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R i t a e s u a s .......h i s t ó r i a s
Sônia van
Dijck |
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Depois
de exercitar-se no conto,
com sucesso de crítica e premiação nacional, Rinaldo
de Fernandes faz sua estréia no romance, com Rita no pomar
(Rio de Janeiro: 7Letras, 2008).
A personagem feminina de Rinaldo, nessa ou naquela curva da vida, vê-se em disputa e não hesita em recorrer à violência, tão conhecida no mundo dos machos. A essa mulher resta o prêmio da solidão. Mas o exercício de Rinaldo não se esgota nessas poucas considerações. Leitor de sua própria obra, retoma e desenvolve, em Rita no pomar, a personagem do conto “Rita e o cachorro” (2), conferindo-lhe novas vivências, que fazem uma história de traições, de perdas, de solidão, sob o signo da morte, da violência, quer do choque da revelação, quer da solução escolhida, que ainda não chegou ao fim.
Rinaldo é um autor de histórias urbanas, que pinçam, na multidão, indivíduos anônimos, mas tão anônimos que nem sequer são procurados pela polícia. Não há nada de heróico ou de sublime ou de retumbante ou de exemplar na origem de suas personagens, até que seu olhar de autor as destaque e as exponha ao leitor; no caso de Rita (do conto e do romance), até que ele lhe passe a palavra narrativa. Sendo criador de personagens urbanas, Rinaldo ambienta seu Rita no pomar em uma praia nordestina fictícia, mas evita o pitoresco, o exótico, concentrando-se no drama existencial da personagem, a paisagem apenas servindo como moldura. Faço um parêntese
para salientar que, o autor deixa sua marca na escolha da epígrafe,
instaurando a presença do autor implícito (4),
responsável pelo agenciamento da narrativa.
está, através do
paratexto, mais do que anunciando o papel ou o destino do cachorro Pet
– de Rita. A epígrafe assegura que há coisas acontecidas
que ficarão em silêncio. Ou que apenas ao leitor é
dado saber. A seu primeiro cão, Rex, Rita não contava nada.
Mas a Pet, ela conta. Pet, às vezes inquieto, às vezes de
olhos fechados, escuta – Rita julga que ele escuta. Rinaldo construiu Rita no pomar como um tabuleiro em que se joga com o tempo, com idas e vindas. Assim, o passado e o presente da narrativa parecem confundir-se, na catarse da personagem. A história começa com um passado recente em relação ao presente da narrativa, que só será reconhecido e revelado na parte ou capítulo 34 (final do livro), quando o leitor fica sabendo que a traição foi resolvida com a morte. Rita, jornalista, dada a escrever poemas e breves narrativas em uma agenda, teve sua primeira disputa com a mãe (que Rinaldo fez cega, para não ver o grotesco da situação e nem o perigo do risco e não conhecer culpa). Uma competente abordagem psicológica bem pode explicar o complexo de Electra de Rita, pois, quando a mãe admite o genro como macho, ela o conduz à condição de “pai” a ser disputado pela filha. Rita, fugitiva de um crime do qual só ela sabia ser autora, encontra-se em uma praia paradisíaca na Paraíba. Nova disputa com uma mãe simbólica e Rita encontra seu homem com um amigo. De uma demanda a outra, a solução
de Rita, para não ser derrotada, é a morte da “mãe’
e do “pai” – só através da morte, Rita
pode continuar a viver. E o destino de Pet? O silêncio. Pet sabe demais. E que pode fazer o leitor? Ficar
em silêncio. O leitor não sai impune: paga o preço
da cumplicidade ao saber de tudo. |
REFERÊNCIAS
1. FARIAS, Sônia Lúcia
Ramalho de. 2. In: FERNANDES, Rinaldo de. O perfume de Roberta. Rio de Janeiro: Garamond, 2005, pp.99-105. 3. FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Cultrix, 1973. 4. DUCROT, Oswald e TODOROV, Tzvetan. Dicionário das ciências da linguagem. Ed. portuguesa orientada por Eduardo Prado Coelho. Lisboa: Dom Quixote, 1974. LEIA MAIS SOBRE RINALDO DE FERNANDES: |
Midi: Chopin |