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VOZ
E REPRESENTAÇÃO DA MULHER
NA ESCRITA
MASCULINA
Sônia
Lúcia Ramalho de Farias*
Uma
leitura conjunta dos contos “O mar é bem ali”, “Rita
e o cachorro” e “Sariema” (1),
de Rinaldo de Fernandes, motiva, embora de forma indireta, uma reflexão
acerca da controvertida questão de “gênero” (sexual)
na literatura. Principalmente considerando-se a insistência com
que determinada vertente da crítica contemporânea feminista,
a chamada “ginocrítica”(2),
tem reivindicado as possíveis marcas da voz autoral em textos produzidos
por e sobre mulheres, como se essas marcas pudessem por si só conferir
legitimidade à representação da mulher na escrita
ficcional ou poética. Problematizando tal premissa, os contos de
Rinaldo desdobram-se em duas instâncias distintas. A instância
autoral masculina, não dramatizada na diegese, e a instância
enunciativa, conduzida por uma narradora-protagonista em primeira pessoa
(“O mar é bem ali”) ou por um modo narrativo aparentemente
dialógico, caso dos dois outros contos, onde a história
é apresentada através de uma “interlocução”
sem resposta. Nos três contos, a fala textual, emancipada da tutela
do autor, desnuda questões existenciais relativas à condição
feminina em determinado contexto sociocultural.
Assim, em três modos narrativos mais ou menos recorrentes, delineiam-se
três perfis de mulheres simultaneamente distintos e semelhantes
em suas trajetórias de vida e traços identitários.
A narração anônima, em primeira pessoa, da professora
de primário aposentada e “velha poeta” de “O
mar é bem ali” abre espaço ao diálogo com um
visitante imaginário, para quem a protagonista recita seus poemas.
Diálogo este motivado por uma presença insidiosa e invisível
(um porco, vem-se a saber depois), que ronda as imediações
de sua quitinete e fuça sua porta, despertando-lhe expectativas
e fantasias ocultas, e com quem a protagonista passa, após aprisioná-lo,
a conviver e “dialogar”, substituindo por essa aparição
inusitada aquela primeira visita fantasmal. Esta voz narrativa solitária,
cujos dois interlocutores recebem o significativo epíteto de “Ninguém”,
ecoa na conversa/confidência que a também escritora (poeta
e contista bissexta), jornalista desempregada e ex-revisora de textos,
sustenta com o seu cão, em “Rita e o cachorro”. As
duas falas encontram ressonância na da “jagunça”
Sariema, que, à semelhança de Riobaldo, de Grande sertão:
veredas, ou do narrador-personagem de Sargento Getúlio,
de João Ubaldo, narra a sua história a um interlocutor de
fora, inominado e mudo, no conto homônimo, “Sariema”,
inspirado em outro texto de Guimarães Rosa, a novela “A hora
e vez de Augusto Matraga”.
No plano fabular dos dois primeiros contos, o elo aproximativo é
mais evidente. Trata-se de duas mulheres letradas, numa curva sócio-existencial
descendente, praticamente à margem do sistema produtivo e do convívio
comunitário, vivendo confinadas e sozinhas em exíguos e
isolados espaços de onde contemplam a vida como espectadoras e
resgatam, através de suas reminiscências e conversas com
seres imaginários ou animais, suas histórias de perda, morte,
traição, abandono e solidão, tendo a amplitude do
mar como contraponto. A narradora de “O mar é bem ali”
rememora, numa praia da cidade de Fortaleza, uma tripla perda: a do noivo,
que a deixa por uma comerciária, a do pai, vítima da tortura
do regime militar de 64, e a da mãe, cuja morte é infantilmente
vivida por ela como um retorno ao útero materno: “minha mãe
era o mar onde eu bebia”. A história da personagem principal
de “Rita e o cachorro”, embora circunstancialmente diversa,
é marcada por situações e experiências mais
ou menos próximas às da protagonista do primeiro conto.
É, também como ela, traída pelo namorado. Sofre pelo
desemprego a mesma desqualificação profissional e social
que a aposentadoria e a velhice conferem à professora. Vive um
equivalente confinamento: desloca-se de São Paulo para a imaginária
e semideserta praia de Pomar, na Paraíba, onde assume um subemprego,
o de garçonete, de um restaurante, cujo gerente a trata mal. Analogamente
à outra, cujo espaço recluso metaforiza-se pela significativa
imagética do “barco trepado num abismo”, a reclusão
de Rita se traduz pelo convívio, em uma pequena casa, com um animal,
o cão confidente, Pet, que recolhe da rua, para quem fala de paixão,
de suas experiências sexuais, do mar em noite enluarada, de poesia
e do medo da morte. O cachorro, de forma similar ao porco da narrativa
anterior, vem substituir um vazio, aqui duplamente configurado: pela morte
(de um outro cão, Rex, a quem a mulher tratava maternalmente, no
apartamento alugado na Barra Funda, onde vivia em São Paulo), e
pela traição do namorado, o “pilantra” Pedro,
que nos últimos tempos de relacionamento ameaçava lhe bater.
A traição do homem motiva um crime passional por parte da
protagonista e sua conseqüente fuga de São Paulo, tornando-a,
portanto, uma fora-da-lei, conforme sugere o texto.
No terceiro conto, transmuda-se o cenário do mar para o sertão,
modifica-se a caracterização da mulher, mas não sua
condição ambígua de ser social, ao mesmo tempo dentro
e à margem do sistema, num contexto sociocultural que lhe é
adverso. Ao contrário, a marginalidade agora se acentua, pois se
trata de uma “jagunça” – do bando de Seu Joãozinho
Bem-Bem – com duas mortes nas costas. Personagens e enredo são
adaptados, como se disse, da novela do escritor mineiro com um deslocamento
de foco narrativo. Passa-se de uma narração em terceira
pessoa, por um narrador anônimo, não participante da história,
que elege como personagem principal uma figura masculina, Augusto Matraga,
para um ponto de vista feminino e interno, em primeira pessoa, “auto-diegético”,
como nos outros dois textos. A mudança de perspectiva não
deixa de ser significativa. Traz para o centro dos eventos narrados, conferindo-lhe
voz, ação e sentimentos, uma personagem secundária
e muda, que no conto de Guimarães Rosa permanece nos bastidores,
aparecendo apenas momentaneamente para enquadrar a violência machista
do todo poderoso fazendeiro Nhô Augusto Esteves, antes de sua desmoralizante
queda vertiginosa como Matraga. Ao assumir o relato, Sariema suplementa
a história do narrador roseano, vendo os fatos a partir do lugar
em que se situa: o da mulher oprimida e reificada dentro do código
de “homência” rural do sertão, prostituta, leiloada
como objeto em praça pública numa quermesse de Igreja, sob
os aplausos do público masculino, arrebatada dos braços
do capiau com quem namora, Orósio. E ainda rejeitada e humilhada
posteriormente, uma segunda vez, pelo manda-chuva local que a recusa sexualmente,
quando verifica nela, sob a iluminação de azeite, as características
físicas que os homens do povoado lhe atribuem através do
zoomorfizante epíteto de Sariema. Na versão de
Sariema, invertem-se os papéis sociais que a personagem vive na
narrativa do autor de Sagarana. Passa de “mulher-à-toa”
à mulher-guerreira, de prostituta à esposa de Orósio,
que agora compartilha com ela “a condição jagunça”
no mesmo bando. E, talvez o mais importante do ponto de vista de sua lógica,
a protagonista converte-se de vítima da violência masculina
à vingadora da própria honra, ao assassinar Matraga, cujo
destino final também é modificado nessa leitura interpretativa
da história de Rosa. Ao invés de sublimar pelo misticismo
os desejos da carne e morrer lutando em defesa do oprimido contra Seu
Joãozinho Bem-Bem, como ocorre no conto matriz, Matraga comete
um último ato de violência dirigida à mulher, o estupro.
A vingança funciona, assim, à semelhança da exercida
por Rita no conto anterior, como uma contraprestação, o
pagamento de um débito(3). Possibilita
à protagonista devolver ao agressor, e, por extensão, à
sociedade, as ofensas e humilhações sofridas. A recusa social
que a troca de papéis acarreta em “Sariema” é
coroada no desfecho do conto pela rejeição do epíteto
que a discrimina identitária e socialmente: “– Não
tem mais nenhuma Sariema! Não tem mais, não!”. O grito
de vitória da protagonista parodia ironicamente, invertendo-lhe
o sentido, a fala do Major Consilva (repetida como refrão por seus
capangas, e interiorizada, posteriormente, pelo próprio Matraga)
ao decretar, no contexto da narrativa de Guimarães Rosa, a exclusão
de Nhô Augusto da estrutura do mandonismo local.
Se em “O mar é bem ali” a mulher sofre passiva e nostalgicamente
a sua situação social, driblando apenas pelo imaginário
o abandono, o confinamento e a solidão, “Rita e o cachorro”
já sugere uma certa forma dúbia de resistência feminina
pelo instrumento ambígua da vingança. Esta, embora termine
em última instância reafirmando os valores sociais pelo “gesto
final de reciprocidade que toda vingança fatalmente engendra”(4),
não deixa de ser uma atitude alternativa de afirmação
individual, uma maneira de reinterpretação da sociedade
pelo indivíduo. Sariema radicaliza essa afirmação
reinterpretativa, não só pelo mecanismo análogo da
contraprestação social realizada através da vingança,
que lhe possibilita fechar o ciclo de sua trajetória, aberto na
narrativa de Rosa, mas também porque reinventa seu destino por
meio das máscaras sociais opostas que cria para si, em contraposição
àquela que a estigmatiza no meio rural brasileiro tematizado na
novela em pauta.
Nas diferentes possibilidades que o fingimento ficcional propicia, os
contos de Rinaldo buscam iluminar a alteridade feminina, delegando voz
à própria mulher para que fale de sua outridade e exprima,
sem mediação tutelar, sua forma de situar-se e resistir
numa sociedade ainda com fortes traços patriarcais. Com isso, alinham-se
ao lado de significativos títulos que representam a mulher na nossa
literatura contemporânea, independentemente do gênero que
possa distinguir a identidade sexual do autor.
* Doutora em Literatura Brasileira
pela PUC-Rio. Ensaísta e professora de pós-graduação
na Universidade Federal de Pernambuco. Organizadora das coletâneas
Regionalismo e literatura: cadernos de textos (Curso de Pós-Graduação
em Letras da UFPB, l990), Literatura e cultura: tradição
e modernidade (Idéia/Ed. da UFPB, l997)
e Imagens do Brasil na literatura (Programa de Pós-Graduação
em Letras da UFPE, 2005).
NOTAS
1 O primeiro e
o terceiro contos foram originalmente publicados no jornal literário
Rascunho, de Curitiba/ PR, respectivamente em março de
2003 e novembro de 2004. O segundo é ainda inédito.
2 O termo é utilizado por uma das
principais representantes da crítica literária feminista
norte-americana, Elaine Showalter, que em 1977 publica A literature
of their own: british women novelists from Brontë to Lessing.
A ensaísta denomina essa sua fase de “ginocrítica”
pelo fato de debruçar-se exclusivamente sobre a pesquisa, resgate
e releitura da literatura produzida por mulheres, em detrimento da produção
literária masculina. Ver, a propósito, GEHA, Clélia
Reis. Um olhar feminista em busca de Sula e da canção
de Solomon. Dissertação de Mestrado. Recife: Programa
de Pós-Graduação em Letras e Lingüística
da UFPE, março de 1999, p. 32.
3 A concepção
de vingança como contraprestação social e forma de
reivindicação da sociedade pelo indivíduo é
desenvolvida por Roberto da Matta na sua leitura da novela de Guimarães
Rosa aqui cotejada. Ver MATTA, Roberto da. “Literatura-antropologia”.
In: Cadernos da PUC/RJ, prática de interpretação
textual. Rio de Janeiro: PUC, 1975, pp. 101-117.
4 Idem, ibidem, p. 112.
©
Copyright by Sônia Lúcia Ramalho de Farias, 2005
Midi: Chopin
Fundo: Vênus
LEI
Nº 9.610,
DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998
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