Que
o Prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio,
ao qual concorreu Contos, de Guimarães Rosa, inscrito em 31 de
dezembro de 1937, provocou debates acirrados dentro da comissão
julgadora já se sabe (Lima, 1999: 32-33 e 37). Também
é fato registrado na História da Literatura Brasileira
que o vencedor, anunciado no início de 1938, foi Luís
Jardim (1), com Maria Perigosa,
publicado, em 1939, pelo patrocinador do Prêmio.
Acontece que a polêmica repercutiu ao longo dos anos, para muito
além do anúncio da premiação e do “Depoimento”
de Marques Rebelo, em 1939, ardoroso advogado dos contos do desconhecido
Viator; e quando, finalmente, as histórias se revelaram em livro,
com título novo: Sagarana, não faltou quem lembrasse
a história do Prêmio da José Olympio.
1. A ATITUDE DA CRÍTICA
Concomitantemente
à discussão em torno de “regionalismo”, quis
a crítica saudar a estréia de Guimarães Rosa repisando
a velha história. O próprio Marques Rebelo (1946) revelou:
Ei-lo aqui e não como novidade,
leitor, já estive com este livro nas mãos uma semana,
manjando-o. Tinha outro nome então, “Contos” simplesmente,
contos de Viator, pseudônimo de um tal que ninguém sabia
quem era, uma das exceções portanto do concurso, talvez
de todos os concursos neste Brasil tão pequeno, pois os estilos
são poucos e traiçoeiros, rompem os envelopes fechados
da imparcialidade - como é difícil julgar! Bem, foi há
quase muito tempo, 1938 ponhamos, e não me vinha assim em letra
de imprensa e capa colorida, brilhando. Era um original encadernado
com cuidado, quinhentas páginas de papel relatório, espaço
dois, cerrado atochado - assustava muito.
A essa altura, Sagarana já
recebera seu batismo crítico, ministrado por Álvaro Lins
(1946), logo após o lançamento de abril de 1946:
De repente, chega-nos o volume, e é
uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura,
que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao
mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público,
penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo
um dos seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e
o escritor é o sr. J. Guimarães Rosa.
Despertado o colégio crítico
pelos comentários de Lins, muitos foram os titulares de rodapés
que passaram a falar do novo livro; alguns conduzindo o debate para
estranhas veredas... Henrique Pongetti (1946), por exemplo, optou por
abandonar a crítica literária e inaugurar a estação
dos mexericos:
O último andaço das nossas
letras é o Sr. Guimarães Rosa, autor de Sagarana.
(...) Mas o andaço pró Guimarães Rosa (por escrito)
está sendo acompanhado de um andaço contra Guimarães
Rosa (falado). Murmuram-se perfídias. Que Sagarana perdera
num concurso de contos de certa livraria para o livro do Sr. Luís
Jardim, sem despertar em nenhum dos garimpeiros da comissão a
desconfiança de se haver posto à margem uma legítima
obra-prima. Que Sagarana foi promovido a obra-prima e o Sr.
Luís Jardim a usurpador depois da nomeação do Sr.
Guimarães Rosa para um cargo de muita influência no Itamarati.
Em sintonia com o espírito do texto
de Pongetti, alguns periódicos publicaram notas sem assinatura,
desviando-se, às vezes, da crítica, voltando à
notícia do concurso em que se inscrevera o autor do livro recém-lançado:
Sua obra foi recusada, por desvaliosa
e ainda desvaliosa a considerou uma comissão de intelectuais,
formosos de espírito e de inteireza moral, juízes de um
dos diversos prêmios literários que anualmente se concedem
neste país. Também os críticos leram a obra e o
julgamento foi um só – as páginas do livro inédito
estavam quase virgens daquilo que se exige na boa criação
do espírito literário. (...) Chega o ano de 46 e o contista
menosprezado e esquecido é chamado a ocupar alto posto na administração
pública e do qual pode derramar benesses nos editores, nos intelectuais
e nos críticos.
Embora a nota não mencionasse o
título do livro, o autor, nem o nome do prêmio, deixou
claro o interesse intrigante, arrematando a questão das relações
de poder:
Repentinamente seu livro é editado
e aparece, reaparece, permanece em todos os comentários, em todas
as críticas, em todos os suplementos literários como o
melhor, o grande e insubstituível livro do ano. É a jóia
literária de nossos tempos e todos que ontem a refugavam hoje
porfiam em exibi-la da melhor forma e descobrem-lhe novos e inesgotáveis
esplendores. O pior de tudo é que o livro é realmente
bom. Oh, doce e inefável Brasil. Que juízos sutis fará
de teus espíritos de escól, nas suas horas distantes de
gabinete ministerial, esse novo e brilhante autor? (2)
Helio Fernandes (1946), nem tão entusiasmado pelo novo livro,
escreveu, com certa malícia:
Endeusado por críticos as mais
das vezes sóbrios e reservados, alguns mesmo tendo feito parte
da comissão julgadora do Prêmio “Humberto de Campos”
ao qual Sagarana concorreu sem obter colocação,
era natural que acreditássemos ser o livro do Sr. Guimarães
Rosa uma verdadeira obra de arte.
Bem que podemos imaginar a atmosfera do
mundo literário naquela época, principalmente no Rio de
Janeiro, à sombra da Livraria José Olympio... O falatório
era grande. Atravessou a fronteira... e Araujo Nabuco (1946), que só
conhecia a história de ouvir contar, como os demais, escreveu,
sentindo-se inteiramente bem informado, ainda que errando o ano do concurso:
Como se sabe, em 1939, o sr. Guimarães
Rosa, sob o pseudônimo de “Viator”, concorreu com
esse livro ao Concurso Humberto de Campos. O sr. Marques Rebelo, membro
da comissão julgadora, encontrou, no seu autor, “qualidades
excepcionais, não só de contista, como de escritor propriamente”.
“Conhecedor forte da vida brasileira, segurança absoluta
na exposição de seus ambientes, diálogo muito bem
feito, elevação de idéias, bom gosto” - foi
o que disse o sr. Marques Rebelo do então desconhecido contista.
Da mesma opinião era o sr. Prudente de Morais Neto. E ambos,
na seleção final, o escolheram para o prêmio.
Maria Perigosa, do sr. Luís Jardim, obteve também
dois votos ficando ambos assim em igualdade de condições.
O sr. Peregrino Júnior escolhido para solucionar o caso, desempatou
em favor do sr. Luís Jardim.
E arrematou:
Hoje, quando o sr. Guimarães Rosa
está sendo incensado, quer pelos que lhe reconhecem valor, quer
pelos que desejam agradar o Secretário do Ministro, poucos como
o sr. Marques Rebelo poderão erguer a cabeça e muitos,
como o sr. Peregrino Júnior, hão de murmurar intimamente;
Ah! Se eu soubesse...
Para a anunciar a imediata reedição,
retomou-se o caso do Prêmio:
Em 2ª ed. o livro de contos de Guimarães
Rosa: Sagarana. Absoluto sucesso de crítica. Absoluto
êxito de livraria. Esse livro, antes de ser publicado, foi desclassificado
em concurso literário. O livro classificado foi Maria Perigosa,
de Luiz Jardim. (3)
Meses depois da 2ª
edição de Sagarana, ainda saiu uma nota na Revista
do Globo (4), fazendo questão
de lembrar quem votou em quem: Os
outros dois julgadores, no entanto, votaram em Maria Perigosa,
de Luís Jardim. Chamado a desempatar, o sr. Peregrino Júnior
decidiu em favor deste último.
Ciente das limitações das
fontes pesquisadas, notamos que, apesar da freqüente remissão
ao Prêmio Humberto de Campos, não encontramos comentários
analíticos da obra de Luís Jardim, que justificassem o
cultivo da memória daquele concurso. Apenas de José Lins
do Rego (1946), o autor de Maria Perigosa recebeu menção
positiva. Com a autoridade de autor de uma obra regionalista coroada
com Fogo morto, e depois de salientar em Guimarães Rosa
uma erudição
botânica e os seus conhecimentos de zoologia,
assegurou:
Passa-se assim da boa e telúrica literatura, para uma
quase pedante exibição de detalhes que nos enfada.
E concluiu, comparativamente:
o livro do Sr. Guimarães, se não
chega a ser a obra-prima da exaltação do poeta Augusto
Frederico Schmidt (5),
é um magnífico livro de contos, como já nos deram
o Sr. Monteiro Lobato ou o Sr. Luiz Jardim.
Lins do Rego não modificou a situação
de Maria Perigosa diante de Sagarana. Mas, mas trouxe
uma nota positiva. Dois dias antes de seu texto, Henrique Pongetti já
havia atirado mais lenha na fogueira em que deveria arder o ganhador
do “Humberto de Campos”, conforme trecho citado anteriormente.
O Prêmio saiu caro ao vencedor... Graciliano Ramos (1946), relembrando
o debate da comissão do “Humberto de Campos”, terminou
estabelecendo o destino das duas obras concorrentes:
... ficamos horas no gabinete de Prudente
de Morais, hesitando entre esse volume desigual e outro, Maria Perigosa,
que não se elevava nem caía muito. Optei pelo segundo
(...) E Peregrino Júnior, transformado em fiel da balança,
exigiu quarenta e oito horas para manifestar-se. Escolheu Maria
Perigosa – e assim Luís Jardim obteve o prêmio
Humberto de Campos em 1938. (...) Desgostei-me: eu desejava sinceramente
vê-lo crescer, talvez convencer-me de que me havia enganado preterindo-o.
Afinal, os julgamentos são precários – e naquele
tínhamos vacilado. Eu, pelo menos, vacilara.(Grifo
nosso)
Como se não bastasse tudo que estava sendo dito, Braga Montenegro
(1946) deu também sua contribuição. Compreendendo
a dificuldade do júri frente à originalidade das histórias
de Guimarães Rosa, que, por isso, premiou
um outro livro, muito bom sem dúvida,
mas que lhes é bastante inferior, o
crítico festejou o “final feliz”:
O livro do sr. Guimarães Rosa resistiu,
porém, a essas dificuldades: a injustiça (involuntária,
tenho a certeza) da comissão do prêmio “Humberto
de Campos”, a recusa dos grandes editores; para afinal sair, talvez
a expensas particulares, para a consagração do escritor
e maior glória da literatura brasileira.
E dessa forma ocuparam-se os críticos,
ao longo do ano do lançamento de Sagarana. O debate
da comissão julgadora do Prêmio Humberto de Campos foi
mesmo retomado no ano do aparecimento de Sagarana; só
então, com os pronunciamentos dos articulistas dos periódicos,
chegou-se ao resultado do Prêmio... e o antigo ganhador saiu perdendo...
A crônica sobre o concurso sobreviveu ao ano do lançamento.
Dez anos depois, quando da publicação da 4ª edição
de Sagarana, a Tribuna da imprensa ainda repisou tudo
outra vez, para assinalar o sucesso do livro:
Anteriormente Sagarana concorrera
ao “Prêmio Humberto de Campos”, promovido pela Livraria
José Olympio, mas o livro premiado foi Maria Perigosa,
de Luís Jardim. (...) Publicado, Sagarana obteve imediato
sucesso. Conquistou o “Prêmio Felipe de Oliveira”
e alcançou, em alguns meses, duas edições. (6)
Se a memória do Prêmio parecia tão viva em 1946,
os críticos não pareciam guardar lembrança da leitura
cuidadosa de Maria Perigosa, realizada por Mário de
Andrade (s.d.: 51), infelizmente desaparecido em 1945. O autor de “Mestres
do passado”, a certa altura, disse, por exemplo:
... Luís Jardim, no seu inconfundível
modo de dizer, faz suas, faz esquecidamente suas, a psicologia verbal
e as formas expressionais do povo. E será este, porventura, o
maior valor de seu livro. Uma espontaneidade popularesca, um vigor,
um ineditismo de expressão, em que as imagens, as comparações,
as metáforas, saltam, vibram, ora novas, ora conhecidas, mas
com aquela necessidade mesma, aquela aparente ausência de literatura,
própria da boca do povo. E como isso vem ordenado, regulado por
uma discreta vontade artística: isto é arte, é
forma indiscutivelmente literária e culta. E de excelente qualidade.
(7)
2. O RESULTADO
Através
de crônica de Antonio Rangel Bandeira (1946), publicada em dezembro
daquele ano, podemos ter uma pálida idéia de como todo
o falatório repercutiu em Luís Jardim. Radicado no Rio
de Janeiro desde 1936, Jardim bem conhecia o universo intelectual e
literário da cidade grande. Por isso, preocupou-se em dizer,
em 1943, ao conterrâneo recém-chegado:
... estão enganados esses jovens
nordestinos que vêm para o Rio, querendo
a todo preço, vencer na literatura. Relembrando
as palavras amigas, Bandeira continuou a crônica:
...nunca poderei me esquecer desse pequeno
discurso de cordial recepção, como jamais poderei admitir
que literatura seja campo de luta de gladiadores, em que sempre jorre
o sangue da intriga, ou o diz-que-diz das comadres e das solteironas.
O fato é que 1946 foi o ano do cianureto de potássio literário,
com o qual já estão fazendo câmbio negro um ou outro
boa praça desta comarca. (...) o ano de 1946, que teve, apenas,
a seu favor, algumas significativas estréias, das quais a mais
importante e estupefaciente foi a de J. Guimarães Rosa, com Sagarana
– um livro que é o resultado de um perfeito equilíbrio
entre a forma e o espírito, entre o regional e o universal, além
de dar à nossa literatura, em todo seu poder criador, um contista
de primeira grandeza.
Na segunda edição de Maria
Perigosa, em 1959, Luís Jardim publicou uma apresentação,
intitulada “De novo”, com epígrafe recolhida em Vieira:
Que cousa há hoje tão antiga,
que não fosse nova em algum tempo? Explica o
autor: O livro Maria Perigosa
já estava arquivado. Quis o editor, reavivando passada aventura,
dar-lhe nova aparência. Trata-se
de uma edição revista e aumentada, e, por isso, o texto
explica o aparecimento de contos que não figuram na edição
resultante do Prêmio, e registra que José Lins do Rego
leu um dos novos e não
o julgou de todo ruim. Para
justificar a segunda publicação,
conclui: As credenciais
deste livro são pois a boa vontade do editor, publicando-o; a
manifestação daquele notável romancista em relação
a um conto; o prêmio antigo, que talvez ainda o recomende, e alguns
desenhos meus destinados a enfeite.
Tantos anos depois... -
o prêmio antigo, que talvez ainda
o recomende... - e lá
está, no pórtico da 2ª edição, uma
nota não isenta de uma certa humilde dúvida...
Em suas memórias, Nelson Werneck Sodré (1970: 106) reconstituiu
o clima animado pelo nacionalismo do Estado Novo, lembrando que alguns
escritores foram acusados de criadores de cenas “fortes”:
Romances de Jorge Amado e de José
Lins do Rego foram para as fogueiras purificadoras; as bibliotecas sofreram
buscas e delas, banidos como heréticos, esses livros licenciosos
para a nova pudicícia, foram retirados com alarde.
João Luiz Lafetá (2000:
30 e 32) preferiu contemplar as contradições do período,
apontando, por um lado, o
romance de denúncia, a poesia militante e de combate,
e por outro lado, o conservadorismo católico,
o tradicionalismo de Gilberto
Freyre, as teses do integralismo,
como manifestações contra
a modernização.
Lançado meses depois de findo o Estado Novo, Sagarana
inseriu-se nas contradições da época, uma vez que
o fim de um regime não é garantia de encerramento de uma
mentalidade, mesmo quando o debate crítico demanda novas perspectivas
ideológicas... Esse foi o contexto do reencontro de Luís
Jardim com Guimarães Rosa...
Sodré (p. 185-186) testemunhou as repercussões do Prêmio
em 1946:
O caso foi muito comentado, na época:
os meios literários não sabiam quem era João Guimarães
Rosa. Graciliano que fazia, como Marques Rebelo, parte da comissão
julgadora, votou em Luís Jardim. Os originais de Sagarana
não tinham, no concurso, os mesmos textos que constaram depois
na publicação. Graciliano achou heterogêneo o conjunto.
Guimarães Rosa eliminou alguns contos, poliu os outros, antes
de autorizar a edição do livro que, desde o seu lançamento,
alcançou sucesso entre os oficiais do mesmo ofício, particularmente
consagrado por uma crítica de Álvaro Lins.
Sodré presta informação
fundamental para iluminar a polêmica histórica: o livro
publicado em 1946, com o título de Sagarana, passara
por modificações (Lima, 2000a). Não era mais o
mesmo conjunto de contos inscrito na José Olympio. Graciliano
Ramos (1946), quando saudou o aparecimento do livro, havia dito isso
e até contou que conversara com o autor, em uma ocasião
social, em 1944:
Achando-me diante de uma inteligência
livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória.
Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara
os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica.
Uma rápida consulta a alguns dicionários
de literatura permite que se acompanhe a saga do livro premiado em 1938.
Raimundo de Menezes (1969 e 1978), no verbete de Luís Jardim
informa o Prêmio e o título vencedor. Irwin Stern (1988)
não alude ao Prêmio, mas cita Maria Perigosa na
bibliografia do autor, como sendo de 1939. Na edição de
1987, Jacinto do Prado Coelho (8) ignora
Luís Jardim.
Mas, a velha história do concurso está incluída,
com um leve toque da polêmica, na Enciclopédia de Literatura
Brasileira, dirigida por Afrânio Coutinho e J. Galante
de Sousa (1989). Vejamos o verbete de Luís Jardim:
A conquista do prêmio Humberto de
Campos, de contos, para o seu livro Maria Perigosa, chamou
a atenção para seu nome. Em destaque, neste concurso,
a presença de Graciliano Ramos na comissão julgadora e
João Guimarães Rosa como um dos concorrentes com o seu
Sagarana (v.
2, p. 743).
Todavia, a mesma Enciclopédia não informa o concorrente
de Guimarães Rosa, no verbete que lhe corresponde,
e diz apenas: ... obtém
segundo lugar no prêmio Humberto Campos (sic), com os contos de
Sagarana (1937)” (v.
2, p. 1182). E mais uma vez não se leva em conta a possibilidade
de os contos lidos em 1946 terem sofrido modificações...
Para completar a trajetória de Maria Perigosa, podemos
recorrer a dois dos mais reconhecidos historiadores da Literatura Brasileira,
lidos nesse início de século XXI: Alfredo Bosi (2000)
(9), cuja História concisa da
Literatura Brasileira já ultrapassa a 43ª edição,
e José Aderaldo Castello (1999). Muito provavelmente em conseqüência
da concisão a que se propõe desde o título, o primeiro
não inclui Luís Jardim na Literatura Brasileira. Castello,
em sua monumental história da Literatura Brasileira, concede-lhe
referências enquanto autor de literatura, incluindo-o em enumerações
de regionalistas (p. 183 e 232), para lembrar adiante:
Ainda no
Nordeste, contam-se Mário Sete, sem destaque na renovação
modernista que se processava, (...) e Luís Jardim, ao contrário,
já comprometido com aquele movimento no Recife, pondo-se ao lado
de Gilberto Freyre e José Lins do Rego. (p.
234). Nessa altura, Castello, em nota de rodapé, cita duas das
obras de Jardim: Maria Perigosa e As confissões
de meu tio Gonzaga. (p. 234). Jardim aparece ainda mais três
vezes no livro de Castello: como ilustrador e capista (p. 157, 277,
279). Só gostaríamos de lembrar que Jardim estava definitivamente
radicado no Rio de Janeiro desde 1936, e que era artista plástico
festejado pela crítica e escritor premiado já em 1937.
3. O LIVRO DA POLÊMICA
E,
afinal, como é Maria Perigosa? - livro cuja
1ª edição tornou-se raridade... (10)
Pergunta difícil para muitos que estudam Guimarães Rosa,
e que fazem eco ao verbete da Enciclopédia.
Vale a pena lembrar que Guimarães Rosa leu Maria Perigosa,
conforme disse a Ascendino Leite (apud Lima, org., 2000b: 70), assegurando
ter gostado muito. Relatou o jornalista: Lembra-se
de quatro contos, que foram os
seus preferidos: ‘Maria Perigosa’, ‘Os cegos’,
a história de um alfaiate poeta, que sabia amar as palavras,
e, principalmente, o conto de um ladrão de cavalos e rastreadores,
que foi o de que mais gostou.
Maria Perigosa,
em 1939, tem a seguinte organização: “Maria Perigosa”,
p. 7; “Os cegos”, p. 29; “Conceição”,
p. 55; “Coragem”, p. 85; “O ladrão de cavalo”
, p. 103; “João Piolho”, p. 125; “Paisagem
perdida”, p. 151. O desenho da capa remete à história
que dá título ao volume, e, apesar de não assinado,
permite que se reconheça sem dificuldade o traço de Luís
Jardim. A informação do Prêmio conquistado consta
na capa e na folha de rosto. O texto da “orelha” não
é assinado; traça o percurso literário de Luís
Jardim, mencionando, inclusive, sua atuação em A Província
(Recife), ao lado de Gilberto Freyre; traz informações
acerca de seu trabalho como artista plástico e enumera os prêmios
recebidos, como escritor de livros infantis e como artista plástico,
sem deixar de apresentar seu perfil biográfico.
As histórias têm
temáticas diversas, incluindo a descoberta da sexualidade, o
ciúme, o amor impossível, a amizade, a experiência
poética, a esperteza, a doença, tratadas às vezes
com humor, outras vezes com um acento trágico. A linguagem mantém-se
no coloquial, sem grande preocupação com registros da
fala popular ou regional, ou com a documentação “realista”
de expressões. Como diz Paulo Rónai (1981:26):
As personagens
falam com propriedade e sabor, sem excessos de regionalismo; a sua fala
representa um compromisso particularmente feliz que parece abolir as
divergências da linguagem regional e da língua comum.
Alguns referentes podem fornecer indicação
de que as personagens pisam o chão do Nordeste, como por exemplo:
Serra do Tará (acidente geográfico),
burra-leiteira, facheiro,
xiquexique (plantas), camarinha
(tipo de quarto de antigas casas), meiágua
(tipo de casa pobre, caracterizada pelo telhado, ainda que não
exclusiva dos nordestinos...). Na verdade, o tom regionalista decorre
muito mais de uma ambiência; da retomada de costumes, como o do
café temperado com rapadura; do exercício de atividades,
como o corte do mandacaru; da convivência com a seca, do que de
uma preocupação de cronista da região.
Considerando que o texto de abertura do volume dá nome ao conjunto,
assim como sua proximidade estrutural com a terceira história,
vamos contemplar esses dois contos, para falar do livro vencedor daquele
que depois se transformou em Sagarana.
Tanto em “Maria
Perigosa” como em “Conceição” os narradores
de primeira pessoa estabelecem uma convenção autobiográfica.
Assim, ambos, já adultos, reencontram-se meninos, na descoberta
da sexualidade. No primeiro, o menino Lula tinha talvez
doze anos; gostava de
criar mundos e mergulhava no faz-de-conta, vendo-se guerreiro e herói.
Tímido, temia mulheres, exceto as de casa (integrantes da família)
e Maria Perigosa, pela qual, confessa, nutria simpatia.
Na cidadezinha interiorana, Maria, filha de bêbado, órfã
de mãe, entre 16 ou 17 anos, sem saber cozinhar começou
a pedir comida na vizinhança. Tida como bestalhona
e amalucada, era bonita e de formas atraentes.
Com a idéia fixa de ter um dente de ouro, enfeitava a boca com
papel de cigarro (prateado). O primeiro amante perdeu o encanto quando
reclamou porque ela vivia olhando no espelho o “dente de ouro”.
Maria foi indo de um amante para outro, porque todos perderam o encanto
se reclamaram do “dente de ouro” ou se deixaram de elogiá-lo.
Decadente, suja, desdentada, piolhenta, passou a servir aos meninos
em fase de iniciação sexual, tornando-se mal vista pelas
famílias; donde seu nome “Perigosa”.
Um dia, Lula, numa aventura de roubar caju, afastou-se do primo Tuta;
caminhou pelo valado, cumprimentando árvores e arbustos, como
se fossem velhos conhecidos; contemplando uma nuvem, imaginou-se voando
e o convite de uma fada: Queres
trepar nessa vassoura, Lula, e voar lá para aquela nuvem branca,
a nuvem de Tuta?
(p. 21) – e lá se foi voando
com a fada, quando ouviu de dentro de
uma moita: -
Falando sozinho, Lula!
Estás ficando maluco?
(p.22)
Eram pouco nítidas as fronteiras
entre real e imaginário:
E se Maria Perigosa fosse uma fada? pensei
num instante. E só poderia ser a fada do mal, faltando-lhe os
dentes de um lado, com aquele cabelo arrepiado e sujo como a palha de
uma vassoura.(p. 21)
No jogo de sedução que se instaurou, Maria Perigosa, aos
olhos de Lula, ganhou/recuperou traços de beleza, dando conformação
à imagem de mulher: Maria
Perigosa era estranhamente outra! (p.
24) Reconstituindo o mergulho na confusão de emoções/sensações
despertadas pelo novo da experiência do contato do corpo da mulher
que o envolveu num abraço, o narrador reatualiza as aporias dos
caminhos da sexualidade descoberta: Era
bom e era ruim. (p. 25).
Lembra-se de que, bruscamente, libertou-se do abraço e fugiu,
depois de ter pensado que Maria Perigosa era uma fada, porém
má (p. 26). Rejeitada, Maria Perigosa perdeu o encanto. E o narrador
fala da carreira louca do menino em fuga, até encontrar seu Mendonça
e explicar sua agonia/seu pânico apenas dizendo:
- Maria Perigosa!
(p. 27). Diante da lembrança da reprimenda de seu Mendonça,
- Quem já viu um homem correr de
mulher!”, cabe-lhe,
agora, dizer: Mas, que
haveria eu de responder? Nada.
Eu era assim. Eu nasci assim. Eu sempre fui um bestalhão..
(p. 27)
Em “Conceição”,
Pedrinho tem menos idade. Conceição (Ceiça, para
o menino) era a cozinheira. O narrador bem se lembra:
Conceição entrara na minha
casa havia três meses. Na mesma data entrara na minha vida como
figura de conto de fada. Era a princesa, não dos meus sonhos,
mas da minha imaginação. E da minha imaginação
passou ao meu coração de menino de oito anos.
(p. 61).
A exemplo de Lula, esse menino também cultivava o imaginário
e também encarava a mulher no universo dos contos de fada...
Ao mesmo tempo, via-se forte, poderoso, amante de atitude viril:
- Menino o quê,
Conceição! Eu só
tomara que aparecesse nesse escuro da cozinha uma onça bem grande
pra te pegar! Tu ias ver como eu era homem, brigando com ela pra ela
não te comer. (p.
67) Envolvido afetivamente, o menino passou a experimentar o desenvolvimento
de sua sexualidade, nos beijos e carinhos de Conceição,
confirmando-se o pacto amoroso nas atenções da empregada
para com o menino, na troca de olhares, de pequenos agrados:
Tudo meu era bem arranjado, limpo, escovado
por ela. (...) Nem sempre meus olhos se encontravam com os seus. Quando
se encontravam, Conceição ria-se para mim.
(p. 62 e 63).
Colocando toda sua sensualidade nas asas da imaginação,
ele se via protagonista de uma aventura de final feliz:
Crescido, casaria com ela.
(p. 64). Pedrinho queria a travessia:
deixar o menino para trás, antevendo-se
homem: Tive ódio
de mamãe. Aquele seu poder sobre mim, reduzindo-me ao menino
que eu era, desmanchando as provas de homem que eu dava a Conceição,
detestei-o com toda a força do coração.
(p. 68)
Sua pouca idade e o deslumbramento não lhe permitiram ver a exploração
de Conceição, que o levava a fornecer-lhe pequenos objetos
e alimentos, comprados fiado na venda de seu Vicente, como se a pedido
da dona da casa. Na iminência de ser descoberta, Conceição
despede-se do menino, que logo depois descobre que
as compras que lhe dava eram
para um tal Simplício, o homem com quem ela vivia na meiágua.
(p. 50)
O tom catártico
revela-se em ambos os contos: agora adulto, o narrador reorganiza a
experiência da infância, e fala com um certo à vontade,
sem perder, contudo, a perspectiva de procurar compreender o que lhe
aconteceu. Ambos são meninos arteiros (para adotarmos o coloquial
de fatura popular), capazes de engendrar situações que
os levem ao objeto de desejo. No primeiro caso, Lula tinha os medos
de menino diante das mulheres (sintoma de angústia primitiva);
mas o narrador recorda que as mulheres de casa não o intimidavam.
Na verdade, essa noção de mulheres participantes da família
traduz a noção da proibição incestuosa;
por isso, o menino não precisava temer mulheres que lhe estavam
interditadas... O menino evadia-se para a companhia das fadas. Maria
Perigosa, em sua marginalidade, é encarada como mulher disponível,
sem proibições. E o menino, freqüentador do faz-de-conta,
encaminha-se para Maria Perigosa. O narrador adulto deixa que entendamos
a ambivalência da imagem da mulher: Lula aproxima Maria Perigosa
das fadas (positividade) e, ao mesmo tempo das bruxas (negatividade).
A ambivalência parcialmente se resolve quando Maria Perigosa é
vista como assustadoramente má, e o menino não realiza
o desejo. A reprimenda de seu Mendonça não é suficiente
para superar a angústia; e o narrador conclui:
Eu sempre fui um bestalhão.
(p. 27).
Como o tempo e o aspecto
verbal remetem a um processo da infância, confiemos que o adulto
encontrou saída para a ambivalência... até porque
a catarse está cumprida... e, queremos acreditar, os medos exorcizados.
Na história de
Pedrinho, ainda que ele também acredite em fadas, a mulher não
traz sinais de marginalidade: como cozinheira, convive com a família,
e suas atenções para com o menino não parecem ser
motivo de condenação. Na intimidade doméstica,
o relacionamento carinhoso entre a empregada e o menino não causava
maiores preocupações... Lembra o narrador uma conversa
entre sua mãe e uma amiga: -
Preta, a minha empregada,
é a mesma coisa com Ivo, o meu mais velhinho. Gosta mesmo muito
do menino! E é até bom, D. Lica. Tira os cuidados da gente.
(p. 62) Mãe tranqüilizada...
menino com um álibi: E
foi ótimo para mim.
Daí em diante eu seria para os conhecidos, para os de casa, "o
menino de que a empregada gostava muito." (p.
63) Mário de Andrade
comentou que esse conto ...
é ainda um exemplo de como
continua de alguma forma o íntimo entrelaçamento nordestino
entre casa-grande e senzala. (11)
Pedrinho alimentava uma imagem positiva da mulher e, por isso, não
lhe atribuía caracteres de bruxa. Sua relação com
Conceição, apesar de clandestina, não o assustava
e ele podia gozar dos beijos e das carícias... Mulher permitida,
real e próxima do menino, Conceição mostra-se esperta
para tirar pequenas vantagens. Pedrinho, esbanjando virilidade, estava
pronto para enfrentar as conseqüências: A
idéia de apanhar, de morrer, de sofrer todos os castigos, não
me intimidava. (p. 83)
Mas, o pai não viu motivo para punir o menino. Revendo-se naquele
menino, o narrador reconstitui:
A pureza, e mesmo o egoísmodo meu amor a Conceição,
não tinham o menor contato com a realidade, com os fatos ordinários
da vida. Tocados brutalmente por eles, ruíram lá por cima,
no meu ideal puerilo, e eu fiquei na terra fora das próprias
leis naturais. Nem louco, nem consciente; fiquei parado em mim, esperando
compreender aquele fato: as compras de Conceição eram
para um tal de Simplício, o homem com quem ela vivia na meiágua.
(p. 83)
ARREMATANDO
Ambas
as histórias ultrapassam, em seus significados mais profundos,
os limites de meras narrativas sobre aventuras de meninos precoces.
Informam, na verdade, o processo de agenciamento dos elementos do imaginário
masculino. Nele, a imagem da mulher adquire conotações
de fada e de bruxa; de amante e de interesseira. Donde a atração
e o medo; o desejo e a repulsa; a posse e a possibilidade da perda;
a comunhão e o estranhamento... a elaboração do
ideal diverso da realidade...
A reconstituição empreendida pelo narrador adulto revela
a construção desse olhar masculino ambivalente, em “Maria
Perigosa”: Maria, no mundo “real” de Lula, era tão
somente uma mulher; só em seu imaginário, podia ser fada
e bruxa (e ao mesmo tempo...). O interesse de Maria pelo “dente
de ouro” é mostrado apenas como uma espécie de fixação
da personagem, com a qual os homens jogavam na fase de conquista amorosa.
O narrador não parece interpretar o “dente de ouro”
como um dos atributos femininos da personagem, como um dos aspectos
de sua identidade, para o qual ela esperava que o olhar masculino sempre
se voltasse, tal como parecia fazer na construção da cumplicidade
entre amantes. Para Maria, os homens quando deixavam de notar o “dente
de ouro” haviam encerrado a cumplicidade, por terem alcançado
a posse... Fim do interesse de Maria. Busca de novo amante/cúmplice
de sua identidade feminina. O “dente de ouro”, ao ser mencionado
por Lula, foi a chave mágica para a atmosfera de encantamento
instaurada no encontro no valado.
Em “Conceição”, temos outro aspecto da mulher
vista do universo masculino. Objeto de desejo, gratifica, plenamente,
com carinhos e beijos seu sedutor/seduzido. Todavia, o menino sai da
aventura com a compreensão de que a mulher é capaz de
seduzir e de enganar; de ser passível de dar-se para, interesseiramente,
se aproveitar; e, nessa habilidade, surpreende o homem com sua duplicidade
de caráter: fada e bruxa, temos em síntese.
Duplicidade de traços de caráter... o imaginário
masculino... Muito provavelmente, cada mulher é muito mais do
que 300... 350... (12) Que os homens organizem
essa multiplicidade de linhas... ou escrevam narrativas para tentar
compreender a complexidade da relação homem-mulher...,
na mágica experiência da sexualidade... – as mulheres
assinam narrativas que poderão iluminar essa demanda...
Enquanto isso, os historiadores e críticos podiam ler/reler Maria
Perigosa e reencontrar esse mundo criado por Luís Jardim
e presidido por Eros..., e melhor contextualizar Sagarana,
sua gênese, sua recepção crítica e o processo
de sua entrada no cânone.
Publicado* em
Revista da ANPOLL, São Paulo, Humanitas,
FFLCH-Universidade de São Paulo,
Associação Nacional de Pós-Graduação
e
Pesquisa em Letras e Lingüística, n. 13, jul.-dez. 2002,
p. 195-216.
*Modificado para esta
página.
© Copyright
by Sônia van Dijck, 2002
Agradecimento
a Luiz Ruffato
Midi: A barquinha
(domínio público)
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