Suor e imagens de
Guimarães Rosa
Autor mineiro levou 21 anos melhorando “Sagarana”;
livro traduz “Grande Sertão” em ilustrações
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Por CYNARA MENEZES (da Reportagem Local)
De onde vem a inventiva de Guimarães
Rosa? Uma pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba revela
a transpiração do autor em detrimento da inspiração:
Rosa fazia modificações em seus textos inclusive depois
de editados.
A escrita do autor mineiro (1908-1967) é dissecada ao mesmo tempo
em que é lançada em livro a tradução em imagens
do universo de "Grande Sertão: Veredas", sua obra máxima,
sob a ótica do artista plástico, também mineiro,
Arlindo Daibert (veja texto abaixo).
Segundo a pesquisadora Sônia Maria van Dijck Lima, Guimarães
Rosa só esgotou a sede de mudanças em "Sagarana",
seu primeiro livro publicado, 21 anos depois da criação
da obra, entre maio e dezembro de 1937.
É sobre "Sagarana", livro originalmente escrito com doze
contos, dos quais três foram suprimidos por Rosa para a primeira
edição, que trabalha a pesquisadora.
"Não posso falar sobre os outros trabalhos, mas 'Sagarana'
foi modificado até a quinta edição, em 58",
diz Sônia van Dijck, que pertence à Associação
de Pesquisadores do Manuscrito Literário, um grupo que trabalha
sobre a gênese do texto de diversos autores.
A "crítica genética", como é chamada, rastreia
as modificações a partir dos manuscritos, do texto datilografado,
das anotações à mão feitas pelo autor.
Nó caso de "Sagarana", as mudanças eram feitas
por Rosa algumas vezes com rasuras, recorte e sobreposição
dos textos modificados e anotações nas margens do livro
em edições consecutivas.
"Foram feitos cortes e acréscimos, a maior parte deles sem
mudança na estrutura narrativa. Às vezes, só fazia
mudanças de pontuação, como trocar vírgulas
de lugar", diz a pesquisadora.
Dos originais para a primeira edição nomes de contos também
foram mudados: "Sarapalha" era "Sezão"; "São
Marcos" era "Envultamento"; e "A Hora e Vez de Augusto
Matraga" era "A Oportunidade de Augusto Matraga".
"Sezão" (malária) chegou a ser, no primeiro original
conhecido, o nome original de "Sagarana" (neologismo de Guimarães
Rosa).
Quando foi enviado, em 1937, recém-concluído, para um concurso
da editora José Olympio — tirou o segundo lugar sob o pseudônimo
de "Viator" -. também se chamou "Contos”.
O volume desapareceu.
Curiosamente, uma das fases dos originais apresentava um posfácio
de Rosa afirmando que o livro estava pronto. Dizia que apesar de haver
ainda "muita moita má para ser foiçada (...), melhor
rende deixar quieto o mato velho, e ir plantar roça noutra grota".
Não foi assim. O próprio Rosa justificou, em entrevista
concedida em 44, dois anos antes da primeira edição pela
editora Universal, que quis "suprimir, em uma ou duas histórias,
parágrafos (...) supérfluos para o público".
O mais incrível é que os problemas na escrita - uma palavrinha
aqui, outra ali - que não escapavam ao olhar autocrítico
de Rosa, mesmo com o livro já editado, parecem coisas ínfimas
aos olhos do leitor (veja quadro no alto).
Para Guimarães Rosa era um flagelo: "O que me preocupa e tortura,
ao rever as páginas escritas, é a angústia de evitar
a chapa, o chavão, a frase feita".
E dá-lhe chulear, remendar e coser sobre a própria obra
impressa até a quinta edição, já na José
Olympio, quando então anuncia, estar definitivamente "acabada"
e "retocada" a saga de "Sagarana".
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