Entrevistas |
Os caminhos e as veredas multimídias da escritura de Sônia van Dijck |
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Sagarana
e eu nascemos
no mesmo ano. Em sertões diferentes, mas ambos sem mar, cheios
de veredas de se achar e se perder. O mundo da infância e da adolescência
de Guimarães Rosa tinha muito a ver com o meu. Li Sagarana
ainda no colégio, como obrigação escolar, e só
lembro de ter sentido espanto. |
Então
foi a vez de “A terceira margem do rio”. Primeiro, o filme.
Depois, o conto lido num contexto afetivo que anulou completamente meu
Guimarães Rosa anterior. E tudo que havia naquele conto me pareceu
puro espanto novamente. A pessoa que leu para mim deslizava sobre as palavras,
possuía o texto. E aí o que era espanto virou encantamento.
E o texto se apossou de mim por muito tempo até que a correnteza
me levou de novo para outras margens e não li mais Guimarães
Rosa. Mas o encantamento permaneceu. |
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Nunca
tinha pensado em ler Guimarães Rosa criticamente. Até
que me chega pelo correio um cd rom demo,
de Sônia van Dijck, com seu estudo da escritura de Sagarana.
E assim Guimarães Rosa vinha a mim mais uma vez pelo viés
afetivo. Abri o cd e lá estava o “sezão” do
que acompanha o livro recentemente lançado. O projeto, de novembro
de 2002, já era interessante e logo me encantei com as palavras
e as imagens dançando na tela do meu computador, ao som da trilha
da Bachiana n. 5, de Villa Lobos. Só depois me detive
no texto. Que era cheio de informações, minucioso, e com
o selo de qualidade de tudo que Sonia van Dijck faz. Mandei e-mail
para ela dizendo o quanto tinha gostado e, daí por diante, passamos
a trocar figurinhas sobre o projeto e a torcer para vê-lo editado. Depois,
vieram as notícias sobre as negociações com o editor
e, um belo dia, ela me diz que o livro está pronto e o lançamento
marcado lá, em São Paulo. E antes que eu tivesse tempo
de dar-lhe os parabéns, o livro me chega pelo correio, em forma
de presente. Só então conheci o texto escrito. “O livro foi escrito – quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas – em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e em 1945 foi ‘retrabalhado’, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez)” (NOTA) Lendo
seu texto dá para se voltar no tempo e imaginar Guimarães
Rosa com lápis e papel na mão a trocar o “Sezão”
por “Sarapalha”, a “oportunidade” pela “hora”
de Augusto Matraga, corrigindo o que lhe parecia supérfluo, na
“angústia de evitar a chapa, o chavão, a frase-feita”,
na busca da “palavra exata”, como ele dizia. Minúcias
são descritas, causos são contados e lá vamos nós
galopando com ela no dorso de Sagarana. __________________________ NOTA * Mestra em Letras (UFPR), Professora da Universidade Federal da Paraíba |
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Lido no Restaurante Sagarana, em João Pessoa (PB-Brasil), 22 ago. 2003 Publicado em D. O. leitura, São Paulo, IMESP, ano 21, n. 10, out. 2003, p. 7-9. Correio das artes, João Pessoa, 15-16 nov. 2003, p. 7. © Copyright by Maria Vilani de Sousa, 2003 Foto: Geraldo Profeta Lima Midi: O bolero (Ravel) |
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