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“Com a permissão
de Vossas Excelências, vou dizer alguma coisa sobre” Em Demanda
da Poética Popular, da crítica e professora da Université
Paris Ouest Nanterre La Défense, Idelette Muzart-Fonseca dos Santos,
nossa sempre orientadora da UFPB.
Como Edmund Wilson,
em o Castelo de Axel, que rastreia as origens de tendências
da literatura contemporânea a partir da obra de seis escritores
- Yeats, Joyce, Elliot, Gertrude Stein, Proust e Valéry, Idelette
Muzart rastreia e decifra o enigma da Poética Popular a partir
da Pedra do Reino revelando a teia indivisível de vozes
em contínua mutação, ou contínua movência,
como prefere Paul Zumthor. A voz, no livro de Idelette, a partir dos conceitos
de Ariano é decifrada como Pedra fundante de um Castelo Poético,
que pode ser uma metáfora do movimento armorial, construído
por múltiplas vozes, muito mais de forma espacial do que de forma
temporal.
Muito se tem falado sobre poética. Pouco se tem falado da poética
popular e muito menos a partir das vozes de quem a faz. Este viés
é fundamental para melhor entender-se um projeto poético
da poesia popular. Analisar as vozes é também adentrar-se
no seu imaginário e ver aflorar a “mutação
poética” integrada à vida, às relações
de trabalho e de parentesco, a relação com a sua cidade,
com os lugares por onde as vozes circulam.
Idelette faz um trabalho de garimpagem da poiesis popular, não
apenas d’A Pedra do Reino, mas de todos envolvidos no projeto
armorial: junta os pedacinhos e os transforma em caleidoscópios
que vão montando, como um quebra-cabeça, uma poética
alimentada pelos detalhes e miudezas, passada a limpo entre vozes e escrituras.
Assim, Idelette Muzart, a reconstruir as pegadas de Ariano Suassuna em
A Pedra do Reino, vai-se tornando cúmplice do fazer poético
e vai como Quaderna – o decifrador – descobrindo meticulosamente
a construção do Castelo Poético. Ariano
e Idelette sabem que o poeta popular não faz poesia como atividade
“Cult”. Na poética popular, se encontra a reflexão
e a vicissitude da exigüidade da sobrevivência pela vida diária.
A poesia é “espírito mágico manifestado nos
folhetos (...), nas cantorias, na atualização de romances
antigos adaptados à realidade social” (SANT. E.D.P. p.34).
Traduz as tensões psicológicas e sociais, as oposições
completivas e, como memória do que se passou, segue a continuidade
das redes mnemônicas. Isto provoca a reflexão sobre a importância
da circularidade da voz – que também faz a epifania da vida.
A voz - poesia é entendida por Ariano como Pedra, “uma educação
por lições”, como diz João Cabral de Melo Neto:
“Precisa freqüentá-la, (porque) no Sertão a pedra
não sabe lecionar, lá a pedra é de nascença:
entranha a alma” (J.C.M.N. A E. P. P).
A voz é, portanto, na poética popular profecia, Quinto
Império, o “Reino do Desejado” que se
constrói no cotidiano, mas que se desdobra e define o lugar da
imaginação no tempo infinito da memória. Tem um sentido
mágico por excelência, porque é dela que nasce a simbolização
de mundos reais e imaginários, evidenciando-se, assim, a convergência
dos múltiplos gêneros poéticos. Em seu livro, Idelette
sinaliza como a poética popular ressalta o desejo de falar, “um
duplo desejo: o de dizer” (ZUMTHOR, 1997:32). Ela e Ariano sabem
que a poética popular comunica pelo fio da palavra e constrói
progressivamente uma poética organizada como um ABC. Um “ABC”,
como dizia Patativa do Assaré, “sem beabá, um livro
cheio de verdade, da beleza e de primô, tudo incardenado, inscrito
pelo poder do criadô. Uma poética ditada pelo prazer e sofrimento
e feita sem os códigos universitários”. (Patativa
do Assaré. Aos poetas clássicos).
Em a Demanda da poética popular é enfatizado como
a voz torna-se escritura, bordados-imagens de palavras, fios tecidos por
ritmos, por melodias, por gestos, por performances. A poética popular
é, assim, munida por um tempo épico: “medido apenas
pelos movimentos coletivos das sensibilidades e dos corpos, na (...) performance”
(ZUMTHOR.1993, p.143). É uma poética tecida pelo fascínio
de brincar com palavras, mesmo relatando o sofrimento do vivido o poeta
sabe, com a personagem Samuel d’A Pedra do Reino que -
“Na arte, a gente tem que ajeitar um pouco a realidade que, de outra
forma, não caberia bem nas métricas da Poesia” (SUASSUNA,
PDR, p. 22)
É poética de poetas conscientes das suas limitações
que assumem com intensidade suas histórias, sua identidades sem
escamoteá-las, mas as transforma em um espelho mágico de
vozes do cotidiano, de vozes da memória, organizadas com a intensidade
dos limites da exiguidade da vida e “transforma um rifle, no folheto”
(SUASSUNA, PDR, 22)
A poética popular, como diz Idelette, “é
relação estreita entra as diferentes expressões artísticas
e os próprios artista. O folheto não é via de mão
única, mas (...) ponto de convergência de três modos
de expressão que a cultura letrada separou e fragmentou em disciplinas
diferenciadas, se não rivais - narrativa teatral, artes plásticas
(xilo) e música (canto)” (SANTOS. E.D.D.P. p 35,36)
A palavra se torna visível, transparente, “brincante”,
“vai e volta”, como na boca de Quaderna a anunciar a epifania
de um sujeito histórico. Ela vai além de uma linguagem “fática”:
“estabelece uma autoridade”. (ZUMTHOR, 1997, p.33)
É neste contexto que Idelette revisita Ariano, sistematizando uma
nova arte poética armorial. A poesia vai-se tecendo com mistérios
traçada e apoiada em xilogravuras. É poema-imagem, magia.
Precisa do dom, da imaginação criadora que escapa à
causalidade, único método capaz de captar a imagem, de mergulhar
na emocionalidade do ser. É, portanto, um fazer fenomenológico;
capaz de chegar às margens primeiras, capaz de estar presente e
se materializar no silêncio da imaginação criadora
como devaneio e matéria sagrada. O silêncio assim é
para a poética popular armorial, criador ativo, sonho realizante
e “gritante”, “queima o veneno das Serpentes, (...)
arde em brasa o Sonho perdido, tentando em vão reedificar seus
Dias, para sempre destroçados” (SANTOS E.D. P. P, 289)
Por isso, é uma poética mágica: precisa de espaços
diferenciados, de memória e de ritmos, de olhares e de gestos,
precisa de espaços sagrados, dos mistérios dos astros, do
silêncio e da solidão. É poética que se constitui
e constrói “palavra imagem”.
A Demanda da poética popular encarrega-se de construir
um imaginário com o receptor convidando-o a ouvir as vozes das
feiras, as vozes das entranhas da cantoria, rastros de uma teia indivisível
de “muitos gêneros poéticos pouco conhecidos”,
como ressalta Idelette.
A reedição da Demanda da poética popular
preenche a lacuna de um olhar focado, especializado em uma poética
tão rica. Desperta no leitor uma atitude crítica à
ideologia reinante nos meios acadêmicos. Apazigua a sensação
de “falta de território” de quem trabalha com as poéticas
populares ao encarar no dia a dia das pesquisas, infinitos “Cabos
das Tormentas” dos “olhares fora de lugar” do mundo
acadêmico. Pode-se, pois, ler esta obra, seguindo a voz da autora
interpretando Ariano ao enaltecer o valor da poética das vozes
populares como “marco e indicador dos novos caminhos de uma poética
nova”:
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