Eis
que Eduardo da Cunha Júnior está
de volta. Talvez não seja certo dizer “está de volta”.
Ele está sempre nas páginas de Cunha de Leiradella. Explico.
Eduardo da Cunha Júnior é aquele que morreu no Caraça,
não se sabe bem se morreu no Caraça, e esse fato nem é
muito certo para ele, conforme não chegou a saber com certeza se
morreu ou não no Caraça, e nem nós e nem os habitantes
de Os espelhos de Lacan
(2004) podemos ter qualquer certeza. Desde que apareceu em O
longo tempo de Eduardo da Cunha Júnior (1987), Eduardo da
Cunha Júnior já foi gerente de hotel; foi dramaturgo sem
muito sucesso e nem era bom no bilhar; fez curso por correspondência
e passou a ganhar a vida consertando aparelhos elétricos, até
que um tiro encerrou sua carreira de técnico em eletrodomésticos;
voltou a Portugal, para reencontrar um grande amor. Mas, tudo isso foi
antes de Apenas questão de gosto (2005),
onde ele volta na pele de detetive.
Para entender Eduardo da Cunha Júnior, recorro a Northrop Frye
(1973, p. 185):
O elemento essencial da trama, na estória
romanesca, é a aventura, o que significa que a estória romanesca
é naturalmente uma forma consecutiva e progressiva; por isso a
conhecemos melhor na ficção do que no drama. Em seu ponto
mais ingênuo é uma forma sem fim, na qual um protagonista
que nunca se desenvolve ou envelhece passa de uma aventura a outra, até
que o próprio autor desanima.
Trata-se, então do herói
romanesco que vive na obra de Cunha de Leiradella. Apesar da citação
acima, não pretendo ler Apenas questão
de gosto como atualização do Mythos do Verão,
segundo a formulação de Frye.
É fato que Eduardo é um homem comum, parecido com milhões
de homens comuns, mergulhados todos na banalidade do cotidiano, com suas
demandas, angústias e desejos. Na aventura de Eduardo, não
há traços de nostalgia, de “busca de algum tipo de
idade de ouro imaginativa no tempo e no espaço.” (FRYE, 1973,
p. 185).
De envolvido no esquema de propina do jogo de bicho, passando para caçador
de animais de estimação, no Flamengo, ele se tornou um detetive,
que se traveste de jornalista entendido em cinema, a pedido de uma cliente,
Raiolinda, que quer saber com quem o marido a está traindo. Além
do pagamento, concluída a investigação, o detetive
pretende ganhar favores sexuais da cliente.
O acontecido é narrado por Eduardo, que, em 1985, foi do Rio de
Janeiro para Caxambu (Minas Gerais), para dar conta da empreitada.
O narrador começa dizendo: “Meu velho pai tinha razão.
Mais vale um ovo no saco do que dois no cemitério.” Só
se deixando levar pelas primeiras páginas, o leitor vai perceber
que textos de várias naturezas, com inversões e modificações
ou não, fazem a fonte do discurso do narrador. O “velho pai
Eduardo da Micas do Ferreiro”, citado na abertura do discurso, assim
como “o velho Abílio Quitandeiro, vascaíno roxo e
meu [seu] falecido tio e padrinho” e a professora “D. Maricota,
aquela admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada
da Laguna” repetem-se ao longo do discurso, sempre mencionados como
comentários dos fatos ou como justificativas ou explicações
das ações de Eduardo. A essas figuras é atribuída
uma sabedoria de frases feitas ou de transformação das formas
simples, de obviedades, sabedoria essa que é orientadora dos passos
de Eduardo. O velho pai, o tio e padrinho e a professora são um
só elemento na relação com o narratário e
podem ser vistos como leitmotiv do discurso do narrador, pois
sua repetição constante implica a informação
tanto da construção do discurso do narrador como sublinha
o caráter farsesco do detetive Eduardo.
Eduardo, em seguida à citação do velho pai, descreve
seu escritório e ao mesmo tempo se apresenta, mostrando nada ter
do charme que cerca essa figura nas histórias do gênero:
Nem eu nem meu escritório nos podemos
comparar à Hollywood Detectives Corp., pilotis no 1009º andar
do Lyingly Building, Hollywood Boulevard, Los Angeles, Califórnia.
Eu não fanho inglês como se entupisse três narizes
e o meu estaminé também não tem duzentas e dez louras
peitudas abrindo sorrisos e decotes nas mesas da Recepção,
nem carpetes e quadros nas salas e nos corredores, frigobares disfarçando
câmaras de vídeo embutidas nas paredes ou ar-condicionado
central e outros arrebites me engana que eu gosto. (p. 9)
Apresentando-se, o narrador cuida
de nos dar o perfil do “velho pai”, pois fará, logo
em seguida, uma segunda citação de suas lições,
sublinhando o tom do discurso narrativo:
Como muito bem dizia meu velho pai, um português
perdido no bairro do Cubango, em Niterói-antes-da-ponte, que chegou
ao Brasil no vácuo de uns tais de Gago Coutinho e Sacadura Cabral,
jóqueis de um teco-teco que ganhou o Sweepstake das Gaivotas por
três bicos e duas asas, nesta terra abençoada por Deus, quem
rouba uma galinha é ladrão, quem rouba um galinheiro vira
deputado. Ou senador. (p. 9)
O detetive Eduardo não tem um escritório
propriamente, mas um “estaminé”, pois foi tomado um
empréstimo do francês estaminet – “botequim”,
assim como jamais, que na fala de Eduardo se realiza como “jamé”,
moi passa a ser “moá” e embeurré
(embeurrer = passar manteiga, amanteigar) que deve ter sotaque
de detetive carioca para dizer embeurrés d’escargots,
tanto quanto forfait passa a nome de família de cineasta
deslumbrado: Zózimo Forfait (sem deixar de remeter a conhecido
colunista social).
A trama policial não é novidade na obra de Leiradella. Em
Apenas questão de método (2000),
a investigação é marcada por encontros e desencontros,
situações inusitadas, que, graças à ironia,
iluminam a condição humana. Em Apenas
questão de gosto, Eduardo tende ao burlesco, e sua aventura
acumula equívocos, situações ridículas, forjamentos,
desencontros, invenção de palavras (tridiota, verdadeirizar,
porrilhão, por exemplo). Se nem mesmo o discurso narrativo de Eduardo
é inteiramente seu, pois se faz de outros textos, o relatório
final da investigação só precisa apresentar fatos
que satisfaçam a todos, para que o detetive seja bem pago.
A breve aventura de Eduardo dura cerca de uma semana, somando-se o tempo
vivido em seu antiescritório de detetive e em Caxambu, palco da
investigação. Para situar o tempo da história, o
narrador toma a eleição de Tancredo Neves para a Presidência:
1985. Essa marca vai lhe permitir voltar no tempo ou contemplar seu presente,
tecendo comentários críticos e muitas vezes irônicos
acerca de fatos e de figuras históricas, como, por exemplo em:
Dizem que o que mais agoniou o vice-presidente
Pedro Aleixo não foi a Junta Militar ter impedido que ele assumisse
a Presidência da República, vaga com o afastamento do marechal
Costa e Silva, foi a pergunta do porteiro do Palácio do Jaburu:
E agora, doutor, o quê que eu faço com o correio? O senhor
vem apanhar ou eu mando de volta aos remetentes? (p. 29)
O romance se constrói de
diálogos sempre interrompidos pelos comentários de Eduardo,
citando ou não seu velho pai, seu tio e padrinho, a professora
“admiradora fissurada das duzentas mil páginas de A Retirada
da Laguna” e, ocasionalmente, sua mãe, trazendo acontecimentos
do passado ou do presente da aventura, e até da contemporaneidade
da escritura do romance, graças a um slogan dos militantes
de um partido político que não poderia ser esquecido pelo
autor: “pt, saudações.”
O discurso do narrador, sem ligação imediata com os fatos
que geram os diálogos, instaura um jogo que poderia mergulhar no
non sense, caso não ficasse estabelecida uma cumplicidade
com o leitor, graças ao pacto com o narratário, que tem
conhecimento da farsa que está sendo desenvolvida e que lê
os comentários de Eduardo mais como uma crítica aos decadentes
valores ocidentais, aos vícios da política brasileira, aos
comportamentos de algumas figuras históricas, outras ligadas ao
cinema ou ao futebol, por exemplo, até chegar ao próximo
diálogo que revela o avanço da aventura.
Trazendo para a história a imitação do texto bíblico
(epístolas de Paulo), o pastiche de um juramento profissional,
e empregando calão, palavrão, gírias, expressões
em línguas estrangeiras, citando frases em latim, o discurso do
narrador recorre com freqüência à sinédoque,
permitindo a compreensão simultânea de várias situações,
como ensina Massaud Moisés (1974, p. 478). Assim é que para
falar das formas atraentes e da aparência requintada da ricaça
que contrata seus serviços, Eduardo passa a chamá-la “Chanel”
ou a ela se referir como “nº 5” ou inverte fazendo “nº
5 do Chanel”: “O Chanel tirou a tampa do frasco e, na maior
complacência, adubou o vamos ver da minha flor de laranjeira.”
(p. 11) - “e mostrar que nos cem dólares diários que
o nº 5 do Chanel me pagava”. (p. 79). Para outras características
que ele julga que sejam do perfil de Raiolinda, elabora outras sinédoques:
“por que é que eu não poderia vencer também
as quizilices de uma simples Lassie, mesmo estofada e perfumada à
la Nunca Fui Santa?” (p. 32). Considerando a complexidade da criação
desse “Chanel nº 5” em relação a Raiolinda,
vale a pena aprofundarmos a leitura. Pelos seus significados, a expressão
guarda um sentido metafórico na medida que prevalece a lembrança
de Marilyn Monroe, que, conforme uma das muitas histórias a seu
respeito, ao ser perguntada como se vestia para dormir, teria respondido
que “apenas com algumas gostas de Chanel n. 5” – sou
capaz de assegurar que Eduardo da Cunha Júnior é um dos
aficcionados cultores dessa resposta, a ponto de instaurar o perfume como
metonímia de Monroe. Ele cria mesmo uma combinação
que resulta em “Lassie de Chanel”, referindo-se à mesma
Raiolinda.
Mas, voltando à sinédoque, em outras ocasiões, para
se referir a políticos brasileiros, por exemplo, ele recorre a
essa figura de linguagem para a síntese crítica: “Tancredo
de Almeida Neves, cavaleiro da Távola Sempre-Em-Cima-Do-Muro”
– “Paulo Salim Maluf, cavaleiro da Távola Do-Lado-Mais-Direito-Do-Muro”.
Acontece que Leiradella, premiado polígrafo, se renova, renovando
sua narrativa e confirmando seu projeto poético, a cada obra que
nos oferece. Na apresentação de Apenas
questão de gosto, ressalta a jornalista Berta Carvalho (2005),
a quem, aliás, é dedicado o livro:
Na sua literatura, Leiradella busca, acima de
tudo, a verdade que se encontra ao desvendar os porquês e as causas
que determinam os actos de cada um. E como nunca, ou muito raramente,
encontra essa verdade, diz-nos que vive como vivem as suas personagens:
mergulhado na angústia, incapaz de comunicar, a odiar a sujeição.
E a invejar aqueles que acreditam. Seja no que for.
Talvez devido a todas estas impossibilidades, a ironia, o sarcasmo e até
a ferocidade da sátira sejam a marca registrada dos seus romances
Apenas Questão de Método e
Apenas Questão de Gosto. E o detective
Eduardo da Cunha Júnior seja uma das suas maiores criações.
Em Os
espelhos de Lacan, Leiradella construiu um romance como hipertexto
ou caleidoscópio, que pode ser lido em qualquer ordem, uma vez
que um texto remete ao outro, que está logo ali à espera
do leitor, sendo suficiente virar algumas páginas, pouco importando
a cronologia da história. Agora, o que temos, em rigorosa ordem
cronológica da aventura, é um hipertexto que se instaura
como máquina devoradora de textos (hipotextos, como ensina Gérard
Genette, 1982). Dentro de um regime lúdico, com forte compromisso
satírico, a obra de Leiradella lança mão de procedimentos
de transformação e de imitação de textos,
que vão do parodístico e chegam à charge, sem contudo
evitar a citação ou a alusão, como práticas
intertextuais (GENETTE, 1982)
Na verdade, Eduardo da Cunha Júnior, no papel de narrador de sua
aventura detetivesca, promove uma verdadeira devastação
em discursos consagrados, seja pela tradição religiosa,
seja pela pose acadêmica, seja pela empáfia política,
seja pela vaidade científica, seja pelo emprego abusivo de estrangeirismos,
seja pelo uso popular consagrante. Graças ao primarismo pragmático
da sabedoria cunhada como popular de seu pai, de seu tio e padrinho e
de sua professora, Eduardo faz tábula rasa dos ícones da
cultura ocidental e da História, incluindo-se aí tanto ídolos
do cinema ou do esporte, como pensadores e políticos brasileiros
e estrangeiros e mais um imenso número de personalidades, de realizadores
e de tipos que informam a sociedade judaico-cristã ocidental. Prolixo
ou pretensamente enciclopedista, Eduardo narrador costura fragmentos relativos
ao cinema com outros do campo da filosofia ou da ciência política,
sem se esquecer de alguns palavrões, gírias e formas populares,
ao tempo em que fragmenta a travessia de boa parcela da humanidade, enquanto
devora alguns uísques bem “cubados” (uma das formas
da linguagem de Eduardo: “e outro Ballantine’s bem cubado”),
e se prepara para mais uma performance sexual, sem perder de vista a investigação
que lhe foi encomendada, pretendendo ser recompensado levando a cliente
“Chanel nº 5” para a cama, e assim explica algum episódio
realizado no diálogo anterior a seu discurso ou anuncia o próximo
lance da aventura. Eduardo se faz devoto de uma extensa hagiografia e
invoca anjos de incontáveis legiões e usa repetidamente
um certo “campanário das urtigas” como eufemismo para
um termo chulo, como em: “mandei o pensamento marcar passo no campanário
das urtigas”.
Se a sabedoria dos sempre citados pai, tio e padrinho e da professora
soa falsa como uma nota de 3 dólares (a investigação
deve ser paga em dólares), seu mestre que o prepara para que pareça
entendido em cinema não passa de um esperto contraventor.
No conjunto de sua obra, Leiradella constrói uma narrativa consecutiva
e progressiva, sempre vivida por essa personagem sem rosto, que não
envelhece e que passa de uma aventura a outra. Neste seu recente livro,
o autor mergulha no gênero para, em um processo de desconstrução,
que atravessa o conjunto da obra, subverter o próprio discurso
narrativo e implodir o romance. Seu herói romanesco, ostentando
com propriedade o figurino de anti-herói, é tão escrachadamente
farsesco que seu relatório de investigação é
absolutamente falso. De seu caráter, deriva sua atitude crítica
em relação aos homens e ao mundo. Ou, quem sabe, sua atitude
crítica em relação aos homens e ao mundo terminou
por forjar seu caráter?
Temos, neste romance, mais um caleidoscópio da raça humana
que, se está presente n’Os
espelhos de Lacan,
aqui se mostra em novas possibilidades de combinação: fragmentos
da trajetória da humanidade, que, reunidos para a contemplação
graças ao discurso do narrador, que também se articula de
fragmentos, revelam a grande farsa ou, no extremo, a fatuidade da trajetória
humana.
Portanto, a hipertextualidade e a configuração fragmentada
não são, na obra de Leiradella, finalidades em si mesmas.
São muito mais instrumentos a serviço de uma poética
que se instaura em permanente tensão dialógica ou polifônica
e que se alimenta da contemplação crítica da condição
humana.
Mantendo uma fatura cômico-séria, Apenas
questão de gosto revela que a personagem habita um mundo
cuja unidade épica está, irremediavelmente, quebrada. A
Eduardo, restam a ironia e a sátira menipéica, uma cosmovisão
carnavalesca (BAKHTIN, 1981).
O leitor tem a oportunidade de tomar Apenas questão
de gosto como a janela de algum “estaminé” situado
no alto de qualquer edifício de cidade grande, da qual pode contemplar
as conquistas, vitórias, derrotas, progressos, crimes e mais uma
infinidade de atos grandiosos e outros mesquinhos que fazem a História
e que deságuam na avenida de nosso tempo, fazendo-nos a imagem
e semelhança da multidão que escorre no asfalto. Tal como
Eduardo da Cunha Júnior, é bom ter por perto uma garrafa
de seu uísque preferido e uns cubos de gelo - pode ser que faça
um calor infernal.
Publicado em Castelo de Lanhoso,
Póvoa de Lanhoso, 12 fev. 2006. Opinião.
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