do processo e julgamento que se fez depois contra
ele, Dona Maria I demitiu Sebastião José (como faziam
questão de o chamar os nobres, para ressaltar sua alegada extração
plebéia) de todos os cargos públicos — mas lhe
manteve o salário de secretário de Estado, quiçá
para que não passasse privações... Pombal foi
acusado de tudo o que se possa imaginar, em termos de corrupção,
mas, já bem doente, fez por escrito sua admirável defesa.
Se é verdade que o condenaram a penas físicas e outras,
mas nunca lhe acharam culpas provadas e comprovadas nisto de corrupção
(era conhecido como incorruptível). Os defensores dos jesuítas,
no entanto, acham difícil explicar como pôde reunir tão
grande fortuna ao longo da vida (e muitos descendentes dos Távora
ainda hoje guardam rancor à memória do Marquês).
O
MAIOR ESTADISTA
Não se deve esquecer, porém, que o Marquês, para
começo de conversa, herdou todos os bens da rica esposa, falecida
em 1750. Era ela Dona Teresa de Noronha e Bourbon, filha de Dom Bernardo
de Noronha, dama da rainha Dona Marianna d’Áustria e
com ele casado em 1723 (ela em segundas núpcias; antes, fora
casada com um primo dele, Antônio de Mendonça Furtado,
de quem enviuvou).
Por sua fez falecido muito tempo depois, em 8 de maio de 1782, recolhido
à sua Quinta de Pombal (Soure), o Marquês apenas não
chegou a ser torturado (ou possivelmente executado) por estar muito
velho. O reconhecimento de seu grande papel na História portuguesa
somente viria bem depois. E ele tem hoje um monumento, basicamente
uma praça com estátua, imaginava eu no Rossio, em pleno
centro de Lisboa, conservando-se ainda o largo e o palácio
do Marquês de Pombal, em Oeiras.
ONDE
ESTÁ O MONUMENTO A POMBAL
Mas meu amigo internético e lusitano Rui Tavares envia-me diretamente
de Portugal mais esclarecimentos sobre a exata localização
do monumento ao Marquês: “A estátua de Pombal encontra-se
na Praça [ou Rotunda, como costuma ser chamada] Marquês
de Pombal. No Rossio [que na realidade se chama Praça Dom Pedro
IV, mas isto nem os lisboetas costumam saber] encontra-se a estátua
de Dom Pedro IV de Portugal, primeiro do Brasil”. A propósito
disto, acrescenta Rui Tavares uma nota curiosa: “Durante o século
XIX, as más-línguas diziam que a estátua não
era exactamente de Dom Pedro I ou IV mas uma do Imperador Maximiliano
do México e que tinha sido desviada para ali após a
execução desse. Mas isto, segundo dizem os melhores
autores, é mentira. À época, Dom Pedro IV era
considerado o pai da pátria portuguesa (na verdade, apenas
o pai do regime), como certamente seria também aí no
Brasil” — conclui o estudioso português Rui Tavares.
A estátua lisboeta representa o carismático e controverso
Marquês acariciando a juba de um leão... — ele,
que nada parecia temer. E ninguém lhe tira o mérito
de haver sido o maior estadista do século XVIII — não
só em Portugal, mas em toda a Europa. Diz-se que governava
para o povo, mas sem o povo... Depois, num artigo da “American
Catholic Quarterly Review” (II, 51, Filadélfia, EUA,
1877), chegaria a ser chamado de “o Bismarck do Século
XVIII”...
NOUTROS
LIVROS DE VOLTAIRE
Sempre usando sua grande capacidade crítica, com muito humor
e sátira, para combater todos os tipos de tirania, dogmatismo,
intolerância, preconceitos e crueldade, Voltaire também
cita o Padre Malagrida no capítulo IV de outro livro sarcástico
seu, "Les oreilles du comte de Chesterfield et le chapelain Goudman",
de 1775. É quando Sidrac diz ao capelão Goudman:
"Amanhã o Dr. Grou vem jantar comigo. Médico mui
instruído. Fez a volta ao Mundo [...] Enfim, conversou com
o reverendo Padre Malagrida, depois queimado em Lisboa, porque a Santa
Virgem lhe revelara tudo o que ela fizera quando se achava no ventre
de sua mãe, Sant'Ana." [No original, "Enfin, il a
conversé avec le révérend père Malagrida,
qui a été brûlé depuis à Lisbonne,
parce que la Ste. Vierge lui avait révélé tout
ce qu'elle avait fait lorsqu'elle était dans le ventre de sa
mère Ste. Anne"].
De fato, Malagrida era visto já à sua época como
excessivamente místico e algo por sobre o fora da realidade.
Sustentou no tal folheto, por exemplo, que era escandaloso pretender
que o terremoto representava um evento natural, porque, se isto fosse
verdade, não haveria necessidade de arrependimento e de tentar
evitar a ira de Deus; e nem mesmo o Diabo poderia inventar uma idéia
mais falsa capaz de nos levar todos à mais irreparável
ruína... Contudo, nada disto justifica sua brutal execução,
que chocou toda a Europa — quase tanto quanto o próprio
terremoto.
A
RAZÃO E A VERDADE
Ainda outra obra satírica de Voltaire com referências
ao Padre Malagrida: “L’éloge historique de la Raison,
prononcé dans une académie de province, par M. Chambon”.
É livro tragicômico, em que pontificam figuras femininas
de relevo, como Razão e sua filha Verdade. Vivem escondidas
num poço, enquanto a Sra. Política, tendo como irmãs
e ministras a Velhacaria e a Avareza, acompanha-se da Ignorância,
da Fúria, da Pobreza e do Fanatismo. As irmãs Razão
e Verdade visitam o Papa Clemente XIV (citado como Ganganelli, seu
sobrenome de cardeal), que logo "extingue a Companhia de Garasse,
Guiguard, Garnet, Busenbaum, Malagrida, Paulian, Patouillet, Nonnotte
[a Companhia de Jesus]; e a Europa bateu palmas".
Em “L’homme aux quarante écus”, o filósofo
de Ferney escreve que “as draconianas leis, castigando por igual
crimes e faltas leves, a perversidade e a loucura, me parecem odiosas.
Não trataremos o jesuíta Nonotte (que não cometeu
outro delito senão o de escrever calúnias e disparates)
como trataram os jesuítas Malagrida, Oldecorne, Garnet, Guignard,
Gueret e como deveriam ter tratado o jesuíta Letellier, que
enganou seu rei e encheu de dolo e confusão a França.
[...] Em toda disputa, é preciso distinguir entre agressor
e agravado, opressor e oprimido. A guerra ofensiva é infame,
mas a defensiva é justa”.
NAS
CARTAS DE VOLTAIRE
Numa carta de Voltaire, quando resume alguns acontecimentos chocantes,
ele diz: “Eis um século abominável, o dos Calas,
dos Malagrida, dos Damien, a perda de todas as nossas colônias,
as cartas de confissão e a ópera cômica”...
Já em resposta a uma carta anônima sobre os jesuítas,
Voltaire refere-se ao Padre Malagrida, dizendo: “Há sempre,
numa sociedade de religiosos, fanáticos apressados em escrever.
O ex-jesuíta Patouillet e outro, chamado Nonotte, investiram
contra mim com a idéia extravagante de que contribuí
para a ruína da Companhia de Jesus e que, em conseqüência,
sou apenas um herético. Honram-me tanto ao misturar meu nome
com os libelos que publicam contra os parlamentos que a gente de bom
grado se deixaria queimar pelos verdugos — quando o que realmente
se queimou em Portugal foi o reverendo Padre Malagrida”.
Ainda noutra missiva, Voltaire coloca humoristicamente, numa conversa
imaginária, padres opositores dos jesuítas, um deles
dizendo: “A propósito, irmão, não escreveu
ainda ao Padre Malagrida e a seus cúmplices?” [o texto
é de 1759, quando Malagrida já estava sob acusação].
SANTOS
VISITAM MALAGRIDA
Voltaire era muito bem informado (também) sobre os acontecimentos
de Portugal, beneficiando-se, além da leitura de jornais e
revistas de lá provindos, de uma autêntica rede de informantes
epistolares. Ante o garroteamento e queima de Malagrida, indigna-se
contra a barbárie de homens que se dizem movidos pela religião.
Uma das obras mais comicamente voltaireanas citando Malagrida é
a “Relation de la maladie, de la confession, de la mort et de
l’apparition du jésuite Berthier, avec la relation du
voyage de frère Garassise, et ce qui s’ensuit, en attendant
ce qui s’ensuivra”, de 1759, quando o frade já
estava preso.
Num dos engraçados diálogos, santos dizem a dois padres
que visitem o Frei Malagrida na prisão, pois há pouco
haviam estado com ele “e sempre estaremos com vocês”.
Um padre muito inocente então pergunta aos santos: “E
se vocês estiveram lá, com todos esses poderes, por que
não o tiraram da prisão?!”. Um dos santos comenta:
“Vocês jovens fazem muitas perguntas; continuem andando,
e calados”...
DICIONÁRIO
FILOSÓFICO
No verbete “Suplícios” do “Dicctionaire philosophique”,
Voltaire mais uma vez cita o Padre Malagrida [em todos os casos, a
responsabilidade pela tradução é nossa]: “Quanto
àquilo que se chama comumente Justiça, isto é,
o costume de matar um homem porque teria roubado um escudo de seu
patrão; ou o queimar, como fizeram a Simon Morin, por haver
dito que conversava com o Espírito Santo; e também como
se queimou um velho jesuíta louco, de nome Malagrida, por haver
divulgado sob forma impressa as conversas que a santa virgem Maria
tivera com sua mãe, Santa Ana, quando ela ainda estava em seu
ventre etc; este costume, convenhamos, nem é humano, nem razoável,
e não pode jamais ter a menor utilidade”.
Noutro verbete [“Sobre outros sortilégios”] do
“Dicionário filosófico”, assinala que “houve
até há pouco, em nosso tempo, alguns dessa espécie
[os que acreditam na possessão pelo diabo e na purificação
pela morte na fogueira], como o jesuíta Girard, o ex-jesuíta
Nonotte, o jesuíta Duplessis, o ex-jesuíta Malagrida;
mas esta espécie de doidos tornou-se muito rara a cada dia”.
Entre os escritos de Voltaire de antes e de depois da execução
de Malagrida, observa-se uma evolução no julgamento
crítico. Se antes ridicularizava muitos jesuítas (como
o fez com as procissões e cânticos propostos por Malagrida),
passara a uma atitude de comiseração para com os perseguidos
e vítimas da crueldade.
“ENSAIO
SOBRE OS COSTUMES”
Voltaire, por exemplo, em seu “Ensaio sobre os costumes e o
espírito das nações” [1756] — uma
espécie de História Universal, começando com
os homens pré-históricos e os hebreus —, diz claramente
que a padrecada explorava os indígenas americanos. É
o caso do capítulo intitulado “Du Paraguay” (logo
depois dos interessantíssimos capítulos “Du Brésil”,
“Des possessions des Français en Amérique”,
“Des îles françaises et des flibustiers”
e “Des possessions des Anglais et des Hollandais en Amérique”),
em que novamente ataca a alegada riqueza dos inacianos também
em terras guaranis.
E, em “Candide, ou l’optimisme”, coloca seu personagem
Cândido no Paraguai só para ter o pretexto de falar sobre
as Missões jesuíticas ao sul do Brasil. Mas, enquanto
um jesuíta de alto coturno come numa baixela de ouro, ao abrigo
das intempéries, os pobres índios e demais paraguaios
comem milho, com as mãos, sob o sol, em escudelas de pau...
Nela, conta Voltaire, o seu jovem anti-herói, durante uma curta
passagem pelo Paraguai, almoçou com o superior jesuíta
"em baixela de ouro; e enquanto os paraguaios comiam milho em
escudelas de pau, ao ar livre, sob o ardor do sol".
NA
INGLATERRA, DUPLICIDADE
Em nossa antiga edição da “Life of Johnson”
[“Vida de Samuel Johnson”], edição dos “Great
Books”, o autor James Boswell cita as “Memórias”
de Wraxall (1815) para dizer que o nome de Malagrida lembrava, a seus
contemporâneos protestantes (que não gostavam nada dos
jesuítas), a idéia de... duplicidade. Segundo o biógrafo
de Johnson, o apelido de “Malagrida” foi pela primeira
vez aplicado a Lorde Shelburne num texto-petardo atribuído
ao incorrigível político e jornalista John Wilkes [1725-1797]
descrevendo um baile à fantasia. Um personagem queria se fantasiar
de “herdeiro presuntivo de Inácio de Loyola e de todo
o seu Colégio”. E diz: “Ponha mais um toque de
diabo, aqui, nas sobrancelhas; ah, está bem, é suficiente:
um perfeito Malagrida!”...
Ademais, o rei Jorge III [1738-1820] da Inglaterra sempre se referia
a Lorde Shelburne como “Malagrida” ou “o jesuíta
da Praça Berkeley”, por causa de sua proverbial duplicidade.
Lorde Shelburne outro não era senão William Petty-Fitzmaurice
[1737-1805], primeiro marquês de Lansdowne, estadista que atuou
como primeiro-ministro do próprio Jorge III entre 1782 e 1783.
HOMENS
DE DUAS CARAS?
Entende-se facilmente isto de os ingleses informados de então
atribuírem o viés de duplicidade aos jesuítas
e, por extensão, a Malagrida (que, claro, era antes de tudo
jesuíta): a Inglaterra anglicana não queria negócio
com os da Companhia de Jesus. Isto não ocorria apenas na Inglaterra,
mas em grande parte do mundo protestante de então.
É sabido que o Padre Antônio Vieira, ao viajar à
Holanda, como embaixador secreto e espião de Portugal, evitou
usar o hábito religioso, a batina jesuíta, vestindo-se
como uma pessoa comum. Fosse na Holanda, fosse na Inglaterra, um jesuíta
corria muito perigo de ser preso, linchado e até morto. Em
suma, os protestantes, sobretudo os anglicanos, raciocinavam mais
ou menos assim: se eram confessores da família real portuguesa
e entraram numa trama para tirar a vida do rei, que outra palavra
lhes caberia senão duplicidade?!
O
“RICHELIEU LUSITANO”
Voltando a Shelburne. Outros o chamavam de “a fraude piedosa”,
mas muitos protestavam, dizendo que a fraude era visível, mas
onde estaria a piedade?... Se Você olhar direito para um retrato
de Shelburne, comparando-o com o do autêntico Malagrida, verá
que se pareciam — pelo menos no capítulo das sobrancelhas.
E alguém chegou a fazer piada forte com Shelburne, dizendo-lhe
pessoalmente: “Não sei por que o chamam de Malagrida,
tendo sido o frade homem tão bom”...
Noutras partes do Mundo, porém, chamavam o implacável
Marquês de Pombal de “o Richelieu luso”, porque,
como o cardeal francês, o rei reinava, sim, e reinava absolutamente
— mas quem mandava no rei era ele... Por cerca de três
décadas, foi o virtual ditador lusitano, com os demais ministros
sendo apenas seus auxiliares.
UMA
VISÃO CATÓLICA
Escrevendo para a “Enciclopedia Católica” (edição
de 1911), Edgar Prestage, que se aproxima bastante da visão
geral dos jesuítas sobre Pombal, dá bem o tom das críticas
até hoje feitas ao Richelieu luso pela Companhia de Jesus.
Traduzindo da última versão inglesa (edição
da editora Robert Appleton Company, de Nova Iorque), faremos nossas
observações entre colchetes:
“O reino de José I [1750-77] tornou-se famoso pela administração
do Marquês de Pombal, o verdadeiro governante de Portugal por
mais de vinte anos [na realidade, quase 30 anos]. Sua ação
enérgica durante o terremoto de 1755 confirmou a ascendência
que mantinha sobre o soberano. E, com este apoio real, ele pôde
usar a alegada Conspiração dos Távoras para humilhar
a nobreza e continuar a campanha dirigida contra os jesuítas,
determinado que estava a controlá-los. Suas acusações
contra os padres inacianos, por conduta sediciosa nas Missões
e de tráfico comercial ilícito, trataram-se de meros
pretextos”.
REAL
MESA CENSÓRIA
— Ele já havia afastado os jesuítas da Corte,
denunciando-os também a Roma e assegurado a nomeação
de um amigo, o Cardeal Saldanha, como o reformador de sua escolha
para os jesuítas em Portugal. E, quando se atentou contra a
vida do rei, ele atribuiu tudo a maquinações dos jesuítas.
Confiscou os bens da Companhia nos domínios portugueses e expulsou
os jesuítas portugueses, retendo os estrangeiros na prisão.
O Papa recusou-se a culpabilizar toda a Companhia pelas faltas de
indivíduos isolados e Pombal respondeu demitindo o núncio
[apostólico] e ipso facto cortando as relações
com Roma. Desta forma, o chefe real da Igreja em Portugal era o ministro
[Pombal]. Ele aumentou a ignomínia sobre os jesuítas
assegurando-se de que o Padre Malagrida fosse queimado pela Inquisição.
E seu trabalho se completou quando, sob pressão das Potências
Católicas [especialmente França, Espanha e Portugal],
Clemente XIV suprimiu a Sociedade [de Jesus] em 1773 — prossegue
ainda o texto de Prestage.
Pombal continuava fortíssimo. Cerca de um ano depois, em 28
de abril de 1774, era expedido o “Edital da Real Meza Censoria”,
ordenando que uma carta escrita pelo bispo de Cochim, dom C. J. Colaço
Leitão — analisando a sentença dada ao jesuíta
Gabriel Malagrida — fosse queimada pelo carrasco público.
Essa Real Mesa Censória foi por ele criada, aliás, para
tirar a censura (de livros etc) do âmbito da Inquisição,
passando-a às mãos do Estado.
“SEU MAIOR CRIME”
Fala ainda Prestage: “O desmantelamento, por Pombal, das Missões
Estrangeiras, foi talvez seu maior crime, o qual de forma alguma foi
compensado por sua abolição da escravatura e o fim da
distinção entre cristãos-velhos e cristãos-novos.
Ele, sem dúvida, promoveu grandes e necessárias reformas
na administração interna e libertou o Portugal de seu
tempo da subserviência à Inglaterra. Mas sua política
comercial foi um fracasso e os males que cometeu sobrepassam de muito
as medidas benéficas. E, acima de tudo, ele forjou algemas
para a Igreja que ainda hoje paralisam sua ação [Edgar
Prestage escrevia isto na primeira década do século
XX]. A morte do rei José I provocou a queda do ministro, mas
os novos soberanos, Pedro e Maria [1777-1816], ao tempo em que abriam
as prisões que Pombal enchera com seus opositores, deixaram
intactas muitas de suas obras”.
Foi este o texto mais light que pudemos encontrar dentre os opositores
a posteriori de Pombal.
BIBLIOTECA
DO VATICANO
Se Você eventualmente for à Biblioteca Apostolica Vaticana,
em Roma, encontará pelo menos sete obras de ou sobre Malagrida:
1)
Il buon raziocinio dimostrato in due scritti, o siano saggi critico-apologetici
sul famoso processo e tragica fine del fu P. Gabriele Malagrida [...],
de 1782 e de autoria de Gaetano Forti [= “O bom raciocínio
demonstrado em dois escritos, ou sejam Ensaios crítico-apologéticos
sobre o famoso processo e trágico fim do falecido Padre Gabriel
Malagrida”];
2)
Congregatio Sancti Offici. Sentenza della santa Inquisitione di Lisbona
contro il padre Gabriele Malagrida della Compagnia denominada di Gesù
con la conferma della medesima fatta dal Tribunale detto della Relazione.
Lisbona, Michele Rodriguez, 1761 [= Congregação do Santo
Ofício (Inquisição). Sentença da Santa
Inquisição de Lisboa contra o padre Gabriel Malagrida,
da Companhia denominada de Jesus, com a confirmação
da mesma realizada pelo Tribunal dito da Relação. Lisboa,
(editor) Miguel Rodriguez];
3)
Il buon raziocinio dimostrato in due scritti. Lugano, 1784 [= O bom
raciocínio demonstrado em dois escritos], por Giulio Cesare
Cordara;
4)
À Lisbonne, por Malagrida, 1763 [Em Lisboa];
5)
Il Malagrida [Malagrida, tragédia traduzida do francês];
6)
Conferenza spirituale tra il M.R.P. Gabriele Malagrida gesuita, e
madama la marchesa D. Eleonora Tavora. Lugano, Stamperia della suprema
superiorità elvetica, 1760 [Entrevista espiritual entre o Reverendíssimo
Padre Gabriel Malagrida, jesuíta, e a Sra. Duquesa Dona Eleonora
de Távora. Lugano, Casa Impressora da Suprema Governo Helvético];
Dona Eleonora outra não é senão “a bela
e valente Dona Leonor Tomásia de Távora [1700-1759],
sexta condessa de São João da Pesqueira e terceira marquesa
de Távora, de quem Malagrida era confessor”, citada páginas
atrás, e que foi executada a mando de Pombal junto com os demais
acusados de conspiração contra o rei;
7) La figura storica e l’opera sociale e religiosa di P. Gabriele
Malagrida, S.J., nel Brasile e nel Portogallo del Settecento. Como,
Itália, 1996 [A figura histórica e a obra social e religiosa
do Padre Gabriel Malagrida, da Companhia de Jesus, no Brasil e em
Portugal do Século XVIII];
8)
Malagrida, tragédia francesa, em três atos;
POMBAL
NO VATICANO
Você acharia improvável que a mesma Biblioteca Apostolica
Vaticana abrigasse livros inspirados pelo Marquês de Pombal?
Pois nas estantes da Biblioteca papal há pelo menos 10 obras
tendo como objeto central de interesse o Richelieu português:
1)
Sejano, Pombal e Richelieu, de Giovanni Battista Froussard, edição
tirada em Lucca, Itália, pela editora de F. Bertini (1839);
2)
Quem livrou Pombal da pena de morte, por J. T. Montalvão Machado,
edição da editora Barbosa & Xavier (Lisboa, 1979)
[obra recente, saída em Portugal, tentando explicar por que
Pombal não foi torturado e morto];
3)
Vita di Sebastiano Giuseppe di Carvalho e Melo, march. di Pombal [...]
segretario di stato e primo ministro del re di Portogallo D. Giuseppe
I [...], de Francisco Gustà, edição de 1781 [obra
em italiano: Vida de Sebastião José de Carvalho e Melo,
marquês de Pombal, secretário de Estado e primeiro-ministro
do rei de Portugal Dom José I];
4)
Voyage du ci-devant duc du Châtelet en Portugal, de Pierre Marie
Félicité Dezouté de Cormatin (Paris, 1798, editora
F. Buisson, An VI) [obra em francês, saída na França:
Viagem do anterior Duque de Châtelet por Portugal];
5)
Memoirs of the Marquis of Pombal, por John Smith A