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SÔNIA van DIJCK Este é um espaço dedicado à Literatura |
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O FEMININO e o MASCULINO na Literatura
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ELISA
NAZARIAN
Sônia van Dijck |
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O
livro começa com um texto
assinado enigmaticamente por M. R. Na verdade, tudo indica ser apenas
um fragmento; talvez de longa carta ou do trecho do conto sem assinatura
que, na página seguinte, fica dito que esteve em sua bolsa por
uma semana e foi mostrado aos melhores amigos. Ainda que a autora não me tenha esclarecido, dou-me o direito de interpretar que M. R. e o autor da carta/trecho do conto são a mesma pessoa: Ele. Retomando o jogo de velar e revelar, é que Elisa Nazarian começa Resposta (Cotia: Ateliê Editorial, 2005). Escolho entender que o fragmento de abertura provoca a Resposta. Não deve pensar o leitor que se trata de obra epistolar. O paratexto da ficha catalográfica remete o livro para o campo da poesia. Deve ser isso mesmo: prosa poética. Mais uma ressalva ao leitor: nessas minhas hipóteses todas, não encontre incerteza, vacilação crítica. Quando ler Elisa Nazarian (se é que ainda não teve o prazer de saborear essa Resposta), vai me entender: o texto foge às classificações genéricas. Partindo do aparente enigma M. R./carta/trecho de conto sem assinatura, a voz narrativa elabora sua confissão/resposta. Mas, como quem busca um possível distanciamento não fala de si: fala d’Ela. Elisa Nazarian trabalha com duas personagens: Ela e Ele. E vai desfiando memórias. Ele nos é mostrado pelo filtro das lembranças da protagonista. Amou, foi gentil, escreveu contos, deitou na rede, fez amor com Ela no tapete e partiu e talvez a ame ainda. A narrativa de frases curtas, sem ordem cronológica, vai alinhavando um discurso que nos oferece a história d’Ela: amou, perdeu um filho bem pequeno ainda, pariu mais três, reencontrou o amor, ganhou uma vaca, perdeu um cão, aprendeu a fazer queijo, amou e amou seu homem e perdeu o grande amor de sua vida. Mas, ama ainda. Na verdade, a narrativa vai juntando os pedaços de vida dessa mulher, que tenta entender-se, entender seu homem e entender o que aconteceu. Não é choro de mulher. É solidão movida pela paixão; é análise/catarse provocada pelo ato de amar seu homem perdido. A voz narrativa é realista sem cair no escatológico. É presa à terra pisada por essa mulher sem nome, e fala de flores, de águas e de gozo. Como se Ela pudesse estar sendo vista em muitos espelhos, a voz narrativa ganha intimidade com a protagonista e com Ela se identifica: narradora e Ela são a mesma pessoa, tanto quanto M. R. e o autor do trecho do conto sem assinatura são Ele. Ela, assumidamente amante, com todas as fortalezas e fraquezas do feminino. Ele, diante d’Ela, é covardia, omissão insegurança, enigma e, principalmente, silêncio. Como é previsível para quem conhece as mulheres, Ela tem uma Resposta. Resposta de muitas mulheres que habitam os pontos cardeais e que, um dia, encontraram o homem a ser amado para ser eterno enquanto houver vida. A protagonista de Elisa Nazarian manda sua resposta em bela embalagem, na qual o livro se faz caixa de si mesmo, na bem cuidada apresentação do editor, que remete a uma espécie de “abre-te sésamo”/livro, para descobrir uma alma de Mulher. Nada mais próprio do que um livro para ser um grão gergelim (sésamo), no qual está guardada uma paixão de Mulher. Elisa Nazarian estréia subvertendo gêneros, dando voz ao feminino, sem que importe cor ou bandeira. Afinal de contas, paixão é paixão, e amor é para a vida inteira, posto que é infinito enquanto chama (lembrando Vinicius). E, quando Ele foge, vale a pena a certeza da grande paixão. |
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A solidão
é companheira da velhice. Fazer o quê? As mulheres cuidam
de flores, cozinham, bordam, escrevem romances e amam seus homens. Sempre
foi assim?
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Fotocomposição: Geraldo Profeta Lima |
Publicado in: Revista da ANPOLL, Campinas; Universidade Estadual de Campinas; Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística, n. 21, jul-dez. 2006, p. 239-241. © Copyright by Sônia van Dijck, 2005 Midi: Carinhoso (Pixinguinha) Fundo: Vênus |