DIONILA da
terra semente,
da terra o ventre,
do filho do chão.
Oitocentos mil pequenos proprietários,
quatrocentos e cincoenta mil posseiros e
dois milhões de pequenos arrendatários,
/juntos na expulsão.
ACOMPANHADOS,
os tratores, chegaram
a polícia e a ordem do juiz.
Não ficou casa,
/não ficou planta no chão.
Sua lavoura destruída
e seus trecos debaixo do pé de pau.
MAIS uma
favela vai ser construída de despejo,
de desemprego. De toda a injustiça do mundo.
DIONILA,
a cobiça é o chão!
Mexa nervos e músculos,
o que resta das rugas do rosto ao sol.
Faça da enxada as asas
/e como o pássaro, busque o céu!
Viva o etéreo para nós.
Do céu, olhe os seus companheiros!
Olhe aqueles que com a força dos seus braços
/ganham o mísero pão.
SEJA a força
para que eles continuem produzindo
/a macaxeira, a batata e o feijão.
DIONILA,
do alto dos céus:
Inspire a força dos seus filhos de Coqueirinho e Cachorrinho,
/ameaçados pela Usina Central Olho d'Água.
Estenda seus braços por toda Alagamar,
Piacas, Caipora, Várzea Grande, Riacho dos Currais,
Vá aos agricultores da Fazenda Paripe,
/para eles enfrentarem
a especulação imobiliária.
LEMBRE-SE
da luta dos agricultores de Capim-de-Cheiro
/que há anos enfrentam a Usina Maravilha e, agora, os proprietários
Assis e Vasconcelos.
Dionila, seja a força de Camucim,
do Sítio das Moças de Taquara,
do Sítio Arame, Capim-de-Cheiro, dos municípios de Alhandra,
Caaporã e Pitimbu,
/que o inferno verde dos diabos da Fazenda Tabu está expulsando.
Seja a guarda de Joaquim, seu irmão de roça e de terra,
/ameaçado por todos aqueles proprietários rurais em /Mangueira.
DIONILA,
nossa mãe camponesa,
Olhe os índios da Baía da Traição - da Nação
Potiguar;
Olhe pelos pescadores da Barreira Grande,
Acaú, Tejucupapo e todos os outros;
Olhe por Mataraca, Sapé, Rio Tinto, Santa Rita,
que pelas mãos que as usinas vão matar,
na calda envenenada,
nos pilares da cana-de-açúcar - a destruição
do ar
- destruição da terra - a destruição dos rios.
DIONILA,
verta por nós as lágrimas que o despejo enxugou.
DIONILA,
é o boi - o capim
é o trator - a cana
é o capanga - o latifúndio
é o policial - o poder
é a lei - a injustiça
é o dinheiro - o lucro que sua fome vai gerar
é o projeto do álcool
é o plano - o filho legítimo do sistema
é o que você não entende,
o que seus olhos não compreendem
neste dia de Feliz Ano Novo!