ESQUECIDAS
as preocupações com os gêneros literários,
aceita-se o convite de Luiz Ruffato (Eles
eram muitos cavalos. São Paulo: Boitempo, 2001) para percorrer
os desvãos da metrópole, com olhos e ouvidos atentos, cruzando
com criaturas que nunca mais serão vistas, porque integram a multidão.
Nada do charme do traje preto que Baudelaire contemplou em “À
une passante”. Em Ruffato, as pessoas
se mostram em suas angústias e em suas buscas ditadas pela esperança.
Retratos de corpo inteiro, na paisagem da cidade grande.
Flâneur, o autor estabelece o palco de suas andanças
na abertura do livro, em linguagem que se quer objetiva, mas que não
se esquece do imaginário cristão, que paira sobre a cidade
tentacular. Cúmplice, o leitor acompanhará o andarilho Ruffato
durante as próximas horas desse dia 9 de maio de 2000, marcado
pela violência, pelo oportunismo, pela corrupção,
pelo sonho, pelo medo, pela coragem. Um dia como outro qualquer, mas que
se torna especial porque foi destacado como situação sensível
e exemplar. Dramas da banalidade do cotidiano. Fragmentos da vida, visitados
com olhos de ver e captados por ouvidos atentos. Nada que o leitor não
conheça, pelo menos de ouvir falar ou porque leu em algum jornal.
Marginalidade, anonimato, desimportância... Os que vivem e os que
morrem e os que são mortos; os que chegam e os que partem. Quase
sempre sem nome, como a vovó pernambucana que vem visitar o filho
e conhecer a nora e os netos, trazendo bagagem de expectativa acerca da
vida do filho e a bexiga cheia, porque o banheiro do ônibus estava
fedido depois de tanta estrada a caminho do desconhecido. José
Geraldo não tem nome de família; é apenas mais um
que quer se dar bem na vida e vai encontrar o amigo nos Estados Unidos,
como exemplo de quem escapa da vidinha apertada e medíocre, de
muita batalha e pouco ganho.
Sem pedir licença, o autor vai entrando na intimidade das criaturas
e escancara ao leitor o interior da vida da classe média, como
na manhã fria de pão velho com margarina, enquanto o marido
está lendo Foucault, comprado no sebo, e a mulher saturada da vida
apertada nos limites do orçamento doméstico “já
não reconhece quem é esse homem”. Mas também
entra com a professora na escola destruída pelo vandalismo de elementos
da própria comunidade, que arrasaram a hortinha da merenda escolar.
Solidão e desespero, capta o narrador na atitude desolada da professora.
Por vezes, Ruffato entrega o discurso à
personagem, tornando mais contundente o quadro de solidão e desespero...
É o que acontece quando o leitor o acompanha ao quarto de motel,
no qual uma prostituta é violentada por uns indivíduos bêbados;
sem saída, ela se refugia na lembrança antiga de um cliente
gentil e endinheirado, que lhe dera tratamento especial e até a
levara a um restaurante chique; impotente, traduz seu desprezo pela escória
que a agride na certeza de que naquele restaurante “esses putos
nunca entraram, nunca entraram nem nunca vão entrar, nunca vão
entrar...” – pois é: as pessoas precisam manter
sua integridade, mesmo que impedidas de reagir, ainda que recorrendo a
um argumento ingênuo diante das circunstâncias...
Aos que ainda têm fé e esperança, a cidade oferece
o discurso do pregador solitário, que fala da salvação
eterna; simpatias, uma oração a Santo Expedito, ou a Igreja
do Evangelho Quadrangular... Para outro tipo de fé e de esperança,
pode-se percorrer, com a ponta do dedo, tanto as listas de empregos oferecidos
como os anúncios de serviços sexuais, até com garantia
de discrição e de sexo seguro nos tempos que correm... Quem
preferir pode parar diante da estante e escolher um livro, entre os vários
citados por Ruffato, e deixar lá fora
os gritos e o ranger de dentes... se puder, sirva-se do cardápio
requintado, que convida o leitor ao banquete da indiferença...
A certa altura, pergunta o autor: “(são paulo é
o lá fora? é o aqui dentro?)”. Na verdade, São
Paulo é a menina que se prostitui, é o índio bêbado,
é o pai que sonha com um futuro melhor para o filho, é a
garota morta pelo assaltante de bairro, tão miserável quanto
sua vítima... é o corrupto engravatado, é o desempregado,
é a mulher desolada, é a roda de amigos. São Paulo
é o lá fora de sua multidão; é o aqui dentro
de cada medo, esperança, desespero, mesquinharia... São
Paulo é o pacto de silêncio assustado do casal que sabe haver
alguém ferido lá fora, mas que prefere dormir, porque “amanhã
a gente fica sabendo” – nada se pode fazer por alguém
atingido pela violência urbana, altas horas da noite - questão
de preservação da vida...
A São Paulo de Ruffato não se limita ao lugar comum da “selva
de pedra”. É humanidade, contemplada cuidadosamente pelo
olhar desse autor que se mistura à multidão para traçar
o vasto painel da condição humana, algumas vezes deixando
que o leitor perceba sua comunhão com as dores e as alegrias da
gente miúda, que não se sabe bem de onde vem ou para onde
vai; mas, está aí, fazendo o significado da cidade.
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Com o título
“Cavalos humanos”, este texto
foi publicado no Suplemento literário, Belo Horizonte,
Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais,
n. 77, nov. 2001, p. 29.
© Copyright
by Sônia van Dijck, 2001
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