Entrevistas |
VOLTAR GUIMARÃES ROSA
| GUIMARÃES ROSA EM DEMANDA DO TEXTO "Sarapalha" |
Sônia Maria van Dijck Lima
Folha de rosto do original encadernado em couro vermelho Arquivo JGR - IEB/USP |
RÉSUMÉ Pour démontrer des procédés d’écriture de l’auteur, on a choisi des fragments du conte “Sarapalha”.
ABSTRACT We choose “Sarapalha” to demonstrate some of the ways GR used to compose his works.
|
“... eu
tenho vontade de usar a palavra certa.” A escritura de
Sagarana estende-se por um longo período que vai até
a 5ª publicação (1958), quando o autor não mais
modificou nenhum dos textos do livro. O dossiê genético de
Sagarana está constituído pelos seguintes documentos:
dois volumes encadernados, um em couro vermelho e outro em preto, ambos
com o título Sezão (1937); seis pastas com folhas
soltas, contendo os originais datilografados (s. d.) e organizados conforme
a 1ª edição ; originais da 4ª (1955) e da 5ª
(1957) edições, realizados sobre exemplares da 3ª e
da 4ª edições, respectivamente, tomados pelo autor
como materiais de trabalho; dois volumes de provas editoriais da 5ª
edição (1958). São desconhecidos os documentos relativos
à preparação da 2ª e da 3ª edições,
assim como o texto que foi entregue ao editor como sendo o autorizado
para a 1ª edição. Incluímos no dossiê
genético a 1ª (1946), a 2ª (1946), a 3ª (1951) e
a 4ª (1956) edições. O texto tomado como referente
é a 5ª edição (1958) (Lima, 1999: 41). "muitos dos apontamentos de viagem, como está provado, foram recuperados no texto literário. (...) aliás, em Corpo de baile e Grande sertão: veredas há apenas a retomada de processo já utilizado largamente em Sagarana. Infelizmente os ‘Estudos’ e o Arquivo não conservam o material que exerceu, em relação ao primeiro livro, papel semelhante ao dos diários de viagem nos seguintes. Se algum documento desse tipo tiver restado, será em escala muito reduzida." Por isso mesmo,
um aspecto da gênese de Sagarana chama-nos a atenção:
a coincidência entre a titulação inicial da obra e
o título da narrativa colocada em primeiro lugar no conjunto: Sezão
- "Sezão". Vale salientar que, em uma das fases de composição
do livro, o autor modificou a ordem de distribuição dos
contos, através de anotações marginais, mas, ainda
naquele momento, "Sezão" permaneceu como primeira história.
Só mais tarde, é que “Sezão" não
só mudou de posição como de título, passando
a ser "Sarapalha" (Lima, 1999: 36-37).
“É aqui, perto do vau da [ponte velha:] <Sarapalha>: tem uma fazenda denegrida e desmantelada;” A escolha do
vau da Sarapalha como região da fazenda de Primo Ribeiro anuncia-se
na rasura do título original, “Sezão”, substituído,
na margem superior por “Sarapalha”. Impossível determinar
qual das duas situações foi modificada em primeiro lugar;
o resultado é de mútua confirmação. “... ‘Sarapalha’ tem gênese assim imaginosa (...) – ninguém como João Guimarães Rosa para escrever bem, com palavras poéticas, ‘parecendo’ autênticas na boca do sertão. Sim, ‘parecendo...’, porque inúmeras delas constituem invenção rica de escritor milionário.” Ainda no que se refere à geografia do texto, e para evitar ambigüidade, foi acrescentada a palavra “rio”, logo no início do texto: “Ali, na beira do <rio> Pará,” evitando qualquer
tendência interpretativa que conclua tratar-se do estado do Pará,
localizado no Norte do país. “antes não tivesse <querido falar em nome guardado...> [falado, no nome del[l]a...]” Para rasurar
o texto, Guimarães Rosa usou lápis vermelho, colorindo a
forma, que além disso foi circundada por um traço feito
com lápis preto (grafite). A nova forma é sempre escrita
com tinta preta nas entrelinhas ou, algumas poucas vezes, na linha. “-
Será que chove, Primo?[...] É nesse terceiro documento de Sagarana, segunda fase conhecida da escritura de “Sarapalha”, que Guimarães Rosa corrige o texto, como, por exemplo: “Os dois
<se> sentam no côcho,” A busca da melhor expressão, da “palavra exata”, provoca inúmeras alterações, quer na fala das personagens, quer no discurso do narrador: “ quando passaram as chuvas, o rio - que não tem pressa e não tem margens, porque [incha] <cresce> num dia mas leva [ás vezes um] <mais de> mês para <minguar> [desinchar] - desengordou devagarinho,” Falando do rio,
o narrador havia dito que “incha”
e “desincha”, para explicar os
movimentos da cheia; todavia, o verbo “inchar” será
usado mais adiante, por Primo Ribeiro, para falar do baço afetado
pela doença; tem, portanto, uma carga semântica que remete
ao doentio, ao patologicamente alterado, o que não é o caso
do rio que recebeu água da chuva. Por outro lado, a paisagem é
suficientemente marcada pela morbidez e pela decadência, e o uso
do verbo “inchar” para falar do rio pode ter parecido excessivamente
enfático ou redundante. A troca do primeiro verbo, naturalmente,
conduziu à substituição do segundo. Se o verbo “crescer”
carrega, no Brasil, de algum modo, uma neutralidade em relação
a um registro dialetal, o verbo “minguar” tem uma certa freqüência
na realização popular; assim, o narrador, que se havia aproximado
da atmosfera doentia da aventura ao empregar “inchar”/“desinchar”,
mantém-se próximo do universo de suas personagens quando
escolhe “minguar”; o mesmo fenômeno ocorre com a troca
de “às vezes” por “mais
de”, que se lê no mesmo trecho. “de dia: está dormindo, com a tromba repleta [de esporozoítos;] <de maldades;>” O mesmo acontece quando explica os efeitos da contaminação no organismo: “Mas ele tem no baço duas colméias de [hematozoarios,] <de bichinhos maldosos,> que” A bagagem lingüística desse narrador permite que descreva o movimento dos pássaros na plantação com uma comparação que termina por dispensar um sintagma próprio de quem conhece as alternativas lexicais: “descaem aos flocos, que nem os torrões [de hulha] da última << PÀZADA>> [golpe de pá] <pàzada> de um foguista.” Como disse Guimarães Rosa, “as palavras têm canto e plumagem” (Borba, 1946), e, por isso mesmo, cada uma delas leva a significados diversos, ainda que essa diversidade possa ser muito sutil e só apreendida em um exercício de interpretação. Criado como detentor de uma bagagem que lhe permite trânsito seguro nos eixos da linguagem, o narrador exercita-se paradigmaticamente, tendo em vista as combinações que pretende alcançar. Por isso, passa a dizer que as pessoas abandonam os ranchos, os sítios, as fazendas, usando o verbo “deixar” e não “largar”, pois seria como se fossem soltando, deixando cair ao longo do caminho ou desfazendo-se, durante a caminhada, dos ranchos, dos sítios, das fazendas, como se fossem objetos largados gradativamente; a enumeração dos tipos de propriedade refere-se antes à extensão do medo da doença e da própria maleita, que atinge tanto os pequenos proprietários como também os fazendeiros: “Era pegar a trouxa e ir <deixando,> [largando,] depressa, os ranchos, os sítios, as fazendas por fim.” Para mostrar o esforço de movimento de Primo Argemiro, prefere: “Primo Argemiro pode mais: [transpõe] <transporta> uma perna e se escancha no côcho.” Guimarães Rosa é leitor crítico de seu próprio texto. Nesse terceiro momento de Sagarana, o autor-escritor cede lugar ao autor-leitor de “Sarapalha”. Entre outras situações, podemos destacar a composição do grupo de figurantes da cena diante da casa da fazenda; há necessidade de fazer as personagens terem um cão, até porque esse animal, com seus movimentos, servirá para sublinhar as tensões dos dois homens, além de ser característico das propriedades rurais. Apesar de a palavra “perdigueiro”, no Brasil, servir popularmente para designar um cão nem sempre de raça definida, pode, perfeitamente, ser interpretada no exato sentido de informação racial. Ora, no quadro traçado de miséria e abandono, o autor-leitor verificou que ficaria mais condizente com a situação um vira-lata propriamente dito, assolado por carrapatos, e, para evitar interpretações equivocadas, fez o narrador substituir a nomeação do animal: “É o [perdigueiro] <cachorro> magro, que agita as orelhas dormindo,” Sobre uma das modificações, Guimarães Rosa tem uma explicação (Borba, 1946) : “Substituí, porém, no conto ‘Sarapalha’ a expressão ‘o sol sobe’ por ‘o sol cresce, amadurece’, também por causa de Cecília Meireles.” O resultado da substituição provoca uma metáfora que remete à mentalidade rural, para a qual os ciclos naturais são definidos pelo crescimento e pelo amadurecimento da plantação; a modificação leva o narrador a adequar seu discurso ao mundo rural do vau da Sarapalha: “O sol <cresce, amadurece.> [sóbe.]” É essa preocupação de integração com um universo que conduz ao emprego de formas de dicção popular regional; até mesmo quando o discurso do narrador é corrigido, confirma-se o nível popular: “dois homens sentados, juntinhos, num casco de côcho emborcado, cabisbaixos, [a]quentando-se ao sol.” Que não se pense que “Sarapalha” foi escrito em linguagem popular regional. O seu regionalismo decorre não do exercício de um gênero, mas sim de uma ambiência, ou de “uma contingência”, do trabalho da memória, de lembranças e saudades, conforme explicou Guimarães Rosa sobre os motivos que o levaram a escrever Sagarana (Borba, 1946). Na construção da fala das personagens, pode-se verificar o falar popular; por exemplo, em uma das interferências de Primo Argemiro: “- Escuta, Primo Ribeiro: se {a}lembra de” No entanto, um pouco antes, Primo Ribeiro já havia dito: “Você lembra?[...]” Em outras passagens, o primeiro registro popular regional atribuído às personagens passou por modificações: “- Ei,
Primo, <aí> [en]vem el[l]a...” O fato é que a narrativa rosiana percorre diferentes níveis de linguagem, procurando a otimização do texto. Esse é o projeto orientador do autor-leitor nessa fase de escritura. Por isso mesmo, Primo Argemiro tem uma de suas falas alteradas, deixando de proferir uma palavra, que, de tão exótica, havia merecido ser sublinhada: “Doutor <apessoado,> engraçado[, estinctado]...” Primo Ribeiro perde sua expressão de vaidade gratuita, quando se refere ao estado de seu baço: “- Hoje está mais alto. [... Estou ficando mais importante...]” e aquela de excessiva autocomiseração: “Primo Argemiro... [Minha cova está me chamando...]” A agitação do cachorro dá lugar a um movimento mais adequado ao clima pachorrento e doentio: “Bate a língua, bate orelhas, <e anda curta distância, moleando as patas, com donaire de dama.> [gira, gira, corrupiando, querendo aboccar a ponta da cauda.]” OBSERVAÇÃO Estudar os procedimentos escriturais que antecedem o momento em que o texto foi dito como definitivo não nos conduzirá a um conhecimento que possa superar aquele que temos da obra publicada. Como diz Louis Hay (1986: 143), é antes permitir aos estudiosos o acesso à terceira dimensão da literatura, aquela de seu vir a ser, na qual vemos os diversos componentes da escritura, “na combinatória mutante de suas relações, da qual nasce o movimento da gênese”.
_____________________________________ Publicado sob o título Guimarães Rosa em demanda do texto. Lusobrasilica: i protagonisti del racconto, Roma, Bulzoni, 2000, p. 177-190. © Copyright by Sônia van Dijck, 2000 |
|
2ª edição (1946) Capa: Geraldo de Castro |
Saiba mais sobre a construção de Sagarana em
LIMA, Sônia Maria van Dijck. Guimarães Rosa. Escritura de SAGARANA. São Paulo: Navegar, 2003.
Sagarana, 2ª ed. Biblioteca José Aderaldo Castello
Agradecimentos ao Instituto de Estudos Brasileiros/ USP, ao Prof. Dr. José Aderaldo Castello e ao Dr. Josè E. Mindlin |
BORBA, J. C.
(1946) Histórias de Itaguara e Cordisburgo. Correio da manhã
[Rio de Janeiro], 19 maio. Arq. JGR-IEB/USP-R2. Midi: Peixe-vivo (MG - Brasil) |