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Sônia Maria van Dijck Lima - Université Paris-X-Nanterre - 2007 Sagarana: um livro com muitas histórias Resumo |
| História do livro
Em 1946, Guimarães Rosa já havia sido laureado com premiações e já não era um inédito. 1929: o
conto “Mystério de Highmore Hall” foi selecionado em
concurso promovido pela revista O Cruzeiro (Rio de Janeiro),
e publicado na edição desse periódico do dia 7 de
dezembro . Todavia, esses textos não
causaram repercussão, apresentando seu autor aos críticos. *
Magma permaneceu inédito até 1997, quando foi editado
pela Nova Fronteira (Rio de Janeiro). |
| A história de Sagarana começa com a inscrição do volume Contos, no Prêmio Humberto de Campos, instituído pela Editora José Olympio. Guimarães Rosa inscreveu-se no dia 31 de dezembro de 1937. Viator foi seu pseudônimo. O regulamento do Prêmio “Humberto de Campos” e um incidente encarregaram-se de deixar Guimarães Rosa distanciado do ambiente literário por mais alguns anos: Como em todo concurso, a identidade do autor era desconhecida e ele assinava-se apenas "Viator", pseudônimo de itinerante. Realizado o concurso, verificou-se que dos cinco juízes três votaram nos "Contos", sendo que dois mantiveram esse voto até o fim. Indagou-se então de quem poderia ser o livro, e em torno do caso até artigos foram escritos, inclusive por Marques Rebelo, um dos membros da Comissão Julgadora. Infelizmente, perdera-se o envelope contendo a identidade do autor, que assim continuou no anonimato, ao mesmo tempo que longe da pátria e por conseqüência alheio ao que se passava. * *
Pequena história de um grande livro. Texto da “orelha”
da 3ª ed. de Sagarana, Ed. José Olympio, 1951, |
| Porém, Marques Rebelo não se esqueceu do concorrente: “Contos", de Viator; - livro grande, de cerca de 500 páginas, intensamente escrito. (...) Causou-me singular impressão este livro, o mesmo acontecendo com o sr. Prudente de Morais Neto. (...) E ficam aqui a este 'Viator' que ninguém conhece, e que tanto merecia entrar para a lista dos grandes contistas brasileiros, o meu derrotado aplauso e a minha admiração.* Graças à memória de Marques Rebelo, ficou a descrição do volume inscrito no concurso da José Olympio, que foi por ele completada em 1946: Era um grosso original encadernado com cuidado, quinhentas páginas de papel relatório, espaço dois, cerrado atochado – assustava muito.* * * MARQUES REBELO. Depoimento. O Prêmio Humberto de Campos. Dom Casmurro, Rio de Janeiro, 1939. Arq. JGR-IEB/USP-R1. **MARQUES
REBELO.Sagarana. A Manhã,
Rio de Janeiro, 28 abr. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Maria Célia
de Moraes Leonel (1985: 250), pesquisando as anotações de
Guimarães Rosa, observou:
muitos dos apontamentos de viagem, como está provado, foram recuperados no texto literário. (...) aliás, em Corpo de baile e Grande sertão: veredas há apenas a retomada de processo já utilizado largamente em Sagarana. Infelizmente os ‘Estudos’ e o Arquivo não conservam o material que exerceu, em relação ao primeiro livro, papel semelhante ao dos diários de viagem nos seguintes. Se algum documento desse tipo tiver restado, será em escala muito reduzida. LEONEL, Maria Célia de Moraes.
Guimarães Rosa alquimista: processos de criação
do texto. São Paulo, 1985. Tese (Doutorado em Letras) - Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo. |
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Sezão - encadernado em couro
vermelho - página de rosto |
Testemunhos mais antigos da gênese de Sagarana conservados no Instituto de Estudos Brasileiros, da Universidade de São Paulo - Arq. JGR:
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| 1ª travessia do livro: de 1937 a 1946, quando foi entregue ao público sob o neologismo Sagarana |
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Letras e artes, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Suplemento de A Manhã. Recorte. Arq. JGR-IEB/USP-R2. Disse Guimarães Rosa a João Condé: Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas e dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, “revendo” paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos” (título provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após. Letras e artes, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Suplemento de A Manhã. Recorte. Arq. JGR-IEB/USP-R2. |
| O “‘retrabalhado’, em cinco meses de reflexão e de lucidez”, foi explicado em entrevista a José César Borba (1946): Com a ruptura
das relações entre o Brasil e a Alemanha, fui internado
em Baden-Baden, onde fiz ótima camaradagem com o pintor Cícero
Dias, que leu, gostou e me animou a publicar “Sagarana”. Voltando
ao Brasil, mal pude passar umas poucas semanas no Rio, seguindo depois
para a Colômbia, de onde voltei em fins de 1944. Foi um custo para
achar um apartamento! E só depois, então, é que tornei
a pegar no livro. Fiz-lhe pouquíssimas alterações
de forma ou estilo, limitando-me a suprimir em uma ou duas histórias,
parágrafos que me pareceram supérfluos para o público,
embora tivessem para mim uma grande importância, mas toda de ordem
subjetiva. O que me preocupa e tortura, ao rever as páginas escritas,
é a angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita. |
| Em carta dirigida
ao pai, de 6 de novembro de 1945, Guimarães Rosa falou do trabalho
com Sagarana e de sua sua expectativa em relação
à fortuna do livro: |
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SEZÃO, /1937/ - encd. couro vermelho, 447 p. (1-444) SEZÃO * Posfácio |
SEZÃO, /1937/ - encd. couro preto, 446 p. (1-443)
<< >> = ocorrência marginal |
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Rio de Janeiro: Universal, 1946 (Bib. Sônia van Dijck) Capa: Geraldo de Castro |
Sagarana, 1946 O BURRINHO PEDRÊS |
| Sagarana: coisa que parece saga... Filei um sufixo do nheengatu... (JGR) |
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O Globo, Rio de Janeiro, 29 abr. 1946 Arq. JGR-IEB/USP-R2 |
A 1ª edição foi esgotada em poucos dias
*-*-*-*-* A Editora Universal acaba de lançar Sagarana, livro de contos brasileiros, de autoria do Sr. J. Guimarães Rosa, em segunda edição, já posta à venda em todas as livrarias da cidade. Lançado recentemente, o livro veio revelar um autor estreante da melhor qualidade, merecendo elogios da crítica e consagrando-se com a procura que o livro teve em todos os núcleos de gente de bom gosto. A segunda edição de Sagarana está destinada a atender aos inúmeros amigos dos bons livros que não haviam conseguido adquirir a obra no lançamento inicial. A Noite,Rio de Janeiro, 30 jul. 1946. Livros. Arq. JGR-IEB/USP-R2 |
2ª travesssia do livro: de 1946 a 1958, o autor continuou trabalhando os contos até a edição de 1958, retocada, na forma definitiva. A biblioteca de Guita e José E. Mindlin guarda a documentação relativa à continuação do trabalho em demanda do texto |
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2ª ed. Rio de Janeiro: Universal, 1946 (Bib. José Aderaldo Castello) Capa: Geraldo de Castro |
Não vem!... Foi e não volta mais... Foi, rio... "Sarapalha", 1ª edição
Não vem!... Foi, rio... "Sarapalha", 2ª edição |
| Como não são conhecidos os documentos preparatórios da 2ª e da 3a. edições, apenas a colação com as edições anteriores poderá auxiliar no reconhecimento das transformações operadas pelo autor. |
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3ª ed., revista, Rio de Janeiro: José Olympio, 1951 (Bib. Guita e José E. Mindlin) Capa: Santa Rosa |
Em 3a. edição, revista, Sagarana apresenta-se aos leitores brasileiros, já consagrado pelo mais fulminante êxito literário de que se tem memória em nossa literatura moderna. (...) Apenas, como o autor desejasse rever pessoalmente todas as provas, que tinham de ir e voltar da Europa, várias vezes, era inevitável a demora.
Pequena história de um grande livro. Texto da “orelha” da 3ª ed. de Sagarana, Ed. José Olympio, 1951, da responsabilidade do Editor. |
| Em 1955, tomou um volume da 3ª ed. como exemplar de trabalho, para preparar a 4ª ed.; realizou novas transformações que resultaram na denominada edição definitiva, em 1956, que passa a ser assinada por João Guimarães Rosa. |
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4ª ed., versão definitiva. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956 (Bib. Guita e José E. Mindlin) Capa: Poty |
Em verdade, movido pela insatisfação permanente para com a obra acabada, o autor, embora ocupadíssimo na revisão das provas de um novo livro de novelas - Corpo de Baile - e na conclusão de seu primeiro romance - Grande Sertão: Veredas - não permitiu que Sagarana fosse ao prelo sem antes retocá-lo de modo drástico. E isto, observe-se dez anos depois de sua primeira edição, o que bem revela certos aspectos da criação literária em Guimarães Rosa.
Guimarães Rosa versus Sagarana. Texto da "orelha" da 4ª ed., sem assinatura, de responsabilidade do Editor. |
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Alterosas, Belo Horizonte, n. 75, jul. 1946 Arq. JGR-IEB/USP-R1 |
Lançamentos de JGR - Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 29 fev. 1956 Arq. JGR-IEB/USP-R3 |
Grande sertão: veredas
(Rio de Janeiro: José Olympio) foi lançado no dia 17 de
julho de 1956 |
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5ª ed., retocada, forma definitiva. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958 (Bib. Guita e José E. Mindlin) Capa: Poty |
Em 1957, JGR tomou um volume da 4ª ed. como exemplar de trabalho, para preparar a 5ª ed.; realizou novas modificações e publicou, em 1958, a 5ª ed., dita retocada e na forma definitiva.
A 5ª ed., portanto, é o último testemunho da escritura do livro |
| DOSSIÊ DA GÊNESE DE SAGARANA
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| Movimentos da escritura análise de fragmentos - construção do Major Saulo |
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- Sem referência do periódico - Arq. JGR-IEB/USP-R2 |
| É aqui, perto do vau da [ponte velha:] <Sarapalha>: tem uma fazenda denegrida e desmantelada; (SA) [...
] = rasura SA = “Sarapalha”, originais folhas soltas |
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| Ali, na beira do <rio> Pará, (SA) < > = ocorrência
na entrelinha
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| Especial atenção foi dedicada à pontuação. Assim, o autor rasura, acrescenta sinais e transforma outros já grafados em novos sinais. Buscando, o mais fielmente possível, a expressão da subjetividade das personagens, o traçado de uma paisagem decadente, assim como um reflexo do clima psicológico do drama de Primo Ribeiro e de Primo Argemiro, Guimarães Rosa parece agora escrever através da pontuação: retira vírgulas, coloca vírgulas, muda ponto e vírgula em dois pontos, e assim por diante. Desde o primeiro momento de elaboração, havia combinado interrogações e exclamações com reticências; nessa nova etapa, rasura a exclamação, deixando apenas as reticências; outras vezes, rasura as reticências, transforma o primeiro ponto das reticências em ponto final, num artesanato que procura moldar um ritmo, um jeito de falar, tal como acontece no seguinte trecho de SA: SA = "Sarapalha", originais folhas soltas
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.................................................................................................... |
O narrador tem
uma atitude culta e especializada, deixando-se trair enquanto projeção
do médico que conhece bem a maleita. Embora lhe tenha sido permitido
falar em “anofelino” e em “dáfnias”, é
levado, em um movimento dialético, a superar-se e confirmar-se,
a fim de melhor participar do universo das personagens. Assim, ao descrever
os hábitos do mosquito transmissor da doença, prefere substituir
o termo científico por um sintagma que traduz melhor a compreensão
das vítimas: |
![]() |
de dia: está dormindo, com a tromba repleta [de esporozoítos;] <de maldades;> (SA) [...
] = rasura |
| O mesmo acontece
quando explica os efeitos da contaminação no organismo:
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![]() |
Mas ele tem no baço duas colméias de [hematozoarios,] <de bichinhos maldosos,> que (SA) Imagens sobre malária capturadas na web [...
] = rasura |
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Foto: Guy Joseph
1SE = Sezão,
encadernado em couro vermelho |
O burrinho pedrês
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| Construção do caráter do Major Saulo
(“O burrinho pedrês” em 5ED)
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| SAGARANA - repercussão crítica em 1946 |
Recorte colado na primeira contra-capa do álbum
2 Arq. JGR-IEB/USP-R2 |
Guimarães Rosa: um autor atento à crítica Transcrição: "SAGARANA" EM RECORTES |
| Conforme lição de H. R. Jauss, a recepção de um texto pressupõe sempre o contexto de experiência anterior no qual se inscreve a percepção estética: o problema da subjetividade da interpretação e do gosto do leitor isolado ou em diferentes categorias de leitores não pode ser colocado de forma pertinente, se não se tem inicialmente reconstituído este horizonte de uma experiência estética intersubjetiva preliminar que funda toda compreensão individual de um texto e o efeito que ele produz. (p. 56) Uma abordagem à luz da estética da recepção exige que cada obra seja colocada na "série literária" de que participa, a fim de que se possa determinar sua situação histórica, seu papel e sua importância no contexto geral da experiência literária. (p. 69) JAUSS, H. R. Pour une esthétique de la réception. Trad. Claude Maillard. Paris: Gallimard, 1978. (tel, 169). Cada época
e cada grupo social têm seu repertório de formas de discurso
na comunicação sócio-ideológica. (BAKHTIN) BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem, 4ª ed. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1988, p. 43. |
| Cânone regionalista em 1946: José de Alencar e Franklin Távora, desde o século XIX, - José Américo de Almeida, a partir de 1928, por exemplo... Horizonte de expectativa: interesse pelo regionalismo - leitores voltados para busca de um reconhecimento de uma identidade nacional |
| Sobre a literatura regional, disse Brito Broca: Ora, esse gênero sempre se caracterizou, entre nós, pela tendência romanesca e sensacionalista, que a influência do realismo não conseguiu abolir. Tendência justificável no que se refere às zonas de sertão bravio, às regiões castigadas do Norte e do Nordeste, onde a aventura, o perigo, a incerteza andam por toda parte, mas pouco aceitável em setores rurais de vida agrícola e pastoril estabilizada, como os do centro sul. Aqui os assassinatos, as tragédias, as tocaias heróicos e fascinorosos constituem uma nota excepcional, inclinada a soar falso. Os ficcionistas rústicos do centro sul, que tomaram Afonso Arinos por mestre, parecem não haver percebido que o autor de Histórias e paisagens focaliza o sertão mineiro numa fase ainda heróica de sua evolução histórica, embora não precisamente identificada, já que os contornos dos quadros se esfumam em certa indeterminação idealista. E assim continuaram a ver por aí descendentes de Pedro Barqueiro, como se os povoados da Mantiqueira andassem infestados de bandoleiros românticos e cavalheiros, do tipo Mauprat, de George Sand. BRITO
BROCA. Bucolismo anti-romanesco. A Manhã, Rio de Janeiro,
11 ago. 1946. Arq. JGR-R2. |
| Recepção crítica e o debate em torno de regionalismo |
| Álvaro Lins - primeiro crítico a falar de Sagarana, logo após o lançamento de abril de 1946. Comparação de Sagarana com o monumento Os sertões (de Euclides da Cunha). A propósito de “São Marcos”, sublinhou: ... com uma descrição da natureza, tão monumental nas proporções e tão orquestral no jogo dos vocábulos, que logo faz lembrar, involuntariamente, a maneira euclidiana. Traçava-se, portanto, com o texto de Lins, a direção da crítica. Lins viu o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, passando a tratar de seu caráter regionalista - inaugurou a polêmica em torno de regionalismo: Mas o valor dessa obra provém principalmente da circunstância de não ter o seu autor ficado prisioneiro do regionalismo, o que o teria conduzido ao convencional regionalismo literário, à estreita literatura das reproduções fotográficas, ao elementar caipirismo do pitoresco exterior e do simplesmente descritivo. (...) Em Sagarana temos assim um regionalismo com o processo da estilização, e que se coloca portanto na linha do que, a meu ver, deveria ser o ideal da literatura brasileira na feição regionalista: a temática nacional numa expressão universal, o mundo ainda bárbaro e informe do interior valorizado por uma arte civilizada e por uma técnica aristocrática de representação estética. LINS, Álvaro. Uma grande
estréia. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 12 abr.
1946. Jornal de crítica. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Francisco de Assis Barbosa Regionalista, no bom sentido da palavra, (...) O interior de Minas está inteirinho nas suas novelas, escritas com uma técnica verdadeiramente notável, onde encontramos sempre a palavra exata, a composição perfeita, até com requintes que chocam em meio à maneira desmazelada e muitas vezes antiliterária de certos escritores, nomes consagrados. (...) Mas não estaremos nós narcotizados por tanto desleixo, por tanta incorreção gramatical? BARBOSA, Francisco de Assis. Sagarana. Diretrizes, Rio de Janeiro, 29 abr. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| José Lins do Rego erudição botânica - conhecimentos de zoologia - uma quase pedante exibição de detalhes que nos enfada * se não chega a ser a obra-prima da exaltação do poeta Augusto Frederico Schmidt**, é um magnífico livro de contos, como já nos deram o Sr. Monteiro Lobato ou o Sr. Luiz Jardim.* *REGO, José Lins do. Sagarana. O Globo, Rio de Janeiro, 10 maio 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1.
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| Genolino Amado Notam-se, aliás, entre as obras de ficção e os ficcionistas citados certos pontos de contato que vale a pena acentuar. Como Guimarães Rosa, Lobato era um nome quase totalmente desconhecido nos círculos intelectuais antes da vitória repentina e decisiva. Como Urupês, tem Sagarana um frescor de terra virgem, um cheiro de mato, uma graça cabocla de tipos e uma independência de linguagem que não se descobrem noutras criações de índole regional, constituindo esplêndido elemento de renovação para a prosa brasileira. AMADO, Genolino. Em torno de um
livro singular. Correio Paulistano, São Paulo, 5 maio
1946. Arq. JGR-R1. |
| Críticos de Guimarães Rosa - horizonte de expectativa >>> Afonso Arinos, Alcântara Machado, Euclides da Cunha, Graça Aranha, Machado de Assis, Marques Rebelo, Monteiro Lobato, Simões Lopes Neto, entre outros, mestres do conto e/ou expressões da literatura regional. regionalismo com o processo da estilização contrário a um chamado convencional regionalismo literário regionalismo no bom sentido da palavra |
| Renato Almeida (1946), (representando ares pós-Estado Novo) O êxito do livro de contos do sr. J. Guimarães Rosa, Sagarana, vem sobretudo do motivo. O interesse pelo Brasil, através da sensibilidade ou da interpretação dos que dele se aproximam, emotiva ou analiticamente, ainda é dominante e essencial. Aqueles que acreditaram possível fixarmo-nos na orla da civilização litorânea e nos mantermos em contato permanente com a Europa, cuja cultura transplantamos para este lado do Atlântico, mas resguardando-a da contaminação da barbaria nativa, equivocaram-se e permaneceram marginais. (...) A vida dramática da gente do interior, nos países latino-americanos, é uma sugestão imensa e trazê-la à luz é ao mesmo tempo fazer obra de arte e pesquisa sociológica. tom político O drama das populações do interior e o equívoco da civilização brasileira mais uma vez se patenteia. Ao invés de orientarmos a marcha do progresso para o interior, de uma forma racional, quer dizer preparando o material humano, deixamo-nos ficar nos contornos urbanos, seja nas zonas favoráveis, onde aumentamos o padrão de vida, e abandonamos o mais até que, pela ordem das coisas, porque Deus é brasileiro, as circunstâncias favoreçam melhores dias. Interesse do livro: a vida dramática da gente do interior, nos países latino-americanos ALMEIDA, Renato. Sagarana.
Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 30 jun. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Oscar Mendes sistematizou duas noções de regionalismo (como, em 1946, poderiam ser entendidas as formulações de Álvaro Lins e de Francisco de Assis Barbosa) Criou-se um conceito
de regionalismo na verdade muito estreito. Para muitos, escritor regional
é apenas aquele que escreve usando termos de linguajar caipira
ou matuto para contar casos de muito pouca importância e de interesse
muito restrito. (...) Mas o verdadeiro escritor regional a nosso ver,
é aquele que, num cenário característico especial,
único por vezes, sabe fazer viver o drama universal da condição
humana. Poderá usar termos regionais para maior pitoresco e cor
local, mas apenas como um recurso estilístico e maior força
de caracterização. (...) Da leitura do livro do sr. Guimarães
Rosa não me veio a impressão dum regionalismo daquela espécie
limitada. MENDES, Oscar. Recomeçando. O Diário, Belo Horizonte, 14 jul. 1946. Alma dos livros. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Antonio Candido: regionalismo e nacionalismo literário. Relembrando a formação de uma consciência federalista, a crise de 1929, o Estado Novo, a fase nacionalista, cujo expoente, segundo ele, foi Bilac, via na década de 40 uma tendência para ser bairrista, e citou Gilberto Freyre como porta-voz da corrente. E é nesse contexto de sabor da terra (expressão usada por Candido) que se apresentou Sagarana. O crítico foi o primeiro a sublinhar que, em Guimarães Rosa, Minas é menos uma região do Brasil do que uma região da arte, com detalhes e locuções e vocabulário e geografia cosidos de maneira por vezes quase irreal, tamanha é a concentração com que trabalha o autor. Para Antonio Candido - regionalismo "entre aspas"(antes de Sagarana): os escritores trouxeram a região até o leitor, conservando, eles próprios, atitude de sujeito e objeto (...) Guimarães Rosa construiu um regionalismo muito mais autêntico e duradouro, porque criou uma experiência total em que o pitoresco e o exótico são animados pela graça de um movimento interior em que se desfazem as relações de sujeito e objeto para ficar a obra de arte como integração total de experiência. Sagarana nasceu universal pelo alcance e pela coesão da fatura. ANTONIO CANDIDO. Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, 21 jul. 1946. Notas de crítica literária. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Sérgio Milliet, em 19 de maio: Sagarana é, entretanto, uma grande estréia. Mais pela promessa do que pela realização. Estamos diante de um escritor capaz, de uma grande obra. Se conseguir libertar-se de sua propensão para a anedota, o caso curioso, se puder livrar-se da tendência para o efeito e o rebuscamento, se se depurar enfim e tentar uma penetração mais vertical do mundo, há de dar-nos dentro em pouco uma grande obra. MILLIET, Sérgio. Sagarana. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 19 maio 1946. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1. Sérgio Milliet, em 21 de julho (por causa do artigo de Antonio Candido): O jovem crítico
paulista considera que o sr. Guimarães Rosa transcende o regional
em seus contos, que “Sagarana nasceu universal pelo alcance
e a coesão da fatura” e, ainda, que a língua usada
“parece ter atingido o ideal da expressão literária
regionalista”. Desejaria que o sr. Antonio Candido esclarecesse
melhor a sua concepção do universal e nos dissesse também
em que essa língua erudita e admiravelmente artística de
Guimarães Rosa se prende ainda ao regional. Sagarana: amor ao efeito, um rebuscamento, uma profusão barroca que atordoam por vezes mas não penetram além da inteligência da gente. E concluiu: Releio Sagarana depois do rodapé de Antonio Candido. Lerei sem dúvida outras vezes o livro. Para discuti-lo ainda, o que não deixa de ser ótimo sinal. MILLIET, Sérgio.
Leituras avulsas. Diário de Notícias, Rio de Janeiro,
21 jul. 1946. Diário crítico. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Jauss: a resistência que a obra nova opõe à expectativa de seu primeiro público pode ser tão grande, que um longo processo de recepção será necessário antes que seja assimilado aquilo que era originalmente inesperado, inassimilável. Por outro lado, pode acontecer que uma significação virtual permaneça ignorada até que a evolução literária, colocando na ordem do dia uma nova poética, modifique o horizonte literário no qual a poética até então desconhecida torne-se finalmente acessível à inteligência, (p. 73) JAUSS, H. R. Pour une esthétique de la réception. Trad. Claude Maillard. Paris: Gallimard, 1978. (tel, 169). Agrippino Grieco: o livro [Sagarana] parece-me opulento. Muitos episódios bons e, naturalmente, episódios maus. Há onde se lhe pegue. Existe. Mesmo nas ruins passagens (e que bom trabalho não as tem?), aí está, implícito, um grande livro futuro. GRIECO, Agripino. Sagarana. O Jornal, Rio de Janeiro, 26 abr. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| SAGARANA: entre os mais vendidos em 1946 Almeida Fischer: é verdade que certos críticos e cronistas exageraram um pouco os méritos do livro e se esqueceram de apontar-lhe as deficiências, o que explica, em parte, o sucesso obtido. ALMEIDA FISCHER. O conto na literatura. A Manhã, Rio de Janeiro, p. 14, 23 jun.1946, p. 14. Letras e Artes. Arq. JGR-IEB/USP-R2.
Alcântara Silveira: (talvez mais realista e com uma certa neutralidade): .. bobagem afirmar — como estão fazendo a propósito de ‘Sagarana’ e seus críticos - que a crítica entre nós é responsável pelo êxito do livro. O que houve no caso de J. Guimarães Rosa, foi apenas coincidência entre a opinião do povo e a do crítico (coisa que raramente acontece) e por isso Sagarana tem sido lido. ALCÂNTARA SILVEIRA. Garimpos e vaqueiros. O Estado de S. Paulo, 14 out. 1946. Arq. JGR-IEB/USP-R1. |
| Sagarana: nova seiva para a corrente regionalista - espírito nacionalista - voltado para as populações distantes dos centros de poder A polêmica crítica: orientada por uma atitude comparativa (grandes contistas - reconhecidos nomes do regionalismo). Debate crítico: travado à luz do cânone de até 1946. Sagarana: entra no cânone >>>> exemplo de verdadeiro regionalismo; regionalismo de "técnica aristocrática de representação estética"; regionalismo "no bom sentido da palavra", como procurou explicar a crítica. ... ou simplesmente Sagarana, para fortuna da Literatura Brasileira. |
| Midi: Peixe-vivo (Popular) Página para uso didático. Reprodução proibida. LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998 Criação da página: Sônia van Dijck Tradução de trechos de H. R. Jauss:Sônia van Dijck Université Paris X - Nanterre - 2007 Agradecimentos
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