DE PRIMEIRA VIAGEM
Sônia van Dijck
Passara por cima do falatório da família
dela e das lágrimas da sogra: “minha filha... a gente nunca
sabe o que vai ser da vida dos filhos...” No fundo, a velha considerava
que ele era o grande culpado, não levando em conta que Amanda
lhe aplicara um belo par de chifres.
Na sala de embarque, suspirou livre do check in. Atrapalhara-se.
- Também... pra que tanta bagagem? talvez nem precise de tanta
roupa. E os livros?...
Na véspera, festa de despedida. A turma do Departamento organizou
o bota-fora, em clima de despedida de solteiro.
- Nem imagina, cara... ah! as francesas... sabe como é... como
nos filmes...
- Não!... as americanas... independentes... casadas... dão
uma ou duas, rapidinho: “- As crianças vão chegar
da escola, e o Bill tem um jantar de negócios. Preciso ir.”
Você devia ir para os States.
- Nada disso! na cama, as francesas são como música para
os ouvidos... Sou mais pelas francesas.
O discurso doutoral tinha o aval da experiência... e de alto nível.
Dormiu. Acordou com o toque da comissária sorridente, que servia
o jantar. Foi ao banheiro, para esticar as pernas.
Dormiu. A comissária servia outra refeição.
- Merda! – pensou. Esta criatura parece que é paga pra
me acordar!
Voltou a verificar o endereço de Sérgio.
- Bom sujeito: disse que vai estar no aeroporto.
O doutorado iria servir para novos caminhos e para esfriar a cabeça.
Amanda estaria oficialmente casada com o outro, quando voltasse.
- Quem diria... logo o Nando... Parecia grande sujeito. Também
contou maravilhas das francesas quando voltou. Será que faz tudo
aquilo com Amanda?
Passou pela alfândega, e as malas, cada vez mais, lhe pareciam
um transtorno.
O aeroporto era imenso e ficou maior quando concluiu que Sérgio
não estava esperando.
- Que filho-da-puta!
A língua parecia travada. Dois anos de Aliança. Mais prático
mostrar o papel com o endereço ao motorista (chauffeur
- lembrou-se satisfeito). Tudo iria dar certo.
O vento da manhã fria era uma iniciação de Paris.
E deixou-se levar pelas avenidas e boulevards.
Pagou e recebeu o troco, entre empurrar uma mala e outra para a entrada
do prédio.
- E agora?
Lia os nomes na entrada do prédio:
- O endereço diz... Não dá pra entender. Qual deles?
Aqui, é um de M. Cantel. Serjão é só da
Silva. Vejamos do outro lado.
- Bonjour, Monsieur!
Uma francesa! Até tinha estado esquecido das francesas, graças
à sacanagem de Sérgio. Sorridente, a francesa! Tentou
dizer qualquer coisa que queria ser também um bonjour e atirou
o que o imaginário pretendia que fosse seu melhor sorriso. Enquanto
conferia... E aquela parecia ser a francesa mais bela de todas. E só
ouvia o que lhe parecia “música para os ouvidos”,
mesmo que não entendesse nada do que ela falava. Mas, havia os
gestos... pareciam convite.
- Ah! o elevador... como nos filmes... Quem diria!?... não perdem
mesmo tempo – pensou.
A bagagem lotou a pequena caixa. Ela sorria sempre e dizia qualquer
coisa. Mas... a bagagem entre os dois...
- Deve estar dizendo que seu apartamento é lá em cima.
Não se saía tão mal. Entendeu parte de uma frase:
- ... Minard... Suzette Minard. Je suis...
Suzette... lindo!...
- Je suis Beto. – ensaiou.
- Mas, pra que tocar a campainha!?... – surpreendeu-se com o gesto.
A cara vermelha de Sérgio, arrematada por um lenço verde
enrolado ao pescoço, abriu a porta.
- Oh! amigão! Bom que você encontrou o prédio! Eu
sabia que você iria conseguir!
Nem teve tempo para os palavrões ensaiados no táxi. O
amigo e a francesa empurravam as malas porta a dentro. A voz rouca explicava:
- Estou com uma baita gripe, cara. Febre, talvez até com pneumonia.
A francesa sorridente ainda falou qualquer coisa como “música
para os ouvidos”. A porta do elevador fechou-se com um ruído
metálico.
- Quem é ela? – a pergunta saiu do fundo da ansiedade e
da confusão que tentava entender.
- Ah! é a concierge. Madame Minard. Eu lhe havia dito
que iria chegar um amigo; pedi para que ficasse atenta e trouxesse você
ao apartamento certo.
Ah!... A concierge!