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Breve bibliografia para pesquisadores de arquivo e de crítica genética
Para uma História da Literatura
ARQUIVOS:
REENCONTRO DO TEMPO |
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Sônia Maria van Dijck Lima
Começo
citando o poeta e estadista senegalês Léopold Sédar
Senghor:“preservar os testemunhos da
criação e do pensamento e tornar acessíveis à
pesquisa internacional os manuscritos dos criadores e intelectuais é
um gesto de profundo civismo mediante o qual afirmamos nossa identidade
e asseguramos a continuidade, a sobrevivência de nossa herança
cultural” . Vejamos uma história ilustrativa, colhida
em Rachel de Queiroz, em seu Memorial de
Maria Moura . Trata-se de uma experiência que nos
é relatada pelo padre do romance. A certa altura de sua aventura,
o padre, agora com o nome de Mestre Zé, vai parar em um lugar
que se chama Bruxa - ou “as Bruxa”,
como eles dizem (p. 273). A comunidade de analfabetos, com exceção
de Ti’Franco, que pelo menos aprendeu a assinar o nome, veste-se
de forma simples: “Os meninos usavam apenas
uns calções que iam só até abaixo do joelho.
Já as meninas vestiam uma espécie de timão de pano
ordinário, manga curta, a saia pelo meio das canelas”(p.
274). Os objetos necessários ao cotidiano expressam tão
somente sua utilidade e não trazem marcas de fantasia ou de criatividade.
Numa terra de poucos fusos e de raras fiandeiras (p. 281), o ferreiro
tem medo do fogo e da forja, “alegando que
lhe fazia mal aos bofes!”(p. 310). Naturalmente, livro,
naquelas terras, “...ainda era mais escasso
do que dinheiro”(p. 282). Como diz o padre, “não
cultivavam nenhuma religião, só uma espécie de
devoção grosseira” (p. 309). Um dos traços
característicos da comunidade é o nome das pessoas: Cau,
Rana, Vico, Zefe, Franco; isso é notado por Ti’Franco:
“o povo de fora estranha muito quando escuta
os nomes da gente...”(p. 284). FAZENDA PRÚSSIA - PROPRIETÁRIO: FRANZ WIRTZBICK (p. 283) Outro papel Mestre Zé reconheceu como
um documento oficial brasileiro. Nele, um Juiz de Direito mandava saber
a Franz Wirtzbick que fora aberto o inventário de seu pai e que
já haviam sido notificados os demais herdeiros. Esse documento
tinha data de vinte anos antes do momento em que Mestre Zé o
estava lendo. Em suma: o conjunto de documentos revelava que o lugar
chamado Bruxa tinha mesmo o nome de Prússia (Fazenda Prússia)
e que os nomes esquisitos, Zefe, Rana, Cau, eram, na verdade, Joseph,
Hanna, Karl, etc., enquanto Franco, originalmente, era Franz. Mas ninguém
sabia mais como era, conforme explica Ti’Franco; e Cau, Zefe,
etc. “é como dá pra dizer
na nossa língua” (p. 284). O fato é que “o
português que falavam parecia até pior do que o saído
da boca dos índios mansos ou dos negros de senzala”
(p. 307), conforme observa Mestre Zé. O pesquisador de arquivo, longe de ser um
detetive vulgar, é o investigador que aprende a lidar com o particular,
o incompleto, com o fragmentário; além da competência
para estabelecer relações entre fatos e para realizar
interpretações críticas, deve ser dotado da conveniência
do silêncio diante da intimidade que pode comprometer a imagem
de alguém ou de seus descendentes, sem qualquer contribuição
histórica. Como pesquisadora de arquivo, herdei uma especial relação com o tempo. Se, por um lado, adquiri a noção da fugacidade das ações, por outro lado, aprendi que essa fugacidade é corrigida graças aos testemunhos documentais, e isso confere mais responsabilidade a cada ação executada. Dentro de um arquivo, o tempo adquire uma concreta dimensionalidade: nosso presente inicia-se no passado e projeta-se em perspectiva para o futuro. As ações do passado, reencontradas nos documentos, integram de modo essencial uma memória histórica e cultural, que vive de sua dinamicidade. No caso da área de Letras, aqueles que se dedicam ao estudo de acervos literários aprendem a lidar com fatos culturais e literários investigados em fontes primárias, evitando, assim, inferências nem sempre autorizadas pelo texto, mas que se justificam “pelos recheios de erudição”, como adverte o mestre José Aderaldo Castello. No eloqüente silêncio dos arquivos e das coleções particulares estão nossas raízes e a herança de nossos avós. Percorrer os labirintos dos acervos é uma fascinante aventura intelectual e política. * *Espero poder transmitir meu compromisso aos que de mim têm-se aproximado, para aprender a andar nos labirintos dos acervos documentais.
Publicado D. O. leitura, São Paulo IMESP, ano 22, n. 2, mar.-abr. 2004 © Copyright by Sônia van Dijck, 1998 Midi: O sapo não lava o pé (folclore infantil) |
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